Uma escola surda, cega e muda

Evitei até agora falar sobre o projeto de “uma escola sem partidos”, um projeto apresentado, obviamente, por um parlamentar do PSDB. Até pouco tempo, a escola – incluindo a universidade – vinha sendo criticada por não levar em conta a realidade efetiva em que vivem os estudantes e a sociedade brasileira. Seus conteúdos, recortados e selecionados do conjunto de conhecimentos produzidos ao longo da história nas mais diferentes disciplinas, seleção muitas vezes a cargo de uma tradição que se perde num passado longínquo e que faz com que professores e alunos estudem sem saber o que fazer com que estudam – quando não estudam conhecimentos já ultrapassados pela pesquisa científica -, isto tudo sempre foi duramente criticado. As universidades recebiam até o apodo de “torre de marfim”, expressão de gosto da imprensa que prefere a burrice do que a inteligência.

Pois todas estas críticas eram vãs! Inadequadas! Impróprias! Mais de cem anos desenganos. Até Rui Barbosa, que um dia escreveu que o estudante que consegue se ver livre do pó da escola poderá inventar coisas boas, escrever bem, etc, pois até ele estava enganado! 

Depois de uma escola alheia a seu entorno mas extremamente eficaz como aparelho ideológico – nada mais significativo desta alienação do que a não escuta dos seus alunos, a cegueira a seus problemas e o descarte de qualquer fato do cotidiano em benefício do programa previsto. Depois de uma enchente na cidade, o tema da aula há de ser a leitura de “Meu cão veludo” ou, pior ainda, estudar a definição de substantivo como a palavra que designa os seres (casamento é substantivo, e é algum ser?). Nada de discutir questões ecológicas que levam a enchentes! Isto é partidarizar a escola, porque quem está no poder se sente atingido por discussões desta ordem.

Assim alheada e ilhada, a escola teve seu sucesso: produziu evasão e produziu sujeitos que dizem de si mesmos que “não nasceram para os estudos”. 

A pedagogia, as teorias pedagógicas, os agentes educativos, todos começaram a perceber que não dava para continuar a ser este eficiente “aparelho ideológico” à medida que os bancos escolares foram sendo ocupados por filhos de pais não convidados para os banquetes da classe dominante. A educação escolar, de distinção social passou a direito de todos. E para chegar a todos, reconheceu seus erros, aceitou as críticas a seu alheamento e isolamento, revisou conteúdos, atualizou os estudos. Seus professores foram para a universidade. Somente nesta profissão de professores, e precisamente no Brasil, houve um salto de escolaridade impressionante em apenas uma geração: de pais pouco escolarizados, quando não escolarizados de todo, seus filhos professores ostentam hoje título superior. Tudo estava caminhando para uma melhoria da qualidade da escola. O governo do mesmo partido do parlamentar da “escola sem partido” elaborou os Parâmetros Curriculares Nacionais. Introduziu os temas transversais, fez uma revolução no papel. Os agentes educativos foram atrás e tentam com esforço por em prática o previsto na legislação que então pretendia uma escola moderna e adequada a nossos tempos.    

Contrariando este movimento, o projeto “escola sem partido” (de um membro do mesmo partido que elaborou os PCNs) contradiz tudo, põe tudo no lixo. Quer de volta a velha escola do século XVIII. Talvez e preferencialmente uma escola confessional que ensine que qualquer resistência aos desígnios sociais é pecado mortal!

E com a escola sem partido não serão somente as disciplinas das ciências sociais que sofrerão censura. Como se sabe, o PSDB detesta História e Geografia. Acontece que com o emudecimento da escola e de seus professores, obras clássicas 0omo O Cortiço ou Vidas Secas serão proibidas. Até O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo será censurado. Nem se fale nos autores contemporâneos.

Tenho para mim que os contos de fada também não poderão ser lidos nem na educação infantil nem nos primeiros anos do ensino fundamental. Afinal a luta de classes entre a bruxa e a fada é um péssimos exemplo para as mentes infantis. O Lobo Mau está proscrito porque ele pode representar a ganância e a voracidade de certes segmentos sociais (tipo banqueiros, por exemplo). Os Três Porquinhos serão esquecidos para sempre. Imaginem só, ensina que casas de palha ou de madeira são pouco resistentes ao avanço do sopro do lobo voraz. Que os fracos precisam se unir e construir ums resistência mais sólida. Imaginem só que disparate um texto que tal. Logo virá o anátema patrocinado por esta direita asquerosa que assumiu o comando da nação!

