É preciso processar Miguel Nagib. Professores não são estupradores

Até agora considerava que a tal proposta de uma Escola Sem Partido (ou sem Pensamento) era algo tão risível que não merecia atenção! Para mim, a irracionalidade era tão evidente, que imaginava que um movimento em sua defesa cairia por si em seu ridículo e em sua ignorância. Isto porque o Iluminismo de um conhecimento neutro já foi deixado para trás há muito tempo, no mínimo há um século, ainda que persistam núcleos cá e lá de um positivismo fora de propósito que acredita dizer a verdade, quando a verdade é uma construção temporal.

Mas agora tomo conhecimento de certas acusações que não podem ficar sem resposta. Trata-se das afirmações de um tal de Miguel Nagib, líder deste movimento. Pelo que consegui saber, trata-se de um procurador do Estado de São Paulo. Um agente público que propôs uma solução para o funcionamento do sistema judiciário: cobrar altos preços para qualquer recurso que impetre um demandante. Assim, segundo ele, a justiça (não importa se errando ou acertando) daria resoluções mais rapidamente e somente quem tivesse muito dinheiro poderia recorrer de decisões consideradas fora da lei! Ou seja, o sistema judiciário funcionaria adequadamente para os ricos; e para os outros do modo que quisesse e interpretasse qualquer promotor acusador ou qualquer juiz, mesmo que com base em preconceitos sociais.

Pois este senhor, ignorante de qualquer discussão epistemológica sobre os modos de produção do conhecimento, sobre a relatividade das teorias, vem a público achincalhar professores das escolas brasileiras, chamando-os de “burocratas” e comparando-os a “estupradores”.

E explica: enquanto burocratas, cabe aos professores transmitir os conhecimentos selecionados pela autoridade, sem qualquer juízo de valor quer a respeito destes conhecimentos, quer a respeito da história de sua produção e consequências. Tomemos apenas um princípio de que a natureza tudo transforma e reequilibra. Tal princípio, que provém da ciência neutra em que tempo e espaço são variáveis não significativas, está produzindo ao longo do tempo consequências ecológicas importantes e destruidoras do planeta. Ora, o fundamento que sustenta o princípio está na invariabilidade do tempo e espaço para a ciência! Einstein já mostrou que isso foi um erro da modernidade. Se foi um erro, os princípios que decorrem deste fundamento também são problemáticos. Logo, ensinar ciências (mesmo as ciências chamadas erroneamente de “exatas”) não pode ser feito simplesmente transmitindo informações e teorias.

Mais, teorias são modelos de compreensão da realidade física e da realidade social. Ignorar que são modelos falíveis e ignorar que estes modelos acabam por constituir as formas com que nossas consciências compreendem o mundo, é de uma imbecilidade tamanha que, ingênuo, pensava eu que o movimento era de alguns poucos imbecis.

Pois o tal Miguel Nagib vai a Câmara Federal. Fala alto e bom som para os “representantes do povo”. É aplaudido por dois ou três deputados. Enquanto diz besteiras, outros deputados fazem cara de paisagem. Uns poucos reagem. Os aplaudidores e os “caras de paisagem” aprovarão o projeto de lei se assim o quiser quem os comanda.

Foi neste espaço de uma audiência pública, que este senhor Miguel Nagib expôs ideias tão ultrapassadas, tomando todo servidor público como um burocrata – o Presidente da República, no exercício de seu mandato, é um servidor público, logo um burocrata – que deve somente cumprir o já determinado (sem discussões sobre quem determina e o que determina).

Santa Paciência!!! Meus ouvidos não são penico! As pessoas podem pensar o que quiserem. Defendo o direito à livre expressão, mas este sagrado direito não dá direito a se dizer asneiras em público nem produzir comparações ou analogias ofensivas a uma classe de trabalhadores, sejam eles quais forem.

Ao defender que os professores são “estupradores” de consciências infantis, este senhor nega até mesmo os valores que prega dentro de sua família, porque tornaria todos os pais em estupradores: afinal, eles defendem valores também. Ah! É na escola que não podem existir valores. Mas ao mesmo tempo um sujeito como este admite a existência de escolas privadas, algumas confessionais. Seriam estas sem valores??? São procuradas pelos pais porque não defendem valores semelhantes aos seus? Ora, a escola pública é laica, mas não sem valores.

