O tempora! O mores! Políticos tremebundos

Hoje uso licenças ‘poéticas’. Primeiro a exclamação de Cícero. Depois a inspiração mais próxima num capítulo do livro Espelho dos nomes, do linguista  Marcos Bagno. Precisamente o capítulo intitulado O salvador do nosso povo. É que estamos em tempos de ‘pactos’ salvadores  do nosso povo, isto é, do nosso grupo político que está no poder como mordomo há mais de 30 anos. Como o autor de Espelho dos nomes é um adjetivador inveterado, inspiro-me nele para trazer para cá algumas de suas qualificações adjetivais.

Isto porque as notícias são tremebundas, “apavorantes, terríveis, que fazem tremer”. Das tantas, selecionemos apenas três, há mais é óbvio e ulutante:

  1. Aprovada a delação premiada de Sérgio Machado pelo ministro Teori Zavacki, que resolveu não correr mais riscos de atrasos, para não ser atropelado por outros ministros e perder os holofotes, o governo Temer que abreviar o tempo de tramitação do processo de afastamento definitivo da presidente Dilma. Razão para esta pressa: não se sabe o que mais pode vir desta delação do amiguinho, ex-PSDB, depois PMDB e como indicação deste, ex-presidente da Transpetro. As duas gravações feitas, com Renan e com Sarney mostram o potencial do perigo! E o Temerbroso está temeroso, para não dizer tremebundo, apavorado. Vamos que com tanto senador comprometido, ele não consiga os 54 votos necessários a sua permanência no governo usurpado! Pressa, pressa Renan. Antes que você saia da presidência do senado, por uma gesto sempre atrasado do nosso ministro do STF, entregue-me o impeachment definitivo. Siga o exemplo de Eduardo Cunha, que me entregou a autorização para o processo e só depois caiu por decisão do mesmo ministro. Acontece que o exemplo não é nada saudável, salutar, benéfico para Renan: ele sabe que assim que terminar a tarefa, vem o Teori Zavacki correndo, correndo…
  2. Pois não é que o Gilmar Mentes devolve o pedido de investigação do Aécio Neves  ao nosso Procurador Geral da República, enviando-lhe a defesa feita pelo dito, para que verifique se há mesmo necessidade  de investigação? Como houve dois pedidos de investigação, ambos nas mãos do ministro do PSDB, o primeiro deles o Gilmar Mentes já havia sido devolvido há um mês! Agora devolve o segundo. A primeira bola, Janot não chutou ainda. Chutará a segunda? Alguém tem alguma dúvida de que as coisas são protelatórias? Processo vai, processo vem em meio a tantas notícias, vai caindo no esquecimento. Não fora a existência de novas denúncias, novas delações, novas gravações em que o nome do limpinho sempre aparece, ninguém mais lembraria  do vai e vem dos processos. Ou alguém se lembrava que há um mês o Gilmar Mentes já havia devolvido ao Janot o primeiro pedido de investigação? Uma pena Gilmar! Não o deixam em paz para julgar com precisão segundo o preciso.
  3. E o Sérgio Moro está inocentado: não é crime autorizar a publicação de escutas telefônicas, mesmo que estas envolvam a autoridade máxima do país, que supostamente teria for privilegiado. E mesmo que as escutas divulgadas tenham sido feitas após despacho judicial que suspendia as gravações! Ou seja, gravação ilegal pode ser divulgada à vontade, desde que seja divulgação feita pela Força Tarefa da Lava Jato, seja esta divulgação espalhafatosa e autorizada, seja esta divulgação resultado de vazamentos seletivos… Aliás, falando em vazamentos seletivos, que há por trás dos vazamentos das gravações bombásticas de Sérgio Machado???: Até a Globo, em seu telejornal que não assisto, teve que divulgar estas gravações pelo bombástico das singelas trocas de turnos, todos mostrando que há um pacto para zerar tudo uma vez afastado o empecilho deste governo petista que aparelha a Polícia Federal, dá-lhes liberdade de investigação mesmo que esta atinjam seus próprios líderes. Onde já se viu tamanha ousadia? É preciso parar com isso, daí o pacto michelino. Escapemos todos, já que, como diz Sérgio Machado, fui 10 anos do PSDB e sei. “Renan, não sobra um, Renan!”

