Foco sem projeto

A grande imprensa minimiza a diminuição dos participantes nas manifestações deste domingo, elogiando e saudando o foco no impeachment, em Dilma e em Lula. A manifestação é legítima e temos que defendê-la, ainda que escabrosos cartazes mostrem raciocínios atravessados e algumas grafias inesperadas (faz parte da variedade escrita) ou ainda que algumas convocações pelas redes sociais tenham cunho nazi-fascistas. Os “bolsonarinhos” também podem se manifestar, embora eles mesmo sejam contra qualquer manifestação que não repita seus urros de guerra.

Eliane “Massa Cheirosa” Castanhêde (não esqueço a sua transmissão ao vivo da convenção do PSDB em que perdeu totalmente a compostura enquanto jornalista para se tornar canhestramente militante) crê fervorosamente que a existência dos focos nas manifestações mudaram por completo os sujeitos políticos e as formas de fazer política do país.

Esquece a grande imprensa que ter foco, exigindo impeachment e cadeia, não é ter projeto para o país! A pergunta que sempre ficará no ar: esta mesma multidão votaria num projeto que defende explicitamente o aumento do desemprego (voltarei ao assunto mostrando gráficos do Sr. Mendonça de Barros apresentando um projeto para o Brasil com o aumento do desemprego), a entrega de tudo o que é nosso às multinacionais, o estado mínimo sem sequer policiais federais para fazerem as investigações que hoje fazem e que os mesmos defensores do estado mínimo tanto aplaudem, o retorno dos arquivadores-mores de qualquer denúncia, etc. etc. Um filme que já vimos e vivemos durante 8 anos.

Um projeto de país não se constroi da noite para o dia. Havendo cassação dos mandatos (Dilma e Temer, por serviços prestados por Gilmar Mendes) teremos 90 dias de descalabros à Eduardo Cunha; ou havendo impeachment por recusa das contas por serviços prestados por Augusto Nardes (só Dilma perde o mandato), teremos Temer na presidência por longos anos e por isso mesmo o triunfo do “toma lá, dá cá”.

Como avô, sei que estou deixando para minhas netas um mundo muito pior do que aquele em que nasci, do pós-guerra e das lutas pelo estado de bem estar social. O projeto de bem estar social já se foi pelo ralo, inclusive na Europa, para alegria dos bancos. E o pós-guerra transformou-se em guerras contínuas em vários pontos do planeta, sempre com a presença das forças militares do império, para alegria da indústria armamentista. E o sonho de verão de um Brasil com menos miséria está esvaindo-se tanto por força da nossa elite egoista e burra, quanto pelos erros cometidos pelos governantes petistas e seus aliados, aliados na corrupção em nome da governabilidade.

Resta a esperança na força das novas gerações, mesmo aqueles que ontem estavam nas ruas mas que não comungam com o nazi-fascismo nem com projetos de concentração de renda que lhes roubará até mesmo as condições de estarem nas ruas. 

     

Delação premiada e vedetismo

 

A introdução no sistema jurídico do “pentetismo”, buscado no sistema jurídico italiano, a chamada “delação premiada”, tem trazido esclarecimentos que permitem alcançar melhor aplicação da lei, mas tem também seus inconvenientes: os chamados “pentiti” ou arrependidos podem delatar sem comprovar, criando suspeitas e destruindo vidas.

Associemos a esta figura jurídica o vedetismo de alguns delegados, procuradores ou promotores que, baseados nas afirmações dos “arrependidos” que buscam vantagens com suas declarações, muito rapidamente vão à imprensa falada e escrita, chamam sobre si holofotes e não tem o menor constrangimento em tornar públicas – em nome do direito do cidadão a ser informado – declarações sobre as quais no mínimo devemos sempre lançar um olhar desconfiado porque são movidas por interesses de diminuição de pena ou até mesmo de perdão judicial.

Em nosso meio é preciso juntar a esta mistura de pentitismo e vedetismo uma grande dose de irresponsabilidade na divulgação dos fatos. Com os três componentes, temos um coquetel ao gosto da destruição de vidas privadas transformadas em espetáculo.