Excluídas as disciplinas de História e Geografia, passa-se a excluir também a Literatura, a leitura e muito brevemente a escrita, porque aprender a escrever pode ser muito partidário. Estes sujeitos que escrevem poderão elaborar textos e fazerem com que circulem nesta invenção diabólica que são as redes sociais, a internet. Onde já se viu. Levando um pouco mais a sério, a escola sem partido será o mundo sem escola! Afinal, não é bom que as pessoas sejam alfabetizadas, saibam ler a realidade, tentem compreender o que vivem! Com a escola sem partido, parte-se a escola. Torna-a cega, surda e muda! 

O próximo passo será: fechemos as escolas públicas. Educação e saúde não são direitos, mas bens que somente podem ser adquiridos por quem possa pagá-los. Este é o projeto subreptício, real e inabalável do PSDB e dos golpistas que nos governam.

Um conto de fatas para um domingo de relaxo

Havia uma república: o povo escolhia seus governantes, mas o sistema começou a se tornar decrépito pelos custos cada vez mais volumosos para os candidatos apresentarem ao povo seus projetos, mais do isso, sua figura maquiada. Aí surgiu uma Fada Madrinha, benfeitora do país e de seu povo. E ela, que morava no Norte, começou a matutar uma saída para o impasse que se vivia naquelas terras. Pensou o que melhor seria iniciar com um processo transitório enquanto elaborava a solução definitiva. 

Então lhe surgiu na cabeça treinar alguns membros incoformados com as escolhas do povo em suas escolas de ciências jurídicas. Como toda fada madrinha, esta também sabia de todos os segredos porque todos sabemos que não adianta esconder segredos das fadas e das bruxas. Assim, uma vez treinados os agentes, estes foram informados de tudo que se sabia no Norte e foram encarregados de iniciar a lavagem da república com bastante espalhafato. Havia muita gente que nunca tinha tomado banho e sentiu o frio dos jatos d’água. Então começaram a se reunir, reuniões todas previstas pela Fada Madrinha, pois era isso mesmo que ela queria. Nas reuniões discutiram como fazer para que os focos dos jatos só atingissem os “inimigos” da república, aqueles que achavam necessário distribuir riquezas em vez de somente acumulá-las. E conseguiram a adesão imediata dos agentes, e então começaram a surgir vazamentos por todos os canais. Com os vazamentos, o jato perdeu impacto e já não lavava a todos que por lava moravam.

Realizada esta primeira etapa, iniciou-se a segunda. Pensou a Fada Madrinha: “Há monarquia na Suécia; há monarquia na Dinamarca, na Inglaterra, em Mônaco, na Arábia Saudita, na Jordânia e em tantos outros lugares. Vou aplicar a monarquia como solução para esta república. Daí ela deixará de ser apenas produtora de bananas e babacas: terá que providenciar a confecção de coroas, mantos, tapetes, móveis de luxo, construir palácios. E todo o povo ficará ocupado. E todos ficarão alegres.” Pensou e logo começou a imaginar algum rei.

Surgiram-lhe quatro candidatos mais cotados. Eram pessoas que não conseguiriam virar presidentes da república e assim, com a monarquia, poderiam se transformar em reis. Haveria um Parlamento, como em toda a monarquia moderna, e o Parlamento indicaria o chefe de governo que o rei sacramentaria e sempre aconselharia. Bom, os três candidatos estavam acostumados a aconselhar, de modo que eram bons canidadatos.

O mais afoito na candidatura tinha um problema sério, segundo a Fada Madrinha. Muito careca, não correspondia à imagem de príncipe da cabecinha das moçoilas e dos moçoilos que andavam pelas ruas insatisfeitos. Além disso tinha olhos saltados e mirava as pessoas como quem pergunta: “Será que vocês não percebem que nasci predestinado a ser seu presidente, seu rei, seu manda-chuva?”. O candidato não era bom.

