Uma brincadeira maldosa e verdadeira (?)

                                                                          

Quem sabe, faz.

Quem não sabe fazer, vai ensinar.

Quem não sabe fazer, nem ensinar, se mete a criticar quem faz e quem ensina.

Não sei quem inventou esta sutil brincadeira de aparência inocente e estilo irônico, meio sem graça, parece. Talvez, uma brincadeira de sutil maldade por que mal intencionada num nível de inteligência bem elevado. Razão por que ainda não se constituiu num dístico popular vulgarizado. Eu ainda não vi esta brincadeira escrita na forma original como está aqui formatada. A sensação é que os inventores deste dístico não popular são aqueles que fazem e aqueles que ensinam, mas não gostam de ser criticados e não admitem ser criticados por aqueles que não sabem fazer e nem ensinar.

Sem dúvida, é uma brincadeira intrigante e instigante. Particularmente, para os que ensinam – as professoras e professores. Eu mesmo já me atormentei durante os meus 47 anos de professor, quando ensinava metodologias de ensino, métodos e didáticas de alfabetização aos estudantes de pedagogia – futuros alfabetizadores e futuras alfabetizadoras – sem nunca alfabetizar crianças. Alfabetizei, uma vez na vida, adultos pelo método de Paulo Freire. Fico pensando nos professores doutores e PHDs de economia ensinando aos universitários os mais variados e complexos modelos teóricos históricos de economia, sem nunca planejar, organizar, montar, manter e administrar uma entidade, um órgão empresarial de fins econômicos – bancos, indústrias, agronegócios, lojas, casas comerciais… Enfim, a brincadeira se aplica a todas as áreas do ensino  profissional tecnológico e universitário – campos das ciências e das tecnologias aplicadas à vida real material ao longo da história.

Fico, também, intrigado com a questão: o que é mais importante para os seres humanos – individualmente e socialmente – saber fazer ou saber ensinar? Primeiro, apreender fazendo ou estudando? Uns proclamam , acima de tudo e tempo todo, que é preciso ensinar aos seres humanos desde criancinhas, ainda bebês, até a idade da juventude e da vida  adulta como viver bem e se dar bem na vida. É claro, me incomoda muito também a concepção, a postura e atitude daqueles e daquelas que se dão o direito de só criticar os outros, mesmo não sabendo fazer e ensinar decentemente.

A brincadeira fica mais complexa e danosa quando examinada no campo político. Quer dizer, aplicada aos seres humanos que fazem política sem terem sido ensinados a praticar a política ética para o bem social de todos. E mesmo quando ensinados, praticam  uma política antiética de benefícios próprios por meios ilegais, ilícitos. Eles, sim, os políticos corruptos e corruptores não gostam e não toleram os críticos. Aí eu pergunto: para criticar os políticos – que fazem  política e enriquecem de política – é preciso fazer política? É uma condição sine qua non? E os juízes, desembargadores, ministros do STF, para criticá-los é preciso ser um deles? Só eles podem se criticar? Pelo menos teríamos uma autocrítica salutar e beneficente.

Eu já pensei, e até me convenci, que para entender esta brincadeira – quem sabe, faz; quem não sabe fazer, ensina; quem não sabe fazer e nem ensinar, critica – é preciso tomar as relações na sua totalidade e em situações invertidas. Examinar as ambivalências, os paradoxos e as contrariedades dialéticas na vida real dialética. Só não vão entender o tom irônico da brincadeira aqueles que não fazem a autocrítica de  suas vidas reais e não aceitam a crítica dos outros.

E, para não dizer que não falei de futebol da copa 2018, aí vai um fato real. No domingo passado, 17/06/2018, após o jogo Brasil e Suíça, o Felipe, neto de 8 anos, falou: “vô, o Neymar quebrou o Brasil! Uma vergonha para todos!” – “Felipe, o Neymar depois que virou topetudo não sabe mais jogar bola e fazer gols! Ele só sabe cortar o cabelo, pintar o cabelo e pentear o cabelo”, eu falei. – “Vô, ele não penteia o cabelo. Tá todo despenteado. Parece um monte de macarrão no topo da  cabeça!” – “É verdade, Felipe, você tem toda razão”.

Se para criticar o Neymar precisa jogar bola como ele, então…

José Kuiava Contributor
Professor, pesquisador, escritor
José Kuiava é Doutor em Educação pela Faculdade de Educação da Unicamp (2012). Atualmente é professor efetivo- professor sênior da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Planejamento e Avaliação Educacional, atuando principalmente nos seguintes temas: autobiografias.inventário da produção acadêmica., corporeidade. ética e estética, seriedade, linguagem, literatura e ciências e riso.