Os reis, de Julio Cortázar

Os reis, de Julio Cortázar

Este é o primeiro livro que Cortázar assina com o próprio nome [a publicação anterior – Presencia – uma coletânea de poesias assinou com o pseudônimo de Julio Denis]. E nele o autor retoma de forma extremamente criativa o mito do Minotauro, filho de Pasífae, esposa de Minos, que como disse ironicamente Millor Fernandes, “mandou ver com o Touro”. Como todos sabem, Minos encerrou o Minotauro no labirinto do plácio de Cnossos, em Creta.

Como salienta Ari Roitman em seu excelente prefácio a esta edição, o autor “recria o mito do Minotauro, desenvolvendo porém variações que produzem surpreendentes efeitos de sentido”. Para começar, o herói deixa de ser Teseu: o monstro, por ser o diferente, encarnaria precisamente o outro lado dos reis e filhos de reis: Minos, Teseu, Egeu, Ariadne. Ele é o duplo. O que se esconde “negro coração” por trás das paredes do peito, Minotauro expõe à luz do dia. Por isso ele é apresentado como o complemento de quem o encerrou e de quem o matará. E como tal será o mestre do jogo das palavras.

O texto é composto pelas seguintes cenas:

Cena 1 – longo diálogo entre Minos e Ariadne. Ambos estão em frente ao labirinto, e conversam sobre a necessidade que teve o rei de encerrar a monstruosidade, enquanto esperam a chegada de mais um grupo de donzelas e rapazes atenienses para o sacrifício a Minotauro. Deste diálogo, extraio a seguinte passagem, que revela o outro que habita cada personagem [e cada um de nós]:

Minos: – Uma mulher não sabe olhar. Só vê seus sonhos.

Ariadne: – Rei, assim olham os deuses e os heróis. Tu mesmo, o que vês do dia senão a noite, o medo, o Minotauro que teceste com as teias da insônia? Quem o tornou feroz? Teus sonhos. Quem lhe trouxe o primeiro grupo de rapazes e donzelas, arrancados de Atenas pelo terror e o prestígio? Ele é tua obra furtiva, como a sombra da árvore é um resto de seu terror noturno.  

Cena 2 – Chegados os condenados, Teseu se aproxima de Minos e acontece o diálogo entre eles. Quando Minos lhe pergunta “quem és?”, responde-lhe Teseu “um igual”. Minos sabe que Teseu vem para matar. A conversa girará em torno do destino, do encarceramento, da prisão que nem a morte livrará o herói. E também do jogo das palavras, tanto que em certo momento Teseu diz: “De súbito descubro em mim uma perigosa facilidade para encontrar palavras. O pior é que gosto de tecê-las, ver no que vai dar, lançar as redes”.  Numa passagem de intervenção de Minos, eis um achado: “É estranho Cada um constrói seu próprio percurso, é o seu percurso. Por que, então, os obstáculos? Trazemos o Minotauro no coração, no recinto negro da vontade?”.

Cena 3 – Trata-se aqui de um monólogo de Ariadne, prometida por Minos a Teseu na cena anterior [“Mata-o e guarda essa morte como uma pedra na mão. Então te darei Ariadne”],que se encontra do lado de fora do labirinto segurando o novelo de linha que permitirá o retorno de Teseu. Ao mesmo tempo em que pensa em Teseu, também deseja o encontro com o Minotauro: Nu e rubro, vestido de sangue, emerge e vem a mim, ó filho de Pasífae, vem à filha da rainha, sedenta de teus lábios rumorosos!” Eis outra duplicidade explorada por Cortázar. Ariadne explicita a compreensão do mito que nos propõe o autor:

Os olhos de Teseu me fitaram com ternura. “Coisa de mulher, teu novelo; jamais encontraria o retorno sem a tua astúcia.” Porque todo ele é caminho de ida. Nada sabe de espera noturna, do combate salobríssimo entre o amor à liberdade, ó habitante destes muros!, e o horror ao diferente, ao que não é imediato e possível e sancionado”.

Cena 4 – Aqui temos o diálogo, no interior do labirinto, entre Teseu e o Minotauro. Ao contrário da versão tradicional, é o Minotauro que se oferece em sacrifício. E Teseu sabe que carregará esta morte e que o mito permanecerá. Duas passagens:

Teseu – “ … Fala-se tanto de ti que és como uma vasta nuvem de palavras, um jogo de espelhos, uma reiteração de fábula inapreensível. Tal é ao menos a linguagem dos meus retóricos.

