O diário roubado, de Régine Deforges

O diário roubado, de Régine Deforges

Deforges foi uma mulher de grande atividade no ambiente francês: além de romancistas, ela foi a primeira mulher a dirigir sua própria editora. Neste romance, iniciado em 1974 e finalizado em 1978, segundo as datas que a autora coloca no fim do volume, ela enfrenta a questão do preconceito social às sexualidades diferenciadas.

Suas personagens, Léone e Mélie, podem ser as protagonistas do enredo, mas a personagem principal, efetiva, é o preconceito violento, tal como eclode numa pequena cidade do interior.

Léone é filha de uma família de classe média baixa, vive na cidade e estuda no colégio das freiras. Adolescente de quinze anos, mantém uma relação com sua colega Mélie, cuja casa frequenta. Esta, no entanto, é filha de família bem situada na cidade, com nome e mais dinheiro. Este aspecto, que fica subentendido ao longo do enredo, no entanto será uma marca, porque somente sobre Léone cairá a fúria das beatas e do machismo dos jovens da cidade.

Como grande número de adolescentes, Léone escreve um diário. São cadernos de capa dura, que vai preenchendo com suas impressões, suas reflexões, sua dúvidas, suas angústias e também com as informações e fuxicos do que acontece na cidade. Tem certeza que seu “diário” está seguro e que ninguém o lerá. Mantém-nos numa caixa fechada à chave, e guarda esta num vaso de flores artificiais, crente que ninguém a descobrirá.

Nas férias de verão, num baile, Alain, o estudante de fora, já com 19 anos, vem passar as férias. E num destes bailes típicos do interior, ele arrasta Léone para dançar e diz para uma estupefata adolescente:

– Você resiste inutilmente. Você gosta da mão dos homens e não a das garotas. Tudo em você at4rai o macho e você sabe disso. Jean-Claude e seus coleguinhas sõa muito tolos e muito jovens para compreendê-la. Você foi feita para trepar assim como outros foram feitos para ser acrobatas, paraquedistas, mães de família, párocos ou boas moças, mas você é feita para gozar como uma boa putinha que é. Não percebeu que estou de pau duro, sua galinhazinha?

Está dado o mistério: como Alain, recém chegado, faz referência a “mãos de garotas”? Que lhe contou Jean-Claude de um dos encontros a dois, em que as mãos do menino a levaram ao êxtase?

Irritada com a ofensa, Léone volta para casa e vai direto a seus cadernos: estão todos lá. Nele os registros de seu desejo de realização sexual com algum homem que fosse digno, que soubesse como fazer… Assim, o diário é ao mesmo tempo do registro do que vive e do que sonha viver um dia. E na fala de Alain ela detecta algo…

Mais tarde descobrirá: sua irmã mais nova, Catherine, havia descoberto o segredo, lera os cadernos e emprestará um deles para outro adolescente: Yves. O caso entre Léone e Mélie se torna público e elas se deixam ver namorando, se beijando, assumindo a relação.

E um dos cadernos de Léone desaparece definitivamente: sua recuperação será o enredo de toda a história. Alain está com ele; mostra-o ao Abade C., que faz queixa na polícia por atentado ao pudor. Está desencadeado o processo da violência do preconceito. Serão inúmeros os episódios de violência, de ataque, de xingamentos por que passará Léone (mas não Mélie!).

Ao longo da narrativa de cada saída, de cada passeio de sua heroína, dos encontros do seu pequeno grupo de amigos adolescentes, tudo ficará marcado a partir daí pelo fato de Alain ter o diário roubado… Ele marca até uma leitura do diário num bar da cidade, com hora marcada e todos os requintes da crueldade. Léone vai ao bar, tenta recuperar o diário e recebe socos, pontapés e xingamentos… Yves a encontrará mais tarde jogada numa valeta da cidade.

Os pais de Léone, no entanto, nada fazem, não esboçam nenhuma reação. Ao contrário, o pai viaja para trabalhar no exterior e a mãe ali permanece para enfrentar o escândalo de uma filha lésbica. (Ninguém chamará Mélie de lésbica, de puta, de vagabunda…).

