A LEGIÃO DOS PROFETAS, de Elias José

A LEGIÃO DOS PROFETAS, de Elias José

Os profetas em bando

tomaram a praça.

Com seus olhos de pânico,

Buscavam pontos de luz…

Com falas de loucos,

soltavam estranhos diálogos.

Com gestos insistentes,

reforçavam promessas,

transmitiam mistérios.

Com todos os farrapos,

prometiam o mundo.

 

Os trabalhadores

deixaram lojas e fábricas.

Os lavradores

desceram do caminhão e se ajoelharam.

Os vendedores

entregavam-lhes suas mercadorias.

Os pescadores

traziam-lhes cestos de peixes.

Os políticos

apertavam-lhes as mãos e sorriam.

Os músicos

enchiam de hinos a praça.

As beatas

tentavam tocar-lhes as vestes.

As moças

expunham-lhes seios e sexos.

 

As crianças

nem notaram que os profetas estavam ali.  

(Elias José. A dança das descobertas)

Os dedos e os dados, de Caio Porfírio Carneiro

Os dedos e os dados, de Caio Porfírio Carneiro

Esta coletânea de contos lê-se de um fôlego. As imagens, as paisagens, as personagens parecem se concretizar diante do leitor. E passam na velocidade estonteante do acontecimento narrado com maestria. Ler cada conto é como ver um filme de curta metragem, dado o realismo com que o narrador vai mostrando o que vê, faz e vive cada personagem.

Os dedos: narrativa curta como a experiência sexual de uma transa de mulher casada que pela primeira vez trai. Gestos nervosos que se vão acalmando: pronto. Agora tomar o táxi, voltar para casa, em “dignidade de estátua”:

– Se me encontrar, nunca me viu.

– Tique tranquila.

A ceia: um retorno à casa de um marido ausente por muito tempo. Um pouco surreal. O reencontro com a casa, que é a mesma: “Tudo o mesmo. E aqui estou.” Ela sorriu. O mesmo sorriso. O mesmo vestido, um pouco desbotado. Na cena seguinte, sem passagem de explicação, a casa está com tijolos soltos, ruínas, monte de escombros. Apenas lembrança do que foi. Entendo como uma alegoria à vida: as rotinas, os momentos que se vão, a vida que se esvai.

A promessa: este é um conto com diálogos curtos, entre um namorado e sua namorada, que lhe promete por duas vezes praticarem o ato sexual, mas que chegado o momento, ela se desvia, não aceita, recusa. Embora tenha prometido. E ele apressado, querendo, sedento. E ela: “Eu não queria assim.” Ela senta-se na relva; ele já desistido, aproxima-se. Ficam juntinhos. Brincam com uma formiga que foge. Olham-se. Sorriem.

A missão: os momentos cruciais de quem busca o martírio, a crucificação. Sai de casa, deixa-a deserta e de porta fechada. Caminha com martelo e pregos na sacola. Uma caminhada fisicamente difícil, metaforicamente a caminhada psicológica difícil para uma decisão radical. Chega ao ponto, abraça-se à madeira roliça. “Quase no topo a haste transversal, como braços aberto. Muito alto para alcancá-la. Altura nunca esperada. Abriu a sacola, tirou dela os grandes pregos, o martelo e o cipó fino, enrolado e espinhento. […] Ali ficou à disposição: sua cabeça, suas mãos, seus pés. Nada mais poderia fazer. Cumprira sua parte. Esperaria para sempre. A outro qualquer caberia termina a tarefa.

A sombra: esta a história de dois jogadores de futebol, um do ataque, outro um guarda-roupa de dois metros, na defesa. Neste futebol nenhum, apenas força; naquele todo o futebol e a certeza de todos de que iria para a seleção. O grandão lhe faz sombra, comete num jogo uma falta, mas quem recebe cartão amarelo é o atacante, pois uma das táticas do mau jogador é fingir dor e rolar no chão até a maca chegar. Era preciso vingar-se. E é esta expectativa do próximo jogo contra o mesmo time que preenche parte do campeonato até o novo jogo. O atacante entra arredio, com medo, sem correr. Parado. Lá estava a Parede e a sombra! Não tem coragem, mas acontece um burbúrio no jogo, o campo é invadido, o juiz vocifera. Ele chega de mansinho e dá um chute no tornozelo. O grandão cai, verdadeiramente sofrendo. Quem foi? Quem não foi? O jogo recomeça e então ele começa efetivamente a jogar. Um conto excelente!

