Aflições: educar para a mudança

Aflições: educar para a mudança

Todos os dias eu me descubro mais apaixonada pela educação, e imediatamente penso que a raiz etimológica da palavra paixão é pathos, o que remete a algo patológico, doente, excessivo. Então não. Engraçado que em uma campanha do passado recente, penso que não inadvertidamente um candidato usou o slogan: paixão pela educação. Medo desses meus maus pensamentos.

Certo é que não tenho amor, afinal é um esse sentimento sublime, que não vê defeitos, não escolhe mediante análises, tempo ou conhecimento, ao contrário é voluntário, tudo perdoa. Enfim, vou dizer que gosto, porque me parece mais honesto. Gosto da educação, de ser professora.

Professores me encantam, sempre é um tempo mentiroso, pois muitas vezes ao ler ou presenciar práticas equivocadas tenho impulsos de ódio mesmo, depois passa, rápido até. Não me tornei professora aleatoriamente, escolhi várias vezes trilhar esse caminho de mudança. Já a mudança, e as ideias que advém dessa prática me causam maior alegria.

A capacidade de mudar realidades é algo fascinante: não ler para torna-se leitor, não ser social para convivência coletiva, ceder, organizar, desorganizar, e tantas outras coisas, e não estou falando só de educação escolar, mas dela também. O conhecimento, a o trânsito continuo deste, é algo muito admirável: de repente a gente aprende e aprendendo a gente ensina, e ensinando a gente muda o mundo. – acho que é Paulo Freire isso, mas já introjetei e acredito que é meu, então fica mesmo sendo assim sem dono ou dona que não permita a livre circulação.

Muitos professores gostariam de ser valorizados, engana-se quem pensa que é de salário que parte essa premissa, ou o uso do jaleco tapa giz, ou mesmo respeito por parte dos alunos que entendem que escola é lugar de aprender(com quem muito sabe, risos), quem sabe um presente no aniversário profissional, um lanche bacana na sala de professores e outras perfumarias. Essas coisas são bacanas, mas não atingem o cerne da questão da desvalorização do professor, aliás não deviam atingir, mas tão massacrados que estamos algumas vezes ganham uma dimensão de maiores do que realmente são.

Sempre que converso com professores, e me permito ouvir mais do que falar (casos raros) percebo neles uma vontade de produzir reflexão, ter tempo para descansar e pensar sobre a sua prática, e melhorá-la também, mas como fazer isso diante de tripla ou quadrupla jornada? E mais do que isso, como combater o distanciamento entre prática e teoria? Talvez a desvalorização interesse a alguém, ou a um poder e ordem estabelecidos.

Ninguém vai acreditar mais ouço nesse exato momento em que escrevo uma música de Belchior que diz: “Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria,/ Em nenhuma fantasia, nem no algo mais/ Longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia/ Amar e mudar as coisas me interessa mais/ Amar e mudar as coisas, amar e mudar as coisas me interessa mais”. (Alucinações – Belchior)

É interessante como gosto de ouvir as composições de Belchior, seu sotaque nordestino carregado de sentimento latino-americano sem dinheiro no banco, mas confesso nunca tinha prestado a devida e merecida atenção nesta música que destaquei acima. É claro que digo isso porque sou miseravelmente incapaz de entender tudo o que a genialidade constrói na mesma, mas sinto tanto todas as construções.

Acho mesmo que esse texto é sobre sentir e entender, mas sem tempo que estou não consigo determinar.

