EU, um outro de Imre Kertész

EU, um outro de Imre Kertész

É difícil registrar a leitura deste livro: composto por reflexões esparsas e só aparentemente instantâneas; por autênticas crônicas de um cotidiano vivido e observado; por remessas à história da Europa, particularmente à história do povo judeu; por referências à história da Hungria anterior ao regime soviético e posterior a libertação; pelas inúmeras remessas à literatura e à filosofia, e ainda pelas narrativas de suas próprias andanças pela Europa em sessões de leituras de suas obras e as impressões/sensações que estas andanças criam para o escritor.
No entanto, o livro merece uma atenção redobrada, sobretudo pelas perguntas fundamentais que se faz o autor e cujas respostas somente podem ser provisórias, às vezes tão provisórias que duram alguns minutos. São perguntas como “quem sou?”; “que significa ser judeu?”; “que significa ser húngaro?”; “quem enxerga através de nós?”; “O que temes se sabes que és mortal?”; “com quem estou solidário?”. Ou ainda retomando perguntas: de Valéry: “Devemos formular todas as perguntas?”; de Beckett: “Que droga é que Deus estava fazendo antes da Criação?”.
Só pelas perguntas e pelos entrecruzamentos das referências ao passado, ao presente e aos autores com I.K conviveu e convive, dá para aquilatar a qualidade das reflexões que realiza neste Eu, um outro e a que convida o leitor a realizar por sua conta.
Ao chegar ao final, também restringi o mundo deste livro a três conceitos-chave: o nada que cada um é cujas identidades mutantes recobrem de um todo querendo apagar a insignificância do eu (ele é um estrangeiro em seu país, é um judeu na Hungria, e fora dela um estrangeiro em outros países, o que lhe permitiria encontrar então uma pátria de referência, pois o estrangeiro em algum lugar vem de um outro lugar. “Ser estigmatizado é a minha desgraça e ao mesmo tempo o meu capital e agora já é preciso temer que se torne indispensável, embora suportá-lo também fique cada vez mais difícil.”).
O segundo conceito é Auschwitz que não pode significar apenas um lugar, um campo de concentração, mas um modo de ser do humano ‘empoderado’ que conheceu a barbárie que o habita e do humano ‘vitimado’ que conheceu a força do outro e a resistência da vida que olha para além dos portões de Auschwitz sonhando liberdade, um mundo para além, outro mundo imaginado mas sequer sonhado. Acontece que Auschwitz é sinônimo de morte.
Por fim e paradoxalmente a esperança, porque este livro magoado, triste, perquiridor, desconstrutor do estabelecido continua a apontar para o encontro do homem consigo mesmo, com sua humanidade e sua insignificância no concerto da história, no entanto vivente, no entanto agente. Vida e morte; a primeira presente; a segunda horizonte: “minha vida é uma luta árdua pela minha morte e nessa luta – obviamente – não poupo nem a mim, nem aos outros. O resto é detalhe sem importância e posso começar onde quiser; basta eu fazer anotações para as a notações de um futuro romance; lembrete para uma memória exclusiva – a minha -, a qual ainda não está pronta para se abrir para a memória petrificada, universal: a forma.”  E daí o princípio que orienta a vida? “Se sua existência não for inacreditável, então não é digna de ser notada”. Mas todos somos “notados”, ainda que sejamos ‘ninguéns’, há alguém que posso nem conhecer que tornará inacreditável o que vivi. Foi disso que tirei a categoria da esperança para, fechado o livro, relê-lo mentalmente.
Imre Kertész faz suas reflexões dialogarem com o que está vivendo, como se aquelas fossem anotações a que as descrições da visão imediata do espaço, os deslocamentos e os encontros com outros escritores dariam um contexto. Há, portanto, muito de biográfico neste livro. E um diálogo constante entre o eu-atual que escreve, e um eu-outro que o atual imagina e às vezes idealiza como aquele que foi “criador” já que no momento toda criação parece afastada por uma chegada ao nada que o eu-atual seria. Cansaço e certeza de que o futuro que a esperança aponta somente não será repetição do mesmo passado se a memória de Auschwitz permanecer como presente, quando se sabe que duas forças distintas se cotovelam, rivalizam neste final do século XX e nestes começos do século XXI:

Daqui a alguns anos tudo isso vai desaparecer, tudo, tudo vai mudar; as pessoas, as casas, as ruas; as memórias serão emparedadas, as feridas urbanizadas, o homem moderno, com sua característica flexibilidade, vai esquecer tudo, vai filtrar da sua vida o sedimento sombrio de seu passado, como faz com a borra do sue café. Sinto certa satisfação de ainda ver tudo isso (e não apenas vejo, mas também compreendo), talvez pela última vez, como um naturalista se sentiria se de repente avistasse um exemplar de uma espécie que acaba de ser extinta, vivendo tranquilamente sua vida anacrônica.
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Jovens embrulhados em bandeiras como em um lençol, com cocares gigantescos, com olhares que brilham cheios de ódio, como quem está à cata de suspeitos. Surge a pergunta de passagem, se vale a pena analisar o fenômeno; acredito que não. O que, porém, surpreende é a falta de mudança. Como se esses homens, frequentemente jovens, desconsiderando o que é possível desconsiderar, ou seja, a pessoa, fossem os mesmos que eu vi nos anos quarenta, os mesmos rostos, a mesma voz, o mesmo gesto etc., e isso, por sua vez, indica uma certa realidade constante. É conspícua a falta total de capacidade de se adaptar, de qualquer flexibilidade – sempre repetem a mesma coisa, da mesma maneira –, e isso mostra graves problemas que residem nas raízes vitais.