Tudo está deixando os políticos tremebundos. Tremem as bundas, tremem os lábios, tremem que tremem, Temer. Depois de tremarem ‘a construção de uma presidência’, percebem que os nós podem ser defeitos. Apresse-se Renan, entregue ao Temer o julgamento definitivo. Mas saiba, enquanto não entregar, você está a salvo de uma decisão intempestiva de Teori Zavacki.

‘BANDIDO’, O TERMO MAIS CORRENTE DA POLÍTICA DE HOJE

Depois dos elogios aos relevantes serviços prestados por Romero Jucá – o que inclui a construção de uma presidência interina e logo, logo definitiva (é preciso encontrar eufemismos para se referir ao ‘golpe’ porque a ministra Rosa Weber poderá pedir explicações em prazo de 10 dias pelo uso da palavra) – o presidente em exercício Michel Temer, o Temerbroso, recupera a memória do país: ele foi Secretário de Segurança do Estado de São Paulo. E como secretário, sabe lidar com bandidos!!! “Fui secretário de Segurança em São Paulo por duas vezes e tratava com bandidos. Eu sei o que fazer no governo e saberei conduzir”… Como uma das coisas que ele acabara de fazer (e ele sabe o que fazer) foi demitir Romero Jucá, somando dois com dois teremos quatro mais um: o dito e o implicitado. E o implicitado é que o dito cujo chamou o dito cujo outro de bandido. Nas palavras do presidente em exercício, seu ex-ministro, o ministro-cometa que a gente só vê de passagem, é bandido.

Pois a palavra retorna do bate-boca típico do parlamento brasileiro. Lá, alguns partidos se mobilizaram para entrar com representação na Procuradoria Geral da República e no Conselho de Ética do Senado, pedindo investigação e cassação do mandato do amiguinho do presidente em exercício. Que responde o amiguinho? “Qualquer representação é legítima. Agora, se nós formos ver os autores, um dos autores é um bandido, que a mulher está sendo presa hoje, provavelmente, o senador Telmário Mota, proque roubou dinheiro na Assembleia Legislativa para sustentá-lo”. Telmário responde que Jucá “vive na bandidagem e acha que todo mundo é bandido igual a ele”. Sobre o companheiro de ontem na ‘construção de uma presidência interina, logo, logo definitiva’ Carlos Lupi, presidente do PDT, Jucá afirma que ele sequer merece o termo bandido, já que a um chama de bandido e sobre o outro diz que “não merece nenhyum tipo de comentário”. Para qualquer falante da língua portuguesa, “não merecer comentário” é pior do que merecer o comentário de bandido. Todos sabemos o sentido de “não me pergunte a minha opinião, porque posso dá-la”. 

E de bandido em bandido vamos vivendo: virou banditismo, sob o rótulo de “crime de responsabilidade” as chamadas pedaladas fiscais, isto é, o acerto de contas feito com um banco que foi fazendo pagamentos durante o mês e apresentou a conta no começo do mês seguinte e recebeu o que lhe era devido. Antes não era banditismo (não vou usar o belo neologismo de Romero Jucá, bandidagem, uma criação que não é sua mas do povo, aquele que elegeu a Dilma e de quem ele roubou os votos) e foi praticado por FHC, o limpinho Farol Apagado de Alexandria, e por Lula e por Dilma em anos anteriores. Só virou coisa de bandido sob encomenda ao obscuro ex-deputado Nardes realizada pelo grupo da ‘construção de uma etc etc…’ de que Serra e Jucá foram próceres, líderes, articuladores ou o que seja (só não pode dizer ‘golpistas’). Lembrem-se, Aécio queria serviços de cassação do Gilmar Mentes; Alkmin queria sangria por todo o mandato de Dilma. Serra, dentre os limpinhos, é que queria os serviços de Nardes, pois era a chance de ele retornar ao executivo para vender, vender, vender que é o que sabe fazer.

