A baleia e os corvos

Há tempos que os corvos andavam inquietos. Voejavam cá, davam uma descida acolá, buscando o corpo descuidado de suas presas. Antigamente, os corvos se contentavam com a carniça, quando já não havia vida. Atualmente, é a vida que eles mais querem. Voejam sobre quem ingenuamente passa; bicam os descuidados e trucidam os que têm como presas inimigas da raça.

Os corvos abocanharam os corpos dos predestinados a alimentá-los. E abocanharam com furor. Para conseguir isso, constituíram um grupo aparelhado funcionando a um só grasnar. Se fartaram com o que lhes tinha sido apontado. Depois, começaram a ter algumas dificuldades, de modo que também os da raça, mas de fora do grupo coeso, se tornaram objeto de caça. Assim, caíram alguns corvos, muito poucos, porque a raça não gosta de comer a raça. Não tem graça. O bom mesmo é comer a carne dos outros, dos de outra raça.

Acontece que devastada a floresta, restou pouca caça. Era preciso aparelhar melhor a coesão do grupo, fortificá-lo, mandar afiar os bicos e as garras. Não era permitido mostrar qualquer cansaço.

A liderança do grupo dos corvos teve que ser trocada. O corvo sabido mas não sábio, o Corvo Estogado, o mais esperto deles, foi guindado para as alturas para ampliar o campo de visão e para alargar os espaços da caça. Assim, esta subida aos ares foi saudada pelo grupo como augúrios de um futuro muito feliz.

Apressadamente um corvo ainda jovem teve que tomar as rédeas, tornar-se de chofre bem sabido sem sabedoria. Liderar implica em ser sabido.  Como o corvo sabido mas não sábio, lá das alturas, foi se tornando distante, nada mais falava, nada mais ouvia, nada mais via, a ‘manada’ de baixo ficou sem parâmetros. Um pouco perdida como acontece quando as cadeiras são movidas. Voejaram, farejaram, encontraram alguns podres com poderes para contar histórias. Mas gananciosos e com fome, já não queriam os corvos de cá ouvir histórias, registrar queixumes, conviver com choramingos. Precisavam de uma presa grande o suficiente para garantir o voo do velho líder lá nas alturas e alimentar regiamente ao seu grupo que engrossava a olhos visto. É que a fama chama.

Então o novo líder descobriu que poderia fazer uma negociação vantajosa com corvos distantes: receberiam parte suculenta de seu despojo desde que voassem intermitentemente para lá levando informações sobre como se movimentavam por cá corvos e não corvos.

Por isso surgiu na praia uma baleia forçada a encalhar: com 2.500 toneladas de peso! Era carne para ninguém botar defeito. Refeições para muitos meses, anos até, se o grupo soubesse fazer render o que lhes chegara depois do acordo.

Os corvos se pavoneavam. O novo líder se achando o mais líder, o mais sabido, candidato a voos emparelhados com o velho líder sabido mas não sábio. Nas alturas com o Corvo Estogado apareceria como o Corvo Imberbe. Todos estavam felizes com as 2.500 toneladas de carne fresca e disponível.

Mas então a inveja de outros corvos apareceu. Eles já até pensavam que tinham liquidado a estes adversários da ganância, até ordens já lhes davam. Mas a inveja corrói submissões. Era muita coisa: 2.500 toneladas! E então começou a briga. Intestina e pelos intestinos. Ainda não se sabe o resultado final, mas já é certo que ninguém pode, por enquanto, locupletar-se com as toneladas que começam a feder e enojar os demais bichos deste mundo sob corvos.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.