Os Poderes apodrecem na distribuição do butim

Rompida a ordem constitucional com o impeachment sem crime de responsabilidade, apenas atendendo o desejo dos derrotados que achavam que chegava de brincadeira e precisavam assumir o poder quisesse ou não a população, abriu-se o tempo e o espaço para tudo… E como cada um quer tirar sua casquinha, haja lima para amaciar asperezas!!!

Estou rindo de camarote! Agora até a imprensa está achando que estamos numa crise institucional! Quando não havia crime, mas convicção de que a presidente eleita deveria deixar o cargo, não havia crise institucional… As instituições estavam funcionando as mil maravilhas… Segundo a mesma imprensa imbecilizada pela própria mentira… e o tempo da pós-verdade estava atrás da porta! E a porta começou a se abrir…

Estamos em crise institucional desde que um corrupto reconhecido começou a impedir que o Executivo trabalhasse, com suas pautas-bomba e com seus projetos sabidamente descabidos… Mas então estava tudo certo! Ele precisava desestabilizar o governo eleito. De outro lugar espacial, mas não de outro lugar ideológico, a operação dos santos deuses curitibanos se responsabilizava pela parte substantiva do golpe: destruir a economia nacional para que empresas brasileiras não fizessem concorrência com a matriz onde se formou e de onde trouxe todas as informações para agir como salvador o nosso Santo Juiz. Forças unidas.

Pois jogaram por terra a vontade popular. Assumiram o Executivo. Com votos do Legislativo, com aplauso dos tribunais. O Grande Serviço estava feito. Mas aí começou a confusão! Ou melhor, a defenestração. Cumprida a tarefa, foi preciso se ver livre da musa do impeachment, Eduardo Cunha. Depois de cinco meses com o processo na mão, o ministro Teori Zavacki o afasta do comando da Câmara e do cargo de deputado.

Com a criminalização da política, tudo estava aberto e poderia acontecer, já que as regras constitucionais deixaram de prevalecer um momento, logo poderiam deixar de prevalecer em outros.

NO Executivo, nem esquetaram cadeiras muito menos começaram a trabalhar, e as trapalhadas vieram aos borbotões. E cai ministro, e cai ministro, e cai ministro… parece não ter fim. O último que caiu transformou o próprio presidente em moleque de recados fazendo-o transmitir a outro ministro que queria porque queria a liberação da construção do seu apartamento… Mas dizem que o apartamento é do Lula!!! Geddel é apenas testa-de-ferro. Lula é dono de tudo. E também é avô do El Niño! A Lava Jato tem firme convicção!

E então o Legislativo, já relegado ao ostracismo depois de ter feito o serviço encomendado, com um de seus protagonistas nas garras de Sérgio Moro, e outro nas garras do STF, resolve mostrar a cara!!! E a Câmara altera a vontade dos procuradores… Que desrespeito!!! E ainda aprova que abuso de autoridade é crime. De desfaçatez!!! Saem agentes públicos a dizer que renunciam a fazer aquilo para que são regiamente pagos; um  juiz diz não brinco mais, vou entrar em licença sabático e retorno para meu país.

E esta “vindita” legislativa, incluindo uma tal comissão para verificar salários superiores ao que determina a Constituição, não poderia continuar! Decreta-se monocraticamente o afastamento do presidente do Congresso. E decreta-se açodadamente. Com base numa votação que não se completou e portanto não é coisa julgada. O afastamento de Renan, que não é flor que se cheire, foi um gesto de imposição de autoridade. Afinal, o mandato termina daqui a 9 dias! Afastá-lo agora da Presidência – quando o Supremo tinha um processo em curso há anos e jamais julgou – é um ato com cheiro de revanche! A liminar não precisava ser dada, e se era para ser dada, deveria o ministro não agir com açodamento.

E então, a mesa do Senado não acata a ordem do STF!!! E diz que acata a decisão do STF, não de um ministro do STF. Seria uma discussão interminável de vírgulas e firulas das leis… Sempre encontrarão alguma Ordenação Manoelina que dê razão para um, enquanto Ordenações Joanina dão razão para outro! Tudo em latim ou em juridês. 