Depois de muitas peripécias, recusas, surras, a mãe de Léone consegue um acordo com a mãe de Alain e com ele próprio: viriam até a casa de Léone e entregariam o diário desde que ela prometesse jamais se encontrar com Mélie e queimasse todos os outros cadernos.

Somente então Léone se submete – e morre por dentro. Logo após, o pai que estava trabalhando na África, reúne por lá a família… E o final da história é Léone, a mãe, a irmã maligna e o irmãozinho no avião indo embora da pequena cidade do interior francês.

O enredo pode não ser relevante – embora a gente leia o livro de um só fôlego levado por esta história de violência. Mas o preconceito e suas formas de emergência, o machismo cultural e a vida interiorana onde tudo se faz e tudo se esconde, mas todos tudo sabem.

Tratar do tema não é algo fácil: lesbianismo x preconceitos. As reações do entorno, os sofrimentos de Léone, a solidão a que é conduzida levam qualquer leitor/leitora a pensar duas vezes em assumir seus desejos.

No entanto, a revolta que produzem no leitor os atos preconceituosos amena esta possibilidade. Mesclando a revolta do leitor às reflexões de uma jovem adolescente e curiosa e inteligente, fazem deste pequeno volume um romance que vale a pena ler.

Referência. Régine Deforges. O diário roubado. Tradução de Jaim Rodrigues. 2ª. ed. Rio de Janeiro : Record, 1998.

Bolívia: e se a ‘moda’ pega? Como reagirão os generais das aproximações sucessivas?

Bolívia: e se a ‘moda’ pega? Como reagirão os generais das aproximações sucessivas?

Os generais brasileiros, aqueles das ‘aproximações sucessivas’ devem estar babando de inveja dos generais bolivianos. Mas terão que engolir a inveja: eles patrocinaram o governo que aí está; eles estão no governo como nunca estiveram (na ditadura militar havia menos militares nos ministérios do que hoje, e lembrem que na época havia três ministérios militares: Exército, Aeronáutica e Marinha!).

Já escrevi aqui que os ventos do Pacífico poderiam não ser bons… Os ventos da Bolívia são putrefatos, porque um golpe militar na América Latina estava fora das possibilidades segundo a maioria dos analistas. Pois não está fora dos horizontes. As ditaduras militares não estão fora do horizonte, para dizer mais claramente, pois a sanha se espalhará entre generais golpistas, que os há em todos os países.

O mapa da América do Sul nos mostra uma região em ebulição. Venezuela na frente: um governo que se sustenta em sua base popular, apesar do boicote norte-americano e da direita fazendo pressão contínua. No Paraguai e depois no Brasil houve golpes com arremedos de institucionalidade. No Equador, o governo eleito com os votos dos progressistas trai o programa que o levou ao poder e começa a implantar a política econômica neoliberal: o povo foi para as ruas. O Chile em convulsão, depois de 40 anos de arrocho neoliberal. E não se enganem: a dívida pública chilena cresceu durante todo o período dos ajustes e dos pagamentos de juros (mas parece que o Paulo Guedes não gosta de olhar números macroeconômicos dos países que quer imitar com sua política suicida).

Ainda estávamos respirando os bons ventos da reeleição de Evo Morales na Bolívia e de Fernandez na Argentina; torcendo pela Frente Ampla do Uruguai, que vai a segundo turno disputando com a direita e com Lula fora da cadeia depois que o STF aprendeu a ler a Constituição e a maioria apertada da corte deixou os punitivistas legisladores e autoproclamados constituintes em minoria (entre eles o execrável Faschin, com essa grafia para lembrar o fascista que é).

Pois os generais exigem a renúncia de Evo Morales. Enquanto porta-vozes da direita, faziam exigências; mas o grupo político de sustentação, o fundamentalista de direita Camacho e seus companheiros incendiavam as casas do vice-presidente, do presidente do Congresso boliviano, e assim por diante. Mesmo com o povo nas ruas, os soldados tendo que enfrentar irmãos e pais, o golpe de estado foi dado!!! E os generais estão assanhando outros generais, podem crer.