O segundo candidato fazia a cabeça das moçoilas todas: boa pinta, descendente de família nobre, vindo das gerais onde antigamente os nobres fizeram seu pé-de-meia explorando minas e hoje os exploradores de minério retiram o que há na natureza e afogam em lama o povo. Um lugar de beleza e de nobres. Este era o candidato mais próximo da figura desejada pela Fada Madrinha. Mas tinha um problema, o candidato era meio tonto e empoeirado. Só fumaça na cabeça. Nem com seus poderes PLIM PLIM a Fada Madrinha conseguiria fazer o milagre de tornar adequado para rei um tonto bonito.

O terceiro vinha em seu cavalo Pindamonhangaba. De origem meio humilde, mas sempre candidato a candidato. Bom moço, grande guarda-livros que fazia bater crédito e débito vendendo coisas para garantir esta contabilidade do zero a zero. Mas seu cavalo andava lendo, ao ritmo de 2 quilômetros por ano, o mesmo ritmo do metrô que vinha sendo construído há duas dezenas e que não avançava nunca. Lento demais para ser rei. Rei tem que ter cavalo fogoso, que troteia e corre. E que não derrube o rei, é claro. E acontece que os dois quilômetros anuais de metrô podem derrubar este candidato. Melhor não.

O quarto candidato era adequado. Um sábio jurista, ainda que jovem. Dividia seu tempo entre os emprendimentos como fazendeiro e como membro da Corte. Já tinha esta vantagem: acostumado à corte. Também já acostumado aos mantos, aos salamaleques próprios de uma monarquia vitalícia, ainda que não hereditária. Mas quase hereditária. A Fada Madrinha estava muito inclinada por este candidato. Nem precisaria fazer esforço e usar de seus poderes mágicos PLIM PLIM para dourar o candidato. Ele já estava dourado. Tinha inúmeros vassalos em suas fazendas: outra vantagem, porque um rei sem vassalos não é rei! E tinha outra coisa: ele jamais chegaria à presidência pelo voto do povo, mas sabia ludibriar o povo, o que é uma garantia a mais para a monarquia futura. Para a Fada Madrinha, estava escolhido o futuro rei da monarquia hereditária que se implantaria naquela república, que passaria então a se chamar O Reino.

Tudo planejado, aprovado o plano da Fada Madrina lá no frio Norte, na corte das fadas, quando um bruxo malvado começou a grasnar feito doido. Como haviam esquecido dele, o mais natural rei possível? Era ele de grande plumagem e enorme bico. É bem verdade que ao ser entrevistado por jornalista verdadeiros, e não por áulicos, levava um ferro danado e se perdia nas explicações inexplicáveis de seus apoios a golpes de estado, a ditaduras, a tudo que de ruim produz uma república. Ora, numa monarquia não há destas coisas, e então com que se ocuparia ele, tão já viciado em mexericos e jogo por baixo de lençois? Fora por isso, e não por ignorância, que a Fada Madrinha não o tinha posto na lista de reis possíveis.

Então surgiu uma solução para o projeto aprovado pelas autoridades fádicas do Norte. Num passe de mágica, o bruxo viraria a Rainha Mãe, e o rei que lhe é tão parecido no bico passaria por seu filho primogênito, e tudo ficaria resolvido. Como toda Rainha Mãe, também esta viveria no palácio, teria direito a vassalos, secretários, ministros e tudo o mais. Além de acomodações próprias em que poderia receber seus convidados para um brinde e reuniões. É bem verdade que o rei-filho teria que tomar muito cuidado com estas reuniões, porque sua coroa poderia voar de volta para a cabeça da Rainha Mãe.

Mas dentro do palácio tudo se resolveria internamente, sem que vazasse nada para os veículos de controle do povo.

E assim, postos em seus lugares, o primeiro candidato se tornou primeiro ministro; o segundo candidato se tornou embaixador plenipotenciário no Norte, o terceiro candidato assumiu o comando do tesouro do reino e o Rei com sua corte vivia em palácio.

Logo os sinos das catedrais anunciaram que havia um herdeiro do trono… e todos já começaram a imaginar a reportagem PLIM PLIM da festa do batizado. E neste novo reino, viveriam em paz todos, exceto os bruxos e bruxas que abertamente enviavam mensagens imprevistas por uma maquinaria infernal construída para destruir impérios mesmo quando estes fazem PLIM PLIM. 