Viver nos anos 1990 este paradoxo numa humanidade que está cindida entre aqueles que lutam e sonham com um mundo sem totalitarismos (de direita ou de esquerda) e aqueles que apostam no que no passado já falhou: a prática fascista de toda espécie de criadores de Auschwitz:
Os detentores do dinheiro e do poder concordarão novamente em fazer a sociedade decair completamente, só para salvar o que podem e, por fim, só poderão fugir à custa de um novo totalitarismo, de novas catástrofes sociais; mas que espécie de fuga, que espécie de totalitarismo serão esses? Quem poderá dizer se essas ideologias ameaçadoras dispõem de qualquer tipo de visão que não tenha sido experimentada e que não tenha falhado?
Eis algumas passagens que sublinhei:

“Uma coisa é semear ideias, outra, colhê-las. “ (Wittgenstein, Vermischte Bemerkunge)
“Toda “convicção” é a máscara de um tipo de pessoa e não importa com qual convicção ela se disfarce, acaba permanecendo sempre a mesma, sempre agindo da mesma forma.”
“Março luminoso. É de manhã. Cores duras, nítidas, o brilho ofuscante do céu.”
“O escritor deve evitar tornar-se espirituoso quando não achar mais o que dizer.”
“… Frankfurt. A feita de livros; fui devidamente carimbado como mercadoria à venda; leituras públicas de minhas obras, das quais eu mesmo não entendo palavra alguma, enquanto sempre espero o pano cair.”
“Todo consolo carrega consigo uma intensa sensação de mentira.”
“Com base no público que lê os meus livros, posso tirar conclusões sobre os próprios livros?”
“… é difícil permanecer sensato dentro do campo de gravitação da loucura.”
“… ele, o verdadeiro criador, está morto. Gostava e ainda gosto deste meu “eu” anterior, sofredor e estilizado em quem habitei por tanto tempo, este grande morto que agora vou enterrar na minha peça. Fico repetindo as palavras de Ibsen: escrever quer dizer fazer julgamentos sobre nós mesmos.”
“Hoje em dia não tenho mais os grandes sonhos que mostravam o caminho. Não adianta dormir, e acordar é inútil.”
“E sei que o suplício do meu saber nunca vai me abandonar.”

O último capítulo se inicia com um enunciado de Wittgenstein: “Um só dia é suficiente para conhecer os horrores do inferno; dá e sobre tempo para isso.” É quase uma epígrafe: neste capítulo virão as reflexões finais que se dão quando I. K. conhece “em meia hora” o inferno: a notícia da doença fatal de A., sua mulher. O que leva ao final  do livro:
Neste momento, porém, não sei de nada, não entendo nada, estou, por assim dizer, no limiar da vida e da morte, com o corpo inclinado para a frente, em direção à morte, com a cabeça ainda voltada para trás, em direção à vida, com o pé que se levanta, hesitante, para dar um passo. Em que direção irá? Não importa, porque aquele que dará o passo, não será mais eu, será um outro…
 
Referência. Imre Kertész. Eu, um outro. São Paulo : Ediotra Planeta do Brasil, 2007. (original de 1997)

TARQUINO E LUCRÉCIA

TARQUINO E LUCRÉCIA

El-rei de los Romanos, rei Traquino se chamava,

para dormir com Lucrécia grande traição le armava.

Disse-lhe que vinha das Índias onde seu marido estava.

Se bem lhe fazia a cama, melhor lho ordenava,

por cima ricas cortinas, por baixo lençóis de lana.

Indo por essa meia-noite, Traquiio [sic] se alevantara,

andara de leito em leito, andara de sala em sala,

até que deu com o aposento donde Lucrécia estava.

Lucrécia que aquilo viu, infinitos gritos dava.

– Oh tu hás-de dormir comigo, ou morrer na minha espada.

– É mais certo teres, o Tarquino, eu morrer na tua espada,

do que viver toda a vida, co’ meu marido injuriada.

Quem me dera papel e tinta e pena para escrever

o que eu havia de pôr, algumas palavras te vou dizer:

Anda, anda, ó meu marido, anda, vem-me valer.

– Cala, cala, ó Lucrécia, já não é preciso mais,

teu marido era eu, vejo já que me eras leal.

(Versão de Vinhais (concelho de Vinhais), distrito de Bragança)

(Referência: Pere Ferré. Romanceiro português da tradição oral moderna. Versões publicadas entre 1828 e 1960. Vol. I  Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2000)

A Princesa de Babilônia, de Voltaire

A Princesa de Babilônia, de Voltaire

O exagero, o fantástico, o extravagante. Esta história de Voltaire (1ª. edição em 1786), em pleno Iluminismo francês e às vésperas da Revolução Francesa funciona como uma alegoria às idas e voltas da história.
O enredo não é complexo. Belus, o rei da Babilônia tinha uma bela filha – não se lê livros de princesas que não sejam belas. Beleza ímpar. Seu nome: Formosante. Note-se o jogo: o pai se chama Belus, a filha é belíssima é Formosante.
Como Belus precisava casá-la, armou um festão. Os candidatos deveriam retesar o arco de Nemrod. Candidatos oficiais: o faraó do Egito, o rei das Índias e o rei dos citas. Todos chegaram carregados de presentes, para concorrer com os exageros da Babilônia. Afinal a arena de luta era “um anfiteatro de mármore que podia conter quinhentos mil espectadores”! Assim, os presentes terão os mesmos exageros…
Mas nenhum deles consegue passar pela primeira prova: nenhum retesa o arco de Nemrod. Mas aparece um desconhecido e belo jovem – nestes contos de fadas sempre os príncipes são belos e este vem montado num unicórnio e não num cavalo branco, que já faz parte da natureza do príncipe encantado. Este desconhecido salta do meio do público e retesa o arco.
Na segunda prova, os candidatos deveriam enfrentar um leão faminto. O faraó e o rei das Índias desistiram. Somente o rei dos citas tenta enfrentar o leão, que o devoraria não fosse a intervenção de Amazon, é claro. Vitorioso, Amazon presenteia a princesa com muitos diamantes e com uma ave: Fênix, que já viveram milhões de anos, falava e continha toda a sabedoria do mundo.
E obviamente Formosante se apaixona por Amazon, que viera de longe, de reino desconhecido. No entanto, Amazon parte às pressas porque recebeu aviso de que seu pai estava morrendo. Foi o que bastou para então vir efetivamente o enredo desejado por Voltaire: Formosante corre o mundo para encontrar Amazon; Amazon avisado por um melro que sua amada beijara o rosto do faraó do Egito, um estratagema astuto elaborado pela princesa para escapar do faraó que a encontrara e a mantinha presa. Decepcionado, Amazon também parte mundo afora, numa fidelidade canina a seu amor…
Falando destas terras distantes, visitadas pelos dois, Voltaire na verdade vai dizendo o que realmente quer dizer. Críticas à monarquia francesa, ao se referir à grande festa oferecida por Belus, em que ao mesmo tempo aparece a futilidade da corte mas também teses caras ao Iluminismo:

