Arroz de Palma, de Francisco Azevedo

Arroz de Palma, de Francisco Azevedo

O carioca Francisco Azevedo escolheu um gênero já clássico para nos contar esta comovente saga familiar: as memórias do narrador, em que não se trata de trazer a história individual na forma cronológica do que lhe aconteceu, mas recuperar aos saltos e por episódios um passado, um presente e futuro. Aliás, esta “terreníssima trindade” num homem só que é três nos tempos que percorreu, percorre e percorrerá acompanha sempre as reflexões de Antônio, filho de José Custódio e Maria Romana, este narrador cozinheiro que todo o leitor acompanhará aos sobressaltos, comovido pelas histórias e pelo arroz da felicidade que acompanhou a família por 100 anos.

Os portugueses José Custódio e Maria Romana casam-se em Viana do Castelo, em 1908. Casamento de gente pobre mas não lhe faltou a chuva de arroz na saída da capela. Palma, irmã de José Custódio, recolhe todo o arroz e dá ao irmão como seu presente de casamento. São 12 quilos recebidos com desprezo pelo noivo, mas guardados pela noiva em cumplicidade com a cunhada. Quando a situação do casal chega à miséria da falta do que comer, migram os três para o Brasil, e aqui José Custódio arruma primeiro emprego provisório, mas logo se fixa como empregado da fazenda Santo Antônio da União. Vindo da aldeia, José Custódio sabe que tem dois caminhos para a sobrevivência que expressa numa fórmula metonímica: ou seria bom em cálculos (profissão técnica) ou bom de conversa (profissão de serviços). Prefere a segunda e na fazenda progride tornando-se o capataz, de fato o administrador, com direito à amizade com a família dos proprietários, Sr. Avelino e D. Maria Celeste, pais de Isabel.

Na fazenda nascem seus quatro filhos – Antônio, Nicolau, Leonor e Joaquim. Infância e juventude na fazenda, todos os filhos em torno dos 20 anos saem de casa: eles vão para o Rio de Janeiro; ela casa-se com um empregado da Fazenda, Sebastião, e ganham dos pais um sítio em Minas onde farão sua vida.

Dentre os três filhos homens, Antônio será personagem central na saga familiar: chegando ao Rio logo encontra emprego numa confeitaria, progride, torna-se chef, junta dinheiro e funda seu próprio restaurante, num sobrado bem situado que ganham de casamento dos pais e sogros, pois se casa com Isabel, a filha dos fazendeiros e patrões de seus pais. Progride e acumula riqueza. Os outros dois irmãos não seguem o modelo: Nicolau permanece empregado da confeitaria, emprego que lhe arrumara o irmão; Joaquim vai para São Paulo e com um amigo fundam em sociedade um bar, de que viverá. Malandrão e mulherengo, terá inúmeras “esposas”… São temperamentos totalmente distintos: Antônio, concentrado, econômico, e ao mesmo tempo sonhador; Nicolau, conformado, vida no que vem do cotidiano sem alardes; Joaquim, mulherengo e boêmio.

Há no enredo dois elementos essenciais: um material representado pelos doze quilos de arroz, repicado pela quarta cadeira, a cadeira da Tia Palma, que foi reconstruída como presente com os restos da cadeira que José Custódio, num acesso de raiva, havia quebrado porque estava ali, à beira da mesa, sem que ninguém a ocupasse, isto é, ainda sem filhos. Quando o primeiro dos filhos nasce, quis o pai agradecer à tia Palma com algum presente, e ela lhe pediu que consertasse a cadeira e esta se tornará outro símbolo material que acompanhará a família e se tornará elemento de decoração da mesma casa dos bisavós que Bernado (filho de Rosário e neto de Antônio) ocupará com Susan (a menina que Nuno e Andrew adotaram).

O outro elemento é metafórico, com que o narrador Antônio sempre se referirá à família como um todo, e que provém de sua profissão de chef e dono de restaurante: “a família é um prato de complexa elaboração”, que aparece já na capa do romance como uma espécie de epígrafe que permanecerá por toda a narrativa, e a encerrará: “família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete”. Assim, a metáfora abre a narrativa e a encerra. No meio, toda a saga familiar tal como a expõe Antônio, aquele que recebeu dos pais, como presente de casamento, o arroz que Tia Palma recolhera lá em Viana do Castelo e que se tornou um arroz mítico.

A construção mítica do arroz tem muito a ver com o modo de ser e viver de Tia Palma, que tem sonhos e adivinha realidades outras do mundo do invisível. E a materialização destes invisíveis aparece quando o casal começa a se estranhar e Maria Romana não dá filhos a José Custódio. Propõe então Palma a sua cunhada: façamos um pouco do arroz, ele é milagroso, dará força a José Custódio e a você. E assim, comido o arroz, vem a cada vez os filhos… tanto que há um consumo de 4 quilos. Sobram 8 quilos que serão dados como presente de casamento para Antônio e Isabel, um presente que envergonhou os demais irmãos que não acreditavam no mito, que surpreendeu Antônio e encantou Isabel e seu sogro face à história que com ele vinha junto.