O sorriso: casal recente, mas o marido já rotineiro na relação sexual. A mulher pergunta: “Acabou?” e ele responde “Claro”. Ela não mais suporta. Quer mais que não vem. Passa o dia andando de carro pela cidade. E começa a olhar o frentista, macacão, musculoso, negro, sorriso aberto. Sonha com ele. E então é descrita uma transa em que ela estando com o marido imagina o tempo todo estar com o frentista: Desci ao fundo do poço e dele voltei muitas vezes para respirar, sufocada, sem ar, até me sentir vencida pelo cansaço. E ele vai saindo de mim lentamente, fugindo em espiral, diluindo o riso encantador. Sinto-me exausta, pálpebras pesadas. O marido: – “Nunca você foi tão ótima, querida. Puxa.”

A ciranda: mais uma traição, agora numa fazenda. A mulher do fazendeiro e o capataz. Ela promete, mas a cada vez quer que seja “Em pé.” Ele não aceita. E nada acontece… a cena se repete, e nada. Até que o fazendeiro indo viajar, ela lhe abre a janela do quarto. E lá, ela quis: “– Quero em pé. É como uma ciranda.” As palavras cirandaram em voo rápido e ele nunca soube se o que girava eram as copas das árvores do capão de mato, o quarto estreito dentro da escuridão ou o fuso veloz que o jogava para dentro de si mesmo.     

A confissão: este é um diálogo de frases curtas, entrecortadas entre um marido traído e seu amigo. O marido acabara de descobrir que sua mulher era amante do Bispo! Vira-os aos beijos no Palácio Episcopal. Não sabe o que fazer… a forma sucinta dos diálogos desvela este estado de angústia da personagem, sem que dela se ocupe no que se fala.

O vendedor de bilhetes: este é um conto em dois planos. Um homem de negócios bem sucedido com casa e boa vida que retorna à infância, à casa no morro de que fora saíra fugido de um pai bêbado e violento que era vendedor de bilhetes do jogo do bicho. O filho que vencerá cá embaixo, veste a mesma roupa do pai, dorme na casa, relembra a infância infeliz e irrecuperável.

O andarilho: este é um conto de realismo mágico. A personagem aparece numa estrada pedindo carona, não consegue. Um ônibus para, ele entra. O ônibus anda em velocidade alucinante, em meio ao pó da estrada. O passageiro descobre que é o único dentro do ônibus. Vai até o motorista e não há motorista. Resolve saltar fora. Caminha. Chega à casa, o cão o reconhece, a mulher o recebe e pergunta: Por onde andou?

A árvore caída também é um retorno, para as festas de fim de ano. Para a casa da infância, numa cidade já agora desconhecida. Caminha por ela, pela praça, só a Igreja lá está, a mesma. Chega em frente a casa, e fica encostado ao poste a olhar o tempo nela marcado.

A bolsa: trata-se de uma ladra que tendo roubado as joias de uma casa, num furto planejado por longo tempo, sai para a rua em tempo chuvoso. Um bêbado dela se aproxima, quer “carona” no guarda-chuva e algo mais. Ela segura a bolsa com medo de ser roubada. O bêbado se aproxima cada vez mais. Ela vai para junto de uma árvore, fecha o guarda-chuva. O bêbado se aproxima: será no tronco da árvore? Ela uso a ponta do guarda-chuva como arma e o mata. Deixa-o ali, segue pela rua deserta, chega à avenida de pouco movimento. Demora, mas consegue um táxi.

Um segundo: trata-se aqui de um suposto vendedor que viaja por inúmeras pequenas cidades do interior, e nelas realiza furtos os mais variados. Segue para a estação, toma ônibus ou trem e segue adiante, para qualquer outra cidade pequena, onde realiza novo furto. Até que consegue uma boa bolada. Retorna de ônibus para a cidade grande (São Paulo?), hospeda-se num hotel, toma banho, faz a barba, come bem, dá gorjetas gordas. Volta para casa, para o reencontro com os filhos e a mulher grávida. Reclama dos negócios, da crise, mas teve sorte e conseguiu bons pedidos e uma comissão graúda…

 

Referência: Cario Porfírio Carneiro. Os dedos e os dados. Campinas : Pontes Editora, 1989.