PERTENCIMENTO E POSSE A responsabilidade política no mundo da pressa e do esquecimento

PERTENCIMENTO E POSSE

A responsabilidade política no mundo da pressa e do esquecimento (1)

João Wanderley Geraldi

Uma terra é nossa como uma pessoa nos pode pertencer: sem nunca dela tomarmos posse.

(Mia Couto, Jesusalém)

Yo no miro al mundo con mis propios ojos y desde mi interior, sino que yo me miro a mí mesmo con los ojos del mundo; estoy poseído por el otro. […] Yo carezco de un punto de vista extrínseco sobre mí mesmo, no tengo enfoque para con mi propia imagen intrínseca. Desde mis ojos estan mirando los ojos ajenos.

(Mikhail Bakhtin. [El hombre ante el espejo])

Caminhando por um pequeno lugarejo da Alemanha (Hilchenbach), notei que havia uma longa frase no alto da parede de uma casa. Pedi ao amigo Bernd Fichtner que me traduzisse o que estava ali escrito. Não anotei o enunciado, mas recupero-o de memória: “Esta casa é minha e esta casa não é minha. Ela foi do meu pai e será dos meus filhos. Ela foi do pai do pai do meu pai, mas foi sempre dos filhos. Isto desde 1554”. Desconheço a data da inscrição. Este enunciado remete diretamente a relação entre pertencimento e posse, entre responsabilidade e usufruto, entre amor e submissão. Propositadamente assim expressos: como dicotomias sólidas quando os tempos são de movimentos líquidos, fluidos, matizados e descoloridos. Da crítica aos limites rígidos, ao desconhecimento das zonas de interstícios, deslizamos para os tons cinza, cobrindo o todo e apagando diferenças que o movimento do pêndulo, de um lado ao outro, ainda poderia nos desvelar mostrando as múltiplas cores do percurso, e as distâncias entre a liberdade e a dominação.  

As cores cinza aparecem quando reduzimos tudo a uma só categoria: tudo são relações de poder, de modo que o exercício do micro poder se torna equivalente ao exercício do poder de excluir: não podemos criticar a este porque exercemos aquele. As táticas dos vencidos, dos oprimidos, são mesmo exercício de poder? Cortar as cercas dos latifúndios numa guerra de posições para a sobrevivência é um exercício de poder? Tão poderoso quanto aquele que permite construir a cerca? Somos todos mercadorias, consumidores e compradores, na sociedade do consumo. Compradores com o mesmo poder de fogo? Com a mesma quantidade de café no bule? Se o trabalhador é uma mercadoria, o que vende o patrão que compra sua força de trabalho é da mesma natureza? O patrão também se vende como força produtiva? Cutuco a onça com vara curta, porque é preciso debater, é preciso entrar em diálogo, não em consenso. E porque concordo com Bauman (2008, p. 27): “um diálogo sempre significa se expor ao desconhecido: é como se tornar refém do destino”.  

Habitantes de um planeta de que tomamos posse no presente, explorando ao máximo suas potencialidades, sem preocupações com qualquer futuro, demo-nos conta hoje de que também nós lhe pertencemos: finitos que somos, sabemos da finitude do espaço que habitamos. Na linha do tempo, no entanto, agimos como se imortais fôssemos, como se não viéssemos a conhecer a morte e como se depois de nós não haverá herdeiros da terra. Pode-se “consumir avidamente”, com tranquilidade, em nome do princípio do prazer, “aqui e agora”, escamoteando qualquer responsabilidade pelo Outro, em nome da desregulamentação da vida, do Estado mínimo para as questões antes ditas sociais, mas Estado máximo para salvar o sistema financeiro e as negociatas das grandes empresas, como ocorreu na penúltima crise do capitalismo em 2008/2009? Penúltima porque outras penúltimas virão. Teremos um dia forças para construir a última?