Todos concordavam que os deuses só haviam instituído os reis para que dessem festas todos os dias, contando que fossem variadas; que a vida é demasiado curta pra que a empreguemos de outra forma; que os processos, as intrigas, a guerra, as disputas dos sacerdotes, que consomem a vida humana, são coisas absurdas e horríveis; que o homem nasceu para a alegria; que não amaria apaixonada e continuamente os prazes se não tivesse sido formado para eles; que a essência da natureza humana é alegrar-se e todo o resto é loucura. Essa excelente moral nunca foi desmentida senão pelos fatos.

Enquanto a princesa Formosante vai passando pelos mais diversos reinos, nesta busca sem fim do amado (a busca da felicidade), sempre chegando tarde por Amazon por ali já havia passado e saíra para outros reinos, vão aparecendo os pontos de vista políticos e morais de Voltaire. Eis o que diz da China e seu Imperador:

Era o monarca do mundo mais justo, mais polido e mais sábio. Foi ele que, por  primeiro, lavrou um pequeno campo com suas mãos imperiais, para tornar a agricultura respeitável a seu povo. Foi ele que, por primeiro, instituiu prêmios para a virtude. As leis, por toda parte aliás, eram vergonhosamente restritas a punir crimes. Este imperador acabava de expulsar de seus Estados um bando de bonzos estrangeiros que tinham vindo dos confins do Ocidente, na insensata esperança de forçar toda a China a pensar como eles e que, sob o pretexto de anunciar verdades, já tinham adquirido riquezas e honrarias. Ao expulsá-los, lhes havia dirigido estas palavras textuais, registradas nos anais do império:
“Vocês poderiam fazer aqui tanto mal quanto fizeram em outros locais: vieram pregar dogmas de intolerância na nação mais tolerante da terra. Eu os mando de volta para nunca me sentir forçado a puni-los. Serão reconduzidos honrosamente até minhas fronteiras; todo o necessário lhes será fornecido para voltarem aos limites do hemisfério de onde partiram. Vão em paz, e nunca mais voltem.”

O anti-clericalismo dos iluministas franceses (ao contrário do Iluminismo alemão que se aliou à moral religiosa) está aí e reaparecerá com força quando Formosante chega à Roma. Nada lhe escapa neste sentido, desde a crítica à sagração dos reis pelo Papa até os inquisidores. Também as diferentes nações vão sendo caracterizadas – não poderia faltar alguma espinafração às terras de Albion (ridiculariza a fleuma dos ingleses) ou a Escandinávia (país insípido). Uma pequena passagem: “Os germânicos […] são os velhos da Europa; os povos de Albion são os homens feitos; os habitantes da Gália são as crianças e gosto de brincar com eles.”
Como não poderia deixar de ser, Amazon e Formasante chegam a Paris… e então as críticas se tornam mais pesadas:
Em seu recinto havia cerca de cem mil pessoas pelo menos que não tinham nada a fazer senão jogar e divertir-se. Esse povo de ociosos julgava as artes que os outros cultivavam. […] As amenidades da sociedade, a alegria, a frivolidade eram seu único e importante negócio: eram governados como crianças a quem se enche de brinquedos para que deixem de chorar. […] A decadência foi produzida pela facilidade de fazer e pela preguiça de fazer bem, pela sociedade do belo e pelo gosto do extravagante. A vaidade protegeu artistas que faziam voltar os tempos da barbárie: e essa mesma vaidade, perseguindo os verdadeiros talentos, forçou-os a deixar a pátria; os zangões fizeram desaparecer as abelhas.
Estamos chegando ao fim da aventura de Amazon e Formasante, que se encontrarão e por fim realizarão sua felicidade. Em contraponto, Voltaire parece deixar o fígado falar, e vai ao ataque direto de seus desafetos. No final do livro, invocando as Musas para que deem proteção a seu livro, começam a aparecer nominalmente seus inimigos:
Musas! […] Impedi que continuadores temerários estraguem com suas fábulas as verdades que ensinei aos mortais neta fiel narrativa, assim como ousaram falsifar Cândido, o Ingênuo.
Ó Musas! Reduzi ao silêncio o detestável Cogé, professor de palavrório no colégio Mazarino, que não ficou contente com os discursos morais de Belisáiro e do imperador Justiniano e escreveu infames libelos difamatórios contra esses dos grandes homens.
Pierre-Henri Larcher, que havia feito uma crítica acerba a seu livro Philosophie de l’histoire é ridicularizado. Ele pede que as Musas lhe coloquem uma mordaça. E vai mais longe dizendo que Larcher “derrama elogios à pederastia”:
Nobres e castas Musas, que detestais igualmente o pedantismo e a pederastia, protegei-me contra mestre Larcher!
Por fim, o parágrafo que encerra o livro:
Não te esquecerei aqui, jornalista eclesiástico, ilustre orador dos convulsionários, membro da igreja fundada pelo padre Bécherand e por Abraham Chaumeix: não deixes de dizer em tuas páginas, tão piedosas quanto eloquentes e sensatas que A Princesa de Babilônia é obre herética, deísta e ateia. Trata sobretudo de induzir no senhor Riballier a manda condenar A Princesa da Babilônia pela Sorbonne; darás um grande prazer ao meu livreiro, a quem dei esta pequena história como presente de Ano Novo.
 