Mas “não para por aí o horror” (um verso de Vitor Hugo, em tradução de Castro Alves no poema a propósito de Jesus Cristo, verso dito pela boca de uma escriba do Templo). Temos um líder do governo na Câmara dos Deputados que é tratado como bandido. Temos muito atuante e nomeador de apaniguados em posições estratégicas dentro do governo, o reconhecido bandido Eduardo Cunha. Logo a expressão atingirá o ministro do Turismo Henrique Alves, e seguirá por aí. A conferir.

Em falando em bandidos, não podemos esquecer o juiz Sérgio Moro, que trabalha tanto o coitado para por bandidos já preventivamente na cadeia, mesmo sem julgamento. Também gosta de trazer para depor coercitivamente. Em evento público, numa resposta uníssona ao revelado pela conversa gravada entre Sérgio Machado e Romero Jucá, segredo de polichinelo pois todos sabíamos disso, de que o pagamento aos votos favoráveis ao afastamento de Dilma seria encerrar a Lava Jato. Pois Sérgio Moro, antes do afastamento, já dava estes sinais de garantia aos parlamentares, ao dizer que era seu desejo encerrar a investigação em dezembro deste ano. E agora voltou à carga: ao mesmo tempo que nega a interveniência do Executivo no Judiciário, afirma imediatamente a naturalidade investigatória-policial-jurídica de que a Lava Jato vai perdendo “impulso” como toda investigação. Há recados de tranquilidade aos parlamentares nesta afirmação. A Lava Jato não vai ser encerrada. Vai perder “impulso” porque já atingiu seus objetivos. Claro, não sem antes pegar algum boi de piranha – Aécio é o mais indicado, para gáudio do coveiro mor José Serra. Não antes de prender, haja ou não provas de crime, Lula e Dilma. 

Não me passou desapercebido o telefonema de Aécio a Serra, assim que tornada pública a conversa Jucá/Machado: Aécio pedia a Serra que ficasse sempre de seu lado. Ora, ora… quem tem memória sabe: Serra mandou publicar o “pó de parar governador” quando Aécio queria prévias no PSDB; e Serra é conhecidíssimo como elaborador de dossiês. Onde há Serra, há dossiês. Principalmente como ‘fogo amigo”. Mas não acredito que haja dedinho de Serra, o que sempre quis um ministério na área econômica, nesta derrubada do Jucá! Ele só quer o lugar. Ele não costuma ser um  trator que vai derrubando tudo o que tem pela frente como obstáculo a seus desígnios. Ele é diplomata, como se sabe. E religiosíssimo, de comungar em campanhas eleitorais. Não cometeria um pecado de avareza tal.     

 

 

 

 

 

 

 

AULA DE ROUBALHEIRA, POLÍTICA GOLPISTA E DESFAÇATEZ DAS LIDERANÇAS DO GOLPE DE ESTADO.

Desculpe0-me a grande juíza Rosa Weber, mas se isso não é golpe, o que é golpe? E um golpe sempre responde a torpeza e desfaçatez.

Pois eis que a FSP, agregada ao golpe e agora querendo eleições gerais, a que foi contra quando proposta por Dilma, abre o bico e revela a conversa gravada entre Sérgio Machado (ex-presidente da Transpetro) e o golpista e hoje ministro Romero Jucá, conhecidíssimo mundialmente como grande economista…

A transcrição abaixo é da FSP. E tem muito mais.

Vale a leitura do documento, direto. Sem mais delongas.

SÉRGIO MACHADO – Mas viu, Romero, então eu acho a situação gravíssima.

ROMERO JUCÁ – Eu ontem fui muito claro. […] Eu só acho o seguinte: com Dilma não dá, com a situação que está. Não adianta esse projeto de mandar o Lula para cá ser ministro, para tocar um gabinete, isso termina por jogar no chão a expectativa da economia. Porque se o Lula entrar, ele vai falar para a CUT, para o MST, é só quem ouve ele mais, quem dá algum crédito, o resto ninguém dá mais credito a ele para porra nenhuma. Concorda comigo? O Lula vai reunir ali com os setores empresariais?

MACHADO – Agora, ele acordou a militância do PT.

JUCÁ – Sim.