Quando iniciei minha carreira de professor, pensava eu que bastava saber minha matéria para dar aulas. Caiu-me nas mãos um hoje velho livro, Ensinar não é transmitir, de Juraci Marques. E isso há cinquenta anos! Agora, vem um imbecilizado senhor defender que ensinar é transmitir informações, algo que toda a pesquisa pedagógica e sociológica já criticou e abandonou.

A comparação feita por Miguel Nagib não pode ficar sem resposta: cabe à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação – CNTE, e a cada sindicato da categoria em cada estado e, quando existentes, em cada município, entrarem com ação na justiça. A categoria dos professores foi ofendida com a comparação feita. A direita não pode dizer impunemente o que quer, quando quer, onde quer. Esta direita de hoje é tão retrógrada que, para ela, até mesmo duas disciplinas introduzidas pelo regime militar seriam revolucionárias e avançadas: “Educação Moral e Cívica” e “Organização Social e Política Brasileira”. Nelas, discutiam-se valores em sala de aula! E aberta a discussão, não se pode garantir qualquer lavagem cerebral, como quer hoje o movimento Partido Sem Escola, porque encher a cabeça de crianças com informações sem saber seus sentidos é uma lavagem cerebral que produz, para além de um sentimento de “segurança” inexistente, um sentimento de impotência e ignorância porque nunca um sujeito somente informado será produtor de conhecimentos e sempre será um sujeito que jamais saberá todas as informações disponíveis em qualquer área do conhecimento.

O movimento Escola Sem Partido quer a formação de uma geração futura Sem Cabeça, Sem Potência, Sem Projetos de Futuro, Sem Consciência! Porque tudo isso somente se constitui em nós pela crítica aos valores que fundam as práticas científicas e as práticas sociais, dentro das quais vivemos, mas que podemos transformar, como nos mostra a História: afinal elas não foram sempre assim e não serão sempre assim, mesmo que milhares de Migueis Nagibes queiram manter tudo como está para se locupletarem com a abissal diferença social que caracteriza este país. 

Lamentos domingueiros

Tio Afrânio diz: todos

temos duas eternidades, a vida e a morte.

Pena é que uma delas seja tão breve.

 (Mia Couto. Primeira estrofe de “Lamentos de tio Afrânio (1). Idades cidades divindades. Lisboa : Caminho, 2007)

 

PAREM O BRASIL QUE EU QUERO DESCER!

HÁ! Brasal que o Cabril descobriu,
ponte que partiu,
esta acabando seu brilho…
Sera que sou poeta engraçado?,
enxergando tudo errado,
faço um trocadalho do carilho…
Onde foi aquele fio da zunha,
cuja alcunha, é Cunha,
escondeu-se em Itapecerica?…
Misture tudo nos tabuleiros,
Temer, Aecios.,Calheiros,
chamem logo o Tiririca…
Coxinhas contra Mortadelas,
Meu Deus! são muitas quirelas,
mais do que eu possa entender…
Meu saco esta cheio, não suporto mais,
será que e pedir demais,
para o Brasil que eu quero descer…
Kleber desabafo cidadão

kleber bernardes

Textos sobre textos: 13 bruxas entre o espelho e a alma

Textos sobre textos: 13 bruxas entre o espelho e a alma

SOU A MULHER QUE CHORA E SE ACALMA(1)

As imagens que os muitos espelhos mostram são infinitas. O espelho não se cansa de projetar em si o que lhe é exterior. O que pertence ao espelho que lhe seja próprio além da sua própria materialidade visível no que de fora mostra?

Nesta prosa poética, Ana Maria Lourenço de Azevedo nos desvela o movimento entre o espelho e a alma. E para fazê-lo nada melhor do que encontrar as bruxas de um acróstico que nos fornece uma chave – não de leitura porque esta não há. Mas chave com que o leitor pode abrir sua alma num espelho feminino, negro e sem manchas, viajando também ele imaginativamente pelas palavras e histórias que lê reencontrando histórias tantas ouvidas e esquecidas numa memória ocupada pelo necessário do momento e desconhecedora de que o vagar da vida se faz de vagar.  