Minotauro – É como se olhasses através de mim. Não me vês com teus olhos. Nem sequer tua espada me está justamente destinada. Deverias golpear com uma fórmula, uma oração: com outra fábula.”

Na passagem seguinte, Minotauro reflete sobre sua possiblidade de sair do labirinto seguindo a linha de Ariadne:

“… Sair para outro cárcere, já definitivo, já horrivelmente povoado com seu rosto e seu peplo. Aqui eu era a espécie e o indivíduo, cessava minha monstruosa discrepância. Só volto à dupla condição animal quando me olhas.A sós sou um ser de traçado harmonioso; se decidisse recusar-te a minha morte, travaríamos uma batalha estranha, tu contra o monstro, eu te olhando combater uma imagem que não reconheço como minha.”

Cena 5 – Aqui é o momento da morte do Minotauro, e o diálogo se dará entre o citarista que se aproxima para tocar, agradecendo ao monstro por ter ensinado a todos os que supostamente teriam sido sacrificados: em verdade estão todos vivos, livres e dançam agora como dançaram antes dentro do labirinto. O tema aqui será o do esquecimento, a vida como um percurso de esquecimentos.

xxx

O grande jogo, neste genial exercício de recriação de Cortázar envolve a passagem contínua entre dois níveis: o da narrativa e o da metanarrativa, em que se discutem os acontecimentos. Neste sentido, se o Minotauro instaura a diferença e se os “reis” não conseguem conviver com a diferença e a encarceram num labirinto, persiste lá, recôndito, o que se quer negar. Ora o que não é “imediato e possível e sancionado”, ora o escuro de nós mesmos que habita as paredes do peito e se esconde no negro coração. Temos, pois, um jogo tríplice: do eu comigo mesmo; do eu e o outro diferente de mim; e da narrativa e metanarrativa. E como a tudo se dá pela chave da linguagem, ensina o Minotauro que somente se mata uma fábula com outra fábula; uma narrativa com outra narrativa.

Politicamente, isto é, na polis, trata-se de elaborar esta outra narrativa…

Referência. Julio Cortázar. Os reis. Rio de Janeiro : Civ. Brasileira, 2001.    

Não absolvam Gilmar Mendes!

Não absolvam Gilmar Mendes!

Com as revelações da Vaza Jato deste domingo, há muita gente querendo justificar a decisão do ministro Gilmar Mendes de suspender a posse de Lula como Ministro da Dilma, porque ela teria sido baseada em informações selecionadas pelo ex-juiz e agora ministro apequenado de Jair Bolsonaro.

Assim como fui com vergonha quando vi a foto de Lula abraçando Maluf para angariar votos para a eleição de Haddad para a Prefeitura de São Paulo, hoje sou contra esta absolvição do ato político – e não de base jurídico – aquela tomada por Gilmar Mendes.

Como todos sabem, os ‘sorteios’ do STF somente funcionam quando o caso não interessa a ninguém… quando interessa – por exemplo, todos os processos que envolvem próceres do PSDB caem na mão ‘por sorteio cego’ de Gilmar Mendes.

O caso da posse de Lula como ministro também caiu com o golpista Gilmar Mendes – ou alguém está disposto a defender que o PSDB, de Tasso Jereissati a Fernando Henrique Cardoso, passando por seu ministro no STF, o dito cujo Gilmar Mendes, não foram golpistas?

Ora, Gilmar Mendes decidiria o que decidiu independente do vazamento criminoso do atual Ministro da Justiça. Sempre foi assim, assim sempre será quando se trata de Gilmar Mendes.

Ou alguém acredita na boa fé da proposta absolutamente sem fundamento legal, no último julgamento do Habeas Corpus de Lula? Primeiro, Gilmar Mendes pede ‘vistas’, ou seja, adia a decisão. Depois volta com o processo, não com seu voto favorável a Lula ou contra Lula, volta com uma chicana jurídica: não se decide o mérito, mas enquanto não se decide, Lula fica preso. Ora… todo mundo sabe que Lewandowski fez um esforço enorme para no palavrório do juridiquês tentar salvar a proposta de Gilmar Mendes, que a fez sabendo que não teria sucesso!

E está dando no que está dando: até hoje no processo continua esperando julgamento! E Gilmar Mendes saiu vitorioso, com aplausos da esquerda!!!

Por isso, não absolvam Gilmar Mendes!!! Ele faz questão que Lula permaneça preso. Não se deixem engambelar pelas críticas a Lava Jato. Elas somente começaram a acontecer que ele percebeu que os próceres do seu partido, o PSDB, poderiam também entrar na vala comum da demonização da política.

