Texto de Arquivo XXIV: A propósito do outro: imagem, construção e cumplicidade

Nota prévia

Este texto foi escrito para a mesa-redonda “De leitor para leitores: a produção do que se lê”, proposta por mim para o 7º. COLE, realizado de 8 a 10 de setembro de 1989. Foi publicado nos anais do evento. A ideia era puxar outros fios na malha das leituras. E esta mesa em especial trouxe a voz de autores (dois autores de literatura: Nilma Gonçalves Lacerda; Marcos Rey e Lucy Ayala), um jornalista (Jeferson Barros), uma editora (Lucy Ayala, da revista Sala de Aula) e uma crítica de literatura (Marisa Lajolo). O texto do coordenador deveria funcionar como ponto de partida para a discussão da mesa e desta, do público. Tinha-se em vista o processo de produção do que se lê, por isso a seleção dos expositores, passando por diferentes esferas de uso da língua escrita como instrumento essencial do trabalho de cada um. O resultado está nos Anais, hoje disponível, talvez, em algumas bibliotecas universitárias.

A propósito do outro: imagem, construção e cumplicidade

O senhor… Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. (Guimarães Rosa)

Possivelmente não causa qualquer perplexidade o fato de se encontrarem aqui, no tempo e espaço desta mesa-redonda, num congresso que reúne pessoas (pre) ocupadas com a leitura, pessoas que se dedicam à produção do que se lê: por mais amplo que possa ser o conceito dado à leitura, há sempre um objeto que se lê. A leitura é sempre, no mínimo, um predicado de dois lugares: tanto exige uma agente/leitor quanto exige um objeto que se lê.

Ultimamente nossas preocupações vêm focalizando um dos argumentos deste predicado: o leitor. Mas o foco não paga a obviedade da existência do objeto lido ou a ser lido. E este objeto de leitura tem atrás de si um agente/autor. Reúnem-se, pois, as duas pontas de um mesmo fio – autores e leitores – para discussão no espaço de seu encontro: o meio caminho em que significações se produzem, o texto.

Talvez a perplexidade maior advenha da circunstância de se reunirem. Numa mesma sessão, pessoas que se dedicam diferentemente à produção de textos: autores de ficção, jornalistas e críticos. Estes, sem serem cidadãos acima de qualquer suspeita, têm como seu objeto de trabalho precisamente o que os outros dois produzem. A inexistência de textos deixaria sem emprego a crítica, ainda que esta viesse – se isto fosse possível – a produzir, em abstrato, poderosos instrumentos de análise. Os jornalistas, por seu turno, tomam a objetividade e a transparência por bandeira: em seu trabalho a referência ao mundo factual (e a verdade desta referência) é o fio condutor com que tecem sua tapeçaria (para tomar à ficção uma imagem). Aos ficcionistas não se pede qualquer evidência factual: não tratando do mundo que é, constroem um mundo que não é para falarem de um mundo que é, que poderia ter sido ou que, sem sua construção, foi. Utilizando-se da mesma linguagem, anulam as convenções de verticalidade para beneficiar-se da construção de outros horizontes (para tomar, agora, à ciência uma imagem).

Para nós leitores, produzem os três, em seus textos, categorias que unidas ou contrapostas às categorias com que os lemos nos permitem não estar sempre iguais, andando no afino e desafino da verdade maior de Guimarães Rosa.

É, pois, o texto, objeto concreto de entrecruzamento de nossos interesses. Mas sua concretude não quer dizer acabamento: o texto produzido completa-se na leitura. Neste sentido, o texto é condição para a leitura e a leitura vivifica os textos.

Aceitando-se esta via de mão dupla, é possível aproximar-se do texto com uma perspectiva interacionista da produção da significação: o texto sozinho (como o locutor no diálogo) não é responsável pelas significações que faz emergir – o que cria um primeiro problema para os textos que se querem transparentes: o leitor não é totalmente livre na construção das significações, já que um dos instrumentos com que opera nesta construção é precisamente o texto presente, cujo processo de produção manuseia também as mesmas ‘regras’ de interpretação existentes numa “comunidade interpretativa”, de que o autor é parte.  Mesmo textos produzidos em épocas distantes, lidos hoje, quando de sua produção levavam em conta as condições de interpretação existentes – o trabalho dos filólogos o mostra. Hoje, evidentemente, recebem tais textos significados outros, até pelo simples fato de existirem outros textos disponíveis, como aponta Bourdieu.