Realmente, “vivemos tempos sombrios”. Polícia e criminosos romperam o pacto de paz; às chacinas policiais nas periferias o PCC responde com mortes de policiais, mas também com mortes aleatórias. Uma luta pelo poder, mas não uma luta necessária para construir um tempo de felicidade. Nestes tempos sombrios de “domínio final do fato”, quantos ainda serão presos? Responderão o Secretário de Segurança e o Governador, nos termos da teoria que permite condenar sem provas materiais, pelas chacinas na periferia? Em tempos sombrios, a mídia julga e condena. E encontra alguém que lhe forneça a sentença. Será saudado como herói. Mas a teimosia dos humanos em quererem ser humanos permanece nas formas de manifestação: todo o estardalhaço feito apenas sepultou o exemplo mais cômico dos processos gêmeos da desregulamentação e da privatização na atual comodificação nas relações entre capital e trabalho. Cômico porque até mesmo os cemitérios públicos de São Paulo foram a leilão para uma privatização que tornaria mercadoria também os defuntos. Não houve interessados…

Foi em função da relação entre o eu e o outro que a humanidade construiu o Estado: espaço político da regulamentação da vida ora para evitar “a guerra de todos contra todos” que “guiaria a conduta individual para a terra desolada da não-sociabilidade” segundo aqueles que veem no homem primeiro a fera que o compõe, ora para restringir e delimitar o excesso do “desafio ético a que os seres humanos estão expostos pela própria presença de outros, pelo “apelo silencioso da face do Outro”. Reduzir a responsabilidade pelo outro, essencialmente incondicional e ilimitada, a um conjunto de prescrições e proscrições  mais de acordo com a capacidade humana de se arranjar (Bauman,2008, p. 114-115) foi o ponto de partida para construir, no passado, a autoridade do Estado, cuja função no sistema capitalista é a comodificação entre capital e trabalho. Nos tempo sombrios das desregulamentações, os Estados de bem estar social foram combativamente destruídos: a apropriação do dinheiro pelos Fundos globais de aplicação anularam o poder do estado e exigiram mobilidade sem limites, sem normas, sem fronteiras. Num Estado assim debilitado, como fazer política? Ainda é possível fazer política, quando estamos continuamente sendo bombardeados pelas mídias que acinzentam todas as posições partidárias e as reduzem a cavernas de novos Ali-Babás? Ainda assim, apesar de todo o poder do qual emana um orbituário prematuro do Estado e da política, os estados sociais emergentes ou redivivos aparecem: Venezuela, Bolívia, e um Brasil que afinal mostra sua cara. Alonguemos o olhar para outros espaços: uma reação começa a emergir na Grécia (que foi berço e está se tornando túmulo da civilização dita europeia); uma olhadela para os países escandinavos (a Finlândia em particular que vem mantendo o Estado de bem estar social, porque democraticamente perguntou a seu povo se devia ou não “salvar os bancos” investindo neles os recursos públicos e deixando de lado as políticas sociais que tão demoradamente foram conquistadas); e enxerguemos os desarranjos nos centros do capitalismo contemporâneo: a crise dos EEUU; a Inglaterra reduzida a bancos e a uma brutal concentração de renda; a Espanha com 25% de desemprego; e Portugal pondo os bofes de fora, num estado que toma medidas ditadas pela Troika (FMI, Banco Mundial e Banco Central Europeu) tapando os olhos aos problemas sociais que se acenderão como um vulcão. Arranjos onde se começou a praticar a política; desarranjos onde a política está a cabresto do mundo financeiro. Globalização? Somente globalizamos a miséria: há novamente pedintes nas ruas de Paris.

Nestes tempos sombrios, tempos de broncas e botas, deselegantes ou brandilisamente elegantes, reencontramos no conceito de responsabilidade/responsividade e na arquitetônica do pensamento bakhtiniano, fundado na relação inescapável do eu com o outro, elementos de uma ética que somente nos pode fazer políticos, porque na política “desde meus olhos miram os olhos alheios”.

  

  1. Texto para a “arena de debates” do Rodas de Conversa Bakhtiniana, 17 de novembro de 2012, Universidade Federal de São Carlos.

É a economia, seu imbecil!