MACHADO – Aquele pessoal que resistiu acordou e vai dar merda.

JUCÁ – Eu acho que…

MACHADO – Tem que ter um impeachment.

JUCÁ – Tem que ter impeachment. Não tem saída.

MACHADO – E quem segurar, segura.

JUCÁ – Foi boa a conversa mas vamos ter outras pela frente.

MACHADO – Acontece o seguinte, objetivamente falando, com o negócio que o Supremo fez [autorizou prisões logo após decisões de segunda instância], vai todo mundo delatar.

JUCÁ – Exatamente, e vai sobrar muito. O Marcelo e a Odebrecht vão fazer.

MACHADO – Odebrecht vai fazer.

JUCÁ – Seletiva, mas vai fazer.

MACHADO – Queiroz [Galvão] não sei se vai fazer ou não. A Camargo [Corrêa] vai fazer ou não. Eu estou muito preocupado porque eu acho que… O Janot [procurador-geral da República] está a fim de pegar vocês. E acha que eu sou o caminho.

[…]

JUCÁ – Você tem que ver com seu advogado como é que a gente pode ajudar. […] Tem que ser política, advogado não encontra [inaudível]. Se é político, como é a política? Tem que resolver essa porra… Tem que mudar o governo pra poder estancar essa sangria.

[…]

MACHADO – Rapaz, a solução mais fácil era botar o Michel [Temer].

JUCÁ – Só o Renan [Calheiros] que está contra essa porra. ‘Porque não gosta do Michel, porque o Michel é Eduardo Cunha’. Gente, esquece o Eduardo Cunha, o Eduardo Cunha está morto, porra.

MACHADO – É um acordo, botar o Michel, num grande acordo nacional.

JUCÁ – Com o Supremo, com tudo.

MACHADO – Com tudo, aí parava tudo.

JUCÁ – É. Delimitava onde está, pronto.

[…]

MACHADO – O Renan [Calheiros] é totalmente ‘voador’. Ele ainda não compreendeu que a saída dele é o Michel e o Eduardo. Na hora que cassar o Eduardo, que ele tem ódio, o próximo alvo, principal, é ele. Então quanto mais vida, sobrevida, tiver o Eduardo, melhor pra ele. Ele não compreendeu isso não.

JUCÁ – Tem que ser um boi de piranha, pegar um cara, e a gente passar e resolver, chegar do outro lado da margem.

*

MACHADO – A situação é grave. Porque, Romero, eles querem pegar todos os políticos. É que aquele documento que foi dado…

JUCÁ – Acabar com a classe política para ressurgir, construir uma nova casta, pura, que não tem a ver com…

MACHADO – Isso, e pegar todo mundo. E o PSDB, não sei se caiu a ficha já.

JUCÁ – Caiu. Todos eles. Aloysio [Nunes, senador], [o hoje ministro José] Serra, Aécio [Neves, senador].

MACHADO – Caiu a ficha. Tasso [Jereissati] também caiu?

JUCÁ – Também. Todo mundo na bandeja para ser comido.

[…]

MACHADO – O primeiro a ser comido vai ser o Aécio.

JUCÁ – Todos, porra. E vão pegando e vão…

MACHADO – [Sussurrando] O que que a gente fez junto, Romero, naquela eleição, para eleger os deputados, para ele ser presidente da Câmara? [Mudando de assunto] Amigo, eu preciso da sua inteligência.

JUCÁ – Não, veja, eu estou a disposição, você sabe disso. Veja a hora que você quer falar.

MACHADO – Porque se a gente não tiver saída… Porque não tem muito tempo.

JUCÁ – Não, o tempo é emergencial.

MACHADO – É emergencial, então preciso ter uma conversa emergencial com vocês.

JUCÁ – Vá atrás. Eu acho que a gente não pode juntar todo mundo para conversar, viu? […] Eu acho que você deve procurar o [ex-senador do PMDB José] Sarney, deve falar com o Renan, depois que você falar com os dois, colhe as coisas todas, e aí vamos falar nós dois do que você achou e o que eles ponderaram pra gente conversar.

MACHADO – Acha que não pode ter reunião a três?