A merda foi para o ventilador! Os moços das camisas azuis e barbas escanioadas desapareceram. Em momentos de crise, os ratos vão para as tocas e voltarão depois cagando moralidades e jurisprudências com seus longos ou curtos bicos e biquinhos.

Assisto de camarote. E rio a bom rir! Nem temo pelo futuro, porque ele já era sabido e por isso já não amedronta. Amedrontados estão eles: pensavam que seria fácil, facílimo dividir entre ávidos o butim. Está dando no que está dando.

E só consigo rir. Choro apenas quando a polícia, atônita e pronta para lhes prestar serviços, bate com facilidade, mas já não sabe a quem está servindo dentro imbróglio de golpistas… Mas isso fica para a próxima crônica.

Num só ano, três presidentes afastados

Com o afastamento de Renan Calheiros da presidência do Senado, o ano de 2016 fecha com o afastamento de três presidentes, e com a substituição do presidente de turno do STF. Na forma da lei, Ricardo Lewandoski, aquele que negociou o aumento de 41 nos salários dos servidores do judiciário, em tempos de corte de gastos, passou a presidência para Cármen Lúcia.

Ou seja, neste ano todos os presidentes dos três poderes tiveram seus presidentes ou afastados ou substituídos nos termos da lei. NO caso do Poder Legislativo, os dois presidentes das casas do Parlamento foram afastados.

E ainda há quem diga que as instituições estão funcionando normalmente… Só se pode considerar isso tudo normal se o normal é a crise institucional constante.

Na abertura de evento patrocinado pelo Conselho Nacional de Justiça, com encontro de desembargadores dos distintos Tribunais, a Presidenta do STF, Carmen Lúcia declarou:

“Há enorme intolerância com o poder público, o que nos leva a pensar em soluções para que a sociedade não desacredite no Estado. O Estado tem sido nossa única opção. Ou a democracia ou a guerra. E o papel da justiça é pacificar.”

A atuação do judiciário, no entanto, está mostrando que pacificar é o que menos se quer. Dias Toffoli, ao pedir vistas do processo sobre a impossibilidade de na linha sucessória da presidente não poder constar nome de réu, quando a maioria já havia julgado, mostra o quanto de interesse em não pacificar perdura dentro do próprio STF, na chamada micropolítica interna ao Supremo. O acólito de Gilmar Mentes repete seu gesto, pede vista quando seu ponto de vista está sendo derrotado.

Por outro lado, esta mesma presidente do Conselho Nacional de Justiça com poderes para averiguar os salários que ultrapassam o teto constitucional, cujas regras lhe cabe resguardar, nada faz para que haja qualquer movimento de retorno da confiança no Estado. Quando no Estado um dos poderes se constitui como um estamento social, uma casta, como brâmanes, não adianta vir a público para dizer que “o papel da justiça é pacificar”. Ainda mais quando esta mesma personagem tenta interferir noutro poder, no caso o Legislativo, insistindo através do Executivo, que aquele não examine tema que necessariamente entra em sua pauta, já que regras sobre o abuso de poder foram aprovadas pela Câmara de Deputados. O tema para ela é tabu. Não pode, bem em consonância com os dizeres do supremo juiz, Sérgio Moro, no presente momento. O juiz precisa das excepcionalidades que lhe concedeu o Tribunal de Recursos de Porto Alegre.

Está armada a confusão: o judiciário se tornou político inclusive em suas decisões e obedece piamente ao que quer um juiz de primeira instância; o Legislativo se tornou cúmplice de um afastamento sem crime de responsabilidade de uma presidenta do Executivo; o Executivo está nas mãos de uma camarilha incompetente e obedece rigorosamente os ditames de um partido que perdeu as eleições!

Quem manda? Quem obedece? Parece que manda, de fato, o Poder Judiciário exercendo um papel de poder moderador que não lhe cabe nos termos da Constituição. E tem todo o poder do mundo: tanto para salvaguardar os interesses pecuniários de seus membros e exigir, pelos serviços prestados, aumentos salariais incompatíveis com o momento histórico que vivemos, quanto para destituir o presidente usurpador, pondo em votação o processo que pede a cassação da chapa eleita Dilma/Temer, pedido encaminhado precisamente pelo partido que perdeu as eleições. O mesmo que está exigindo de Temer que execute o papel sujo das reformas que prejudicam a maioria dos brasileiros mas beneficiam a minoria. Depois de executado o serviço sujo, eles querem assumir o comando. Mostrando sorrisos e bondades de que são escassos.