Neste jogo, o autor aposta nos “deveres filológicos” do leitor empírico, fornecendo-lhe pistas de interpretação (embora não possa dirigir todos os usos que diferentes leitores podem fazer do texto que produziu); por sue turno, o leitor toma essas pistas como instrumentos legítimos para a construção dos significados dos textos que lê. A partir daí, suas leituras seriam leituras legitimáveis. Mas na parceria do jogo, nenhuma jogada é em si e de per si neutra: em cada jogada, calculam-se possibilidades, correm-se riscos. E os parceiros tornam-se co-agentes. E cúmplices. O outro é a medida das minhas jogadas.

Esta presença do outro lembra de imediato uma passagem do Log-book de Robinson Crusoé, na versão de Michel Tournier (p.47):

“Sei agora que todos os homens trazem em si – e dir-se-ia, acima de si – uma frágil e complexa montagem de hábitos, respostas, reflexos, mecanismos, preocupações, sonhos e implicações, que se formou, e vai se transformando, no permanente contato com os seus semelhantes. Privada da seiva, esta delicada florescência definha e desfaz-se. O próximo, coluna vertebral do meu universo… Todos os dias meço quanto lhe devia, ao verificar novas fendas no meu edifício pessoal… […] As personagens dão a medida e, o que é ainda mais importante, constituem pontos de vista possíveis que, ao ponto de vista real do observador, acrescentam indispensáveis virtualidades.”    

Na angústia do náufrago, do solitário, a constatação do OUTRO como constituinte do EU (1). Com o outro compartilhamos um universo comum de referências, códigos de ética, de comportamentos, etc. e na história do vivido , construímos cumplicidades.

Um exemplo desta cumplicidade, em que o narrador narra a própria construção narrativa, pode ser retirada de “Ópera do Sabão” (p.63) narrando-nos uma cena em que Adriana se autocontempla, levanta-se e vai tomar banho; o narrador abre o seguinte parágrafo:

“Impossibilitado de olhar através da porta que Adriana fechou, levo a minha narração ao bairro da Vila Mariana, para constatações e prenúncios.”

Lá, encontrava-se Manfredo, pai de Adriana, visitando a professora de piano, Deolinda:

“… Então, Deolinda sorriu para Manfredo, sentou-se à banqueta, abriu o piano e começou a tocar Ernesto Nazaré.

O narrador, às vezes, não pode perder tempo com uma boa interpretação musical. Ele, que já fora Ícaro e virara Superhomem, para acompanhar o progresso da imaginação criadora, projetou-se ao centro da cidade, Barão de Itapetininga, onde a Nênfis Propaganda. Agência de porte médio, ocupava dois andares.”

Lá, encontra Benito, filho de Manfredo. E a narrativa retoma seu fio.

Estas colocações iniciais não se pretendem um pano de fundo da discussão que passa a rolar neste encontro. Fragmentos são, antes de mais nada, uma tentativa de construir o caminho para algumas perguntas que também elas podem ou não serem retomadas nas exposições.

  1. Como aqueles que militam na produção artística, na produção jornalística e na produção crítica imaginam os seus leitores e como estas imagens interferem, ou não, na construção de seus textos?
  2. No micro movimento histórico das expressões linguísticas, a cada texto as expressões não são simplesmente retomadas com significados fixados pelos usos anteriores desta mesma expressão, mas a cada vez, na retomada, re-significam e neste movimento as modificam. Seria adequado dizer que o autor de textos jornalísticos “luta com as palavras” para produzir um significado determinado para seu texto, enquanto que o autor do texto ficcional. Liberado das necessidades verticais de referência ao mundo, “luta com as palavras” para produzir significados múltiplos?
  3. Considerando que cada texto é parte de um universo de discursos mais amplo, seria adequado dizer que um dos trabalhos da crítica, face a um novo texto, seria situá-lo na intertextualidade de que faz parte? Caso a resposta seja afirmativa, a remessa a outros textos considera as possibilidades de tais textos serem conhecidos pelo leitor da crítica?