O Brasil escapará desta ‘moda’ que vai pegar? O capitão já não governa, somente faz bagunça. Paulo Guedes tenta entregar tudo… mas nem o capitalismo pretolífero está querendo entrar na canoa furada deste palavrão Bolsonaro. Há instabilidade provocada pelo próprio presidente e seus filhos e seus milicianos (ou alguém não percebeu o recado do Queiroz para o presidente, falando em empregos nos gabinetes do Legislativo?).

E Lula irá para as ruas e levará gente para as ruas. Como reagirão os generais?

Lula na estrada, mas contenhamos as alegrias

Lula na estrada, mas contenhamos as alegrias

A soltura de Lula, que não foi uma vitória da sua inocência, mas resultado do reconhecimento dos ministros do STF de que andaram errando na interpretação da letra da lei constitucional, representará uma mudança de patamar na discussão política. Algumas de suas primeiras afirmações depois da soltura com o cumprimento da Constituição por quem a deve salvaguardar mostram que Lula trará algo novo para o marasmo das reações cotidianas aos descalabros vocabulares e aos descalabros na economia brasileira.

Em primeiro lugar, seu apreço pelo resultado das eleições de 2018: aceitamos o jogo, devemos aceitar os resultados. Tivemos candidato derrotado. Seu respeito pelos votos chega à beira da incompreensão para quem foi retirado do cenário eleitoral por um juiz que, nas palavras do presidente eleito, estava cumprindo uma “missão”: por na cadeia o candidato que venceria as eleições.

Assim, reconhece Lula que tendo sido afastado e tendo tido seus direitos desconsiderados por todas as cortes – do Superior Tribunal Eleitoral ao Supremo Tribunal Federal – mas tendo apresentado candidato, não pode deixar de reconhecer o resultado do pleito.

No entanto, reconhecer o resultado não é aceitar o processo: ele apontou a falcatrua das mentiras, a que se deu o nome bonito de Fake News, que circularam durante o processo eleitoral; ele denunciou o não cumprimento da lei – quer pelos financiamentos não confessados quer pelo STE, então presidido pela impávida Rosa Weber. Neste tribunal, houve até um ministro que recusando investigar as Fake News e as mentiras propaladas nas redes sociais chegou a trazer o argumento inacreditável de que nas redes sociais uma mentira pode ser desmentida pelo adversário, de modo que nada precisava ser investigado. É de se perguntar se este mesmo ministro, se acusado de ter violentado a própria filha, não consideraria a mentira uma injúria que não necessitasse de investigação e condenação do ‘internauta’. Provavelmente ele se contentaria com um desmentido feito por ele mesmo, e tudo estaria encerrado, seguindo a lógica do seu voto naquele momento.

Em segundo lugar, Lula mostrou que não se pode baixar o nível na discussão política. Se o atual governo e seus seguidores ou mentores tem pelo palavrão sua preferência, não cabe à oposição usar o mesmo vocabulário. A bronca de deu do alto do caminhão de som quando o público começou a mandar o Bolsonaro a tomar no cu é exemplar. E mais digno de nota ainda é ter dito: Bolsonaro já é em si um palavrão!

Em terceiro lugar, ao alcunhar o todo poderoso Paulo Guedes de destruidor de sonhos, mandou o recado de que não rezará pela cartilha do neoliberalismo, que está se mostrando inviável em todos os cantos do planeta, coisa que o ministro de abissal ignorância não consegue perceber… afinal, convivendo com colegas que acham que a Terra é plana e com outro que se tornou um capacho sem coluna vertebral, neste ambiente a incapacidade de enxergar o mundo deve ter influência sobre a cegueira de Paulo Guedes, para quem as pessoas que vivem com uma renda de R$ 413,00  têm o grave defeito de não economizarem… e entregarem sua economias ao ricos banqueiros.

Em quarto lugar, Lula pôs cada “i” debaixo de seu pingo: este é um governo de milicianos para milicianos. Somente o ex-juiz não enxerga, não pode enxergar e jamais enxergará: ele depende do amante dos milicianos para permanecer no posto.