Um pouco deste arroz derramado no colo de Isabel, quando o casal namorava à beira do lago pequeno da fazenda produz seu segundo “milagre”: a primeira relação sexual antes mesmo do casamento. O arroz torna-se, portanto, símbolo da felicidade! Guardado pelo casal num pote de cristal, enfeitará a vitrine do restaurante. Como símbolo, também despertará a cobiça dos demais irmãos, movidos principalmente por Leonor que acaba criando a desavença familiar e a separação, por longo tempo, entre todos eles, cada um levando sua vida, distantes, para tristeza dos pais José Custódio, D. Maria Romana e a Tia Palma.

Antônio e Isabel tiveram filhos gêmeos: Nuno e Rosário. Eles representarão, na história, as novas formas de constituição familiar. Nuno viaja para Paris e vive 1968; retorna para dizer que viverá no exterior e que vive com Augusto. Eis o diálogo:

– Não, não estava, meu filho. Minha Paris não é a Paris das barricadas. Não. Minha Paris é a Paris dos cafés, de Piaf, Chevalier e Montand, dos passeios de braços dados. Chacun avec sa chacune..

– Minha Paris são essas aí e também a de Danny le rouge, das batalhas do Quartier Latin, e outras tantas, incontáveis. Chacun avec sa chacune, chacune avec sa chacune, chacun avec son chacun! Voilà!

–  Não entendi a graça nem o que você quer dizer com isso.

[…]

– Não, eu ainda não entendi. Gostaria que você fosse mais claro.

Desarmado, Nuno se expõe. Desde menino. É assim e pronto. Sua adaptação da expressão francesa – que para mim sempre serviu para designar os variados tipos de casais que andam pelas ruas de uma cidade – sai sem querer e acaba abrindo nosso difícil diálogo ou, para ser mais preciso, nosso difíceis monólogos. […] Sem demonstrar um pingo de fragilidade, olhando em meus olhos o tempo todo, Nuno me explica como começou a se envolver com as manifestações estudantis, as ideias políticas, o contato com as drogas, o cima de liberdade sexual entre os jovens e, por fim, para me deixar zonzo e nocautear, a sua amizade e o seu relacionamento com Augusto, um rapaz de 20 ano como ele.

– É isso, meu pai.

[…]

Por seu turno, como se fosse o avesso, Rosário apaixona-se por um militar, um brutamontes do DOPS, com quem se casa, rompendo assim as relações com o irmão. O casamento durará dez anos e somente depois da separação que os irmãos se reencontrarão e reatarão amizade, quando Nuno, ator, já vive em Nova York e mantém um relacionamento estável com Andrew.

Penso que estes dois casamentos distintos representam para Antônio, não sem que esse fique atordoado e nocauteado, as formas outras de constituir e desfazer famílias, sem a “eternidade” dos relacionamentos a que a geração de seus pais e a sua geração estava conformada, agindo nos conformes, ainda que relações extraconjungais possam acontecer: Antônio narra uma delas, que surpreende o leitor, porque é um encontro casual e amoroso precisamente com sua cunhada, a mulher de Nicolau, com quem haviam rompido relações precisamente porque, acreditando no milagroso arroz, Amélia havia roubado alguns grãos do pote no restaurante… e foi flagrada por Isabel e para apaziguar os ânimos, o sempre conciliador Antônio teve que intervir: acabou o caso, mas um abismo se abriu entre os irmãos, entre as duas famílias, o que não impediu a atração física num encontro único e casual, mas que ficará impresso para sempre na memória de Antônio.

Toda história nos é contada como memórias enquanto o velho cozinheiro prepara um grande almoço: aos 100 anos do casamento dos pais José Custódio e Maria Romana e aos 100 anos do arroz de Tia Palma, toda a grande família se encontrará na fazenda, onde já vive o agora já velho casal Antônio e Isabel, ele com 88 anos. Enquanto prepara a comida da festa, na cozinha, é que ele vai rememorando tudo, na forma de episódios que saltam anos, que cronologicamente se confundem, num vai e vem entre o passado, o presente da comida que vai fazendo, e o futuro que sonha com a presença dos 96 convidados que serão distribuídos em 12 mesas de 8 pessoas em cada uma delas. Todos virão com todos os seus, incluindo Joaquim com sua nova namorada, uma velhota octogenária como ele! E todos comparecem. E Nicolau faz discurso; e Joaquim e Leonor falam juntos. Todos recordam e todos se empanturram: o arroz de tia Palma foi cozinhado e trouxe felicidade distribuída entre todos.