Estou hoje num grupo que pretende homenagear a Luiza Erundina e Paulo Freire, recordando os 30 anos de começo do governo municipal de Erundina! Todos querem um evento suprapartidário, aglutinando as forças democráticas!!! Logo terão José Serra, Fernando Henrique Cardoso, Aloysio Nunes, João Doria, todos no mesmo evento… Não se faz “frente” alguma esquecendo a história!!! Frente que esquece a história constrói o próximo golpe contra a democracia logo ali, na curva da primeira esquina da história!

Por, pelamor de deus, não absolvam Gilmar Mendes. Ele continua o mesmo golpista de 2014…

Sobre lutas e lágrimas. Uma biografia de 2018, de Mário Magalhães

Sobre lutas e lágrimas. Uma biografia de 2018, de Mário Magalhães

Este é um livro para se guardar e volta a ele toda vez que um disparate acontecer no governo Bolsonaro ou naquele, improvável, que vier a substituí-lo caso ele não atravesse os quatro anos de mandato.

Aqui temos a história contada enquanto ela acontecia. Os fatos marcantes do ano em que a maioria da população preferiu participar da construção de um regime autoritário do que tentar continuar numa democracia que nos últimos anos fez um ensaio de transformar o Brasil numa nação e não apenas num território de poucas pessoas e milhares de subalternos, alguns passando fome ou trabalhando em regime de escravidão. Foi o que decidiu a maioria, ou por voto direto ou por omissão ou por ressentimento de alguns líderes políticos como Ciro Gomes ou a minúscula – em todos os sentidos – Marina Silva e, acima de todos, o vaidoso neoliberal Fernando Henrique Cardoso.

O que mais ensina o autor aos que ensaiam na crônica é a condensação que faz com as informações de que dispõe. Ao contrário do que se poderia esperar de textos escritos antes da poeira baixar, a técnica de Mário Magalhães é transformar um fato em tema, e partir do tema ir aos arquivos do passado e do persente para dar ao fato um contexto mais amplo, mas sem deixar de tomar posições sobre o acontecimento que deu início ao que se pode chamar de pesquisa do cronista.

Neste sentido, os textos que compõem o livro ultrapassam o gênero porque também fazem história. Trata-se de um gênero em construção, filho da crônica porque se debruça sobre um acontecimento do presente; filho da narrativa histórica porque engancha o presente a séries do passado, articulando semelhanças e diferenças entre o hoje o ontem histórico; mas também filho da política porque todos tratam de fatos políticos. Tem um parentesco ainda com a reportagem, no sentido de que esta também toma um fato e levanta seus contextos próximos.

Insisto que neste caso é mais importante, como em muitos outros, estar atento às relações intergenéricas que gestam, nas diferentes esferas da comunicação, os gêneros discursivos adequados ao projeto de dizer e à relação interlocutiva pretendida: o autor fala do presente não para registrá-lo como fonte futura de historiadores. Ele fala do presente e ao mesmo tempo escreve história, ao militar politicamente sem contudo cair em partidarismos.

Nestes textos, Mário Magalhães mostra o quanto está informado e como são diversas as suas fontes, desde livros de história até recados e mensagens nas redes sociais, de modo que o leitor de seus textos tem sobre cada tema uma rede que recobre com seus diferentes nós as reações dos sujeitos face às interpelações ideológicas a que se encontra submetido.

Tomemos um exemplo. Em “Pra mim chega”, inicia-se o texto referindo-se à comovente foto publicada em fevereiro (de 2018) em que um pai, aritxa Iwyraru Karajá velava o túmulo de seus dois filhos que se suicidaram entre 2012 e 1026. Este fato o leva ao tema do suicídio, de que traz inúmeros dados e estudos, e também outros suicídios. Obviamente não faltaram referências a Virgínia Woolf, a Getúlio Vargas e ao reitor da UFSC, o Prof. Luiz Carlos Canceller de Olivo. Dentro do tema, a questão que discutirá será aquela do jornalismo: noticiar suicídios produz o efeito Wether, isto é, o aumento do número de suicídios logo após o noticiário. Por outro lado, é adequado não informar? Neste texto o autor acaba por colocar o leitor em outro quadro distinto para revisar sua compreensão dos suicídios, trazendo dados da economia que levam ao “pra mim chega!, de modo que inúmeros suicídios, como o do reitor da UFSC, retratam uma época como o suicídio de Stefan Zweig retratou a época do nazismo alemão, ainda que sua morte tenha ocorrido em Petrópolis, longe de Hitler e do furor nazista de que escapara para o Brasil.