Como alerta o filósofo espanhol José Luís Pardo (La Intimidad. Barcelona : Pre-Textos), o direito à informação é de todos os direitos aquele que mais banaliza a vida. Em seu nome, “aves de rapina que lucram com a dor, o prazer ou a vergonha alheios” expõem o rosto de um homem assassinado, de uma criança faminta, de uma mulher ultrajada, de um delinquente morto em acertos de contas de quadrilhas, de um tetraplégico em sessão de reabilitação, etc sem qualquer pudor, e amparados pela lei, sequer pagam um cêntimo ao ‘modelo’ e seus familiares, não precisam pedir permissão e não têm a menor responsabilidade pelos prejuízos que tal divulgação pública possa acarretar, fato que seria absolutamente inaceitável em qualquer outra atividade comercial ou relação jurídica num Estado de Direito”. Os sujeitos envolvidos num fato que se torna notícia são expostos pela divulgação de declarações de arrependidos delatores e são chamados a se declararem sobre as denúncias recém noticiadas.

Somemos a este “coquetel” outro elemento fundamental da grande imprensa nacional (e internacional): os interesses políticos que orientam as editorias e as páginas dos jornais! Pode-se dizer que os jornais escritos têm, hoje, pouca influência por causa da internet – outro modo de se informar e filtrar estes interesses privados. No entanto, são os jornais que pautam a maioria das estações de rádio; são os jornais que obrigam até mesmo o jornalismo televisivo a alterar suas pautas. Daí sua permanente importância no mundo contemporâneo.

Na vida política nacional, estamos vivendo neste momento consequências imediatas deste coquetel e da manipulação de informações. Consideremos dois casos: a questão do desvio de recursos públicos pelo cartel metroferroviário em S. Paulo (em que uma das empresas, a Siemens, se apresenta como “arrependida”) e as questões levantadas pela Operação Lava-Jato.

Os de noticiar a questão do cartel: ele sempre aparece na imprensa como “suposto cartel”, “suposta propina” a políticos ligados ao governo do Estado de S. Paulo. Supostas, pois até mesmo José Serra, numa entrevista no período eleitoral, disse que as empresas combinam as coisas, e isso não tem nada de mal…

Mas o modo de criar uma verdade vai além: depois de fazer a reportagem com base na carta-denúncia do ex-diretor da Siemens, Everton Rheinheimer, em 23.11.2013, o Estadão mancheteia: “Cardozo levou à PF denúncia de petista contra tucanos” em letras garrafais. E a matéria começa assim: O ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, afirmou ter enviado à Polícia Federal o relatório sobre o cartel de trens que cita SUPOSTA corrupção envolvendo políticos tucanos. O documento do ex-executivo da Siemens Everton Rheinheimer relata esquema em São Paulo e no Distrito Federal…   

Como o título da matéria refere-se à “denúncia de petista”, isto quer significar que Everton Rheinheimer é dos quadros do PT! Possivelmente a ficha de filiação tenha sido assinada nas redações do Estadão! Não adianta a matéria tentar se salvar depois, dizendo que a denúncia foi entregue (o que não significa que quem entregou uma denúncia é o denunciante) pelo secretário de Serviços da gestão Fernando Haddad, Simão Pedro (PT). Trata-se, na verdade, de criar pela manchete um fato político falso, dando péssima informação e manipulando para que a denúncia seja entendida como vazia porque feita por meras razões políticas.

 Já não é o mesmo o tratamento dado a qualquer vazamento seletivo da operação Lava-Jato, levada a efeito com fé e certeza divinas por um procurador que faz palestras em igrejas se comparando a figuras bíblicas (do alto do púlpito de uma igreja, Dallagnol se comparou a Neemias, personagem do antigo testamento que reconstruiu a cdiade de Davi)

Independentemente do que venha a ser apurado, pentitismo, vedetismo e parcialidade têm sido um prato requentado e servido cotidianamente segundo interesses de momento, muitas vezes destruindo vidas. Não estaria na hora que pensarmos uma investigação menos espetaculosa e numa imprensa mais séria que não banalize os fatos e a inteligência de seus leitores?