Voltada que estou para o fazer docente, me atrevo entre palpites e reflexões a sonhar com um novo modo, muito pouco apaixonado e muito mais militante, cheio de obrigações e provocações que surgem frutos de uma história colonial e de exclusões, que matou, mutilou, calou, torturou e principalmente silenciou. Uma vez ainda ousei dizer de mim. Escolho textos, e reflexões para junto com os alunos aprender sobre a vida, ops! sobre a língua portuguesa. Em sala digo sempre, das minhas dores, da minha ancestralidade não remetendo apenas a questões de ordem religiosa, mas de vida, exemplos, conformações e alegrias. Permito que me toquem com suas perguntas, inquietações, sonhos e coragem, e então me acendo novamente. Faço isso sim, extraio dos meus alunos um pouco de suas energias transformadoras, e eu uma vez incendiada, ensino-lhes a resistir. Paulo Freire nos fala sobre isso de resistência, outros também, Bell Hooks lendo-o, acrescenta que é preciso transgredir para a liberdade.

Comecei o texto falando de como educação é importante para mim, quando na verdade gostaria mesmo de dizer que gosto de mudar as coisas. Uma das coisas que pela tradição dos meus antepassados eu gostaria de mudar é o peso da tradição escrita, em relação à tradição oral, e como discordo disso. Penso que escrever e registrar implica em manter a ordem das coisas: Ensino os alunos a escrever, (olha só a prepotência) e assim eles são inseridos na cultura letrada, o que significa que vão conhecer por meio dos registros escritos, que foram escolhidos para serem transmitidos dentro de uma ordem econômica e social, as regras e a cultura que devem ser mantidas.

É claro que temos registros de textos, literaturas e afins que são contra hegemônicos, que situam-se nas margens, e que trazem um pouco da dimensão da pluralidade social e intelectual, mas dentro das escolas, nas academias, nas mídias e na sociedade de modo geral esse segmento é resistência, exigindo um esforço de subordinação para a insubordinação. Imagino daqui, sem suporte de nenhuma teoria, que todos nós sabemos dizer do que sentimos, e na medida em que praticamos, tornamo-nos melhores nisso.

Já escrever, exige uma série de contratos, códigos e conhecimentos que vão muito além do sentir. Para dizer tudo o que se pensa é preciso adquirir plenamente o conhecimento sobre a língua, e mais do que isso para quem e o que se pensa, e quem pensa a partir de onde se pensa. Horrível isso, não?

Uma das coisas que aprendi é ter pudor.

Uma das coisas que a idade me deu foi pudor, uma outra foi:  fios de cabelo brancos. Prefiro a segunda a primeira, embora ainda não minta que os acho um charme, mas a ideia de que refletem sabedoria me anima sobremaneira. Não confundam, ainda estou falando sobre os cabelos brancos.

Alguns incautos poderiam dizer apressadamente que o pudor também é fruto de sabedoria, nada sabem, tolos. Pudor é aceitação de que a sociedade, e suas regras, pesam em suas ações, e por isso mesmo são mais importantes do que suas vontades, ou qualquer coisa que pudesse te fazer feliz.

Me sinto feliz quando assisto vídeos de declamações de cordéis, batalhas de rap, apresentações de slam de resistência, palestras do TEDx e vejo como ensino meus alunos para a fragilidade, é quando sou mais triste. Toda a tecnologia dotando de muito poder o falar.  Quanta força carrega a oralidade.

A escola não fez de mim uma conservadora, mas ainda assim sei que sou. Lembro episódios da minha vida: certa feita, sentada estava de pernas abertas e saia, foi me avisado que era preciso ter bons modos, pudor. Noutro momento os cabelos alvoraçados precisavam ser domados para a entrevista de emprego: pudor. Um batom vermelho nos grossos lábios seria muito estranho para cantar no coral da igreja, quem sabe um pouco de pudor, hein? Falar alto enquanto muitas mulheres apenas acenam com as cabeças em acordo ou desacordo pode parecer um pouco inadequado. O pudor em si não é uma violência, é uma recomendação para que você seja aceito com bons olhos, o que prefiro ler como submissão, então algumas vezes me submeto, mas muito mais para esticar a corda e ver onde arrebenta.