O mercado está contentinho, muito contentinho. A taxa SELIC foi mantida em 14,25%; os bancos continuam a cobrar os juros mais altos do mundo. E a reunião do COPOM deixa o mercado ainda mais contentinho: aponta que não baixará a taxa nos próximos vindouros meses, ainda que o próprio mercado esperasse uma pequena redução! Pois os serviços que lhe presta este governo ilegítimo são mais do que esperam. Assim submissos ao mercado, indo além de suas expectativas, é o que se deseja… Ali´s, também se deseja que noutros setores ocorra a mesma submissão, e por isso vem aí o que estão chamando de fim da Era Vargas, ou seja, fim da legislação trabalhista e fim da concepção de que o Estado deveria ser o “tertius” nas negociações a fim de salvaguardar direitos da parte mais fraca, no caso, os trabalhadores. Aliás, o Estado existe para isso: legislar relações sociais para que não se retorne à barbárie.

Contradizendo o andar lento, muito lento da história, eis que nossos golpistas desejam o retorno a antes de 1930, à República Velha e se possível, aos tempos do Brasil-Colônia, com a vantagem atual de poder escolher o colonizador. Alguém consegue supor que país colonizador escolheria nosso grande Chanceler?

Pois não foi preciso fazer ainda nada efetivo, além de aumentar o déficit orçamentário para pagar o golpe. Bastou realizar o golpe para que o mercado reagisse e ficasse contentinho. As despesas públicas aumentaram; há denunciados e corruptos no governo e na sua “sólida base paarlamentar”. Para mostrar que isso tudo não tinha a menor importância para o mercado, ele está satisfeito assim mesmo. E politicamente ainda dá um tapa de luvas nos “coxinhas” que foram às ruas pedir decência e menos corrupção (obviamente, entre os manifestantes, inúmeros sonegadores e até um médico hoje preso por corrupção desviando recursos de onde mais falta: a saúde).

A tudo reage bem a economia! A gente é que não sabia que a economia fosse tão volúvel. Afinal, os comentaristas econômicos nos fazem crer que a economia é tão exata quanto a matemática. Não é coisa alguma. Por isso ela se chamava “Economia Política” num passado não tão distante, ainda no meu tempo de graduação quando iniciei meu curso de Economia (de que desisti no terceiro ano).

Mas acontece que estes retrógrados não só querem o passado. Estão hoje desatualizados. Os nossos “Chicago’s Boys”, especializados na matriz do império decadente, precisam urgentemente de uma reciclagem no FMI cujos técnicos já constataram e afirmaram alto e bom som que ajuste econômico, ajuste fiscal e política de austeridade leva à rescessão, ao fracasso e à miséria! Também os dirigentes da União Europeia, particularmente de seu BCE, com o susto pela decisão dos britânicos no Brexit, apesar de o governo e o verdadeiro poder serem contra, percebeu e já afirmou que é preciso dar mais atenção às políticas sociais e não somente manter uma gestão em benefício do mercado financeiro. Dar atenção às políticas sociais na Europa significa retornar ao Estado de Bem Estar Social, que o neoliberalismo e a globalização enterraram com uma rapidez espantosa. 

Enquanto na Europa estão pensando numa guinada para as políticas sociais, no Brasil trabalha-se no sentido inverso, tão inverso que até o legislado pode ser suplantado pelo negociado. A seguir este princípio “jurídico”, bem que as negociações entre o PCC e o atual ministro da justiça, ex-advogado do PCC, poderiam valer mais do que as leis. O acordado tem que valer mais. Também o acordado entre ladrão e vítima deve valer mais do que a lei, pois assim se economiza muito em delegacias e presídios para se obter o tão desejado superavit para pagamento dos juros da dívida que só cresce como tanto cresceu no governo neoliberal de FHC. 

Os dias brasileiros serão difíceis, temerbrosos. Para o povo brasileiro. Mas o mercado continuará contentinho. Tão contentinho que Armínio Fraga nem quis ser ministro, porque gerindo os fundos de investimento ganharia na certa, enquanto que no ministério poderia ser julgado como incompetente por não alavancar a economia e só patrocinar os bancos. Infelizmente ele esqueceu que ganha-se muito ao pagar pelo golpe… Os deficits orçamentários estão aí para comprovar os lucros da “sólida base parlamentar”.

 

 

 

Tucano, o bicho; tucano, o político

Estou na Dinamarca, em visita familiar. Participo um pouco do tempo de minhas netas Sophia e Laura. Ontem visitamos juntos o zoológico de Copenhagen. Os zoológicos me provocam sentimentos contraditórios: sei que neles se faz pesquisa, sei que neles se tenta preservar espécies, mas ao mesmo tempo eles representam a captura, o deslocamento do habitat natural destes mesmos animais e sua prisão.