Nota

  1. A Robinson, de Tournier, importa mais o processo da “destruição” do eu constituído com os outros e a construção de outro EU, sem TU. Um eu-Robinson que recusa o retorno, que fica na ilha sem Sexta-feira.

Referências bibliográficas

BOURDIEU, Pierre. Lecture, lecteurs, lettrés, littérature. In. _____ Choses Dites. Paris, Minuit, 1987.

ECO, Umberto. O leitor-modelo. In. __ Lector in fabula. Trad. Attílio Cancian. São Paulo, perspectiva, 1986.

LACERDA, Nilma. Manual de tapeçaria. Rio de Janeiro, Philobiblion, 1986.

REY, Marcos. Ópera de sabão. Porto Alegre, L&PM, 1980.

SEARLE, John B. The logical status of fictional discourse. In. ______ Expression and meaning. Cambridge, Cmabridge University Press, 1979.

TOURNIER, Michel. Sexta-feira ou os Limbos do Pacífico. Trad. Fernanda Botelho. São Paulo, Difel, 1985.

O falso prazer das prostitutas do mercado

Em viagem para o interior do Paraná, onde visitei minha mãe com 100 anos e que sofrera um  AVC que – para surpresa de todos – está superando, hospedado num pequeno hotel, entro pela manhã para o café e a TV está ligada. Obviamente, na Globo! O império impõe.

E eis que assisto, mesmo não querendo, a um trecho de um jornal. A âncora com sorrisos e muitas alegrias, anunciava o aumento dos empregos graças ao carnaval. Salientava ainda o empreendedorismo que estava fazendo a economia alavancar! Quem escutou e levou a sério o noticiário, certamente está apostando que o crescimento econômico brasileiro é uma verdade, de causar prazer às prostitutas do mercado. Nem precisa ser prostituta do mercado e no mercado para perceber este “avanço na economia”: aumentou, segundo elas eles, o empreendedorismo, com muita gente vendendo balas e água nas esquinas; entradas de garagens transformadas em “mercadinho” vendendo de tudo um pouco… É isso que saúdam sorrindo da miséria alheia.

Provavelmente a âncora, aos sorrisos de má fé, pensava com seus botões sobre como organizar sua microempresa com CNPJ para prestar serviços à Globo, depois de ter sido chamada ao Departamento de Pessoal que modifica os contratos com base na nova legislação do trabalho, a mesma legislação que ela muito elogiou. O prazer com o suposto crescimento seria real ou falso? O medo de que seu contrato venha a se tornar de trabalho intermitente, com as horas de apresentação do jornal, deve estar mexendo com a cabeça da moça: será uma empreendedora com registro de CNPJ. Tudo pelo mercado, até o falso prazer das notícias analisadas de uma forma quase pueril. Mas os coxinhas gostam, ainda que tenham perdido emprego.

Hoje caminhei pelo centro da cidade, Campinas. A quadra que fica entre um dos lados da Catedral e os bancos do Brasil e Itaú foi transformada em dormitório. Por ali moram os afortunados excluídos do neoliberalismo financeiro. É espantosa a lição: alguns abrigam-se na entrada do Banco Itaú, cujo lucro no último balanço (2017) foi de 24 bilhões, num crescimento de 10,7% em relação ao ano anterior. Mas não se diga que o Banco Itaú não é generoso com os excluídos: oferece-lhes o abrigo curto de sua entrada para serem as novas moradias do crescimento de que as prostitutas e prostitutos tanto se ufanam. E vale uma nota: o orçamento do Bolsa Família em 2017 foi de 17,1 bi. Para 2018, está previsto o valor de 28,2 bi. Realmente, um absurdo para as prostitutas do mercado. É preciso que os rentistas abocanhem este dinheiro que é para milhões, para que os lucros se tornem mais substantivos e sempre na ordem dos bilhões.

Mas também confirmei a notícia da âncora em seu comentário lido no “pronpt” que lhe prepara sua contratante: a presença de infindáveis novos empreendedores, que o ministro-fantasma Henrique Meirelles, aquele que não se cansa de anunciar aos jornais que o mercado insiste que ele se torne presidente da república, que o tal ministro, repito, aponta como sinal de crescimento e confiança na economia brasileira. Diz ele que surgiram muitos novos empreendedores.