Lula livre e a minha felicidade clandestina

Lula livre e a minha felicidade clandestina

Sempre gostei muito do que escreve Clarice Lispector. Até aí nada de mais, afinal é uma grande escritora que trata das profundezas humanas de forma elegante e tão simples que muitos desavisados podem até pensar se tratar de autoajuda.  Eu leitora advogo que ajuda, embora antes pertube, provoque e destrua um monte de certezas que existiam.

Um dos meus contos preferidos da escritora chama-se Felicidade Clandestina, que até deu nome a uma coletânea de contos da autora. O texto em questão trata de forma muito perspicaz da maldade humana, isso porque apresenta as lembranças da infância/adolescência da narradora, dotada de reflexões bem maduras e conscientes atribuídas ao tempo presente que é distinto do período narrado.

Bem, a maldade não é algo fascinante, mas perceber como se manifesta e as razões, são aprendizagens mais do que necessárias para a vida. E nesse sentido que retomo o conto de Clarice, para dizer do episódio jurídico envolvendo o descumprimento de uma determinação de um desembargador no último domingo. Para tal quero dizer do poder da literatura, muito mais do que jurídico.

A literatura permite apreciação artística, contudo mais do que a apreciação é importante o reconhecimento dos sentimentos, tipos e comportamentos humanos, talvez por isso mesmo enquanto professora sempre me recusei a usar textos como meros ilustrativos de gêneros, ou pior, recurso didático para aulas de gramática, e aqui não tenho competência para julgar quem assim faça, digo apenas que a literatura para mim, que bebi na fonte do professor Antônio Cândido, tem maior relevância.

Uma das coisas mais determinantes, mas do campo da linguagem é ter o controle da narrativa. Depois voltamos a isso.

Por agora, olhemos as situações que fogem das narrativas próprias do campo jurídico e percebemos que a regulação está na literatura, isso porque entre as funções da literatura está constituir fantasias, observar e formar aspectos culturais, e sociais. E é aí que reside a questão principal do imbróglio da soltura ou não do presidente Lula. Lendo:

“O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.” (Lispector,Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998)

 

Embora as personagens sejam mocinhas, adolescendo por assim dizer, vamos observar no texto que ao tempo em que uma dotada de inocência crédula no sentimento de justiça ou de relativa bondade, do outro lado tem uma jovem que crescendo em meio a livros, mimos, e privilégios escolhe exercer toda sua maldade, sua estupidez, e perversidade sobre o outro.

Até ler esse conto eu não conhecia a expressão tortura chinesa, até porque as torturas brasileiras que eu conhecia eram fruto de um regime ditatorial que não primava por requinte ou inteligência. A literatura tem essas maravilhas, porque sem ela poderíamos pensar que a violência é própria de pessoas com baixa instrução, ou mesmo pouca inteligência, o que não é verdade, e lendo esse conto para jovens, aliás, indicado para leitores em formação pela maioria dos livros didáticos, encontramos uma caracterização muito comum aos personagens deste tipo: quando se sente inalcançáveis pelos olhos dos outros, ou mesmo do poder elas se tornam menos cuidadosas e, porque não dizer: afoitas! Quando isso ocorre, elas se dão a conhecer no seu mais íntimo e secreto perfil.

No conto de Clarice ao final descobre-se que o exercício da tortura cotidiana não teria outra razão do que alimentar a sanha diabólica e obsessiva do opressor sobre o oprimido, e quando a mãe descobre o caráter doentio da filha, essa a reprime e encerra a tortura.

No caso em questão, já foram feitas muitas reprimendas: falta de provas, descoberta de que não existiram reformas, notas fiscais falsas e a incapacidade da operação em julgar ou condenar envolvidos em atos de corrupção de outros partidos, mesmo quando sobram provas. Parece que tudo isso ganha força de uma mãe complacente. Os efeitos colaterais disso é que embora não tenha força para soltar Lula, deu-lhe novo fôlego, e permitiu-lhe ver o pulsar da esperança popular, ademais mostra para as pessoas quão doentes é o lado de quem o quer preso.