Por fim, fiquemos de orelha em pé e olhos abertos: Lula não foi inocentado; Moro não foi declarado parcial – e pelos votos já dados na segunda turma do STF, não será declarado parcial, anulando os processos que julgou. Lula poderá voltar para a cadeia pela mão dos facchins, barrosos, carmens e fux, secundados por toffolis e rosas…

E mais: os milicianos não mandam matar. Matam! E Lula nas estradas do Brasil será alvo fácil para profissionais da morte. Tenhamos, pois, cuidados e alegrias contidas.

A paz enfurecida, de Ascêncio de Freitas

A paz enfurecida, de Ascêncio de Freitas

Mias uma vez o escritor português nascido na Gafanha de Nazaré nos leva para Moçambique, país em que viveu por mais de 30 anos e ao qual, pela literatura que dele conheço, está intimamente ligado. Seu ambiente é a África, e nela, Moçambique. Os contos que compõem E as raiva passa por cima, fica engrossar um silêncio tem o mesmo ‘topos’, ainda que em seus dois conjuntos remetam a tempos e lugares distintos da vida de seus narradores: África e Portugal.

Neste romance há um só narrador onisciente, que nos conta uma história como se estivesse falando. E como bom narrador, entremeia o enredo com reflexões sobre os acontecimentos em que estão envolvidos seus personagens. São dois os personagens principais:

Nuno Sabino, branco nascido em Moçambique. Jornalista (de uma cidade do interior, não em Maputo) que defendeu sempre a independência do país, que sonhou com a justiça e com o convívio das diferentes culturas num espaço de soberania e liberdade;

Comandante Damião, na verdade o ex-padre Gaspar Mouzinho Chivale, negro, guerrilheiro da Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique), idealista e libertário.

Do ponto de vista cronológico, o enredo remete a quatro períodos distintos da história: 1. a guerra da independência; 2. o primeiro governo da Frelimo (Presidente Samora Machel); 3. a ‘paz enfurecida’ da guerra civil, comandada pela Renamo (Resistência Nacional Moçambicana); 4. o processo de negociação de paz conduzida pelo governo de Joaquim Chissano, sucessor de Samora.

A narrativa se inicia com o espanto do narrador e sua tentativa de compreender a razão de Nuno Sabino ter buscado a morte em alto mar. Desde já este é apresentado como um branco que tinha amizade com os pretos, que queria a independência, que não deixava de sonhar com a liberdade para todos. Encontrar a compreensão das razões de Nuno Sabino será o desenvolvimento da história, e vamos encontrar a personagem em meio à luta pela independência, que já durava anos. Nuno Sabino viaja pelo país, muito frequentemente ausente de casa. Eis a razão para sua mulher, Dona Jorogina, abandoná-lo. Mais tarde ela voltará para Portugal com seu filho Miquelito.

Por seu turno, Nuno decide por uma ausência ainda maior: quer entrevistar o Comandante Damião, no meio da floresta. Será aí, no campo de batalha, que ambos se conhecerão e estabelecerão uma amizade que perdurará ao longo de toda a narrativa. Quem patrocina o encontro é um amigo comum: Zé Pedro, um civil que apoiava a Frelimo, estabelecendo elos entre os guerrilheiros e a cidade.

Deste encontro dos dois heróis, extraio da conversa uma passagem de seu diálogo:

[do Comandante Damião] … Quer saber uma coisa? … Por propensão natural minha, não gosto da guerra… Sou de lua recolhida no que respeita às grandezas do poder… e as armas de fogo são como um relâmpago que cega todos asqueles que as apontam ao seu semelhante. Elas dão-nos um incerto poder, mas sempre me deixam duvidando da minha sensatez. Daí é que penso que a guerra é o que mais mostra o pouco que valem os homens – o fio de sua vida e o seu egoísmo, o seu coçar para dentro, como o macaco.