São microempresários oferecendo de tudo: “água geladinha! Olha a água geladinha…”; “Olha a bala! Olha a bala!”; “Aqui, aqui! Só 5 reais o pano de prato!”;  mas há também entre estres microempresários aqueles que usam uma voz chorosa e pedem “me ajude, compre esta bala (de goma)”. E por aí vai o crescimento cantado em prosa e verso: uma cacofonia típica de nossas cidades no mundo globalizado do neoliberalismo. Logo, logo, algum fiscal da Receita Federal vai aplicar multas a estes empreendedores que não estão declarando seus vultosos lucros. A mesma Receita Federal que dispensa de pagamentos de valores assombrosos o Itaú, a Globo, e todos mais que os prostituem.

Mas há também os novos empregados, os novos empregos intermitentes, empregados que mostram sorriso nenhum, mas tristeza: entregam papeis impressos oferecendo serviços dos seus patrões provisórios: o sorriso dental; compro ouro; a vidente Professsora X está na cidade; liquidação total de biscoitos… São aqueles papéis que a gente vai pegando para ajudar o que os distribui e que coloca no primeiro lixo que encontra. Tudo gente empregada! Para o ministro, símbolo do desenvolvimento e da confiança na economia brasileira. E as prostitutas e os prostitutos do mercado batem palmas: castas, leitoas e fragas… que agora começaram a resmungar: eleições prejudicam o mercado!!!

PS. Esta crônica já estava pronta antes da intervenção e antes da retirada da PEC da Reforma da Previdência!!! Estas mesmas prostitutas e prostitutos do mercado e no mercado voltarão, agora, a serem urubólogas e urubólogos!!! Não vão deixar barato esta decisão “populista” do Temeroso. Gritarão, gritarão pela Reforma… são mesmo fdp. 

“SE PRENDEREM LULA, O MORRO DESCE”

O carnaval deste ano (2018) gerou e produziu um novo cenário real, uma nova conjuntura política e social do Brasil, com alegorias, fantasias, máscaras, danças, cantos, gritos e enredos perspicazes de protestos contra o governo golpista de Temer e de seus aliados e apoiadores. Diversas escolas de samba e múltiplos blocos carnavalescos aproveitaram a alegria popular e constituíram o carnaval nas avenidas, nas ruas e nos sambódromos como arma na luta contra as injustiças dos governantes, dos políticos, aliados ao governo, dos juízes parcialistas, dos empresários corruptos e contra a espetacularização manipulada dos crimes e das tragédias humanas pela mídia televisiva.

Para impedir os morros (“pervertidos” e “criminosos”) a descerem às planícies das civilizações (“impávidas” e “colossais”) é preciso fazer a intervenção federal preventiva, com as Forças Armadas do Poder Militar, no Estado e na Prefeitura do Rio de Janeiro, tudo e sempre por determinação astuta e estratégica do “presidente vampirão” – alegria genial e justa criada e exibida pela Escola de Samba Paraíso do Tuiuti. O decreto de intervenção federal é o último (o mais recente) ato de terrorismo do Temer “vampiro”, contra o povo brasileiro. A intervenção – segundo ele e o ministro da justiça – deles – é necessária e urgente, deve ser aprovado antes que seja tarde. Quer dizer, antes que o Lula seja preso e os morros turbulentos desabem sobre as planícies cultas e ordeiras.

Aprendemos com a história dos homens – com suas maravilhas, controvérsias e horrores – que toda intervenção pelas forças do poder do estado, tanto pelo poder civil, poder militar ou pela união dos dois poderes, é um golpe pretensamente redentor que, via de regra, se metamorfoseia e se constitui em ditadura civil-militar, muitas vezes com as bênçãos e graças das religiões, sempre como pretexto e justificação, intervenção vestida de capa redentora, assim de natureza e missão salvadoras, valendo-se das forças militares para reestabelecer – ou prevenir – e manter a ordem social da nação. Este pretexto, quando desmascarado, se revela uma luta ideológica de correlação de forças, onde o poder de classes dominantes se impõe para impedir a ascensão das classes trabalhadoras populares ao poder. Mesmo quando o golpe – intervenção direta ou fantasmagorizada de impeachment – se autoproclama de constitucional e justo, é ilegítimo e antidemocrático, porque se faz à revelia das decisões democráticas e contra a vontade do povo.