O livro é composto por um longo prólogo que situa o ano de 2018, correlaciona-o a 1968 e aos anos anteriores à ditadura militar. Depois se seguem as 43 crônicas que em certo sentido comprovam empiricamente o que defendeu no prólogo: 2018 foi “um ano que tão cedo não vai terminar.

Nada melhor para ler, para lembrar e para deixar para os filhos para que compreendam o que aconteceu quando a ameaça que temos pela frente é a da censura ao rela em benefício de uma narrativa fabricada segundo a voz de um clã que foi elevado à presidência da república graças às ações de um judiciário partidarizado e de uma elite política e econômica mesquinha e burra.

Referência. Mário Magalhães. Sobre lutas e lágrimas. Uma biografia de 2018. Rio de Janeiro: Editora Record, 2019.

O primeiro e o segundo homem, de Sérgio Jacaré

O primeiro e o segundo homem, de Sérgio Jacaré

                                                        *(com um carta inédita do autor)

Neste volume em que o escritor gaúcho reúne seus contos, Luiz Sérgio Metz assume oficialmente seu apelido, assinando-o como “Jacaré”. E mesmo que os livros posteriores, publicados depois de sua morte (prematura, aos 43 anos, em 1996), como Terra Adentro e A Usina do Gasômetro estampem o nome completo do autor, para quem o conheceu, ele será sempre o Jaca. E como Luís Augusto Fischer intitula o “verbete” que lhe dedica – Com saudade do Jaca – no livro em que apresenta 30 perfis de escritores heterodoxos [Coruja, Qorpo-Santo & Jacaré, L&PM Editores,2013] , todos temos saudades do Jaca.

O conjunto de contos que compõe O primeiro e o segundo homem tem apresentação do grande escritor gaúcho Cyro Martins que sublinha “a polpa sumarenta de realidade humana” das personagens destes contos. De fato, em cada conto há um gosto da terra, neste amor por sua gente e pelo seu espaço, tão próprio do Jaca.

Apresento a seguir cada um dos contos, num resumo que não lhes faz justiça mas que espero agucem a curiosidade para buscarem esta “polpa sumarenta” para se deliciarem e se angustiarem com a vida que o autor nos mostra.

O neto do Senhor.

O céu dá um intenso sinal de Luz Azul, num ritmo erótico: acontece que Cristo se apaixonara por uma jovem bugra missioneira, de nome Maria, “cujo rosto era também dois olhos poentes que espalhavam ao corpo notícias de peixe, de pão e de vinho”. E Cristo decide imitar seu pai, dar à terra seu Primeiro Filho. O tempo corre, chega a Primavera e Maria tem seu último aviso em sonho na barca. Prepara-se. Às três da madrugada, em São Miguel, a Luz Azul “desencobrindo-se das nuvens, desvencilhando-se, avançando mais até o êxtase junto à janela de Maria. Maria retirou o manto. A Luz tocou-a. […] percorreu as superfícies morenas e delas fez o Salmo. Da pele fez o aroma e das ideias fez o Cântico.” E Maria ficou olhando para o alto: “Lá onde têm origem e fim as convergências de todos os infinitos”. E quando o vento Minuano dela se despediu, disse: “Vai se chamar Tiaraju, como Ele”.

Ulpiano, seus irmãos e sua velha mãe.

O narrador instala-se à margem esquerda do Rio Piquiri para ver passar a família de Ulpiano Arrido que decidira sair da terra e ir para a cidade. Aguarda que apareçam na curva da estrada, compartilhando com todos os outros vizinhos a pergunta de como seria a vida dos Arrido na cidade. Trata-se aqui de um tema típico da passagem do velho mundo dos grotões para a modernidade urbanizada daqueles que o abandonaram. Telúrico, agarrado à terra, o narrador

Tinha pensado primeiramente em dissuadir Ulpiano e sua família de se ir embora. Mas depois, pensei bem… Conclui que os Arrido tinham esse direito. De qualquer forma, não sairiam nunca desta envelopada miséira que vem do fundo dos tempos. Eles estavam dispostos a abandonar tudo e seria pouco moderno tentar mantê-los neste eterno entrar e sair de sol. […] A cidade é o céu ao feitio do homem, e a claridade das ruas à noite é patrimônio também dos que dela nunca usufruíram.

