Aflições: educar para a mudança

Todos os dias eu me descubro mais apaixonada pela educação, e imediatamente penso que a raiz etimológica da palavra paixão é pathos, o que remete a algo patológico, doente, excessivo. Então não. Engraçado que em uma campanha do passado recente, penso que não inadvertidamente um candidato usou o slogan: paixão pela educação. Medo desses meus maus pensamentos.

Certo é que não tenho amor, afinal é um esse sentimento sublime, que não vê defeitos, não escolhe mediante análises, tempo ou conhecimento, ao contrário é voluntário, tudo perdoa. Enfim, vou dizer que gosto, porque me parece mais honesto. Gosto da educação, de ser professora.

Professores me encantam, sempre é um tempo mentiroso, pois muitas vezes ao ler ou presenciar práticas equivocadas tenho impulsos de ódio mesmo, depois passa, rápido até. Não me tornei professora aleatoriamente, escolhi várias vezes trilhar esse caminho de mudança. Já a mudança, e as ideias que advém dessa prática me causam maior alegria.

A capacidade de mudar realidades é algo fascinante: não ler para torna-se leitor, não ser social para convivência coletiva, ceder, organizar, desorganizar, e tantas outras coisas, e não estou falando só de educação escolar, mas dela também. O conhecimento, a o trânsito continuo deste, é algo muito admirável: de repente a gente aprende e aprendendo a gente ensina, e ensinando a gente muda o mundo. – acho que é Paulo Freire isso, mas já introjetei e acredito que é meu, então fica mesmo sendo assim sem dono ou dona que não permita a livre circulação.

Muitos professores gostariam de ser valorizados, engana-se quem pensa que é de salário que parte essa premissa, ou o uso do jaleco tapa giz, ou mesmo respeito por parte dos alunos que entendem que escola é lugar de aprender(com quem muito sabe, risos), quem sabe um presente no aniversário profissional, um lanche bacana na sala de professores e outras perfumarias. Essas coisas são bacanas, mas não atingem o cerne da questão da desvalorização do professor, aliás não deviam atingir, mas tão massacrados que estamos algumas vezes ganham uma dimensão de maiores do que realmente são.

Sempre que converso com professores, e me permito ouvir mais do que falar (casos raros) percebo neles uma vontade de produzir reflexão, ter tempo para descansar e pensar sobre a sua prática, e melhorá-la também, mas como fazer isso diante de tripla ou quadrupla jornada? E mais do que isso, como combater o distanciamento entre prática e teoria? Talvez a desvalorização interesse a alguém, ou a um poder e ordem estabelecidos.

Ninguém vai acreditar mais ouço nesse exato momento em que escrevo uma música de Belchior que diz: “Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria,/ Em nenhuma fantasia, nem no algo mais/ Longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia/ Amar e mudar as coisas me interessa mais/ Amar e mudar as coisas, amar e mudar as coisas me interessa mais”. (Alucinações – Belchior)

É interessante como gosto de ouvir as composições de Belchior, seu sotaque nordestino carregado de sentimento latino-americano sem dinheiro no banco, mas confesso nunca tinha prestado a devida e merecida atenção nesta música que destaquei acima. É claro que digo isso porque sou miseravelmente incapaz de entender tudo o que a genialidade constrói na mesma, mas sinto tanto todas as construções.

Acho mesmo que esse texto é sobre sentir e entender, mas sem tempo que estou não consigo determinar.

Voltada que estou para o fazer docente, me atrevo entre palpites e reflexões a sonhar com um novo modo, muito pouco apaixonado e muito mais militante, cheio de obrigações e provocações que surgem frutos de uma história colonial e de exclusões, que matou, mutilou, calou, torturou e principalmente silenciou. Uma vez ainda ousei dizer de mim. Escolho textos, e reflexões para junto com os alunos aprender sobre a vida, ops! sobre a língua portuguesa. Em sala digo sempre, das minhas dores, da minha ancestralidade não remetendo apenas a questões de ordem religiosa, mas de vida, exemplos, conformações e alegrias. Permito que me toquem com suas perguntas, inquietações, sonhos e coragem, e então me acendo novamente. Faço isso sim, extraio dos meus alunos um pouco de suas energias transformadoras, e eu uma vez incendiada, ensino-lhes a resistir. Paulo Freire nos fala sobre isso de resistência, outros também, Bell Hooks lendo-o, acrescenta que é preciso transgredir para a liberdade.