Este 13 Bruxas entre o espelho e a alma é confessadamente um livro escrito no entrelaçamento do vivido e do imaginado. Realidade e ficção. No percurso do real palmilhado pela autora, sobressai-se a escuta. A escuta das narrativas que ouve em Santa Luzia de Itanhy, de mulheres dos lugarejos que compõem este lugar mas que compondo não se perdem mas se afirmam, permanentes e calmos. Narrativas de mulheres que viveram também em outros lugares como Itabaiana ou Aracaju. Esta viagem que se desloca pelo espaço e pelo tempo, esta cronotopia inspirará a retomada que a autora faz do vivido e ouvido pondo a circular as vozes de suas mulheres ao mesmo tempo que faz ouvir sua própria voz fazendo-nos ver o que vê e nos convida para ver: “Mergulhe comigo e verás o que vejo”.

Como os olhos são outros, sabemos antecipadamente que não veremos o que viu: o desejo de ver pelos olhos de Anastácia é o desejo para sempre condenado a sua não realização. Ainda assim, com os olhos que trazemos, enquanto leitores, acompanhamos os olhos e ouvidos de quem, narrando, nos diz o que enxergou na imaginação sua e das outras que lhe narraram os acontecidos.

Há aqui um jogo de vozes que entremeiam a fala da narradora que se explica, criando um suspense que nos enrola e nos faz querer chegar logo às bruxas. Mas sem este suspense que explicando filosofa sobre o viver, perde-se a graça do que conta Francisca, a testemunha ocular do Congresso das Bruxas que chegam voando em suas vassouras no mundo encantado da floresta. Escondida e estonteada pelo que vê, Francisca resolve que na vida a que retorna

– Quero me perder para me achar. Nunca pensei que um dia fugiria de minhas crenças tão reais.

Para perder-se há que “fugir das crenças”, e no caso nosso de contemporâneos de uma sociedade que escolheu a rapidez, a velocidade como seu apanágio, significa sentar-se comodamente para ouvir histórias de um passado ainda presente, com o vagar que a vida merece. Recuperar esta capacidade que Benjamin diz estarmos perdendo.

Ler este livro é começar este “perder-se”. Ele está cheio de simbologias, muitas das quais nos escaparão. Traz à baila a mitologia. Dialoga com outros modos de viver e outros modos de dar sentido à vida. Como há simbologias claramente expressas, aponto aqui para aquelas que jogam com os números. Sobre os sentidos do número 13, que aparece deste o título, nos fala a narradora. Mas há outros números que chamarão atenção do leitor. O livro contém 7 atos, iniciados poeticamente. Sete é o número cabalístico fundamental. É também o número da mentira, da ficção, do imaginário. São 7 os dias da semana, uma medida que inventamos para contar o mito da criação do mundo e encontrar o dia do descanso num continuum que não se mede em semanas, meses ou anos. A natureza nos dá o dia, entre o sol e a lua. A natureza nos dá as fases da lua, mas não nos dá os meses do calendário! A natureza nos dá as estações e seu eterno retorno, como retorna o sol a cada dia e a lua quando de nós não se esconde. Os ciclos, não os anos. Mas nós inventamos o 7 e nos mentimos para nos sentirmos seguros.

Também há o 13, este outro número mitológico, a Trindade e seus mistérios. A trindade do homem, da mulher e do filho: esta a trindade que faz brotar a vida no útero, símbolo não só da fertilidade mas também feminilidade e do aconchego do mundo. O 3 aparece na forma narrativa deste livro: as bruxas aparecem três vezes.

Primeiro elas aparecem em seu Congresso e fazem suas oferendas. Depois aparecem como mulheres com suas vidas vividas entre nós e então suas histórias são contadas. Por fim, e pela terceira vez, aparecem com seus desejos. Os generosos desejos femininos.