Quando os Arrido cruzam com o narrador, este nada consegue dizer de tudo o que pensara como persuasão para mantê-los na terra. E o diálogo será curto. Ulpiano lhe pergunta se está indo pescar, e ele responde que se prepara. E recebe a última fala:

– “É bem bom pescar, sim senhor…”

[Nota: Ao ler este conto não pude deixar de lembrar uma velha carta que ainda tenho comigo que me mandou o Jaca no primeiro semestre de 1980, quando eu e família preparávamos nossas malas para sairmos do Rio Grande do Sul, e virmos trabalhar na Unicamp, em Campinas. Ele apresentava inúmeros argumentos tentando me dissuadir de sair do nosso estado, de “vir para o estrangeiro”. Como sei desta alma telúrica do Jacaré, sei também que a história de Ulpiano se inspira nas inúmeras histórias de migrações: rural/urbano; urbano/urbano; de um estado a outro da federação.]

A nica joga.

Este conto somente compreenderá quem já jogou bolita (bolinha de gude). Bolitas tilintando no bolso. Mas entre elas ou delas separada para um lugar especial estava a “nica joga” ou “a joga”, principal, aquela com que se ganha ou perde e que, se  perdida, faz a angústia e o desespero do jogador, além de deixa-lo mal junto aos companheiros. Neste conto, o narrador perde sua “nica joga” para um adversário implacável!

Chamava-a com outros nomes: leiteira, pois tinha quando nova uma listra de nata. Chamava-a pioquinha, embora sendo de tamanho médio, mas o carinho assim me sugeria. Quando envelheceu e carunchou-se de tanto levar secas, chamei-a agdazinha. Dirigia-me a ela, em casos extremos, chamando-a de micapuxa, pois era a última e me socorreria quando minha mira falhasse. […]

Aposteia-a. Ela levou um estouro sólido, perdi-a. A terra incrustrada no nó dos dedos, os joelhos gastos, o bolso fundo e vazio. Voltar para casa, passar pela pena d’água pública com meu sobretudo de gabardine marrom e sujo. Ouvir reclamações em casa que vou mal nos estudos, que nunca pego um caderno, que já não vou ao catecismo.

O alarido do jogo retido na cabeça. Aquele silêncio agônico dos jogadores, a inclemência do ganhador, o frio gelado de respeito dos meus amigos, como a um que morresse para sempre. O jogo para eles continuaria, até o mais puro esquecimento.

Fica algum tempo sem jogar, até que um amigo aparece com ela, e lhe “dá de presente”, gesto maior de amizade. Encomenda mais bolitas da Argentina, donde vinham as melhores…

A noite da Boiguaçu.

Aqui o narrador Tatuim está numa mesa de bolicho, bebendo com um turista. “O poncho encharcado de chuva – por debaixo vinha o Gomes só com a cabeça de fora”. Gomes entra, senta-se junto à janela e nesta posição é alvejado por um tiro vindo da escuridão.  Tatuim diz ao turista: “não olhe o corpo”. Ouvido o tiro, vem o irmão do morto, e por sua boca se fica sabendo a razão do crime: o irmão morto havia denunciado um roubo de soja. O clima é pesado, mas Tatuim narra ao turista de São Miguel a história da Cobra Grande, a Boiguaçu, a quem eram sacrificadas os filhos dos índios na guerra de 1750. Ela teria permanecido lá, na torre da igreja: em noites de chuvaral os raios clareiam a janelinha – são os olhos da Boiguaçu!

O Gomes vivo bebia. Organiza com o bolicheiro a retirada do cadáver do irmão, mas eis que chega novo cavaleiro ao bolicho:

O cavaleiro enxugou Gomes num olhar que vale uma filosofia. O do violão fez um gesto com a boca, logo desfez. Tentou levar a boca à posição normal, mas os lábios mostraram-se irredutíveis, até a boca atrapalhava. O cavaleiro manteve o olhar seco no Gomes. Tatuim quebrou, adiou, a desventura do Gomes.

Supostamente o cavaleiro e o Gomes vivo se entenderam: o cavaleiro levaria o corpo do irmão morto em seu cavalo… mas o Gomes pegou sua faca e saltou sobre o cavaleiro, que numa negaça conseguiu se safar do golpe e sob o poncho a mão do cavaleiro não vacilou. “…os dois Gomes não nasceram para semente. Tatuim olhou perdido para o turista. O turista estava parecia uma vela”.

O primeiro e o segundo homem.

Aqui o narrador com outros curiosos assistem uma luta de morte nos trilhos do trem. Escondendo-se nas macegas, viram quando o primeiro homem chegou, escondendo a faca do brilho da lua; o segundo homem também chegou tenso. Ambos usaram as chairas, afiando suas facas. A luta começa:

… as faíscas, que pulavam das lâminas entrechocadas, pareciam encandear os dois homens, mantendo-os debaixo do fogo de um esmeril. Em cruzadas sequentes, o mesmo artifício tenaz de defesa e ataque, ampliara a crueza desse espetáculo, transformando-os em dois ágeis pomos de fogo.