Comecei o texto falando de como educação é importante para mim, quando na verdade gostaria mesmo de dizer que gosto de mudar as coisas. Uma das coisas que pela tradição dos meus antepassados eu gostaria de mudar é o peso da tradição escrita, em relação à tradição oral, e como discordo disso. Penso que escrever e registrar implica em manter a ordem das coisas: Ensino os alunos a escrever, (olha só a prepotência) e assim eles são inseridos na cultura letrada, o que significa que vão conhecer por meio dos registros escritos, que foram escolhidos para serem transmitidos dentro de uma ordem econômica e social, as regras e a cultura que devem ser mantidas.

É claro que temos registros de textos, literaturas e afins que são contra hegemônicos, que situam-se nas margens, e que trazem um pouco da dimensão da pluralidade social e intelectual, mas dentro das escolas, nas academias, nas mídias e na sociedade de modo geral esse segmento é resistência, exigindo um esforço de subordinação para a insubordinação. Imagino daqui, sem suporte de nenhuma teoria, que todos nós sabemos dizer do que sentimos, e na medida em que praticamos, tornamo-nos melhores nisso.

Já escrever, exige uma série de contratos, códigos e conhecimentos que vão muito além do sentir. Para dizer tudo o que se pensa é preciso adquirir plenamente o conhecimento sobre a língua, e mais do que isso para quem e o que se pensa, e quem pensa a partir de onde se pensa. Horrível isso, não?

Uma das coisas que aprendi é ter pudor.

Uma das coisas que a idade me deu foi pudor, uma outra foi:  fios de cabelo brancos. Prefiro a segunda a primeira, embora ainda não minta que os acho um charme, mas a ideia de que refletem sabedoria me anima sobremaneira. Não confundam, ainda estou falando sobre os cabelos brancos.

Alguns incautos poderiam dizer apressadamente que o pudor também é fruto de sabedoria, nada sabem, tolos. Pudor é aceitação de que a sociedade, e suas regras, pesam em suas ações, e por isso mesmo são mais importantes do que suas vontades, ou qualquer coisa que pudesse te fazer feliz.

Me sinto feliz quando assisto vídeos de declamações de cordéis, batalhas de rap, apresentações de slam de resistência, palestras do TEDx e vejo como ensino meus alunos para a fragilidade, é quando sou mais triste. Toda a tecnologia dotando de muito poder o falar.  Quanta força carrega a oralidade.

A escola não fez de mim uma conservadora, mas ainda assim sei que sou. Lembro episódios da minha vida: certa feita, sentada estava de pernas abertas e saia, foi me avisado que era preciso ter bons modos, pudor. Noutro momento os cabelos alvoraçados precisavam ser domados para a entrevista de emprego: pudor. Um batom vermelho nos grossos lábios seria muito estranho para cantar no coral da igreja, quem sabe um pouco de pudor, hein? Falar alto enquanto muitas mulheres apenas acenam com as cabeças em acordo ou desacordo pode parecer um pouco inadequado. O pudor em si não é uma violência, é uma recomendação para que você seja aceito com bons olhos, o que prefiro ler como submissão, então algumas vezes me submeto, mas muito mais para esticar a corda e ver onde arrebenta.

Professora, militante, escritora
Mara Emília Gomes Gonçalves é formada em Letras pela Universidade Federal de Goiás. Gestora escolar, professora, militante, feminista, negra. Excelente leitora, escritora irregular. Acompanhe-a também em seu blog: LEITURAS POSSÍVEIS.
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