Das oferendas. Francisca, a narradora que entrega seu relato a outra narradora que nos fala, vê as seguintes oferendas: Efigênia traz o sino de ouro e prata, traz o som; Severina traz a taça de crista, o símbolo do ventre fecundo que recebe e dá; Perpétua traz a varinha mágica com que desenha o círculo, símbolo do infinito que redobra o nome de Perpétua; Lucinda traz o manto que agasalha como mãe; Hermengarda traz o amuleto, uma concha dos mares para espantar os males; Olívia traz a vassoura, básculo que simboliza o poder mas também a limpeza, a purificação; Domingas com seu caldeirão, um ventre em que as misturas produzem a magia; Aurora traz o espelho que reflete sem manchas; Lupicínia e a bola de cristal das profecias, da leitura do futuro; Margarida entrega o pentagrama com a estrela de cinco pontas da energia feminina; Anastácia traz a chave que abre cadeados que guardam segredos, o passado, mas também abre portas que descortinam horizontes futuros; Estefânia e Amália, não referidas nas ofertas presenciadas por Francisca, abrem o espaço para que o leitor lhes atribua, depois de ler suas histórias e seus desejos, que oferta trouxeram ao altar do seu Congresso.

A segunda aparição são das histórias das mulheres que cá viveram e para cá retornam em seus voos noturnos. Cada uma delas se apresenta e representa características do feminino contemporâneo: o amor, a pressa, o desafio, a exposição, a construção, a sedução, a arte e engenho, a poesia, a felicidade, a descedência, a sensibilidade e a maternidade. Cada história, com os percursos trágicos e sempre amorosos condensam o que o mundo nos faz ser. Impossível trazer para cá cada história porque isso representaria tirar a surpresa que tão engenhosamente a narradora foi construindo para nos surpreender.

Na terceira e última aparição cada bruxa-mulher expressa seu desejo. Há nestes desejos dois aspectos que se repetem na sua multiplicidade – já que o 13 é o número da sorte e do azar e por isso mesmo das possibilidades infinitas. Trata-se da presença de generosidade, uma qualidade tipicamente feminina e da entrega amorosa do corpo e da alma ao viver intensamente o dia e seus trabalhos, o descanso e o seu prazer.

Aos que tiverem a coragem de enxergar o mundo pela ótica da imaginação feminina, 13 Bruxas entre o espelho e a alma concede a oportunidade feliz de um encontro consigo mesmo diante de um espelho que, por feminino, obriga a revermos nossa insensibilidade diante da vida.

Nota

  1. Publicado como prefácio do livro, lançado em novembro de 2016.

    

Professores: profissão em extinção sob ataque do PSDB

O ataque a todas as políticas sociais que vem sendo perpetrado pelo governo Temer tem resposta pronta de governos estaduais do PSDB. O modelo que pretendem implantar em todo o país está em execução em Goiás, em Mato Grosso do Sul, no Paraná…

Todos sabemos que pesquisas entre jovens sobre as profissões desejadas no futuro, raramente aparece a opção “ser professor”. Ainda que convivam diariamente com professores, ainda que possam ter professores amigos, ainda que respeitem seus professores ou ao menos alguns deles que poderiam ser seus modelos no futuro se viessem a ser professores, a verdade é que os jovens não querem esta profissão para si mesmos.

A consequência disso está aparecendo até mesmo para os cegos dirigentes da educação brasileira: os cursos de licenciatura estão esvaziando. Inúmeras faculdades particulares fecham cursos por deficitários. Ou demitem seus professores e contratam estagiários para formarem novos professores, rebaixando cada vez mais os cursos iniciais de formação.

E o governo federal entra no jogo, jogando pesado: a reforma do Ensino Médio permite, por lei, que qualquer profissional de qualquer área se torne professor por notório saber… Como a reforma não especifica que estes “notórios saberes” somente se aplicariam às áreas de conhecimento nas chamadas opções de formação profissional, mas abrem para qualquer outro componente curricular, com a ausência de empregos, engenheiros serão professores de matemática, engenheiros químicos, com a retração do mercado – a destruição da cadeia produtiva na área do petróleo – se tornarão professores enquanto as coisas não melhorarem… E como há advogados a cada esquina, não lhes custará fazerem uso do notório saber e se transformarem em professores de língua portuguesa, literatura e o escambau!

Mas estes ataques todos são fichinha perto do que estão fazendo os governadores de Mato Grosso do Sul e do Paraná, ambos do PSDB. Em nome de uma reestruturação, neste ano não renovaram contratos de trabalho com professores num número assustador: no Mato
Grosso do Sul perderam o emprego nada menos do que 4.800 professores; no Paraná, Beto Richa não renova o contrato de quase 10 mil professores, numa verdadeira campanha contra o futuro da população de baixa renda (que não interessa jamais ao PSDB, afinal ele é um partido de massa cheirosa, como disse um dia a colunista Eliane CASTAnhêde, pertencente à casta).