Referência. Voltaire. A Princesa de Babilônia. Tradução de Antonio Geraldo da Silva. São Paulo : Escala, s/data. (Coleção Grandes Obras do Pensamento Universal, vol. 32)

A pesquisa em linguagem na contemporaneidade

A pesquisa em linguagem na contemporaneidade

A atração, própria de todas as pessoas cultas, haverá de comungar na multidão, perder-se na multidão, dissolver-se na multidão, fundir-se com a multidão; não apenas com o povo mas com a multidão de populares, com a multidão na praça; haverá de entrar na esfera da comunicação familiar específica, fora de quaisquer distâncias, hierarquias e normas, de comunga no grande corpo (Bakhtin. Metodologia das Ciências Humanas)
 

Parece-me significativo que hoje usemos a expressão “pesquisa em linguagem” para nos perguntarmos sobre o desenvolvimento futuro de nossos estudos. O deslocamento da “língua” para a “linguagem” mostra um rearranjo profundo em andamento que cruza, de alto a baixo, os programas de pesquisa e os modos de definir seus objetos, suas metodologias e seus parentescos disciplinares. A Linguística não está infensa aos problemas enfrentados pelo esgotamento do modelo moderno de fazer ciência, o que não quer dizer que já conheçamos hoje os caminhos a trilhar. Mesmo um princípio de salutar prudência, como o de utilizar o melhor modelo disponível, apesar de suas insuficiências, enquanto outro modelo não existir, não se segue mais ao pé da letra: entre os resultados apontados pelas teses e dissertações recentes, inclui-se já a crítica ao próprio modelo utilizado, quando um modelo é efetivamente utilizado em seu todo. Mais comum do que isso ainda, parece estar ocorrendo uma certa aparente ‘frouxidão’ metodológica em benefício de fenômenos recém vislumbrados. Estes ganham as luzes mesmo quando sobre eles apenas conseguimos uma descrição imperfeita e um nível explicativo, quando muito, extremamente local.
Neste caminhar sem corrimãos, sem sequer caminhos, talvez possamos dizer, como o viajante de Antonio Machado:

He andado muchos caminhos
he abierto muchas veredas;
he navegado en cien mares,
y atracado en cien riberas.

Nestes novos caminhares, certamente estamos reconstruindo parentescos, reencontrando novas parcerias. O programa moderno, que se inaugura numa leitura de Saussure, ofereceu-nos a possibilidade do estudo rigoroso de um objeto que se fechou em si mesmo – a língua. Em consequência, inspirada numa vontade de verdade científica, a Linguística se associou às metodologias próprias das ciências duras, especialmente à matemática e, mais recentemente, à neurologia. Hoje, talvez estejamos fazendo outros pactos, com os estudos da ordem das humanidades e abandonando o sonho da cientificidade, da objetividade e das fórmulas prontas, os princípios de descoberta, com que falamos sobre a língua. Mas chegamos a estes novos tempos carregados de contrapalavras – aquelas que a pesquisa objetiva conseguiu produzir e aquelas com que queremos recensear noções para construir compreensões. Como estas sempre passam por duas etapas: o ponto de partida (um texto dado, um fenômeno localizado) e os contextos passados; e um ponto de chegada, à frente – presunção de um contexto futuro, é instrutivo para todos nós retomar, antes, como a Linguística se construiu como disciplina no meio universitário brasileiro, para depois ‘especular’ um pouco sobre os contextos futuros.
Creio que o tratamento destes dois contextos – o do passado e o do futuro – pode ser percorrido com duas perguntas, para cujas respostas apenas estarei esboçando alguns elementos.

a)    Que práticas sociais de reflexão sobre a linguagem eram predominantes quando da introdução da Linguística no Brasil e que força cultural tinham que puderam impor que uma ciência se justificasse (e se justifique) para existir?

b)      Que respostas os que praticaram e praticam a pesquisa linguística têm dado a esta exigência externa que lhes impuseram as práticas letradas brasileiras?
Obviamente, meu objetivo não é responder a estas duas questões, já que elas demandariam um estudo de sociologia da cultura brasileira e, ao mesmo tempo, um verdadeiro balanço da pesquisa e reflexão sobre a língua/linguagem nos últimos trinta anos. Como se sabe, embora recente em termos históricos, a inclusão dos estudos linguísticos nos cursos de Letras do Brasil, tal como os entendemos, ocorre na década de 1960 (em 1962 ela se torna disciplina obrigatória para os cursos de Letras) e desde então os linguistas não só sustentaram polêmicas internas (nos embates entre diferentes teorias e correntes) e externas (com o “mundo das letras” e com o espírito normativo que nele sempre imperou), mas também produziram um considerável conjunto de informações, descrições e explicações a propósito da língua portuguesa falada e escrita no Brasil.
 

