Debaixo do Tamarindo, de Augusto dos Anjos

Debaixo do Tamarindo, de Augusto dos Anjos

No tempo de meu Pai, sob estes galhos,

Como uma vela fúnebre de cera,

Chorei bilhões de vezes com a canseira

De inexorabilíssimos trabalhos!

Hoje, esta árvore, de amplos agasalhos,

Guarda, como uma caixa derradeira,

O passado da Flora Brasileira

E a paleontologia dos Carvalhos!(1)

Quando pararem todos os relógios

Da minha vida, e a voz dos neerológios

Gritar nos noticiários que eu morri,

Voltando à pátria da homogeneidade,

Abraçada com a própria Eternidade

A minha sombra há de ficar aqui!

  • “E a paleontologia dos Carvalhos” é verso com jogo de palavras: no primeiro sentido, o Tamarindo ‘guarda o passado da flora brasileira porque, como indivíduo, revive a aventura biológica de sua espécie, havendo nele, como que fossilizados (a paleontologia é a ciência dos fósseis animais e vegetais), até os carvalhos; no segundo sentido, note-se que o poeta se chamava Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, razão por que a notação com maiúscula, para indicar a espécie (notação que levou, por certo, ao mesmo processo em Flora Brasileira) Carvalho, foi extremamente sugestiva, pois insere seu ser humano no ser vegetal do tamarindo. (Nota de Antônio Houaiss, organizador da antologia. Augusto dos Anjos. Poesia. Rio de Janeiro : Livraria Agir Editora, 1960)
A formação dos jovens diante das exigências do mercado de trabalho desde a perspectiva da construção de novos paradigmas laboriais: segurança social e justiça social (1)

A formação dos jovens diante das exigências do mercado de trabalho desde a perspectiva da construção de novos paradigmas laboriais: segurança social e justiça social (1)

Bom-dia a todos. Antes de mais nada, parabenizo a Comissão de Educação e Cultura pela realização deste seminário e agradeço ao Deputado Ariosto Holanda o material com que nos brindou para estudarmos e ao INEDD o convite para ocupar esta posição um tanto ambígua de observador de uma área que não é a minha. A minha área é Letras, é literatura, é linguagem, e estar em um seminário sobre formação para o trabalho é um pouco surpreendente, mas também me dá o direito de falar externamente e observar mais de longe.

Nesta observação, muito rapidamente gostaria de retomar as três teses principais do Prof. Huisinga e a tese que entendi como principal da exposição do Dr. Ricardo Henriques, como também de tecer algumas considerações sobre esse tema, levantando de novo as questões, talvez quase como um debatedor.

Concordo realmente que os sistemas de produção e de reprodução crescem em temporalidades distintas.

Qual a grande novidade para nós em relação ao sistema de produção no mundo contemporâneo e as exigências que se estão fazendo aos mecanismos de reprodução?

Parece que duas coisas aconteceram no sistema de produção capitalista tal como estamos vivendo hoje. Não dá para escondermos isso, se quisermos pensar com certa seriedade qualquer formação para o trabalho.

O sistema capitalista de produção se quer libertado de qualquer prejuízo e risco. Portanto, não quer atalhos, sob hipótese alguma porque atalho pode produzir risco. Nesse sentido, liberou-se a mão-de-obra pela tecnologia. E, quanto àquelas coisas que as máquinas ainda não são capazes de fazer, tenta-se liberar o tempo todo de toda e qualquer relação de trabalho por meio da ideia de prestação de serviços. Quer dizer, toda relação de trabalho envolvida na produção efetiva, e que é necessária para a produção, hoje não passa de um serviço executado na corporação por uma outra empresa, de tal ordem que o setor de produção, o setor do fazer na sociedade contemporânea encontrou uma ética que não tem futuro. É uma ética preocupada só e unicamente com o hoje, aliada a uma preocupação extrema com a lucratividade, a realidade única em que tantos vivem.

É, portanto, impossível formar, pelo sistema de reprodução, sujeitos capazes de trabalhar nesse sistema de produção, seja qual for a escola, seja qual for a educação que possamos oferecer aos jovens.