Atingido no braço, assim mesmo o Primeiro Homem consegue atingir o adversário enterrando a faca no ventre do Segundo Homem. Ele arqueia, como se em reverência. O Segundo Homem tira sua camisa, tenta estancar a hemorragia, reage em ataque às cegas, o Primeiro Homem caiu, e antes mesmo que estivesse no chão, a faca lhe transpassa a garganta. A lua escondeu-se; no macegal, ressoou um grito “caramba!” Como disse Cyro Martins na apresentação, parece que estes dois homens nasceram apenas para se matarem.

A cadela e o guri.

Este conto curto focaliza a vida miserável, de ladrões e de catadores de utilidades no lixão. Um destes miseráveis que somente aparecia pelo lixão quando suas outras formas de sobrevida lhe falhavam. Ia infeliz. Dá um coice na cadela de um menino que também catava a vida nas sobras. A cadela estava grávida. O guri volta para casa, mãe e pai se revoltam. Todos aguardam alguma forma de desfecho. O guri deixou de aparecer no lixão, onde a vida continuava em seu ritmo marcado pela chegada dos caminhões:

No lixo as crianças pulavam de monte em monte à procura de novidades. O mosquedo revoando junto às vacas que mascavam revistas. A zunideira ganhava força quando os caminhões viravam suas caçambas e o cacaredo descia deslizando a formar novos montes de surpresas. […] No fim dos dias, formavam filas ou procissões, sacos nas costas, seguiram para as vilas.

E o dia da vingança chegou. O pai do guri foi ao lixo. “Tudo silenciou e o silêncio foi curto”. Com um cano, o pai feriu o rapaz do coice. Este urrou e reagiu com sua faca pedindo sangue. E o sangue veio: “o pontaço foi sem volta, na femural”. O grito, irreparável, o suspiro: agônico. A cadela deu mais um uivo. “O guri ficou com um brilho violento nos olhos que se perdiam na imensidão dos montes de lixo”.

A cordilheira e o vento.

No final de um dia simples, encontram-se amigos para o gole de cachaça na casa de Belizário. Os amigos foram chegando para ouvir os causos que o dono da casa contava. E logo vem o caso, de uma caçada de tatu quando Belizário ainda era piazito. Seguiram em caça com os cachorros, subiram a cordilheira, conseguiram pegar uma macaiera enorme, mas o tatu estava frio… Mesmo atônito, o piazito enterrou a faca que lhe deu o companheiro no pescoço do bicho. Imediatamente rebenta uma ventania, vendaval medonho derrubando árvores e o vento uivando. Belizário desmaiou de pavor. Florismundo o carregou para baixo. Depois de contado o causo, decidem todos eles irem caçar tatu naquela noite. Acontece que o taipeiro, sempre arredio, considerava que todos temiam andar com ele, que o tomavam como um monstro. Na caminhada, examina-se na lâmina de sua pá e vê que sua mão não se reproduzia; na lâmina vê uma garra que imagina ser sua. Pensa que está se transformando em um tatu monstro como o do causo que ouvira.

Correu em desatino à mão pelo corpo e os dedos lhe deram conta que sua carne era uma casca de macaiera. Atirou a pá no vazio da encosta e precipitou-se a correr pelo pedregulho na mesma direção. No primeiro lance de voo ainda lúcido, temeu pelos acôos dos cachorros que o estraçalhariam, pela faca de Belizário que se enterraria em seu pescoço…

Lucinho, o inventor de passarinhos.

Desde bebê, Lucinho ouve o som dos passarinhos de dentro do berço, o canto que vem pela janela. Era o canto da Juriti. Seu encantamento com os pássaros leva seu pai a trazer-lhe de presente de uma viagem apitos que imitavam canto de pássaros. Usa um e outro apito, escondido. O menino procura que procura mas não encontra o pássaro que canta. No almoço daquele dia, o pai lhe mostrou os sete apitos e imitou as aves. Todas as cenas deste conto envolvem pássaros. Diferentes pássaros e diferentes cantos. Mas ‘havia’ um pássaro no céu, distante: “uma ave azul que não era o azulão, que não era o noivinho, que não era ninguém”. Da terra, Lucinho o chama com seu apito fazendo assim