A guerra da independência unia todas as forças moçambicanas, incluindo descendentes de portugueses. Com a Revolução dos Cravos em Portugal, rapidamente se encerra a chamada “guerra colonial” e Moçambique torna-se independente. Samora assume o governo, e se inicia o processo de implantação do regime socialista, com apoio soviético. E novas atrocidades, em nome do “marxismo leninismo” são praticadas, com uma plutocracia. Serão inúmeros os episódios contados. Foi neste tempo que apareceu o Comandante Damião na casa de Nuno Sabino e lhe disse:

– O Comandante Damião vai morrer amanhã, para eu poder ressuscitar. A propósito, o meu nome verdadeiro é Gaspar. E com esse meu nome que eu vou renascer: Gaspar Mouzinho Chivale. E quero ver se consigo renascer sem ódio de ninguém, com uma vida completamente nova pela frente, mas sem ser senhor de certeza nem de verdade nenhuma. Renascer… como quem sobe dos infernos e vê a luz do sol pela primeira vez. Mas por enquanto o meu verdadeiro nome é só para você conhecer … e mais ninguém. Para saber que tem um amigo chamado Gaspar Mouzinho Chivale – só isso.

Das prisões realizadas pela Frelimo, escapam alguns dos antigos guerrilheiros que discordavam dos rumos dados ao país. E formam a Renamo, que retoma a guerra nos campos e florestas, ajudados primeiro pela então Rodésia e pela África do Sul, sem que o governo de Samora tomasse providências. Com a independência da Rodésia, que passa a se chamar Zimbabwe, e com os acordos com a Tanzânia, Zâmbia e Botswana, pensava Samora que a guerra civil iria acabar. Não acabou, como se sabe, e durou mais de quinze anos.

Inúmeros serão os episódios que serão narrados de uma vida cotidiana em que era preciso sobreviver em meio ao fogo cruzado de dois inimigos: a implantação a ferro e fogo do socialismo e a guerra levada a efeito pela Renamo nos interiores do país, deixado de lado porque somente nas cidades viviam os “proletários”…

Sobreveio a grande seca – e uma barriga com fome não tem lei – recrudesce a guerra civil. Quis o Comandante Damião fazer frente à Renamo: conversou com o Presidente Samora que não lhe autorizou um ataque de guerrilha aos adversários do regime. E assim cada vez mais a Renamo avançava no território, praticando torturas, queimando machambas (pequenas lavouras), roubando e estuprando as mulheres das pequenas aldeias. Enquanto isso, o governo fazia sua pregação:

Ah! Mas com aquilo do marxismo-leninismo o governo e o Presidente Samora fizeram a mais maior confusão. Por causa que o povo não conhecia mais o que era o verdadeiro de ser. Vinha uma pessoa, fosse o governador da província ou fosse mesmo o Presidente Samora, propriamente, fazia banja e falava, falava, falava, permanecido no seu discursar. E perguntava: “Vocês sabem o que é o socialismo?” Toda a gente ficava-se calado – em motivos que ninguém sabia nada daquele assunto. E ele teimosava, muito chateadíssimo, com a voz de zanga: “Sabem ou não sabem?” Xi! Assim sem ninguém de primeiro estar em acordo, só em causa do medo todos e todos falavam igual resposta: “Sabemos!”. Mas aquilo eram as enganadoras palavras. Então – o povo quando que está a falar falsamente uma coisa, como passarinho pequeno mal-acordado na sua vida e nas ignorâncias do canto, está a conhecer direito o pio que à-toa assopra no seu bico? Não pode! Por causa que o pintoinho quando que começa o seu fino piar não pode, xi!, não aguenta cantar como galo. Mesmo quando que ouve o seu pai cantar as madrugas ele nunca que vai conseguir de cantar igual sem crescer-se primeiro.

Começa aí a grande decepção do Comandante Damião e do jornalista Nuno Sabino. Afinal, não fora para isso que lutaram na guerra da independência. Em função da ideologia, todos passavam a reacionários e crenças e costumes tinham que desaparecer:

… Se uma qualquer pessoa tem desejo de falar só a sua língua e praticar sem nenhum temor a religião da suas velhas famílias antespassdas, ou só guardar o costume das suas tradições por querer desacostumar de acietra os sofrimentos do tempo do mando dos brancos, e mesmo sem sonhar de conseguir nenhuma vingança com ninguém – isso é ser criminal e reacionário?