JUCÁ – Não pode. Isso de ficar juntando para combinar coisa que não tem nada a ver. Os caras já enxergam outra coisa que não é… Depois a gente conversa os três sem você.

MACHADO – Eu acho o seguinte: se não houver uma solução a curto prazo, o nosso risco é grande.

*

MACHADO – É aquilo que você diz, o Aécio não ganha porra nenhuma…

JUCÁ – Não, esquece. Nenhum político desse tradicional ganha eleição, não.

MACHADO – O Aécio, rapaz… O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB…

JUCÁ – É, a gente viveu tudo.

*

JUCÁ – [Em voz baixa] Conversei ontem com alguns ministros do Supremo. Os caras dizem ‘ó, só tem condições de [inaudível] sem ela [Dilma]. Enquanto ela estiver ali, a imprensa, os caras querem tirar ela, essa porra não vai parar nunca’. Entendeu? Então… Estou conversando com os generais, comandantes militares. Está tudo tranquilo, os caras dizem que vão garantir. Estão monitorando o MST, não sei o quê, para não perturbar.

MACHADO – Eu acho o seguinte, a saída [para Dilma] é ou licença ou renúncia. A licença é mais suave. O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais. Essa cagada desses procuradores de São Paulo ajudou muito. [referência possível ao pedido de prisão de Lula pelo Ministério Público de SP e à condução coercitiva ele para depor no caso da Lava jato]

JUCÁ – Os caras fizeram para poder inviabilizar ele de ir para um ministério. Agora vira obstrução da Justiça, não está deixando o cara, entendeu? Foi um ato violento…

MACHADO –…E burro […] Tem que ter uma paz, um…

JUCÁ – Eu acho que tem que ter um pacto.

[…]

MACHADO – Um caminho é buscar alguém que tem ligação com o Teori [Zavascki, relator da Lava Jato], mas parece que não tem ninguém.

JUCÁ – Não tem. É um cara fechado, foi ela [Dilma] que botou, um cara… Burocrata da… Ex-ministro do STJ [Superior Tribunal de Justiça].

Erro de transcrição? Lapso? Previsão? Ameaça? Pressão? Mentira?

Neste caso, tudo pode ser. O mais provável é que seja um erro de transcrição ou digitação. Mas como estes erros não passariam desapercebidos por um discípulo de Freud em qualquer das correntes da psicanálise de hoje, vale a pena debruçar-se sobre os sentidos possíveis do erro ou do lapso. Edinho Silva, ex-coordenador finaceiro da campanha da chapa Dilma/Temer e ex-ministro da Secretaria de Comunicação Social foi entrevistado pelo Estadão. Desta vez tenho que concordar: a manchete é “É possível dialogar com o PSDB sobre a reforma política”. Esta a firmação política mais importante do entrevistado. Se você ligar esta entrevista com aquela de FHC ameaçando o Temerbroso de desembarcar do governo se ele seguir caminhos errados (FHC sempre soube o que é certo e o que é errado em política), a previsão de um futuro mais ou menos imediato seria de PT + PSDB se juntarem na oposição ao governo usurpador. Não acredito. O DNA do PSDB é de carrapato: não tem como chegar ao poder pelo voto, mas vive do que pulsa no poder. Não desembarcará do governo que ajudou a criar pela usurpação de cargo. Vai largar o osso?

Voltemos à entrevista do ex-ministro. Entre outras verdades, afirma que o presidencialismo sai enfraquecido com o golpe (obediente à Rosa Weber, o entrevistado não usa a palavra golpe, mas ‘afastamento’, muito diplomaticamente, o que me causa espanto num ex-ministro recém apeado do cargo por um golpe de estado). E chama por uma reforma política, apontando para o retorno ao parlamentarismo inventado no Brasil para evitar a posse e o governo de João Goulart (Jango). A entrevista segue o diapasão: um PT disposto ao diálogo, apoiando iniciativas do governo usurpador, um PT disposto a assumir seus erros (menos o ajuste fiscal, calote eleitoral de Dilma em 2015). Apontando para uma oposição que apresente projetos, que tenha projeto.