– Pufiu-pufiu-pufiu-pufiu-fiu-fiu-fiu-fiu-fiu…

E o pássaro veio, baixou sentou calmamente. Lucinho deu-lhe o nome de Fonfini… Numa viagem com o pai, começa a ouvir o canto de outro pássaro, seu amigo. Era a primeira vez que ouvia seu pássaro cantar estando ele junto com outros. Chama atenção do pai, dizendo que quem cantava no céu era Avud-Mouro!!! Mas o pai nada ouvia, nada via. E começa o menino a usar seus apitos, para que o pai adivinhe o canto. A cada som, um nome de pássaro. Mas quando Lucinho chega ao “pufiu-pufiu…” o pai diz que não sabe que pássaro é este. O filho lhe conta então de Fonfini… E enquanto isso acontecia na terra

O Avud-Mouro lá no céu fazia arruaças com suas asas e penas. A cada apito balançava-se nas doces cordas do vento e desgovernava-se em direção à aranha. Depois subia, subia para o mais alto ponto do céu.

Almas arrabaleiras.

Narrativas “puebleras” são curtos contos que em cenas exploram os mais diversos sentimentos humanos de personagens que vivem nos subúrbios, nos “Pueblos”. O neologismo “arrabaleiras” que aparece aqui no título tem como radical o mesmo que corresponde à palavra “arrabalde”: periferias, subúrbios… Em espanhol, a palavra é “arrabal”, donde “arrabaleiras”. Aqui, o narrador abre afirmando: “Os enredos do tempo, disfarçados em claridade, têm me dado palmos de escuridão sempre mais espessos”. Esta minha chave de leitura deste conto espetacular: descobrir que a claridade esconde a escuridão…

A personagem central é Andejo Caiãn, o bugre matemático: ele faz as contas do câmbio, da troca de moedas, num mundo em que o contrabando corre mais ou menos solto: “Os maltrapilhos frequentavam sua casa de câmbio e depositavam no bugre e suas contas uma fieldade cristã”. Ele despacha no “ponto social irrefutável a todas as mulheres que buscassem compreender o mundo”: a Pena d’Água. E entre as mulheres, Inácia Maria, mulher de brigadiano: seu aparecimento levava Andejo a debruçar-se sobre seus cadernos e seus cálculos…  Certo dia chega para consulta Anastácio Antunes, o degolador preto. Quer que Andejo avalie uma faca de prata. Andejo diz que somente sabe câmbio, incapaz de avaliar arma. Seguidamente usava uma “moeda” que ninguém sabia o que era: o maravédis. E Andejo desconversava, e Antunes insistia. De repente, o cambista lhe diz: “No céu entenderás os maravédis”. Falar no “céu” é também falar em morte… e Antunes que saber como descobriu o triângulo amoroso entre o brigadiano (polícia militar no RS), o marido traído, Inácia Maria e Antunes… Andejo lhe responde: ela perguntou de ti quando enchia o balde. Antunes lhe encomenda a morte do brigadiano. Andejo recusa. A seguir, vai Antunes à casa do narrador, o menino que tudo observa: seu pai havia sido morto pela guarda costeira, quando cruzava o rio Uruguai com sua carga de pneus. Oferece ao filho do falecido Valdelírio sua paternidade, seu apoio a qualquer necessidade. Por seu turno, também o brigadiano consulta o narrador. Seu pai havia sido seu confidente. Havia rusgas entre o marido e a mulher Inácia Maria. Da rusga para a ‘peleia’ em que morrem o marido traído e o amante. Andejo aplica em Inácia Maria uma surra pública… e o narrador arruma seus ‘mijados’ e monta no cavalo de Anastácio Antunes no rumo de Santo Isidro (Argentina) onde está enterrado seu pai: é a busca do infinito para além do arrabalde de Pena d’Água.

Uma análise deste conto é apresentada por Renato José Bittencourt Gomes, em sua dissertação de mestrado em que estuda uma obra de Tabajara Ruas, porque também esta estaria entre as narrativas “puebleras”, em que o elemento líquido aparece. Em Jacaré, a Pena d’Água; em Tabajara, o rio Uruguai que separa as cidades de Uruguaiana (Brasil) e Paso de los Libres Argentina). Escreve Gomes:

No título do conto, o adjetivo arrabaleiras certamente está muito próximo de puebleros e temos no seu enredo alguns elementos que coincidem quase que pontualmente com elementos do enredo de Perseguição e Cerco. Temos no conto de Metz:

  • um triângulo amoroso que envolve um policial;
  • a sobrevivência à custa do contrabando;
  • um narrador que recorda um ente querido (no caso, o pai) que era contrabandista e foi morto pela polícia;
  • o impulso do narrador para sair em busca de seu destino, seu desejo de sair para o mundo;
  • o elemento líquido (na Pena d‟Água onde as mulheres iam encher seus baldes e na chuva que cobre os últimos parágrafos).