1.      O pecado original: a opção pelo falante
Em suas origens, ainda que possa não ter realizado sempre este gesto, a linguística deste século se inicia com base me dois princípios: 1) o do corte sincrônico para a construção das explicações de um sistema que se basta a si mesmo; e 2) o informante adequado para dizer o que é a língua é o falante e não os velhos textos escavados por uma arqueologia que explicaria o presente somente por sua relação com o passado. Nada mais escandaloso para a cidade letrada do que estes princípios. Eles negam não a história, como às vezes têm sido interpretados, mas a autoridade que da história querem extrair aqueles que a exercem no presente. Deslocando a autoridade do texto para o falante e dando prioridade à língua presente, viva e em funcionamento, a linguística se propôs duas grandes tarefas: a descrição das línguas e a aplicação destas descrições à vida prática (ensino de línguas, tradução, funcionamento social e psicológico ou psicanalítico do simbólico, etc). Obviamente estes deslocamentos têm um preço. Percebendo os riscos que a radicalidade possível destes dois princípios poderia significar, a ‘cidade das letras’ se opôs, vigilante, à introdução dos estudos linguísticos entre nós. O primeiro ponto de vista que gostaria de defender aqui é que “no mundo letrado brasileiro, a linguística foi chamada a justificar-se para ter direito à existência”.
Admitindo com Foucault (1970) que “a disciplina é um princípio de controle da produção do discurso. Ela lhe fixa os limites pelo jogo de uma identidade que tem a forma de uma reatualização permanente das regras”, “aquilo que é requerido para a construção de novos enunciados”, impossível não recuperar polêmicas do final do século passado e início deste pra traçar os laços que sustentaram (e ainda sustentam) a produção de enunciados a propósito da língua no mundo letrado brasileiro.  Nossa cultura letrada tradicional construiu, ao longo do tempo, duas autoridades que se complementavam: a do escritor e a do gramático(2). Era é com base em escritos daquele que o gramático fixou a regra da língua; com passagens daquele, ele também exemplificou suas regras; com textos literários se formou nossa intelectualidade, inclusive fazendo exercícios de reescrever seus textos, desfeitos para exercícios por professores que dispunham dos originais para com eles comparar as novas redações e a elas atribuir um valor (Franchi, 1988).
A língua e sua correção sempre forma um apanágio das elites intelectuais. São conhecidas as polêmicas a respeito do dialeto brasileiro ou brasileirismos (Macedo Soares, João Carneiro Ribeiro), ou da redação do Código Civil (João Carneiro Ribeiro, Rui Barbosa, Ernesto Carneiro, Clóvis Bevilácqua), ou ainda a polêmica sobre a questão da colocação de pronomes entre Paulino Brito (gramático paraense) e Cândido de Figueiredo (gramático português). E não esqueçamos a atualidade destas polêmicas: a Constituição de 1988 foi revisada por gramáticos contemporâneos e a imprensa continua a espinafrar estudantes e vestibulandos sempre que a ocasião se oferecer. Parece existir em nossa cultura uma regra fundante daquilo que é requerido para a construção de novos enunciados, porque à fala se aplica o princípio da disciplina gramatical: qualquer enunciado tem sua própria forma submetida a outro juízo: o do certo e errado, segundo uma regra gramatical específica elaborada não segundo os falares, mas segundo a escrita de autores tomados como modelos.
Certamente esta tradição é também caudatária da conquista humana do domínio da técnica da escrita, que alargou incomensuravelmente, no tempo e no espaço, os horizontes de nossas possibilidades interativas, e por isso mesmo da constituição de nossas consciências, e deflagrou também todo um projeto de gramatização  (Auroux, 1992) para fixar uma ordem à desordem resultante do alargamento possível. A leitura pressupõe uma escritura. E a escritura erigiu-se historicamente como o espaço da ordem e do limite dos sentidos.
Ao labirinto das produções fluidas da oralidade sobrepõe-se, com a escrita, o esforço de decifração da ordem, da construção do imutável.  E antes mesmo que a escrita se torne tecnicamente acessível àqueles que habitam as periferias das cidades e do poder, a escritura construiria uma cidade letrada, “o anel protetor do poder e o executor de suas ordens: uma plêiade de religiosos, administradores, educadores, profissionais, escritores e múltiplos servidores intelectuais” (Rama, 1984:43).
Como realizar semelhante proeza, se a escrita trabalha com a linguagem, objeto essencialmente mutável, sujeito às precariedades singulares dos acontecimentos interativos? Somente o exercício do poder, reservando a uma minoria estrita o acesso ao mundo da escrita, permitiu a façanha da seleção, da distribuição e do controle do discurso escrito, produzindo um mundo separado, amuralhado, impenetrável para o não convidado. E de dentro destes muros, uma função outra se agrega à escrita, como se lhe fosse própria e não atribuída pelo poder que emana de seus privilegiados construtores e constritores: submeter a oralidade à sua ordem, função jurídica por excelência, capaz de dizer o certo e o errado, ditar a gramática da expressão, regrar os processos de negociações de sentido e orientar através de suas mensagens uníssonas e uniformes, os bons caminhos a serem trilhados.
A sociedade só pôde ser assim construída, sob o império de uma separação radical, a partir de uma estrutura de exclusão. Sob qualquer das formas com que se organizaram politicamente o Estado e o Poder, soube a cidade letrada estar próxima, adequar-se às circunstâncias (Rama, 1984). Observando sempre sob o ângulo da produção da escritura, Rama aponta, ao longo desta história de convívio com o poder, uma cidade letrada que foi ordenada, foi escriturária, foi modernizada. Politizou-se e pode ser revolucionária. A cada momento, diferentes feitos históricos, mas sempre uma constante: a capacidade paradoxal de, ao mesmo tempo, expandir-se para as periferias supostamente acolhendo novos convivas e manter a distância das distinções erudito x popular; culto x não culto; alfabetizado x analfabeto; letrado x iletrado. Pelo prisma do letrado, ao outro sempre se atribuiu uma falta.
Neste universo de discursos, mesmo entre intelectuais que defenderam e defendem pontos de vista críticos, associados ou não à teoria crítica, ao marxismo ou a qualquer dos inúmeros projetos de vanguarda, predominou sempre uma escolha das formas linguísticas adequadas: aquelas que a filologia encontrou nos textos ou aquela que os gramáticos encontraram ainda hoje nas obras literárias de onde extraem suas regras e seus exemplos(3). Imagine-se, portanto, o escândalo para o mundo letrado quando a Linguística inicia seus discursos sobre as variedades linguísticas, inclui entre as manifestações linguísticas dignas de estudo a oralidade, eleva panfletos e textos de somenos importância à categoria de “gêneros” e, sobretudo, quando define que “aquilo que é requerido para a construção de novos enunciados” exclui qualquer julgamento entre o certo e o errado.
Como a escrita se popularizou e, em se popularizando, tornou-se heterogênea, outros artefatos verbais somam-se às clássicas obras recolhidas nas bibliotecas. Manifestos, panfletos, poemas soltos, páginas soltas, graffitis, orações, agendas, almanaques, cópias, paródias, paráfrases: o universo de discursos escritos expande-se, vulgariza-se, circula e faz circular sentidos(4).  E a linguística considera uns e outros como objetos legítimos de estudos. Nada poderia ser mais escandaloso para uma cidade das letras, acostumada a uma forma de violência sutil, a violência linguística (5).
Marcada pelos seus pecados originais, a Linguística, para nascer entre nós, teve que antes mostrar a que veio. Justificar sua utilidade. E inicialmente isso se fez pela rápida absorção entre nós da ‘linguística aplicada’ ao ensino de línguas estrangeiras, mas também pela presença dos linguistas em projetos de ensino de língua materna (6). Não podemos esquecer que a introdução da Linguística entre nós se dá enquanto vivíamos um quadro ideológico desenvolvimentista e nacionalista: há que fundar em novas bases a ciência e a tecnologia – o desenvolvimento nacional. Nada mais útil do que alicerçar os projetos de educação linguística numa ciência emergente, de solidez então confiável.
Introduzidos os estudos linguísticos, esta presença na definição de programas ou propostas curriculares só faz crescer, ainda que diversos sejam os matizes que inspiraram uns e outros. O inegável é que a Linguística, entre nós, está presente no discurso “oficial” sobre o ensino a partir dos anos 1970 e somente uma pesquisa dos contextos e das proposições apresentadas poderá esmiuçar as diferenças, as certezas e as incertezas, as negociações e as imposições que tal presença proporcionou. Também é inegável que a ‘democratização’ do acesso à escola e as tímidas tentativas de permanência na escola de segmentos populares são também vitórias das posições defendidas pelos linguistas (7). Está aberto, aqui, um campo inesgotável para a pesquisa linguística na contemporaneidade. Mas a mais importante pergunta a responder remete à radicalidade, ou não, dos princípios fundantes da disciplina: uma defesa da norma prevalecente nas classes hegemônicas, sejam elas quais forem, alinhará a Linguística à tradição normativa e gramatical de nossa cultura; uma defesa intransigente do direito de falar e escrever daqueles cujas histórias nunca foram contadas, escritas ou lida, aguçará os debates entre os linguistas e os ‘formadores de opinião’ sobre a língua (Britto, 1997).
 