E assim mesmo preso, a verdade aparece e Lula assume o controle da narrativa: Agora é impossível não ver que não há imparcialidade. A liberdade é um desejo ainda não alcançado, mas parafraseando a menina do conto:

“Meu peito estava quente, meu coração pensativo.”

Em tempo de jogo de futebol: a torcida é Lula livre.

Em tempo de jogo de futebol: a torcida é Lula livre.

É preciso falar sobre a Copa do mundo de Futebol, tem mulher assistindo e torcendo, mas antes devo falar de algo que para além da política reflete a maldade de um grupo com a classe trabalhadora e os pobres, não é sobre o vexame: misógino e fascista da entrevista da presidenciável comunista Manuela, sobre isso e como a sociedade brasileira tem sido humilhada por representações de setores retrógrados, prometo falar em breve. E como pobre paga dívida: esperem!

Confesso antecipadamente que no jogo do Brasil contra o time da Sérvia, já pairava certa tranquilidade pelo resultado desfavorável alcançado pela Alemanha e sua precoce volta para casa, naquele clássico sentimento, estúpido, de que o Brasil não precisa ganhar a copa, basta apenas que a seleção da Alemanha, nosso algoz no 7X1, perca. Lógica futebolística limitada a minha.

Eu estava feliz com os dois gols, seguindo em busca do título, e pensando em mais um dia de ponto facultativo no trabalho, quem é trabalhador sabe bem que isso é maravilhoso. E durante o jogo, pensava como deve ser difícil para o Lula assistir ao jogo da sua cela, e mais que isso é agravado pelo fato de ser uma prisão política.

Mesmo que Lula ouça as manifestações da vigília, as comemorações dos gols, não são possíveis ouvir e sentir as frustrações frente aos nossos chutes perdidos, aos perigos dos adversários grandalhões na nossa pequena área. Sei que tem uma TV na sua cela, mas não falo de ver as imagens, mas de sentir coletivamente e com as pessoas com as quais gozamos de certa intimidade para entre arroubos de alegria e frustrações soltar um ou outro palavrão ou grito mais animado.

Sem censura.

“O meio campo é lugar dos craques /Que vão levando o time todo pro ataque / O centroavante, o mais importante /Que emocionante, é uma partida de futebol!”(É uma partida de futebol. Skank)

Tem uma classe social no Brasil que detesta essas manifestações, esse exagero de sentimentos: esse sangue, suor e lágrimas que se organizam em torno de pequenas vitórias. – Que pelo menos se gourmetize as comemorações! – E assim sambam em salões, odorizados com essência herbal, (porque a palavra erva remete a outra coisa) usam roupas e acessórios originais de torcedores mais torcedores do que aqueles que vestem camisetas compradas em varais nas ruas das cidades, e não gritam, no máximo um: – oh! Que legal!

Então essa gente, não é povão. É gente, e com gente é diferente.

Penso que muitos trabalhadores, sem opção negociada com o patrão, ouvem e veem o jogo em seus postos de trabalho, mas poucos devem fazê-lo sozinho, sem a cumplicidade que o futebol oferece nesses eventos, a situação de Lula é diferente: vigiado pelo poder sensor do conservadorismo burguês e supervisionado pelo sentimento policialesco e hipócrita da mídia e justiça tupiniquim.

Os fogos e rojões Lula deve ouvir, mas sem ter o abraço garantido nas mudanças de placar que nos beneficie, tornam-se meros barulhos que assustam os cachorros.

Sofrer é com o povo, mas com gente é diferente.

Em outro jogo, sem tumulto ou multidões, sem torcida e vitória, acontece um xeque–mate no colegiado da segunda turma, encena-se e aspiram aos elegantes jogos enxadrísticos, usa a jogada chamada Jucá, esconde tucanos, desconsidera as regras, e segue em ritmo de golpe, movimenta-se pelos corredores para derrubar o rei.