O PT sempre teve um projeto. O que fez o segundo governo Dilma foi abandonar o projeto de uma ‘Nova Economia’, que Mantega tentou implementar. Sabia-se que o ciclo do consumo como mola propulsora do desenvolvimento tinha limites claros – ninguém troca bens de consumo duráveis todos os anos, particularmente as famílias que recém chegavam ao consumo e compraram geladeiras, fogões, ar-condicionados, carros – tudo a prestações. Mantega tentou um novo ciclo, o do desenvolvimento pelo investimento em infra-estrutura, facilitando a vida dos empresários com o bolsa-empresário, os juros subsidiados, etc. Um programa aliás combinado com os empresários! Mas a poderosa FIESP preferiu aliar-se a seus comparsas políticos de sempre, e não respondeu à proposta que ajudara a formular, entrando com força no golpe que viria a afastar Dilma e o PT do poder. Um golpe preparado de longa data! A aposta de 2002 foi circunstancial. Esperavam quatro anos de governo Lula fracassando. A experiência morreria ali, e mostraria ao ‘povo brasileiro’ que a elite governa melhor. Impossível melhor circunstância – governo FHC terminava impopular, com o píres na mão pedindo emprétimos ao FMI, as agências de risco internacionais avaliando o Brasil abaixo do que hoje mancheteiam os jornais, um desemprego maior do que o atual, etc. etc.

Para Edinho Silva, o ex-ministro, parece que o PT não tem projeto de sociedade, que experiência bem sucedida de governo não foi um projeto. Agora estaria em busca de um projeto, e não aprofundando o que o levou ao poder: a construção de uma sociedade menos desigual. Pois é neste contexto temático que repete o que jornalistas de direita não se cansam de reafirmar – o PT está sem rumo, está sem projeto – que ocorre numa das respostas um erro de transcrição, um lapso, uma previsão  ou uma mentira dos entrevistadores. Vamos a ele:

– E se, eventualmente, alguma proposta de Temer estiver em acordo com o que pensa o PT?

Nós temeremos de ver. O PT não pode ser oposição pela oposição porque é um partido que governou o Brasil por 13 anos. Mas, neste momento, o que pode sair desse pacote de reforma que vem aí pode ser algo que arrebente com vitórias históricas da soeidade brasileira. […]

Pela resposta, tudo indica que o caminho é o da oposição ao pacote (econômico). Mas aponta para uma negociação na política (uma possível saída pelo parlamentarismo). A mim chamou atenção o temeremos em lugar do temos no primeiro enunciado da resposta. ‘Temeremos” é o futuro do verbo ‘temer’, primeira pessoa do plural. Temeremos ver alguma proposta de acordo com o projeto do PT? Mas ‘temeremos’ também pode ser um neologismo. Os neologismos aparecem com frequência no mundo político: ‘tancredar’ para apoiar a candidatura de Tancredo à presidência em eleição indireta (depois, no jargão médico, passou a significar “está tudo perdido”). ‘Malufar’ foi muito usado como sinômino de furtar. Na escola as crianças denunciavam: “fulano malufou meu lápis, professora!”. ‘Cristianizar’, aceitar a candidatura de alguém oficialmente, mas trabalhar para sua derrota. ‘Tucanar’, dar apoio ao PSDB. Os membros do partido Democratas, antigo PFL, o núcleo duro da antiga ARENA de triste memória, passaram a ser chamados de ‘demos’, que é sinônimo de ‘diabo’. Os exemplos não inúmeros. Ora, na política inventa-se. As invenções podem durar pouco tempo: ficam como registro na história.

Pois por que não um verbo “têmer” para apoio ao Temerbroso? Aí termeremos no enunciado seria um subterfúgio para fazer passar um recado, na forma de um lapso, de vontade profunda de estar com o governo! Temeremos todos este têmer-emos do lapso do transcritor da entrevista. Uma pacificação nacional? Uma conciliação depois de sofrer um golpe? Uma unanimidade burra, apenas de aparência, ao estilo do que ocorreu nos tempos do “Brasil, ame-o ou deixe-o”? Não haverá têmer-emos mesmo que jornalistas ou transcritores de entrevistas queiram por na boca do entrevistado um lapso freudiano.  