Um dos redatores do jornal que Nuno Sabino vinha dirigindo desde a independência é demitido por ter feito crítica aos desacertos do governo. Nuno toma para si as dores: demite-se do jornal e agora, todos os dias inventa a coragem de novas formas de sobrevivência. Em sua casa vive também o Comandante Damião. Como a Renamo avançava cada vez mais, cometendo inúmeras atrocidades, o comandante decide que irá até o quartel-general do atual dirigente, já autodeclarado Presidente, o generalíssimo Dhlakama. O Comandante Damião some nos matos, decidido a fazer justiça matando o chefe dos matsangas (os guerrilheiros da Renamo receberam este nome derivado do nome de seu primeiro presidente, André Matsangaíza). Nuno fica sem notícias dele e vai levando a vida, agora num novo romance com Lili, que fora salva dos campos de reeducação por influência de seu amigo comandante, e depois fora trabalhar no jornal que ele dirigia.

Depois de mais ou menos 11 anos da independência, Samora faleceu em 1986 e foi substituído por Chissano, que não enfrentou a Renamo, mas iniciou as negociações de paz, conduzidas por Roma.

Como Lili fica muito doente e resolve voltar para Portugal, Nuno Sabino fica solitário, mas recebe surpreso a visita de seu filho Miquelito, já homem feito. Veio passar as férias com o pai, para conhecê-lo e se conseguisse, convencê-lo a voltar para Portugal.  Não consegue e quando retorna, deixa novamente Nuno solitário. Este resolve, então, procurar seu amigo, o Comandante Damião, e para passar pelo cerco de sua segurança, alega que quer entrevistar Dhlakama, porque com o avanço das negociações de paz, ele se tornaria o futuro presidente de Moçambique.

Consegue chegar ao acampamento. E lá ouve a voz de seu amigo, falando em Latim, repetindo sempre as mesmas frases – memórias de seu tempo de Pe. Gaspar. Ele fora encontrado pelos matsangas completamente louco e trazido para o acampamento. Dhlakma poupou sua vida, pois reconheceu nele o velho companheiro da luta pela independência.

Assim, descobre Nuno que já nem seu amigo “existia” no corpo magro, barbudo e cabeludo, que frente as crianças ensinava “Gloria in excelsis Deo!…. Firmum in vita nihil…” e as crianças em coro repetiam “Glorinselsideu… Firminvitanilo!…”.

Retorna Nuno mais triste do que foi: embarca numa canoa de pescador e perde-se no meio do oceano.

xxx

Esta narrativa é acompanhada por inúmeras reflexões filosóficas, políticas, sociais, independência, autodeterminação, relação entre o indivíduo e a sociedade, multiculturalismo moçambicano, etc. Esta uma das razões por que este livro não pode ser lido de um fôlego só: o enredo ficcional serve ao autor para colocar na voz de seu narrador um conjunto extenso e complexo de informações, de reflexões e de decepções com a independência dos países africanos.

Mas há também, para aqueles que gostam da linguagem, paradas obrigatórias. O autor domina a linguagem, conhece a fundo os modos de falar moçambicanos, enriquece a língua portuguesa tanto em seu léxico quanto em sua sintaxe. O convívio com a linguagem de uma obra de arte somente pode ser realizado pelo leitor, num contato direto com a obra. Impossível chegar a qualquer ‘êxtase estético’ pela voz de um comentário: é preciso ir à obra (seja ela da natureza que for). Assim, apenas para dar água na boca, eis algumas passagens:

… e em trabalhos de fogo começou de despejar balas no ar – feito fosse o esfrio de um enxame de muitas abelhas em ameaço de doida ligeireza para picaçar o mundo todo inteiro.  

desdormiu-se, completo, quando que sentiu o afogo de ouvir a manhãzinha também se acordando, maravilhã, auroreal, xi!, a luz se ressurgindo-se das trevas do mundo – tempo de viver! Diversagem de passarinhos piavam seguidamente os seus milpios, madrugantes, entodados uns nos outros feito como que era musiquinha caprichada-bonita de boa paz e assossego.

… a noite sempre é o desamadrugras e o anoitecer.

… Não dizem que aos poucos e pouco o escuro da noite se clareia é amanhecendo?

… mas é falsamente que a gente aprende as alegrias do viver, por causa que ninguém aguenta de ficar sempre a mesma pessoa quando que está no meio da tristeza.

… Consigo falava sozinho, meditabundante.