A pergunta do Deputado Ariosto Holanda é fundamental: que solução apontar para milhões de jovens que estão for ada escola e fora desse sistema? O que oferece o sistema em que estão?

Se a sociedade perdeu o controle sobre a juventude, então há um paradoxo. Ao mesmo tempo em que a tese do Prof. Richard Huisinga, a da perda do controle da juventude se expõe, a tese principal defendida pelo Prof. Ricardo Henriques mostra, ao contrário, que o medo da perda desse controle produz na nossa sociedade a intolerância. E essa intolerância vai aliar-se à intolerância das diferenças, na medicalização, na criminalização da juventude e na invisibilidade dos sujeitos da periferia no sistema escolar e no sistema produtivo. Uma invisibilidade de tal ordem que, digamos, dá até para pensar se hoje ainda existe função econômica nesse sistema de produção a que no passado nos referíamos a categoria de “exército de reserva” de mão de obra. Talvez, o excluído hoje já não seja mais sequer exército de reserva, mas um descartado para o sistema. Mas ocorre que, nesse lugar do descarte social, que é o lugar da desigualdade, está-se produzindo uma heterogeneidade.

O Prof. Ricardo Henriques chama a atenção para a heterogeneidade, a diferença, e ainda mostrando a intolerância com a diferença. Vejam que uma sociedade como a nossa, intolerante com a diferença, mostra-se anestesiada diante da desigualdade. A desigualdade social nos anestesia! Estamos o tempo todo dizendo que o mercado é cada vez mais seletivo, e que, portanto, queremos soluções para um mercado de trabalho cada vez mais seletivo. Ora, se ele está cada vez mais seletivo, não há solução. A questão recai sobre os modos de construção da desigualdade social. É o sistema de produção que é problemático!

Talvez a nossa sociedade ocidental tenha transformado aquilo que sempre nos dignifica e que também dignificamos, que é o trabalho humano, para fazer  referência a uma frase do Exmo. Sr. Presidente da Câmara dos Deputados. Se o homem dignifica o trabalho, talvez nossa sociedade tenha transformado o trabalho não mais em “trabalho”, mas em tarefa, em mera execução de ações. E enquanto há somente execução de ações [previstas] estamos condenados a esta espécie de produção em série, para dar conta do fato de que a população cada vez aumenta mais. Como esta produção em série já é executada pelas máquinas, isto nos torna a nós, seres humanos, desnecessários à produção. Talvez nós nos tenhamos acostumados a considerar somente o fazer e as práticas. E quando não há mais práticas, mas apenas tarefas? Aquelas práticas, que implicam aprender que remete ao conhecimento, à área da cognição, e envolvem o ontem, não o hoje. Como a realidade é outra, digamos, abstraída aquela realidade vivida nos moldes do fazer, da prática, restam apenas tarefas que não demandam o aprendiz, mas apenas o autômato.

A terceira ponta deste triângulo – as primeiras foram o controle da juventude através do fazer e do ensino do fazer e a intolerância à heterogeneidade, sendo esta a sede e fonte do conhecimento –  estaria no campo do projetar ou do sonhar, do imaginar futuros. Estamos na área da estética, da ficção que produz memória do futuro, e portanto, fora do lugar da realidade vivida, única e repetitiva do fazer, tão pouco estamos na realidade abstraída do conhecimento científico: é a realidade como projeto que efetivamente se preocupa com o amanhã.

Talvez tenhamos que inverter isso um pouco. Sempre consideramos as relações com o fazer. Se produzo conhecimento, aprendo. Aliás, aprender para fazer é a ideia da formação. Então, talvez tenhamos que colocar no ápice desse nosso triângulo não mais o fazer, mas talvez o projetar e o sonhar. Uma das incompetências levantadas pelo Prof. Richard Huisinga é a incapacidade do sistema educacional de projetar utopias, ou seja, o lugar onde efetivamente devemos nos sentar para refletir, porque, quem sabe, o que esteja faltando à nossa sociedade e, consequente, para nossos jovens, é um conjunto de utopias que não sejam mais utopias modernas de homogeneização [todos uniformes] nem utopias que tinham o trabalho como tarefa [a produção capitalista em série], mas outra utopia, uma que podemos criar, que é uma utopia das possibilidades de investimento nos potenciais, repetindo uma expressão do Prof. Huisinga e não um investimento nas faltas.