2.  O refúgio inseguro: o argumento da autoridade científica
 
Para fazer frente aos descontentamentos de várias ordens que provocou na ‘cidade das letras’, a Linguística e os linguistas refugiaram-se ou encastelaram-se em sua ‘torre de marfim’, a concepção de ciências que recobriu seu discurso e que somente agora, no final do século, vem sendo posta em questão(8) . Sabemos que
A orientação quantitativa e antiantropocêntrica das ciências da natureza a partir de Galileu colocou as ciências humanas num desagradável dilema: ou assumir um estatuto científico frágil para chegar a resultados relevantes, ou assumir um estatuto científico forte para chegar a resultados de pouca relevância. (Ginzburg, 1989:178)
Sabemos também como a Linguística respondeu a este desafio e a fama que passou a usufruir entre as ciências humanas, como mostra a sequência do parágrafo do mesmo autor:
 Só a Linguística conseguiu, no decorrer deste século, subtrair-se a esse dilema, por isso pondo-se como modelo, mais ou menos atingido, também para outras disciplinas. (Ginzburg, 1989:178)
Mas sabemos, sobretudo nós linguistas, que ao ultrapassarmos o nível da frase – e já dentro deste nível em muitos casos – temos inúmeras dificuldades com o modelo científico que herdamos, já que
A interpretação das estrutura simbólicas tem de entranhar-se na infinitude dos sentidos simbólicos, razão por que não pode vir a ser científica na acepção de índole científica das ciências exatas.
A interpretação dos sentidos não pode ser científica, mas é profundamente cognitiva. Pode servir diretamente à prática vinculada às coisas.
!Cumpre reconhecer a simbologia não como forma não científica mas como forma heterocientífica do saber, dotada de suas próprias leis e critérios internos de exatidão! (Aviérintsieve) (Bakhtin, 1974:399).
 
 
Se queremos incluir entre nossos objetos de estudos os modos de construção das significações, dos sentidos, das compreensões e das interpretações, mantendo discursos e textos como nossos objetos preferenciais, aos quais chegamos com um custo considerável para nossa fama de cientistas bem sucedidos, talvez tenhamos que reconhecer que nosso objeto – agora a linguagem e seu funcionamento e não mais a língua e seu sistema de relações internas – faz parte de tipo de atividade humana que não deixa reduzir aos positivismo. Ela se acrescentaria a outros tipos de atividades já reconhecidas no passado como não redutíveis a um tratamento positivista:   
No último texto que escreveu, Freud pesarosamente reconheceu, como tinha feito em várias ocasiões anteriores, os limites e as frustrações de seu trabalho: “è quase como se a análise fosse a terceira daquelas profissões ‘impossíveis’ nas quais se pode estar antecipadamente certo de que se vai obter resultados pouco satisfatórios. As outras duas, conhecidas há muito mais tempo, são a educação e o governo” […] Talvez ele estivesse pensando na perplexidade de um filósofo mais antigo: “Existem duas invenções humanas que podem ser consideradas mais difíceis que qualquer outras” havia advertido Kant, “a arte do governo e a arte da educação; e as pessoas continuam a discutir inclusive seu significado” (Donald, 2000:63).
Não por acaso, as três artes – governo, educação, psicanálise – operam com a linguagem e todas elas têm como seu lugar de existência o sujeito que através da linguagem se constitui e constitui governo, educação e subjetividade e por estar neste universo discursos, é por ele constituído. Por que a linguagem, esta atividade constitutiva das três práticas apontadas por Kant e Freud, deveria ser redutível ao positivismo científico?
Em consequência, as pretensões de conhecimento sistemático na área dos sentidos, das significações ou das interpretações mostram-se cada vez mais como veleidades. Talvez por isso os linguistas estejam sendo chamados:

a)      ou ao alinhamento à cidade das letras, integrando-se e se deixando encorpar à tradição letrada, com o abandono de sua escolha original da autoridade do falante para fornecer os elementos necessários à compreensão da língua e de seu funcionamento (inclusive político) ou a decidir-se pela exclusão da maioria destes falantes em benefício das formas de falar (e escrever) de um grupo específico – ‘as camadas cultas’ – o que não passa de outra forma de inscrever seu alinhamento à tradição;