Nesse conto de Metz, Andejo Caiãn, o “bugre matemático”, auxiliava as pessoas do lugar calculando o câmbio das moedas: “Quando o contrabando de farinha e azeite assumiu força de hábito nas missões, Andejo passou do dia para a noite à condição de matemático.” (METZ, 2001, p. 91)

(Renato J. B. Gomes, A bênção de um anjo formoso e cruel. O pampa líquido de um certo Juvêncio Gutierrez. Dissertação de mestrado em Estudos Literários, UFPR, 2009)

Em toda esta minha apresentação, há uma falta – a presença forte do narrador-personagem neste conto. E também uma espécie de ‘confissão’ do narrador, que narra lembranças, como se pode ver nesta passagem, no começo da parte denominada As ruas:

Recordo. Quando o sol fende o cálice de vermute sobre a mesa branca é porque vem me chegando vagarosamente as notícias de Pena D’Água. Não as peço, tampouco as evito. Há vinte anos ela foi destruída. A enorme pedra grés há vinte anos foi destruída. Olho demoradamente para o cálice de vermute aberto ao meio pelo corte do sol. Misturo a ele o negror botânico do biter e de nada me esqueço, embora mude a cor do cálice e do sol. Nesses dias a melancolia esfola com suas legendas e trilhas. Pede-me que seja o réu em sua devassa. Abre o expediente de um magnífico inquérito e me arrola de mil maneiras. No centro de seus juízos, eximo-me do cálice, do bar, da mesa e sigo seus turbantes velozes sem pedir apartes.

Quem diz isso é um narrador, que não é o mesmo filho do assassinado Valdelírio que tomou o rumo de Santo Isidro… Este é um outro narrador (o Jaca?) que narra tudo, incluindo o que supostamente estaria narrando a história.

Referência. Sérgio Jacaré. O primeiro e o segundo homem. Porto Alegre ; Martins Livreiro-Editor, 1981.

Traduzir: volto a me ocupar com esta tarefa

Traduzir: volto a me ocupar com esta tarefa

Tenho comparecido muito pouco neste blog com comentários políticos, quando a política está pegando fogo com os imbecis menores queimando a Amazônia imaginando que estavam agradando ao Imbecil Maior, o Maligno, que comemorou mas teve que por o rabo entre as pernas, chamar uma reunião de emergência, criar um “gabinete de crise” depois que percebeu, o pobre e ignorante, que o mundo não está cheio de crentes em mamadeiras de pirocas.

Há assunto, e muito. E muita raiva acumulada para extravasar na escrita, porque não se escreve sem paixão! Só burocratas ‘pesquisadores’ que não sabem a quem estão servindo escrevem sem paixão seus ‘papers’, suas dissertações, suas teses. Sem nenhum gosto por seus temas e sem qualquer amor pela humanidade e muito menos, mas muito menos ainda, pelo fervor com a ciência!

E, ainda assim com tanto a dizer, estou ausente. E agora justifico: não tenho comparecido com crônicas políticas nestas segundas e terças porque estou trabalhando duro na tradução da obra monumental de Robert Alt, educador da antiga República Democrática da Alemanha.

Uma obra que encontrei na biblioteca de meu amigo Bernd Fichtner em Hilchenbach quando estava por lá como professor visitante do INEDD, programa internacional de doutorado em educação, da Universidade de Siegen. Fiquei apaixonado pelos dois volumes, lendo as imagens e tentando compreender esta língua de bárbaros que é o alemão!!!

Trata-se de uma história da educação através de imagens, que o autor chamou de “atlas mundial da educação”. Bernd Fichtner e eu pensamos que daremos uma contribuição à educação fazendo esta tradução de uma obra em dois volumes, cada um deles com mais de 600 páginas. As imagens e as informações que aparecem como comentários do autor trazem novidades desconhecidas por todos nós, como as preocupações com a educação de Goethe, de Schiller, de Herder… Um livro impressionante, escrito quando ainda não se tinha internet! As fontes manuseadas para encontrar as imagens compõem uma vasta literatura não só da área da educação.

A cada vez que aparece um nome novo: filósofo, artista, educador, político, romancista, poeta… lá vem entre parêntesis o ano de nascimento e de falecimento! E isso num tempo em que Wikipedia não existia nem nos sonhos dos mais visionários.

Esperem que verão o livro editado pela Pedro & João – já temos a autorização da editora alemã que o reeditou na década de 1990. E planejamos uma bela edição para 2020!!!