Como conseguiram estas “economias” estes governadores de camisas azuis, manga longa, cara escanhoada, “limpa” (a aparência é fundamental!), a maioria deles bons moços, de boa procedência, filhos-família, filhos d’algo, fidalgos no desejo,  exemplos para os coxinhas mal postos na vida?

Richa fez uma interpretação esdrúxula: como os professores tem direito, por lei federal, a 1/3 de horas-atividade, fez um cálculo simples – os contratos dos professores são de 20 horas; como a hora-aula é de 50 minutos (10 minutos sempre foram considerados intervalos entre uma e outra aula), então num total de 20 horas-relógio de cada professor, ele teria 13 horas em sala de aula (com algumas vírgulas a mais) e 7 horas-atividade. Como em aula ele está a cada vez 50 minutos, fica devendo 10 minutos. Em treze aulas, sobram 130 minutos, ou seja, poderão dar mais duas horas-aula, subindo de 13 para 15 horas de sala de aula, obrigatoriamente. Assim, todos os professores da rede tiveram um acréscimo de 2 horas-aula cada um. Como o aumento de número de alunos por turma, como reorganização – algo com que sonha dia e noite o governador tucano de São Paulo para sobrarem alguns prédios em zonas valorizadas pelo mercado imobiliário, para por à venda o patrimônio público com urgência, que é a única coisa que sabe fazer, vender, vender, vender – o Sr. Richa, que faz jus ao nome, conseguiu não recontratar professores. Deixou jovens recém formados, que estavam muitos deles pagando as prestações do FIES, na rua da amargura… Enquanto isso, no Palácio, locupletam-se com jantares e regabofes cujos custos jamais saberemos… ao bom estilo Michel Temer.

Como fez para demitir 4.800 professores o governador do Mato Grosso do Sul? Seguindo a mesma cartilha do PSDB. Este é o modelo que eles querem implantar no país inteiro. Um país de desempregados, sem educação escolar, defendendo alegremente junto com os mais tacanhos membros do Tea Party norte-americano que educação e saúde são bens, e bens tem que pode pagá-los!

Isso tudo até que os pobres façam dos ossos dos seus armas para derrubar esta canalha que se julga por direito divino a única que merece usufruir da riqueza produzida por todos, como um dia profetizou D. Hélder Câmara, durante outra ditadura. 

PÓSVERDADE, DOGMATISMO E EDUCAÇÃO ESCOLAR

PÓSVERDADE, DOGMATISMO E EDUCAÇÃO ESCOLAR

Publico hoje um texto de autoria do Prof. Antonio Carlos Rodrigues de Moraes. Creio que é um texto que merece publicação e divulgação.  

PÓSVERDADE, DOGMATISMO E EDUCAÇÃO ESCOLAR

11.02.2017
A disseminação de notícias falsas nas redes sociais tornou-se objeto de preocupação universal, principalmente após as últimas eleições norte americanas. Há hoje uma forte mobilização em torno do assunto, desde propostas de contra-ataque dos administradores da maior rede social, o Facebook, até um debate programado pelo Conselho de Comunicação Social do Senado para o próximo mês de abril. Os jornais tradicionais começam também a se mobilizar, colocando-se como a mais legítima instância de investigação da chamada pós verdade, já que possuem quadros técnicos bem preparados para tal e, sobretudo, credibilidade para apresentação dos fatosemsuarealidade.

É fato que as notícias falsas cada vez mais se proliferam nas redes. Mas, há que se discutir, em relação à chamada grande mídia tradicional, dois aspectos de fundamental importância: primeiro, se o pressuposto de sua credibilidade é sólido e, em segundo lugar, a relação que pode existir entre a manipulação da mídia, pelo ocultamento, deturpação e seletividade de notícias, e a intensificação de informações, verdadeiras ou falsas, na mídia marginal (no bom sentido).