             

Uma decoração surpreendente

Em Colônia, Alemanha, fui tomar uma cerveja no Papa Joe’s Biersalon. Ouvi músicas típicas tocadas pela dupla de bonecos Tünnes & Schäl. 

Mas o que me levou mesmo ao Papa Joe’s foi a decoração: teto e paredes estão decoradas com fotos que nos anos 1920/1930 fariam corar… A ‘pornografia’ inocente da primeira metade do século passado. São fotos de homens nus, de mulheres nuas, de artistas locais da época. Foi um lugar de encontros da intelectualidade, dos artistas, daqueles que vivem à margem do “grand monde”, mas que fazem girar a história humana. 

Para além da boa cerveja – como em toda Alemanha se bebe excelente cerveja – a decoração é um motivo a mais para visitar este bar! Estando em Colônia, não deixe de dar uma passada pelo Papa Joe’s.

Ninguém é golpista

De retorno, ontem assisti ao Jornal Nacional da Globo. Depois de muitos meses, achei que dadas as notícias a que tive acesso longe daqui, valia a pena este esforço intelectual. E fiquei estupefato. Parece que o Bonner recebeu um novo treinamento e já não age mais como pit-bull… E até o Eduardo Cunha diz que não quer ser chamado de golpista… D repente, o PSDB ficará sozinho em sua campanha? Quer dizer, sozinho jamais, porque sempre tem o seu anexo PPS.

A pergunta que não cala: que aconteceu? Trata-se de saber o que corre pelos bastidores… Nenhum dos três caminhos do golpe, já anunciados, dariam certo? Até o TCU está mais arredondado…  Ou se descobriu que os golpistas não têm qualquer projeto para o país e, portanto, seria trocar o que não está bom por uma aventura econômica que levaria ao estado de mendicância nacional todos os setores, até o comércio de luxo? Capital e política jamais se separam, e os serventuários do capital fazem a política que este determina… Logo, parece haver uma debandada nas hostes golpistas: junto com a Globo e setores do PMDB poderão vir outros… a conferir.

Frustrar o golpe, com acordos, sem uma mudança no rumo das prioridades nacionais, mantendo-se um governo sem avançar posições, é cozinhar o futuro em banho-maria! Para além de evitar o golpe, é preciso mostrar força num projeto de desenvolvimento com maior equidade social. Não dá para manter no governo, em cargos de confiança, pessoas que defendem, por exemplo, a entrega do pré-sal às multinacionais. Não dá para manter no governo um acadêmico diletante em férias como o Mangabeira Unger, de triste memória não só pelo documento Pátria Educadora, mas também pelas palestras por aí, contra a política externa brasileira, clamando por um alinhamento aos EEUU (ele é cidadão norte-americano? não teria renunciado à cidadania brasileira?), fugindo das soluções que representam os BRiCS. De pouco adianta permanecer no governo com as mãos amarradas. Não foi para isso e nem foi com este discurso que a presidenta foi eleita. 

PSDB: Inocência garantida

Se você tem parentes com fazendas, assine ficha de filiado ao PSDB, depois mande construir com dinheiro público um aeroporto na fazendo do seu tio-avô, aeroporto cujo acesso é restrito porque as chaves ficam com sua família. Use o aeroporto como seu e de sua família. O MP vai se recusar a abrir qualquer investigação, porque o pedido de investigação não apresentou provas de que houve qualquer preço exorbitante. Tornar de uso particular algo construído com dinheiro público não é crime, segundo o Ministério Público de Minas Gerais…  Mas com uma ressalva: você deve ser do PSDB, para se tornar ininputável. E assim se encerra o caso do aeroporto de Cláudio: permanecerá do seu tio-avô e da família. Os helicópteros do Aécio agradecem. Assim funciona a justiça brasileira. Eu falei “justiça”???? Mera força de hábito.