E a Carmen Lúcia querendo que a população acredite neste Estado, em estado de miséria. Aliás, ameaça: “ou democracia ou guerra”. Ora, ela mesmo declarou guerra a um dos três poderes, ameaçando com grave crise institucional se houver lei que reprima abusos de poder do judiciário!!!

Parece que o judiciário está se aprimorando nas ameaças: os procuradores vêm à TV para dizer que se recusarão a cumprir sua função de combate a corrupção; o santo juiz Sérgio Moro ameaça o país com uma licença sabática; e a presidenta do STF ameaça o Congresso Nacional com uma crise institucional… E transforma o presidente da república em menino de recados… e o pior é que ele assume de bom grado este papel ridículo de levar recado de um lado para outro!

Num Estado neste estado, não dá para acreditar: juízes podem agir segundo excepcionalidades a seu bel-prazer; os legisladores ameaçados de processos estão num salve-se quem puder; e o presidente do Executivo é um joguete na mão de interesses mesquinhos que envolvem até apartamentos particulares de seus ministros!

E o dia de amanhã será pior do que o de hoje…  

EM DEFESA DA LUTA CONTRA O ABUSO DE PODER

“Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício: porém ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é.  O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres. Mas Sêneca, que sabia bem distinguir as qualidades e interpretar as significações, a uns e outros definiu com o mesmo nome: Eodem loco ponem latronem, et piratam quo regem animum latronis et piratae habentem. Se o rei de Macedônia, ou de qualquer outro, fizer o que faz o ladrão e o pirata; o ladrão, o pirata e o rei, todos têm o mesmo lugar, e merecem o mesmo nome.” (Pe. Vieira, Sermão do Bom Ladrão)

O dia de ontem foi de manifestações em defensa da operação Lava Jato. E elas ocorreram em todos os estados da federação e no distrito federal. Uma manifestação que se deve levar em conta, apesar de seus grandes equívocos.

Uma coisa com que o país, em uníssono, defendem é a luta contra a corrupção. Uma luta tão antiga quanto àquelas referidas pelo Pe. Vieira em seu famoso sermão do Bom Ladrão, em que também dizia que no Brasil se roubava em todos os tempos e em todos os modos do verbo! E ao longo dos tempos, à medida que o Direito se vai estabelecendo como a forma de regulação das relações sociais, sempre se incluíram normas contra o roubo, fazendo inclusive uma distinção mais moderna entre furto e o roubo quando se trata de surrupiar o bem alheio.

A corrupção é um roubo, em termos modernos, um furto cujo “alheio” de que se apropria pertence a todos: o bem público. Há medidas contra a corrupção em todos os estados. Os corruptos vão encontrando formas de se subtrair à legislação, e a legislação vai sendo modificada para ir coibindo cada vez mais a prática ilegal. Normas jurídicas são históricas. Elas podem avançar ou podem regredir tomando em consideração os valores defendidos por uma sociedade. Numa sociedade autoritária, as normas revelam este caráter autoritário. Numa sociedade democrática, as normas devem revelar este caráter.

É relativamente a este caráter que se desenrola no país uma grande discussão sobre as 10 medidas de combate à corrupção propostas pelo MPF com a assinatura de 2 milhões de pessoas, tomadas nas praças sem a leitura do que se propõe.

Ninguém é contra o combate à corrupção. Mas pode ser contra normas que representem um retrocesso à barbárie, quando tribunos perseguiam inimigos porque a lei lhes permitia. Assim, nem tudo o que propuseram os ilustríssimos membros do ministério público representa progresso na legislação. Ao contrário, há retrocessos evidentes.