b)      ou radicalizar suas posições, sem se sustentar no argumento de ‘autoridade científica’, mas no argumento ético que suas demonstrações invocam e provocam: a linguagem é mais um modo de constituição das subjetividades do que uma forma de expressão de representações de mundo. Dizer que uma variedade linguística é errada ou inadequada é dizer que o modo como os sujeitos que a falam se constituíram de forma errada e inadequada: interditar formas linguísticas é interditar sujeitos. Corrigir formas linguísticas é trabalhar pela uniformidade, em benefício do mito da unidade, com prejuízos incalculáveis para a multiplicidade das formas de compreensão da vida.
Para concluir – e retomar agora um aspecto do contexto futuro – a pesquisa linguística que se seguirá talvez tenha que reconhecer, radicalmente, a realidade opaca da linguagem e que para compreendê-la é preciso aprender que “ninguém aprende o ofício de conhecedor ou diagnosticador limitando-se a pôr em prática regras preexistentes. Nesse tipo de conhecimento entram em jogo (diz-se normalmente) elementos imponderáveis: faro, golpe de vista, intuição” (Ginzburg, 1989:179) .
Para fazer isso, antes de tudo cada pesquisador precisará equipar-se com sua opção (política, é claro) de alinhamento à tradição ou radicalização na defesa de outras manifestações verbais como tão importantes ou até mesmo mais importantes do que aquelas que a tradição elevou à categoria de cânone. Nesse lugar da opção, pesquisa e ética se reencontram e, enfim, talvez nos tornemos livres para nos darmos um lei, sabendo que nossa liberdade de nos darmos uma lei implica que lei alguma é imutável porque outra lei pode ser elaborada nesta história que não tem qualquer porto de chegada que não o próprio percurso da caminhada.
 
Notas

(1)   Este texto foi escrito para minha participação em mesa-redonda  no XI SETA – Seminário de Teses em Andamento, realizada no Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp, em 17 de outubro de 2005 quando ainda era professor colaborador no programa de pós-graduação em Linguística. O Prof. Luiz Percival leme Britto o incluiu em 2006 num dos volumes da revista Quaestio (Vol. 8) do programa de mestrado em Educação da Universidade de Sorocaba, programa de que fui professor quando sob a coordenação da Profa. Dra. Rosália Aragão. A revista da Associação de Professores de Português de Portugal o publicou em sua revista Palavras (Lisboa, n. 31, 2007). Posteriormente, fazendo alguns ajustes e revisões, inclui-o em minha coletânea Ancoragens. Estudos Bakhtinianos (São Carlos : Pedro & João, 2010), com algumas modificações no texto. Esta a versão que publico aqui.

(2)   Marina Mendonça analisa a polêmica, travada através da imprensa, provocada pelo projeto de lei de Aldo Rebelo que proibiria, em nome do patrimônio linguístico nacional, o uso de expressões estrangeiras. Em sua análise da luta pelo poder de dizer a língua, encontra elementos históricos para mostrar que este lugar foi ocupado pelo escritor e pelo gramático.

(3)   Que sirvam de exemplo as posições do filólogo e lexicólogo Antonio Houaiss, socialista perseguido pela ditadura militar e os textos do poeta de esquerda Ferreira Gullar publicados pela Folha de s. Paulo (setembro e outubor de 2005).

(4)   Tomando por base apenas um conjunto aleatório de 420 teses e dissertações defendidas em programas de pós-graduação nas áreas de linguística e educação, constituído, na verdade, por minha participação em bancas de defesa ou pela deferência dos autores que me presentearam com exemplares de seus trabalhos, podemos observar que os ‘objetos escritos’ sobre que se debruçaram os pesquisadores fogem ao estudo dos textos canônicos, com base nos quais as normas gramaticais forma assentadas: de um conjunto de 78 teses e dissertação que focalizam textos escritos, 72 deles trabalham com textos não canônicos: redações de alunos, redações de vestibulandos, textos jornalísticos, textos de revistas, escritas populares, almanaques, rótulos e propagandas, cartas pessoas (de pessoas comuns), cordel e folhetos, panfletos, depoimentos, canções sertanejas, classificados etc. 

(5)   Osvaldo Piedade Pereira Silva analisa episódios de preconceito linguístico demonstrando que eles são efetivamente práticas sociais de violência.

(6)   Sem qualquer outra pretensão que o registro – saendo que tais registros têm força retórico – lembremos o Centro de Linguística Aplicada do Yázigi, da década de 1960; o surgimento do LAEL, da PUC/São Paulo, um de nossos mais importantes centros de pesquisa; a publicação por Mattoso Câmara do Manual de Expressão Oral e Escrita; uma significativa mudança na perspectiva das obras sobre leitura e escrita, que se revela nos títulos deste tipo de publicações: de “A arte de…” para “O ensino de …” (sirvam de exemplos: A arte da leitura e A arte de redigir, ambos do português Mário Gonçalves Viana; A Arte de Escrever e A Arte de Conversar, ambos do português Cruz Malpique, todos eles da década de 1950; Como aprender a redigir, de José Guerreiro Murta, de 1926; e a influência ainda na década de 50 e 60 da obra de Antoine Albalat, L’art d’écrire, cuja 12ª. ed. É de 1906!); e pro fim a presença de textos de linguistas nos “Subsídios metodológicos para a implantação da proposta curricular de ensino médio” editada em oito volumes distribuídos pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

(7)   Apenas a título de exemplo, leia-se E as crianças eram difíceis… A redação na escola, de Eglê Franchi, S. Paulo, Martins Fontes, 1984.

(8)   Não vou retomar aqui as questões postas pela crise do paradigma moderno de fazer ciência. Remento o leito a Boaventura de Sousa Santos (1987, 1989, 2000, 2004); Michael Peters (2000); Dora F. Schnitman (1996), entre outros.
 