Temos excessivamente pensado em investimento nas faltas e pouco no social, nas potencialidades do homem. Talvez isso nos leve a pensar, como cientistas, que tenhamos que levar mais a sério a ideia de atalhos, ou a ideia de inéditos viáveis de Paulo Freire. Eu traduzo e compreendo a noção de atalhos, trazida pelo Deputado Ariosto Holanda, como um lugar social fundamental nessa relação. Quer dizer, tal como estamos nesse sistema de produção e nesses mecanismos de reprodução, não há formação para um trabalho possível, porque nesta sociedade não há trabalho, mas apenas tarefas. Portanto, o mundo do trabalho se transformou num mundo de tarefas. E ao mundo de tarefas, o homem não é chamado. Nossa parte mais ‘autômata’ é chamada. E para recuperar ou para corrigir isso, talvez tenhamos de reorganizar nossas relações entre o fazer, o conhecer e o projetar, ou entre a ética, a estética e a cognição.

Muito obrigado.

 

 

 

Nota

  1. Este texto é transcrição de minha participação em Seminário da Comissão de Educação e Cultura Câmara de Deputados, realizada em 31 de maio de 2007. Minha participação se deu graças ao fato de ser então professor visitante da Universitat Siegen, no Programa Internacional de Doutorado em Educação – INEDD. Foi o coordenador deste programa que me convidou para o Seminário. Foi a primeira e única vez em que estive na Câmara – Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados. Durante os governos do meu partido, jamais fui chamado a qualquer atividade em Brasília – e penso que poderia ter colaborado com alguma coisa da minha experiência de formação continuada de professores. Devo esta ida ao centro do poder político ao fato de ser professor de um programa na Alemanha! Meu papel seria o de ‘observador’ das exposições, fazendo a partir delas uma exposição própria para abrir o debate. Como o leitor notará, ponho em questão a própria possibilidade de uma formação para o mundo do trabalho porque deste restaram apenas resquícios numa sociedade de produção capitalista: tudo virou tarefa e mercadoria. A fala foi transcrita e publicada pela Comissão de Educação e Cultura, em livro sob o título Perspectivas e propostas na formação para o mundo do trabalho. Brasília : Câmara dos Deputados; Edições Câmara, 2008, p. 50-53. Fiz aqui pequenos reparos em relação à publicação, complementando passagens para torna-las compreensíveis fora das entonações próprias da oralidade.
Caim, de José Saramago

Caim, de José Saramago

Certa vez me disse o amigo Jorge Larrosa que Saramago conhecia o ofício de escritor como nenhum outro em sua época. Este Caim o mostra com folga: somente um artista consegue contar uma história conhecida de forma desconhecida, tornando o enredo que constrói um modo de enredar o leitor que acaba ficando curioso para saber qual o novo episódio que se seguirá ao que acaba de ler.

O Caim de Saramago é sim o assassino do irmão abel –aquele que ao nascer surpreende os vizinhos por ser loiro e branquinho, sub-repticiamente dando a entender que entre o querubim azael, que cuidava da porta do Paraíso depois da expulsão, e Eva, que foi lhe pedir frutas porque estavam com fome, houve mais do que simples trocas de olhares. Como sabemos, caim recebe como castigo não só a marca na testa, mas a maldição de viver errante pelo mundo. É desta errância que retira o escritor o perambular de seu personagem. caim vive ‘presentes’ – cada presente é um episódio bíblico, e o percurso de Caim o faz cair no presente de cada episódio, do Paraíso ao Dilúvio.

