A meninada da esperança

 
Neste clima tenebroso em que estamos envolvidos, em que ao terror se responde com mais terror, em que o fanatismo crassa por toda parte, em que o diálogo é a bomba, em que as ações governamentais não se importam com o futuro mas com o fechamento do débito e crédito, em que o passado não é revisitado para ressignificá-lo, mas para apagá-lo, eis que surge uma meninada nas escolas públicas do estado de São Paulo, tornado cada vez menor nos últimos 20 anos, que ocupa suas escolas.
 
São mais de 40 escolas ocupadas, porque não querem ser transportados, como se transporta gado para as feiras e matadouros, para outras escolas neste processo de fechamento devescolas e diminuição dos gastos sociais patrocinados pelo modelo neoliberal de educação, mas não só de educação, posto em prática no estado há tantos anos.
 
Agora estão fechando escolas, logo fecharão postos de saúde e hospitais, depois fecharão cadeias, depois fecharão o quê? Não há de ser o metrô, fonte de suas rendas, e o será eternamente já que o ritmo de aumento de quilômetro de metrô em São Paulo cresce no ritmo alucinante de 1,9 kms por ano! E não pode crescer mais, porque acabaria com o trensalão que sustenta a política do estado.
 
Neste triste contexto, salvas para os estudantes de São Paulo: estão dando uma lição de política à esquerda calada do Brasil de Joaquim Levy e do Bradesco, do Itaú e de nossos beneméritos banqueiros.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.