Quedei-me um tempo a olhar dois tucanos encerrados e à amostra. Comecei imaginar suas “saudades” da terra de que vieram. Triste eu com o que acontece no Brasil, transferi esta tristeza para seus olhos e seu pouco espaço para voos. Não mostrava às pequenas netas minhas elocubrações internas. O tucano é uma bela ave. E sentem por estarem ausentes de sua terra.

Ao contrário, os tucanos políticos detestam terem nascido no Brasil. Nos tempos em que FHC era presidente, seus sorrisos largos eram dados quando caminhava ao lado do Sena em Paris ou quando fazia um cruzeiro pelo Reno, a ver castelos. Viagem que mereceu, aliás, grande reportagem televisiva da grande rede golpista, a Globo.

Mas ao olhar bem para o bicho tucano, percebi a razão do apelido a estes políticos que nos detestam e que detestam o país em que nasceram. O corpo do bicho tucano é uma avé comum, até parecido com o corvo, não fora a plumagem espetacular que carregam em si. Sobra-lhes um grande e belo bico que os diferenciam de todas as demais aves.

Que tem os tucanos políticos? Um corpo humano, obviamente. Mas é ave de rapina como o corvo. Como estes, os tucanos políticos realizam uma rapina de todo o patrimônio produzido ao longo da história pela nação: transferem-no para as mãos de transnacionais ou candidatas a transnacionais porque era em suas sedes que eles gostariam de estar, mesmo que trancafiados numa gaiola dourada – um apartamento em Paris e os menos sofisticados, tipo Geraldo Alkmin, um upgrade de Pindamonhangaba para Miami. Aliás, Geraldo Alkmin é tão pouco sofisticado que tucanos de alta plumagem não compareceram à convenção que sacramentou a candidatura do empresário Dória à prefeitura de São Paulo, o candidado do Geraldo… Coisa de novo rico! FHC, Serra e Aécio, da nobreza tucana, não se sujeitariam a uma festa tão vulgar. Alguns certamente ficaram tomando champanhe com Andreazza, o cnadidato derrotado.

Mas voltemos às comparações entre o bicho e o político. Estes nada tem daqueles a não ser o bico. Esforçam-se fisicamente para torná-lo o maior possível: basta olharmos para algumas fotos do empresário Gilmar Mentes que se assenta numa cadeira do STF; basta olhar para algumas fotos do desmoralizado FHC que tem apanhado feio em entrevistas com jornalistas internacionais, onde não recebe o tratamento servil, submisso dos entrevistadores brasileiros. Como não têm nem o bico, fazem bico. Como faz bico no Supremo o Gilmar Mentes.

Nosso problema é que suas bicadas no governo do traíra Michel Temer – a que chegaram porque não conseguem chegar pelo voto popular – reduziram este país a função secundária nas relações internacionais; à pobreza definitiva enquanto nação pelo saque de suas riquezas naturais; à miséria de grande maioria da população que nunca deveria ter posto os pés no mercado de consumo atrevendo-se até a frequentar as catedrais contemporâneas, os shopping centers! 

Voltemos à senzala que a Casa Grande sempre destinou o país. Recordemos a frase de um dos ministros das relações exteriores do ditadura militar: “O Brasil não deve aspirar a ser mais do que é”. E o povo não deve aspirar a mais do que servir com alegria aos membros da Casa Grande.

Enquanto servimos de cabeça baixa, eles vão às compras em Miami e às tertúlias em Paris, como outrora iam os filhos d’algo, dos senhores dos engenhos e das fazendas, estudar em Coimbra. E ao estudarem aprenderam, bons descendentes, a manter para sempre os mesmos privilégios, hoje apenas com outros nomes.

Assim é a vida. E ao contrário dos otimistas, não creio que o julgamento da história venha a ser duro com os golpistas. Não será como não foram com os generais da ditadura nem com a mídia que lhes deu suporte, nem com banqueiros e empresariado que lhes deu sustentação econômica e política. No país da falsa cordialidade, jamais houve ou haverá um julgamento político decente de golpistas, sejam eles militares, sejam eles parlamentares.