A intervenção federal – civil militar – no Rio de Janeiro é um acirramento da luta contra a possibilidade real do ex-presidente Lula voltar à Presidência do Brasil. O Temer e seus aliados e apoiadores – políticos, rentistas, intelectuais orgânicos, empresários do capital nacional e estrangeiro estão (apavorados) diante de um dilema de potencial trágico contra eles – duas situações plenamente possíveis. A primeira situação, mais aterrorizante para o governo ímprobo e réprobo, é a seguinte: se a Justiça não condenar em instância suprema e não mandar prender Lula, ou, se pelo menos não o tornar inelegível, Lula será candidato, será eleito democraticamente presidente, empossado de direito e governará o Brasil com prioridade a programas sociais. A segunda situação, também aterrorizante para as elites neoliberais, é a seguinte: se a justiça mantiver a condenação e mandar prender Lula ou, pelo menos, torná-lo inelegível nas eleições de 2018, os “morros descerão”. Quer dizer, os movimentos populares de manifestações e protestos tomarão conta do Brasil e poderão comprometer radicalmente a ordem imposta e, provavelmente, interferirão no processo eleitoral. As possibilidades dos candidatos de direita e centro-direita ganharem as eleições são mínimas nestas circunstâncias e neste jogo de correlação de forças.

Portanto, a intervenção federal é uma estratégia ideológica e de manipulação da opinião pública, mediante um discurso da ordem, da espetacularização dos crimes, da violência nas periferias e favelas e um recado amedrontador aos movimentos de protestos sociais e políticos. Enfim, a intervenção é um despotismo do império ímprobo e réprobo dos golpistas. Por que, se os crimes – roubos, desvios, assaltos, tráfico de drogas – das favelas justificam à intervenção militar federal, logo a intervenção deveria começar em Brasília no Congresso e no Palácio.

José Kuiava escreve neste Blog às quartas-feiras

Erro de previsão: uma guinada de Temer

Com a atitude de retirar da pauta de seus interesses a Reforma da Previdência, desiste o governo Temer da joia da coroa das exigências do mercado e da política neoliberal que vinha implementando a toque de caixa. Não haverá Reforma! E para não confessar a falta de votos no Congresso, a justificativa foi o estado de intervenção na segurança do Rio de Janeiro.

Considerando que urubólogas e leitoas avançavam que haveria suspensão para votar a reforma, imaginava que o interesse era quebrar toda e qualquer possibilidade de oposição ao desejado pelo mercado, evitando os votos em separado das emendas. A reforma sairia tal como encomendada. Pois não é que a guinada de Temer parece ter sido outra!!!

Até agora, rezou ajoelhado e cabisbaixo o Vampirão o credo neoliberal. Tomou todas as medidas impopulares que lhe impunham: congelou gastos, chegou às raias de reintroduzir o trabalho escravo e desejava acabar com a aposentadoria dos trabalhadores. Ia por aí caminhando e crescendo em rejeição.

E eis que, de repente, não mais do que de repente, se dá conta do suicídio: a política neoliberal não enterraria somente o povo, a economia, a vida, o sangue de todos: tudo sugado pelo rentismo ao gosto do ministro Henrique Meirelles, aquele que se acha ungido para a presidência com os votos dos banqueiros e especuladores. Deu-se conta Temer de que seria um Vampirão sugado também.

E nas panelas e panelões do palácio, urdem um guinada. Há muita violência no país? Não pensemos nas causas, combatamos com marketing e com força militar. Decreta-se a intervenção. Medida que tem apoio popular! Medida contra a qual nem banqueiros nem gerentes de fundos, estes serventuários do capital, podem contrapor-se. E o próprio presidente deixou aberta a possibilidade de que eles ganhariam a desejada reforma da previdência. Deu-lhes um tombo: apoiado pela militarização da política, retira de tramitação a reforma. E continua a baixar os juros da SELIC.