Saramago inova em alguns episódios. Por exemplo, quando abraão está com seu punhal erguido para sacrificar o filho isaac como lhe mandara o Senhor para comprovar sua devoção a seu deus: como aqui os anjos se atrasam com a mensagem e a tarefa de suspender o ato – por problema mecânico nas asas – é caim quem segura o braço de abraão não permitindo o crime. Com isso, ganha a proteção dos dois anjos em suas errâncias. Notável o diálogo entre abraão e isaac, quando voltam para casa:

Perguntou isaac, Pai, que mal te fiz eu para teres querido matar-me, a mim que sou o teu único filho, Mal não me fizeste, isaac, Então por que quiseste cortar-me a garganta como se eu fosse um borrego, perguntou o moço, se não tivesse aparecido aquele homem para segurar-te o braço, que o senhor o cubra de bênçãos, estarias agora a levar um cadáver para casa, A ideia foi do senhor que queria tirar a prova, A prova de quê, Da minha fé, da minha obediência, E que senhor é esse que ordena a um pai que mate o seu próprio filho, É o senhor que temos, o senhor de nossos antepassados, o senhor que já cá estava quando nascemos, E se esse senhor tivesse um filho, também o mandaria matar, perguntou isaac, O futuro o dirá, Então o senhor é capaz de tudo, do bom, do mau e do pior.

Neste episódio se aprofunda o tema efetivo deste romance: a disputa de caim, o homem caído, com as injustiças cometidas pelo deus do Velho Testamento, que vive a cobrar sacrifícios, que mata inocentes em função de pecadores – por exemplo, não retira as crianças de sodoma antes de queimar a todos vivos porque por lá homens gostavam de deitar com outros homens.. A Sodoma, caim chega acompanhado de abraão e seguem para a casa de lot, para saberem o que está acontecendo.

Então viram o grande ajuntamento de homens em frente à casa de lot, os quais gritavam, Queremos esses que tens aí, manda-os cá para fora porque queremos dormir com eles, e davam golpes na porta, ameaçando deitá-la abaixo. Disse abraão, Vem comigo, damos a volta à casa e chamamos ao portão das traseiras. Assim fizeram. Entraram quando log, por trás da porta da frente, estava a dizer, Por favor, meus amigos, não cometam um crime desses, tenho duas filhas solteiras, podem fazer o que quiserem com elas, mas a estes homens não façam mal porque eles procuraram proteção na minha casa.

E como sabemos pela história sagrada, safa-se a família de lot, mas sua mulher foi castigada pelo crime da curiosidade: virou estátua de sal… Os episódios não seguem uma cronologia: caim “tanto poderia avançar como voltar atrás no tempo, e não por vontade própria, pois, para falar francamente, sentia-se como alguém quemais ou menos, só mais ou menos, sabe onde está, mas não aonde se dirige”.

O episódio de job narrado como se tudo não passara de uma aposta entre lúcifer e deus… a vida sexual de caim, deitando com lilith de quem nasceu enoch… e depois a atividade sexual contínua na barca de noé, com suas noras e mulher, para repovoar o mundo como mandara o senhor a seu fiel noé.

No entanto, durante o dilúvio, caim faz morrer toda a família de noé e quanto a barca ‘aporta’, e o senhor chama noé, somente sai caim dizendo que matara todos e assim desfazia os planos do senhor de refundar a humanidade.

Nesta versão, caim, o homem, vence os planos do senhor, o deus. Mas se mantém para sempre o que a história registra nesta disputa entre caim e o senhor:

A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele.

Referência. José Saramago. Caim. São Paulo : Cia. das Letras, 2009.

‘Future-se’, a universidade paga e sem pesquisa

‘Future-se’, a universidade paga e sem pesquisa

Primeiro, recebi uma mensagem de Alexandre Costa: estão querendo excluir dos programas de pós-graduação brasileiros os professores que não tiverem parcerias internacionais. Costurei com meus botões: estes que nos cercam, estes com quem convivemos, estes que se pensam iluminados por prestarem assessorias a órgãos de financiamento e avaliação, como Capes e CNPq, estes que se dizem acadêmicos, estabelecem regras com base na realidade sonhada, imaginada e inexistente: a internacionalização de tudo e de todos, com produções ao estilo previsto de qualquer revista internacional, cuja redação deve passar pelos seguintes tópicos: objetivo, justificativa, metodologia, apresentação de dados da pesquisa, análise dos dados, conclusões (que devem ser sempre provisórias, não porque em ciência todas as hipóteses são provisórias, mas somente para abrirem o espaço para o próximo artigo, de modo que alguns destes ‘acadêmicos’ passam a vida a escrever sobre o mesmo, em cada artigo acrescentando uma vírgula…).