 
Referências bibliográficas
Albalat, Antoine. L’art d’écrire enseigné en vingt leçons. Paris :Librairie Armand Colin, 12a. ed, 1906.
Auroux, Sylvian. A revolução tecnológica da gramatização. Campinas : Editora da Unicamp, 1992.
Britto, Luiz Percival L. A sombra do caos. Ensino de língua x tradição gramatical. São Paulo : Martins Fontes, 1997.
Bakhtin, Mikhail. “Metodologia das ciências humanas” In _____ Estética da criação verbal. Introdução e tradução do russo de Pualo Bezze; prefácio à edição francesa de Tzvetan Todorov – 4ª. edição. São Paulo : Martins Fontes, 2003.
Donald, J. “Liberdade bem regulada” e “Cheios de si, cheios de medo: os cidadãos como ciborgues”. In. Tomaz Tadeu da Silva (og) Pedagogia dos monstros. B. Horizonte : Autêntica, 2000.
Figueiredo, Cândido. O problema da colocação de pronomes. Lisboa : Livr. Clássica Editora, 5ª. ed, 1928.
Foucault, Michel. A ordem do discurso. São Paulo : Edições Loyola, 1996. (original de 1970)
Franchi, Carlos. Criatividade e gramática. São Paulo : CENP/Secr. Educação do estado de São Paulo, 1988.
Franchi, Eglê. E as crianças eram difíceis… a redação na escola. São Paulo : Martins Fontes, 1984.
Geraldi, J. Wanderley. “Políticas de inclusão em estruturas de exclusão” in. Simpósio Internacional sobre a leitura e a escrita na sociedade e na escola. Anais. Brasília/Belo Horizonte : Fundação AMAE, 1994, p. 65-78
_________________  !Descrição da língua e ensino da língua” in. ABRALIN – Boletim da Associação Brasileira de Linguística, vol. 19, dezembro/1996, p. 9-13
Ginzburg, Carlo. “Sinais” in. ____ Mitos, Emblemas, Sinais. Morfologia e história. São Paulo : Cia. das Letras, 1989.
Machado, Antonio. Obras completas. Vol. 1, Barcelona : RBA Coleccionables S.A. 2005.
Malpique, Cruz. Arte de escrever (um pouco de sua filosofia). Porto : Editora Educação Nacional, 1949.
__________ Arte de conversar (um pouco da sua filosofia). Porto : Editora Educação Nacional, 1960.
Mendonça, Marina Célia. A luta pelo direito de dizer a língua: a Linguística e o purismo linguístico na passagem do século XX para o século XXI. Tese de doutoramento em Linguística, Unicamp, 2006.
Murta, José Guerreiro. Como se aprende a redigir. Lisboa : Livraria Sá da Costa Editora, 1926.
Peters, Michael. Pós-estruturalismo e filosofia da diferença. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. Belo Horizonte : Autêntica, 2000.
Rama, Angel. A cidade das letras. São Paulo : Brasileinse, 1984.
Santos, Boaventura de Sousa. Um discurso sobre a ciência. Porto: Afrontamento, 1987.
_________________________ Introdução a uma ciência pós moderna. Rio de Janeiro : Edições Graal, 1989.
_________________________ Para um novo senso comum: ciência, direito e política na transição paradigmática (A crítica da razão indolente – contra o desperdício da experiência, Vol. I) São Paulo : Cortez Editora, 2000.
_________________________ Conhecimento prudente para uma vida decente. ‘Um discurso sobre a ciência’ revisitado. São Paulo : Cortez Ediotra, 2004.
Schnitman, Dora Fried org) Novos paradigmas, cultura e subjetividade. Porto Alegre : Artes Médicas, 1996.
Silva, Osvaldo Piedade Pereira. Violência linguística. Dissertação de mestrado em Educação, UNISO, 2005.
Viana, Mário Gonçalves. A arte da leitura. Porto : Editora Educação Nacional, 1949.
___________________  A arte de redigir. Porto : Livraria Filgueirinhas, 1957.
 

DA TESTEMUNHA FALSA, de O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, de Cecília Meirelles

DA TESTEMUNHA FALSA, de O ROMANCEIRO DA INCONFIDÊNCIA, de Cecília Meirelles

Que importa quanto se diga?
Para livrar-me de algemas
da sombra do calabouço,
dos escrivães e das penas,
do baraço e do pregão,
a meu pai acusaria.
Como vou pensar nos outros?
Não me aflijo por ninguém.
Que o remorso me persiga!
Suas tenazes secretas
não se comparam à roda,
à brasa, às cordas, aos ferros,
aos repuxões dos cavalos
que, mais do que as Majestades,
ordenarão seus Ministros,
com tanto poder que têm.
 
Não creio que a alma padeça
tanto quanto o corpo aberto,
com chumbo e enxofre a correrem
pelas chagas, nem consiga
o inferno inventar mais dores
do que os terrenos decretos
que o trono augusto sustêm.
 
Não sei bem de que se trata:
mas sei como se castiga.
Se querem que fale, falo;
e, mesmo sem ser preciso,
minto, suponho, asseguro…
É só saber que palavras
desejam de mim. – Se alguém
padecer, com tanta intriga,
que Deus desmanche os enredos
e o salve das consequências,
se for possível: mas, antes,
salvando-me a mim, também.
 
Talvez um dia se saibam
As verdades todas, puras.
Mas já serão coisas velhas,
Muito do tempo passado…
Que me importa o que se diga,
O que se diga, e de quem?
 
Por escrúpulos futuros,
não vou sofrer desde agora:
Quais são torpes? Quais, honrados?
As mentiras viram lenda.
E não é sempre a pureza
que se faz celebridade…
Há mais prêmios neste mundo
para o Mal que par ao Bem.
 
Direi quanto me ordenarem:
o que soube e o que não soube…
Depois, de joelhos suplico
perdão para os meus pecados,
fecho meus olhos, esqueço…
– cai tudo em sombras, além…
 
Talvez Deus não se conforme.
Mas o Inferno ainda está longe,
– e a Morte já chega à praça,
já range, na Ouvidoria,
nas letras dos depoimentos,
e em cartas do Reino vem…
 
Vede como corre a tinta!
Assim correrá meu sangue…
Que os heróis chegam à glória
só depois de degolados.
Antes, recebem apenas
ou compaixão ou desdém.
 
Direi quanto for preciso,
Tudo quanto me inocente…
Que alma tenho? Tenho corpo!
E o medo agarrou-me o peito…
E o medo me envolve e obriga…
– Todo coberto de medo,
juro, minto, afirmo, assino.
Condeno. (Mas, estou salvo!)
Para mim, só é verdade
aquilo que me convém.
 
(Cecília Meirelles. Romanceiro da Inconfidência. desenhos de Regina Katz. São Paulo : Edusp/Imprensa Oficial, 2004)

PUBLICADO NESTA DATA EM HOMENAGEM AO HEROI TIRADENTES E EM DES-HOMENAGEM AO DELATOR MALOCCI, esta mistura de Malan e Palocci que mente, afirma e assina o que quer que lhe digam que faça. Que o Inferno o tenha em breve, para que lá se una aos joaquins silvérios do mundo.