Entre estes retrocessos, seguramente a proposta de validar provas obtidas ilicitamente desde que de boa fé!!! Isto abre o campo para a prática de qualquer ilícito em nome da boa fé, para obter uma prova para condenar inclusive qualquer desafeto do poder. Também a figura do “reportante do bem”, que paga por uma ação que deveria ser ditada eticamente e não por interesse financeiro! Aqui o que cabe é o anonimato do informante, o que já existe na lei! Pagar é tipicamente um gesto que abre para a cobiça e para a denúncia vazia! Se colar, colou. Se me sobrar, sobrou. Mas não perco nada, afinal sou “reportante do bem” por princípio legal. O anonimato me salva até de um processo por calúnia…

Cabia ao Parlamento examinar isso tudo, por dever de ofício. Não se pode desejar que uma proposta apresentada para a nação seja aprovada in limine porque feitas de boa fé, por sujeitos imbuídos das melhores intenções, como se apresentam os procuradores, mas que se revelam absolutamente longe disto ao declararem que não cumprirão com seu dever porque o que queriam não foi aprovado… Típica atitude do dono da bola: estou perdendo, o jogo acabou e carrego a bola para casa! É engraçado que manifestantes não liguem “tico” e “teco”, entre os proponentes das medidas e os cidadãos encarregados de uma função pública que se recusam a cumpri-la. Isto também é crime (prevaricação?).

Mas não são as mudanças nas regras de combate à corrupção que movem os procuradores e os juízes. Foi a inclusão nestas medidas de regras de combate ao abuso de poder que os movem. E os movimentos da direita brasileira – o Vem pra Rua e o Movimento Brasil Livre – confundindo dois assuntos distintos – o combate à corrupção que é desejo unânime da nação e as regras de outro combate necessário, o combate ao abuso do poder, pondo tudo no mesmo saco, levam a população às ruas. Num apoio de cheque em branco aos agentes da operação Lava Jato, mesmo quando ilegalidades foram cometidas por estes agentes, como observaram no mínimo dois ministros do STF:  Marco Aurélio de Mello e Teori Zavacki, sem que estas ilegalidades tivessem qualquer punição que sofreria um cidadão comum se cometesse ilegalidades.

A decisão da Câmara de incluir as normas de combate ao abuso de poder junto com as normas de combate à corrupção pode não ter sido oportuna quanto a seus aspectos formais, mas é oportuníssima quanto a seus aspectos substantivos. Há que melhorá-las? Sim. Como há que melhorar as normas de combate à corrupção. Toda a norma jurídica é histórica e sempre pode ser melhorada (ou pode ser a forma de retrocesso social: afinal, no mundo nazista havia normas, inclusive a do reportante do bem e a da presumida sempre boa fé dos agentes da Gestapo: tudo dentro da lei, inclusive os campos de concentração).

Tem razão o Senador Requião: infelizmente nas tão propagadas 10 medidas há um cunho nazi-fascista que precisa ser extirpado para que não venhamos a ter, no futuro, espantos com os resultados sociais da aplicação do “direito” em que o estamento jurídico pode fazer o que quiser, somente sendo corrigido por tribunais superiores. Quem pagará pelo tempo em que injustamente uma pessoa ficou presa? Ninguém, a não ser o próprio injustiçado!!! E isso já ocorreu na Lava Jato! Cidadãos que se tornam juízes, promotores e procuradores não se tornam automaticamente ilesos a paixões políticas, a enganos, a erros evidentes como erros cometidos pelo juiz Sérgio Moro, que se julgando uma unanimidade nacional, acima do bem e do mal, com direito a excepcionalidades defendidas em tribunal superior, não admite qualquer crítica como ficou claro na audiência pública sobre a lei de abuso de autoridade, presidida pelo relator da comissão, Senador Richa e a que compareceu Gilmar Mentes para criticar os abusos do juiz!

De forma mais sub-reptícia, o juiz faz a mesma ameaça social que estão fazendo os procuradores: sairá em licença sabática para estudar nos EEUU (como sempre, pois foi de lá que veio com informações suficientes para desencadear a Lava Jato, e é para lá que envia informações para que empresas brasileiras paguem pesadas multas, numa transferência da riqueza nacional a outro país por crime cometido dentro do nosso país!!!)

Assim, como cidadão apoio o combate à corrupção, um dos motivos das manifestações de ontem: mas não apoio em hipótese alguma que não se combata o abuso de poder numa sociedade como a nossa em que o coronelismo da direita sempre abusou à vontade, em que a casa grande jamais foi condenada por isso.