Por fim, todos já retornados a suas vidas, o último episódio é novamente na cozinha (sempre a presença da metáfora culinária):

Eu aqui na fazenda. Eu aqui na cozinha, quatro e pouco da manhã. Isabel ainda dorme, o sol ainda demora… Não queria largar meu corpo caído assim. Mas quem sou eu para poder levar ele comigo? Que credenciais? Fiz o que pude, pronto. Creio na ressurreição da carne, na vida eterna, amém? O universo me parece simples e fácil como número de mágica que fascina. Sou elefante e louva-deus, sequoia e flor-do-campo, cordilheira e grão de sal, oceano e poça de chuva. Minha alma começa a ventar e nem sei o que me espera. De repente, os cacos desabam e formam o inesperado desenho, Para que então tanto cuidado? Melhor é apreciar os cenários: riacho que corre, gente que pisa no cascalho, fogo que arde, madeira que estala, respirações variadas e, de repente, um bater rápido de asas. É a vez do coral, eu sei. As vozes dos animais! A alma rosna, urra, uiva, grita, relincha e muge. Depois zumbe, trina e gorjeia…

Então se descobre que o espírito é quem está narrando. A sereníssima e terreníssima trindade do passado, presente e futuro num só corpo acabou: : Antônio está morto. Mas a história, como monumento, é presente que a alma nos dá, comovendo e nos removendo.

Porque saga familiar, o enredo poderia ser comparado ao de outras famílias de imigrantes portugueses: uma família que chega, uma família que se desdobra em muitas outras famílias, que se separa e que muito raramente se junta. Aqui, no entanto, há uma materialidade representada pelo “Arroz de Palma” mito e imagem, símbolo da simplicidade a que a vida poderia se resumir. O arroz, como se sabe, está sempre presente em qualquer refeição, banquete ou mesa cotidiana, servida na cozinha. É esta presença do arroz que traz encantamento ao que é uma saga comparável a outras. E há também a metáfora: família e prato de comida. Assim como o prato deve ser preparado, cozido, arrumado, a família é também o que se constrói, o que se faz, o que se prepara com o mesmo esmero e cuidado, para que não queime, para que o descuido não deixe desandar. O sabor é construído com ingredientes múltiplos: não está dado, é cuidadosamente elaborado. Como a família: se cada ingrediente individualmente tem sua existência, o conjunto somente pode ter sabor se cuidadosamente construído.

Por fim, é preciso salientar: ao narrar a saga, Antônio reflete o tempo todo. E alguns destes pensamentos encontram uma formulação tão perfeita que permanecem como enunciados disponíveis a novas enunciações. Retiro aleatoriamente algumas passagens que dão o tom do que é o todo deste narrar comovente e iniciemos com a proposta de diálogo que faz o narrador dirigindo-se a seus leitores, com perguntas que uma compreensão responsiva nos obriga à reflexão:

E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no algum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero ou do grau comparativo, Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo, agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e a cebola. Não se envergonhe se chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza. (p.11)

O jardineiro cuida do jardim. O mato toma conta. O que prefere o jardim? A memória do jardineiro que cuida ou a liberdade do mato que toma conta? Eu cuido da mente. O esquecimento toma conta. O que prefere a mente? A memória do velho que cuida ou a liberdade do esquecimento que toma conta? A memória pode ser bela, mas pesa, eu sei. O esquecimento é leve. Pode até ser alívio. Tantas histórias de família e de amigos se predem. Para sempre? Para sempre. Nunca mais? Nunca mais. É triste? Muito. Para sempre e nunca mais são medidas de tempo que me amedrontam e, às vezes, entristecem. A memória afetiva do mundo vai se apagando, enquanto os dados do planeta cabem todos no computador. Não há nada que você possa fazer, Antônio. É assim e pronto Cada morte, seja lá de quem for, é acervo riquíssimo de experiências e sensibilidades que se queima. O incêndio é bom, é útil, é necessário? (p.73)

… quem leva adiante o que ouviu já estabelece um novo diálogo. […] Quantas cores no diálogo? Quantos tons? (p. 93)

… na vida ou no palco, é preciso sempre estarmos atentos à fala e ao silêncio do outro. Há o tempo para sermos o foco das atenções, há o tempo para estarmos em segundo plano. (p.101)

Criadores de nós mesmos, nos inventamos e reinventamos sem trégua, diariamente. A cada experiência, boa ou má, nasce um outro eu de nossa própria autoria. […] Por instinto e vocação, todos nos concebemos, nos rascunhamos, nos passamos a limpo e nos apresentamos em público na versão que menos falha ou mais convincente. (p.107-108)

Eu menino, ela me nina. Cantigas sem letras. Adormecemos, berço de casal. (p.117)

 

Referência. Francisco Azevedo. Arroz de Palma. Porto : Porto Editora, 2013 (edição brasileira pela Record)