Ora, para os militares não fazerem papel de bobos, haverá necessidade de aumentar os gastos sociais – ao menos com a segurança. Está aberto o caminho para se desfazer do congelamento de gastos. Afinal, por baixo do tema segurança, poderão ser liberados recursos para recuperação ambiental dos morros, para ações pontuais em educação e cultura, para a assistência social à saúde, etc… Um golpe de mestre!

Liberta-se o governo da “Ponte para o Futuro” ao perceber que o futuro era o abismo desejado apenas pela ganância do rentismo da atual fase do capitalismo improdutivo, o capitalismo financeiro. Conseguiu o governo Temer dar marcha ré e recomeçar em outros patamares… Ele tem pouco tempo: deverá chover dinheiro para que de imediato apareçam resultados.

A questão que deverá enfrentar – e enfrentará ameaçando não mais sustentar com verbas – será a da comunicação pela mídia tradicional, TVs e jornais. Afinal, a Globo não vai deixar barato este abandono do projeto neoliberal tão acalentado e cantado em prosa e verso. Reaparecerão as urubólogas dos tempos dos governos petistas ou serão compradas para o novo projeto de poder da quadrilha temerosa? Os porta-vozes do mercado ficarão quietos? Pode ser que sim: eles estão sem opção política para 2018. E entre perder um pouco neste ano, para continuar ganhando no ano que vem, eis poderão esquecer o que diziam ontem, e começar a defender o aumento de gastos públicos!!! Seus discursos são venais, e discursos venais não têm qualquer princípio que não seja o que mais enxergam: cifrões.

Há analistas que já estão apostando que Temer será candidato em reeleição e que disputará o segundo turno com qualquer dos candidatos que a esquerda conseguir levar ao segundo turno; há também que diga que Moreira Franco será o futuro governador do Rio! Isso é uma questão de tempo, e o tempo é curto para obter resultados com a força e somente com a força.  E ela vem com tudo: quem viu os caminhões carregando tanques velhos e enferrujados pela Dutra sabe que todo o projeto desta militarização é para assustar e para obter resultados visíveis imediatos.

Tudo agora parece ser uma questão de tempo e de urgência. 

Que diálogo há entre ecos e ruídos?

As facilidades de exposição e o fluxo de narrativas nas práticas cotidianas, proporcionadas pelas tecnologias e redes de comunicação, passaram a redesenhar os lugares de sociabilidade e a redefinir uma série de questões de ordem estética, política e social. Essa produção e circulação de enunciados e subjetividades trazem marcas de voyeurismo, de ativismo, de jornalismo, de amadorismo etc. que, é preciso dizer, propicia um campo de vigilância difusa em que o fluxo de informações no ciberespaço se torna um foco privilegiado de monitoramento por diversos setores e com diferentes propósitos: inclusive na criação do ‘efeito bolha’, mencionado no texto do professor Wanderley Geraldi aqui no blog.

A “bolha de filtros” é uma expressão utilizada para explicar o fato de que redes sociais usam algoritmos para definir as atualizações mais importantes aos usuários e, dessa maneira, tendem a fornecer gradualmente conteúdo que se alinhe aos interesses e opiniões deles. Assim, cada pessoa fica isolada em sua ilha de preferências, e se verá cada vez mais fechada dentro de uma esfera de informações diminuta, apartada de quem não pensa como ela.

Essa questão soa como um novo frame para um conto muito conhecido:

Muitos anos atrás, havia um imperador que gostava de roupas bonitas, mais do que qualquer outra coisa no mundo. Na verdade, vestir-se ocupava todo o seu tempo… De qualquer forma, a vida era alegre na cidade. Estrangeiros chegavam a toda hora, e um dia, apareceu uma dupla de espertalhões. Bem, isso é o que eles eram, mas se diziam tecelões. Diziam também que o pano que teciam, além de uma beleza estonteante, tinha propriedades mágicas: tanto no tear como transformado em roupas, era invisível para quem não estivesse à altura de seu posto ou para os muito estúpidos.

– Excelente! Pensou o imperador.