E como o Pe. Vieira, sei que neste país nunca os poderosos foram condenados. E somente estão sendo condenados agora alguns porque perderam o poder (inclusive o poder econômico das empreiteiras que precisavam ser punidas para não mais concorrerem no Oriente Médio e na África com as empreiteiras norte-americanas, que esta é a questão de fundo da Lava Jato). E como o Pe. Vieira sabemos que aqueles que estão no poder de fato, ligados ao roubo diário do rentismo, não serão condenados (aliás, nem investigados apesar de serem constantemente delatados, como são os casos de Aécio Neve e Geraldo Alkmin, o que desvela a orientação partidária da investigação da Lava Jato, conduzida inclusive por procuradores e delegados que formavam um comitê informal de apoio à candidatura de Aécio Neves à presidência).

Quem viver, verá, como terminou um de seus discursos o Senador Richa. 

um domingo com Mia Couto

POESIA

O OUTRO IDIOMA

Inquirido

sobre sua fluência

em português, respondeu:

– Tenho duas línguas:

uma para mentir,

outra para ser enganado.

 

A professora

ainda perguntou:

E qual delas é o português?

 

– Já não me lembro, respondeu.

(Mia Couto. Idades cidades divindades. Lisboa : Caminho, 2007)

REFLEXÃO

Tio Afrânio diz: todos

temos duas eternidades, a vida e a morte.

Pena é que uma delas seja tão breve.

 (Mia Couto. Primeira estrofe de “Lamentos de tio Afrânio (1). Idades cidades divindades. Lisboa : Caminho, 2007)

 

BALZAC LÊ STENDHAL

Nestes acasos da vida, veio parar em minhas mãos uma edição de 1948 de A Cartuxa de Parma (tradução de Vidal de Oliveira, Editora Globo), de Stendhal, pseudônimo de Henry Beyle. A edição abre com um estudo de Honoré de Balzac e contém ainda uma carta de Stendhal a Balzac respondendo aos comentários do grande escritor francês. Suponho que as edições posteriores da obra contenham estes mesmos textos.

É muito instrutivo ler este “Estudo sobre Henry Beyle”, que foi publicado na França em revista de estudos literários da época. Provavelmente o texto de Balzac (no livro não há data de sua publicação) é de 1838 ou 1839, já que a resposta de Stendhal é de 30 de outubro de 1840.

O estudo, extremamente elogioso, inicia-se com uma tipologia das obras literárias. Segundo Balzac, naqueles tempos, havia três correntes literárias, que ele denomina de Literatura das Imagens, Literatura das Ideias e Ecletismo literário. Obviamente não ele não quer dizer que os romances mais líricos não tenham ideias, nem que os romances mais que caracterizam a segunda corrente, “a rapidez, o movimento, a concisão, os choques, a ação, o drama, que fogem à discussão, que pouco apreciam os devaneios e que gostam dos resultados” também não contenha imagens. À terceira corrente o autor dá pouca atenção e apenas nos diz que Walter Scott satisfaria “completamente essas naturezas ecléticas”, ainda que no decorrer do estudo, o nome de Scott volte a aparecer com frequência. Diz Balzac: “Entretanto, seja qual for o gênero de onde proceda uma obra, ela não perdura na Memória Humana senão obedecendo às leis do ideal e às da Forma”.

É à literatura de ideias que ele filia Stendhal. Estaria na esteira de um Votaire. Para ele “a ideia exige um trablaho de desenvolvimento que não condiz com todos os espíritos”. No lado oposto, representado por Vitor Hugo, estariam os romances de imagens, de gosto popular.

A primeira grande comparação entre o romance A Cartuxa de Parma é com O Príncipe, de Maquiavel. Para Balzac, Stendhal “escreveu o Príncipe moderno, o romance que Maquiavel escreveria se vivesse banido da Itália no Século XIX”.

À medida que o estudo vai apresentando a obra, retomando seu enredo na corte de Parma, vão aparecendo os episódios principais de todo o romance, ambientado na corte de Ranuccio Ernesto IV (e de seu sucessor, Ranuccio Ernesto V), no pequeno reino de Parma.