Quando diretor do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, visitou a universidade um comitê executivo de um conglomerado de universidades ‘internacionais’ que tinha por objetivo compartilhar uma biblioteca virtual. Os institutos e faculdades mais equipados na época eram das ‘ciências duras’ – física, particularmente – e das engenharias.

A proposta entusiasmou seus diretores, mas o comitê insistiu em outra parceria: queriam digitalizados os livros de literatura brasileira e das ciências humanas brasileiras. Mas estes os setores menos equipados para a “internacionalização”! Como diretor, fui consultado sobre a viabilidade de digitalizarmos o acervo da biblioteca: respondi que para tanto precisaríamos de equipamento e pessoal, porque com os recursos disponíveis isso era impossível. Não sei se no final da visita a reitoria – era nosso reitor o Prof. José Martins Filho, da Medicina – e o comitê assinaram algum protocolo de intenções. Se assinaram, nada se concretizou com a digitalização da biblioteca do Instituto.

Conto esta história apenas para recuperar aqui que a forma de ingresso no mundo global é ser local, como defende Boaventura de Sousa Santos. Nesta historinha, as bibliotecas das engenharias e da física, com seu acervo internacionalizado, não interessaram àquele comitê executivo. No entanto, estes ‘acadêmicos’ não brasileiros que pensam fazer ‘ciência’ aplicando modelos a dados locais não conseguem entender o que seja ser ‘local’ e aí começam a fazer pressões para que todas as áreas em todos os campos, em cada firula e em cada vírgula, funcionem do mesmo jeito, isto é, apliquem modelos que não ajudaram a elaborar, em dados novos para comprovar as ‘teorias internacionais’. E aí querem expulsar dos programas de pós-graduação docentes que insistem em compreender o Brasil, compreender a educação brasileira, compreender a linguagem e as narrativas que circulam neste país. Sempre me lembro do Discurso da Servidão Voluntária.

Estes que já se “afuturaram” nem devem estranhar o que para espanto nosso circula nas redes desde que o Secretário de Ensino Superior, o Sr. Arnaldo Barbosa de Lima Júnior, avançou em sua exposição na Conferência Internacional sobre Financiamento Vinculado à Renda, na quinta-feira passada. Na reforma administrativa, em nome de um “Future-se”, destruirão as universidades públicas brasileiras. E num programa cujo objetivo seria o “fortalecimento da autonomia financeira das universidades e dos institutos federais”! Seria cômico, se não fosse trágico. Mensalidades serão cobradas – esta a “autonomia financeira” -; as instituições se tornaram fundações de direito privado; professores, pesquisadores, servidores não terão mais qualquer garantia de emprego; e a pesquisa irá para as cucuias… afinal, para que pesquisar no país, se podemos saber os resultados das pesquisas feitas no exterior numa consulta ao Dr. Google?

O que traz o governo fascista e anti-intelectual e anti-conhecimento e anti-povo brasileiro não deve espantar: os “acadêmicos” que foram criando regrinhas e mais regrinhas para uniformizar a pesquisa e para excluir indesejáveis estudos sobre a realidade brasileira pavimentaram o caminho para este “Future-se”. Porque para eles uma publicação de um artigo numa revista estrangeira – de preferência em inglês – vale mais do que publicar algo numa revista de um sindicato de professores que tenha mais de 25 mil leitores! Porque ‘acadêmico’ é somente o que soa em inglês!!! E para ninguém ler, é óbvio, principalmente quando o texto trata de tema como a educação brasileira, suas mazelas, a formação de seus professores, suas linguagens e os discursos e narrativas que aqui elaboram para justificar a desigualdade, a meritocracia, e a ignorância de seu entorno. O Future-se é consequência e aprofundamento da privatização que já vinha acontecendo por dentro das universidades, com as bolsas de produtividade, com as avaliações que privilegiam os bem postos e excluem aqueles que mais precisam de investimento, com as folpudas verbas de pesquisa vinculada a algum centro no exterior, obviamente.

A destruição, agora, vem para valer… Futurem-se! E o Future-se encontrará aplausos, sempre, entre os ‘acadêmicos’ da servidão voluntária.