… todo bicho, enquanto vivo, raiva silêncios quando que perde a sua liberdade.

… Ele queria se demitir do viver e por em causa disso tinha ido sembora à procura de uma morte qualquer? Feito a correnteza de um rio que parece conhecer que sempre vai dar ao mar para deixar de ser, e nunca que pára para evitar-se do que está adiante no seu caminho?

… na vida da gente o vento assopra em remoinhos, e tudo fica em escuridões quando que ele alevanta suas poeiras.

… A vida da gente nunca que ninguém pode adivinhar, antescipado, como que ela vai ser no seu termo real. […] … nossa vida sempre podem mais a dor e a alegria do que essas novidades dia-diárias que fazem a doidagem do viver.

… Segundo o que, no seguinte amanhecer, escutou que não se ouvia nem um riso de passarinhos nem o corioquê-quê dos galos – só vozes de gente desadormecida em dormência de um silêncio aquase por completo.

… E nunca que se sabe qual que é o poder das palavras que cada um solta na sua boca – os azares da vida.

… O outro, pela mansa, como desbulhando camisa de maçaroca de milho, para depois, numa brama de ordens, mandar forte castigo nele, prisionar definitivo em malvadeza de tratamentos de corpo – quem sabe até matar sem maiores artiofícios?

Lendo estas passagens, quem não lembra de Guimarães Rosa, de Mia Couto e de Manoel de Barros?

 

Referência. Ascêncio de Freitas. A paz enfurecida. Lisboa : Editorial Caminho, 2003.

Aqui na empresa, não!

Aqui na empresa, não!

Estou atravessando o Largo do Pará, uma praça no centro de Campinas. Como sempre se faz, não caminho em linhas retas, mas sigo os passeios previstos sem pisar na grama que morre por falta de chuva e água. Vou à Padaria do Nico buscar leite. Dois litros. Para dois dias.

Quando estou chegando ao final da travessia, à minha direita um carro puxado à mão, carregado de material reciclável, principalmente papelão, mas outras coisas também. Cinco homens estão descansando à sombra das árvores. Uns sentados. Está calor. Dois deles, de pé, discutem. Não presto atenção ao que dizem. Continuo caminhando vagarosamente.

De repente, os dois homens se estranham. Ficam frente a frente: encaram-se rancorosos. Irão ao que chamamos, não sei bem a razão, “às vias-de-fato” como se fato fosse o soco e o pontapé. Será que as vias da discussão não são vias-de-fato?

Estão ambos sem camisa. Calças sujas, arremangadas nas pernas. São calças claras, de cor indefinida. A pele branca queimada pelo trabalho de recolher o descartado, o sol castigando. Nada de bronzeamento artificial ou aquele do descanso praieiro.

Impressionante ver: os peitos estufam. Os olhos faíscam. Os músculos retesam. Estão ambos sem camisa. A fala grossa se esvai, tem intervalos, retorna – “que você está pensando?” entreouço. O enfrentamento é inevitável. Afastam-se, aproximam-se novamente. Pertíssimo: os olhos brilhando e o semblante de raiva dizia que não era um jogo de amor. Mas de ódio e briga.

E eis que dois dos homens que estavam sentados levantam. E um deles grita:

Aqui, na empresa, não! Querem brigar, vão lá pra fora!

Os dois se interpõem. Separam os olhos raivosos. Cada um toma conta de um dos peitos estufados. Mas o olhar de raiva que se dirigiam permaneceu.

Que terá acontecido depois? Não soube. Já estava para além do “território da empresa”, quase na esquina, pronto para atravessar a Rua Duque de Caxias. Esperava o sinal abrir.

Mas penso com tristeza: Henrique Meirelles e a múmia ambulante que responde pelo nome de Paulo Guedes e todos seus economistas neoliberais perderam a grande oportunidade de estarem presentes e terem seu merecido – e talvez único – gozo efetivo: os catadores de lixo se têm por empresários. E a sede da empresa, se os economistas neoliberais quiserem conhecer – fica no Largo do Pará, quase na esquina em que se cruzam a Francisco Glicério e a Duque de Caxias.

A visitação é livre e gratuita. Alerta: na empresa não se briga, somente lá fora.