A personagem forte do romance é Angelina (Gina) del Dongo, que se casa contra a vontade de seu irmão Marquês de Valserra, com um conde Pietranera, pobre e sem vintém, em Milão. Viúva, Angelina se tornará mais tarde esposa de outro conde, o Conde Sanseverina-Taxis da corte de Parma, num arranjo organizado por seu amante o Conde Mosca, uma espécie de primeiro ministro de Ernesto IV e depois de seu sucessor. Assim, Gina transfere-se de Milão para Parma onde imperará na corte. Mas Gina e seus amores não constituiriam o romance se não houvesse Fabrício, o sobrinho bem-amado da Condessa Sanseverina. Ela tudo faz por este sobrinho perseguido pela Áustria porque pertencia ao partido francês (Napoleão) e se apresentara para lutar em seu favor na batalha de Waterloo…

Por Fabrício, a condesse nutria mais do que o simples amor de tia, amor não correspondido pelo jovem que depois de muitas peripécias, enamora-se de Clélia, um general das hostes de Ernesto IV, guardião da Fortaleza em cujo presídio acabou sendo enclausurado.

Não interessa aqui tomar todo o enredo do romance – isto fica para um registro posterior. O que é preciso salientar é o estudo de Balzac, que vai retomando este enredo e seus personagens, tecendo comentários elogiosos à sua construção por Stendhal, o “autor que tudo inventou, tudo desenredou”, obviamente com lastros na história do reino de Parma. A escolha desse ambiente, de uma pequena corte, para o desenrolar dos amores de Gina, do amante Conde Mosca (posteriormente seu marido quando enviuvou) e de Fabrício, passando pelos próprios príncipes que também se enamoram por Gina, esta escolha foi proposital como diz na carta a Balzac o próprio Stendhal: “a Chartreuse (Cartuxa) não se podia referir a um grande Estado como a França, a Espanha, Viena, por causa dos detalhes da administração”. E como o autor diz, “procuro narrar com verdade e clareza o que se passa em meu coração. Só vejo uma regra: ser claro”, seria necessário para uma Literatura de Ideias tem inteiro domínio do modo de funcionamento da corte e da administração do reino.

A opinião de Balzac sobre o romance pode ser sintetizada neste longo parágrafo:

Essa grande obra não pôde ser concebida e executada senão por um homem de cinquenta anos, em pleno vigor dos anos e na maturidade de todos os seus talentos. Percebe-se a perfeição em tudo. O papel do príncipe está traçado com mão de mestre, e é, como já lhes disse, o Príncipe. Concebemo-lo admiravelmente como homem e como soberano. Se esse homem estivesse à frente do império russo, seria capaz de conduzi-lo, seria grande; o homem, porém, esse permaneceria o que é, suscetível de vaidade, de ciúme, de paixão. No século XVII, em Versalhes, ele seria Luiz XIV e se vingaria da duquesa, como Luiz XIV de Fouquet. A crítica nada pode censurar tanto ao maior como aomenor dos personagens; todos são o que deviam ser. Aí está a vida e sobretudo a vida das cortes, não caricaturada como Hoffmann tentou fazê-lo, mas descrita séria e maliciosamente. Enfim, este livro explica admiravelmente tudo o que a camarilha de Luiz XIII fazia Richelieu sofrer.

Balzac também apresenta duas críticas à obra de Stendhal: inicialmente à estrutura da própria obra. Fabrício é o herói; e sendo a história dele a ser contada – afinal o próprio título do romance remete ao fim de Fabrício, que abandona o arcebispado de Parma e recolhe-se à Cartuxa, pesaroso pela perda da amante, diz o crítico que o personagem deveria ser melhor construído, revendo todo o esquema geral do romance dando  a Fabrício realmente o papel preponderante; em segundo lugar, critica o estilo, que toma como o arranjo das palavras na frase, mas o reduz de fato à crítica de erros gramaticais de Stendhal.