 

 

 

 

Domingo: reflexão e poesia

Reflexão

Ao perder o seu estatuto político de produto e produtor de cidadania, o trabalho reduz-se à penosidade da existência, quer quando existe, quer quando falta. É por isso que o trabalho, apesar de dominar cada vez mais as vidas das pessoas, está a desaparecer das referências éticas que sustentam a autonomia e a auto-estima dos sujeitos. (Boaventura de Sousa Santos. Reinventar a democracia , p. 30)

Poesia

VERSOS EM MOSAICO I

OS “PAULISTAS” ESTÃO VOLTANDO!

O TEMPLO OPUS DEI EVANGÉLICO

O RENASCER DA NOVA REPÚBLICA VELHA

O PODER DOS GOVERNADORES DO PRMDBSDBPPDEM

ORDEM E PROGRESSO

ALEXANDRE WASHINGTON LUÍS DE MORAES

A QUESTÃO SOCIAL É CASO DE POLÍCIA

ORDEM E PROGRESSO

O PRESIDENTO SEM VOTO CARA DE CAVALO

MAS O QUE QUE TEM COM ISSO O POBRE BICHINHO?

NÃO TEM UM MÚSCULO NA FACE QUE LHE DÊ EXPRESSÃO

DE ALEGRIA OU TRISTEZA NA HORA DO BLEFE E DA TRAIÇÃO 

JOGADOR DE POKER

ORDEM E PROGRESSO

OS IRMÃOS MARINHO METRALHA PREPARAM O TERRENO

O ESTADÃO E OS FILÓSOFOS FAST FOOD DÃO OS FUNDAMENTOS DOUTRINÁRIOS

A FOLHA PÕE A CEREJA PÁLIDA CRÍTICA NO BOLO DE CAL

VEJA É A NOVA CARA DA CAPA DO PAÍS

ORDEM E PROGRESSO

PAULO SKAFF COM A PROCISSÃO DE PATOS E A MALA PRETA

GILMAR MENDES E A SUA ESCOLINHA DE BOQUINHAS DE ALTOS ESTUDOS JURÍDICOS DO CANGAÇO 

NO BAIXIO DAS BESTAS

PARA OS TOTÓS E RAPOSAS DO SUPREMO FRANGALHO

O JANOTA QUE DÁ TRÊS NO PREGO E UMA PARA DISFARÇAR

SERRA REGATÃO GLOBAL JÁ BOTOU NA CANASTRA

PRÉ-SAL BANCOS TERRAS PUTAS VIRGENS VIRGENS ¾

ESTÁ TUDO À VENDA

ORDEM E PROGRESSO

PARA OS NOSSOS PARTIDOS CIVILIZADORES

CULTURA É DISTRAÇÃO DE MULHER

SOCIOLOGIA E POESIA É VIADAGEM

CIÊNCIA SÓ A  QUE CURA CONSTIPADOS

UNIVERSIDADE NÃO É PARA PRETO E POBRE

A BOA VIDA FAMILIAR É A DO RECATO DO LAR

ORDEM E PROGRESSO

VOLTAREMOS A SER O PARAÍSO TROPICAL

DA JOGATINA E TURISMO SEXUAL

ORDEM E PROGRESSO

CUNHA RETORNARÁ COM AS MILÍCIAS BANDEIRANTES DE CAMISAS PARDAS

BOLSONARO VIRÁ COM AS DE CAMISAS VERDES

VIRÁ QUE EU VI

MORO COM AS CARIJÓS DE CAMISAS PRETAS

VIRÁ QUE EU VI

ORDEM E PROGRESSO

OS EUA QUE NOS ACUDAM

O CAPITAL FINANCEIRO QUE NOS AMPARE E SALVE DA MELANCOLIA

ORDEM E PROGRESSO DA INDEPENDÊNCIA E SOBERANIA

SÓ QUE NÃO SABIAM QUE NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA PEDRA

UMA PEDRA NO MEIO DO CAMINHO

Luiz Roncari, Tiradentes 15/05/16; São Paulo, 19/05/16. (Recebido por email)