UM FILHO LÁ, MAS NÃO HAVERÁ UM FILHO CÁ

UM FILHO LÁ, MAS NÃO HAVERÁ UM FILHO CÁ

Embora junho já se tenha ido, com o seu dia dos namorados, com as festas de Santo Antônio casamenteiro, com os bailes de São João, Jair Bolsonaro continua a trocar afagos com Donald Trump e imagina que indicar seu filho embaixador nos EEUU é encaminhar para seu Presidente e chefe um reforço na sua campanha de reeleição.

Trata-se de um presente de aniversário: o 01 fez 35 anos, idade mínima para ser embaixador. Aí o presidente de cá disse que cogitava nomear Eduardo Bolsonaro, como embaixador para lá. Para ‘naturalizar’ o nepotismo e insanidade daquele que elegeu, as Organizações Globo informam como verdade o que era ironia nos EEUU: Trump teria respondido que cogitava mandar para cá o seu próprio filho Eric, neste jogo de deferências de aparente igualdade de relações que as organizações Globo tentam fazer crer que existem. Não é verdade! Trump não é bobo e não mandará filho para cá coisa nenhuma.

Todos sabemos que as relações com os EEUU, desde que começou a monarquia Bolsonaro, não são de igualdade e equivalência: o de cá já bateu continência para a bandeira do outro; já declarou inúmeras vezes amores pelo país do outro, e tudo faz para que seu país perca grandes parceiros comerciais para abrir negócios para o outro. Que valha o exemplo da soja para a China: a imbecilidade local esbravejou, deu a entender que não queria mais saber de ‘comunistas  ‘ chineses… e o de lá aproveitou o ensejo, e passou a exportar mais soja para a China, enquanto que o país de cá sofreu uma queda.

Outro exemplo? Que a Perdigão e a Sadia lhes apresentem: graças aos flertes com Israel a gosto dos neopentecostais (e a mando do presidente de lá): uma redução de 20% na exportação para os países árabes. Os paranaenses, tão solícitos para com a República de Curitiba e para com o pensamento (há pensamento?) de Bolsonaro, perderam nada menos do que 1.400 empregos quando a Perdigão e Sadia fecharam uma de suas unidades de produção no Estado.

É assim que vamos virando piada internacional: Eduardo Bolsonaro se vangloria que fez intercâmbio nos EEUU e lá fritou hambúrguer! Uma credencial e tanto para ser embaixador. E mais, quando por lá esteve, pôs o boné de campanha de reeleição de Trump. Como agirá durante a campanha?  Tomará partido novamente? E se os democratas ganharem no voto, que fará nosso ‘abaixado’ embaixador? Fará conspiração, como se a robusta democracia de lá fosse o arremedo de cá, onde a cada período da república, sempre que alguma conquista popular acontece, existe um golpe?

Aqui, a cada 30 anos, um golpe (notem: Floriano agiu como ditador já nos inícios da república; houve o Estado Novo depois de três dezenas de anos; mais três dezenas, o golpe de 1964; mais três dezenas, o golpe de 2016). Será que ele imagina a embaixada brasileira como um bunker de conspiradores republicanos caso Trump perca as eleições?

Mas tudo são especulações. Afinal, a indicação deve passar pelo Senado. Teria o Senado coragem de se contrapor à vontade do clã? Alguns senadores dizem que não aceitam; mas não faltarão os senadores do PSDB para ficarem no muro e votarem a favor daquele que pretende se consolidar como a liderança jovem da extrema direita nas Américas (quiçá no mundo).

Uma liderança cuja cabeça serve apenas para portar um boné… e uma capacidade inata de repetir Olavo de Carvalho, um guru que sabe das incapacidades do seguidor e por isso já se manifestou contra sua indicação à embaixada, passando-lhe outra tarefa: conseguir uma CPI para investigar o Forum de São Paulo, nesta perseguição persistente contra a esquerda.

Na maluquice em que se tornou este país, tudo é possível: até Eduardo Bolsonaro se tornar embaixador, mesmo contra a vontade do guru, porque afinal às vezes o Jair ergue a cabeça e quer mandar também… e o Carluxo ocupar a cadeira presidencial dando ordens a ministros quando não acompanha o pai em viagens para o exterior: fica no Planalto, guardando o lugar, a cadeira, a caneta.