– Eis a minha chance de descobrir quais dos meus súditos não servem para os postos que ocupam, e poderei separar os espertos dos tolos. Sim! Esse pano tem que ser tecido e transformado em roupas imediatamente.

E deu aos impostores uma grande quantia em dinheiro para que pudessem começar o trabalho.

Na mesma hora os tratantes montaram o tear e agiram como se estivessem trabalhando com afinco. Mas, na realidade, não havia nada no tear… (e, assim, continuaram fingindo que trabalhavam, pedindo mais e mais dinheiro).

Passado um tempo, o imperador mandou um súdito – o primeiro-ministro – ver como andavam os trabalhos. Não foi ele próprio, por receio de não conseguir ver o tecido.

‘Deus nos acuda!’, pensou o velho. ‘Não consigo enxergar pano algum’… Mas não disse nada… ‘Será que sou incapaz para ser ministro? Nunca me considerei incompetente… Não, não, não posso dizer que não consigo ver o pano.’…

Pouco tempo depois, o imperador decidiu enviar um conselheiro honesto para verificar como estava indo o trabalho… Mas aconteceu com ele a mesma coisa que acontecera com o ministro… Então, ele admirou o tecido que não podia ver:

– Sim, sim, muito lindo… cores esplêndidas… magnífico desenho! E relatou ao imperador que a estampa do tecido era magnífica.

A notícia do maravilhoso tecido logo correu pela cidade.

Finalmente, o imperador resolveu ir vê-lo com seus próprios olhos… ‘Isso é terrível!’, pensou o imperador. ‘Não consigo enxergar nada nos teares! Serei estúpido?… E então, ele falou:

– Que tecido charmoso… lindo! Tem nossa total aprovação! E o imperador deu a cada um dos trapaceiros uma condecoração honorária e o título de Oficial do Tear da Corte Imperial.

Na véspera da grande procissão, os farsantes ainda trabalhavam em sua tarefa imaginária: a confecção da roupa…

Finalmente anunciaram: – A roupa está pronta! – E o imperador dirigiu-se aos aposentos… Os trapaceiros continuaram:

– Se sua Alteza Imperial fizer a gentileza de tirar a roupa que está usando agora, teremos a honra de vesti-lo com o novo traje; pode ver o efeito neste grande espelho… O imperador virava-se de um lado e de outro em frente ao espelho.

– Como está elegante! Como lhe cai bem! – murmuravam os cortesãos.

– Que tecido rico! As cores são esplêndidas! Vocês já viram manto mais magnífico? – ninguém ousava admitir que não via nada…

E assim o imperador saiu andando majestosamente na procissão, debaixo do esplêndido dossel. As pessoas nas ruas ou nas janelas gritavam coisas como ‘Essa roupa nova é maravilhosa!’, ‘Como ele está magnífico!’, ‘Que elegância!’. Pode imaginar? Ninguém ousava admitir que não conseguia ver roupa alguma. Isso significaria que essa pessoa era idiota, ou que não servia para seu posto.

Na verdade, nenhum dos deslumbrantes trajes do Imperador jamais havia sido tão elogiado. Então, num momento de silêncio, ouviu-se uma voz de criança, intrigada:

– Ele não está vestindo nada!

– Sshh! – disse o pai da criança. Essas crianças falam cada bobagem!

Mas um sussurro espalhou-se pela multidão. ‘Uma criança ali disse que o imperador está nu’, ‘O imperador está nu!’ Logo todos murmuravam: – Ele está nu! Finalmente, o próprio imperador achou que eles poderiam estar certos. Mas aí pensou. ‘Se eu parar agora, vou estragar a procissão e isso não pode acontecer’. Então ele continuou caminhando, mais altivamente que antes. Quanto aos cortesãos, continuaram carregando a cauda do manto que não existia.

Fazemos parte de um público para o qual as noções de dialogismo e polifonia são mui caras. O que temos para o presente é pensar tudo isso considerando, por exemplo, a comunicação nas redes sociais. O fato é que, por ser algo novo, falta muito para compreendermos tudo isso. Mas, antes de tudo, é bom lembrarmos que a tal bolha existe – e ela só piora.

Cristina Araújo escreve neste Blog às segundas-feiras

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