A segunda crítica perde por completo o sentido para quem lê Stendhal na tradução e por isso não posso comentar; quando à primeira, relativamente a Fabrício, parece-me que as primeiras 150 páginas vão apontando para um “romance de formação”, passando Fabrício pelas “provas” desta formação. Se a emergência forte da Condessa, sua tia e sua protetora, aparece suplantando o próprio herói, não dá para esquecer que esta age em função dele e para ele. Um herói fraco, às vezes infantil, com que Stendhal talvez quisesse retratar um pouco a juventude “aristocrática” sem herança, abriu espaço para uma personagem mais forte que passa dominar a narrativa. Na carta-resposta, Stendhal confessa que abomina um plano totalmente pré-dado e revela que ao narrar a narrativa vai se fazendo, vai se impondo e todo o projeto prévio sofre deste modo de elaborar seus romances.

Por fim, chamaram minha atenção alguns elementos deste estudo (e da carta resposta de Stendhal):

  1. Ao falar sobre A Cartuxa de Parma, Balzac remete a tantas obras, a tantos personagens, a tantos autores que me lembra o que me disse um dia uma militante da crítica literária: a esta cabe o papel de situar cada obra no contexto das demais obras literárias. A título de curiosidade, fiz um levantamento ligeiro dos romances referidos: Notre-Dame, Manon de Lescaut, A profissão de fé do vigário saboiardo, Cândido, O diálogo de Sila e de Eucrate, A grandeza e a decadência dos romanos, As provinciais, Gil Blas, Corsário, Puritanos, O príncipe, Atala, Le lépreux de la vallée d’Aoste… O número de autores citados é muito maior.
  2. Como grande analista da burguesia (e defensor da aristocracia), Balzac não esconde certa misoginia, compartilhada por Stendhal, que se desvelam em passagens como

“O escritor e o pintor serão sempre fieis a seu gênio, mesmo em presença do cadafalso. Isso não existe na mulher. O universo é o estribo de sua paixão. Por isso a mulher é maior e mais bela do que o homem, nesse particular. A Mulher é a Paixão, o Homem é a Ação. Se assim não fosse, o Homem não adoraria a Mulher.”

“Uma mulher de quarenta anos não é mais alguma coisa senão para os homens que a amaram na sua mocidade”(reflexão da personagem Duquesa Sanseverina).

“As mulheres não têm senão um pensamento: o de achar um meio de serem presentadas com um chapéu de França pelo marido.” (carta de Stendhal a Balzac referindo-se ao ambiente vivido em Civita-Vecchia, onde escreveu A Cartuxa de Parma).

  1. Outras passagens que merecem destaque:
  2. 1.Sobre a monofonia dos diálogos de Vitor HJugo: “O diálogo de M. Hugo é por demais sua própria palavra, não se transforma suficientemente, mete-se no seu personagem, ao invés de tornar-se o personagem.”
  3. 2.“Os grandes políticos afinal de contas não são mais do que equilibristas que, por falta de atenção, veem esboroarem-se seus mais belos edifícios.!
  4. 3.“Em todos os misteres, os artistas têm um amor-próprio invencível, um sentimento da arte, uma consciência das coisas que é indelével no homem. Não se corrompe, não se compra nunca essa consciência. O ator que mais mal deseje a seu teatro e a um autor, jamais representará mal o seu papel por isso.”
  5. 4.“O amante pensa com mais frequência em chegar junto à amante que o marido em guardar a esposa; o prisioneiro pensa mais vezes em fugir do que o carcereiro em fechar suas portas; portanto, apesar dos obstáculos, amante e prisioneiro devem alcançar seus fins.”(reflexão do personagem Fábio Conti, governador e guardião da Fortaleza)
  6. 5.“O ancião apaixonado é sublime!”
  7. 6.“O Sentimento é igual ao Talento. Sentir é o rival de Compreender, como Agir é o antagonismo de Pensar.”

Para mim, o interessante deste estudo de Balzac ao ler Stendhal, é a demonstração de que um escritor, para sê-lo, é um leitor. Não o fosse, não haveria tantas referências a autores, obras e personagens (ficcionais ou históricos). Ao mesmo tempo, nesta corrente que Balzac chamou de Literatura das Ideias, parece haver um compromisso também com a verdade, com o pensamento, “um amor exagerado pela lógica” (diz Stendhal), o desejo de ser claro e conciso (Stendhal diz que “Enquanto compunha a Chartreuse, para por-me no tom eu lia todas as manhãs duas ou três páginas do Código Civil, a fim de ser sempre natural; não quero, por meios artificiais, fascinar a alma do leitor.”).