Em seu livro sobre Chateaubriand, Fernando Morais retoma um memorável diálogo do grande barão da mídia, antes dos Marinho, com o jornalista David Nasser. Chatô não gostou de um artigo do jornalista e o recriminou dizendo que se quisesse ter opinião própria que comprasse uma revista. A resposta do jornalista foi que se ele quisesse um jornalista sem opinião, que contratasse outro pela metade do salário que ele lhe pagava, porque estava se demitindo. O grande barão da mídia voltou atrás e mudou de assunto. Ele, que sabia muito bem extorquir os poderosos só com a arma da informação, tinha consciência de que, para isso, precisava de credibilidade, que se construía com a qualidade de seus contratados.

Hoje temos uma situação diferente. A grande mídia dispõe de uma maioria de jornalistas que crescem na medida de sua subserviência. Assim, os diretores de jornais, revistas e tv podem facilmente fazer obedecer suas ordens de nada noticiar contra políticos de determinado partido e concentrar informações sobre os seus desafetos, numa mesma investigação policial que envolve pessoas de várias cores partidárias. Os poucos que diferem dos mervais, waacks, mirians leitões, sardenbergs, etc., são defenestrados da grande mídia e se refugiam na mídia marginal, os chamados blogs sujos, cujos escritos são atacados como pouco críveis por suas opções partidárias, como se a grande mídia não as tivesse. É só atentar sobre o que ela noticia (ou deixa de noticiar) sobre determinados partidos e movimentos sociais. Qual a imagem, por exemplo, do MST construída pela grande mídia? Por acaso, alguém viu alguma reportagem sobre a sua produção de alimentos, sobre como administram a partilha da produção, como é sua educação das crianças? Não, só as “invasões” e destruição de equipamentos das propriedades. Já que a sua preocupação é com a “invasão” de propriedades, alguma grande reportagem sobre a grilagem de terras por grandes latifundiários? Há mais de dez anos, quando lecionava em uma escola do Estado, participei de uma excursão de nossos alunos do ensino médio a um assentamento do MST. Uma das alunas ficou em dúvida, se devia ou não participar, até o último momento. Descobrimos depois o motivo: o medo provocado por uma imagem de capa da revista Veja, em que os integrantes do MST apareciam carrancudos, segurando seus instrumentos de trabalho, como foices e enxadas. Felizmente ela foi, entrou em todas as casas, conversou com os assentados e mudou seus conceitos.

É essa mídia que se arvora a possuir critérios sólidos para combater a pós verdade na internet? Mesmo que ainda prezasse a credibilidade, esta, desde o século XVIII não é mais critério suficiente de verdade. Mormente numa situação de polarização política em que vivemos, não só no Brasil, mas em todo lugar onde as forças de direita saíram do armário, as informações tornam-se armas de guerra. Credibilidade de quem e para quem? A lógica nos ensina que o argumento ad hominem é uma falácia. Ou seja, a verdade de uma afirmação não depende de quem a faz. Depende do próprio conteúdo da assertiva. Alguém pode, por acaso, dizer que a afirmação “o gato é um animal mamífero” está errada porque a viu escrita no caderno do seu pior aluno em biologia?

A verdade, seja num canal da grande mídia, seja nas redes sociais ou mesmo num manual de uma ciência ou num livro de filosofia, não é pressuposta de acordo com a credibilidade das fontes, mas, construída no debate. E este só é possível na liberdade de investigação.

E aqui está a grande função social da escola. Ninguém precisa entender de medicina para tratar da própria saúde. Quando precisamos, confiamos no médico. O mesmo, com o advogado, etc. Mas, quando se trata de formação de cidadania, não dá para delegar a ninguém. Cada um tem de aprender a pensar com a própria cabeça, para tomar suas decisões com autonomia. Se o objetivo principal da educação é a formação da cidadania, nada de submissão ao senso comum, ou aos conceitos que o aluno traz de casa. Tudo tem que ser questionado. E para questionar e ser questionado não há necessidade de ninguém se despir de suas opções partidárias. Basta se despir de seu dogmatismo, ter coragem de colocar à prova suas convicções e disposição para investigar sempre.

Se a escola realmente levar a sério essa sua função e ensinar os alunos a ler criticamente as informações com que no dia a dia são bombardeados, não só o interesse dos mesmos será outro, mas as pós verdades tenderão a ter um único comentário nas redes sociais:kkkkkkkkkkk.

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