Sem monarquia, Lula comenta o jogo popular, apresenta suas necessidades e fragilidades, mas quem fala não diz só do que fala. Eu sinto de cá que é chegada a hora e confirmo nos comentários de Lula, que leio pelo intermédio do Trajano.

Cada copa é uma copa. Liberdade para Dirceu e absolvição de Gleisi não libertam Lula. Cada jogo é um jogo. E a estratégia do tabuleiro já foi anunciada no áudio de Jucá, mas os dribles que saem da marcação são próprios do povão, de uma partida de futebol.

A melhor defesa é o ataque, não temos que esperar pelo Neymar, todo time precisa se colocar em campo, mesmo sem o craque para levar o time todo para o ataque como diz a canção… aliás, nenhum dos melhores jogadores até agora apareceram.

Temos muito jogo e futebol para jogar.

Leitura obrigatória do Geraldi: do desabafo ao agradecimento.

Leitura obrigatória do Geraldi: do desabafo ao agradecimento.

Esse texto não é um pedido de desculpa, mas deveria. É verdade que é um texto que deveria ter sido escrito na semana passada, mas a gente acaba cedendo primeiro para a preguiça e depois aos infortúnios cotidianos.

Ninguém lida muito bem com crítica, pode ser que algumas pessoas lidem, e são pessoas mais nobres e elegantes, eu não lido. Digo isso porque na última semana, tive um resultado muito positivo sobre uma avaliação e algumas pessoas carinhosamente me lembraram de outro momento em que não fui bem avaliada, parecia mesmo uma resposta.  Confusa que sou, ler sobre o fracasso anterior, fez com que essa negativa se sobrepusesse ao momento de comemoração e alegria, enfim reavivou as lembranças de críticas e o momento de muita tristeza em que fui violentamente agredida sobre o critério de avaliação da minha escrita.

Por isso não é um pedido de desculpas, sendo. Aprendi a não me desculpar mais.  Antes prefiro explicar e justificar o porquê da ausência do texto. Assim faço-o, acrescentando que escrever exige muita força eu não estou falando de força física. Por mais que eu que eu precisasse escrever, não saía. E em uma espécie de mantra comecei a repetir para mim inúmeras vezes que a minha escrita é resistência, a minha escrita é resistência, a minha escrita é resistência, e porque eu fui sentindo que era resistência é que eu precisava resistir.

Eu não sei o significado etimológico da palavra resistência, mas mesmo correndo o risco de escrever uma bobagem, vou lançar mão da cumplicidade que tenho com meus leitores para dizer do que acredito: resistência tem uma relação muito próxima de reexistir, toda vez que somos impelidos à resistência, é como se a gente renascesse à vida, ressignificando todos os obstáculos e desafios, e por fim conseguisse uma nova existência.

Além da cumplicidade, é preciso fazer justiça com a literatura, quando eu faço essas possibilidades linguísticas, me lembro do poeta Manoel de Barros ou de Guimarães Rosa, dois amores que me ensinam a partir da simplicidade, do popular para o erudito, do nada para o tudo, do esvaziamento de sentido para a plenitude das emoções. As palavras elas nos dão morte para vida, a manipulação das palavras, tal qual jogos de crianças, nos faz senhores da nossa vida eu penso que não à toa eu não escrevi na quinta-feira.

Na sexta-feira, leio um texto do professor Wanderley Geraldi, sobre ensino de língua portuguesa:

Por isso, a aquisição da linguagem, como salienta Bakhtin (1974), dando-se pela internalização da palavra alheia (especialmente da mãe) é também a internalização de uma compreensão de mundo. As palavras alheias vão perdendo suas origens (ser do outro), tornando-se palavras próprias (internas) que utilizamos para construir a compreensão de cada nova palavra. Por isso a língua não é um sistema fechado, pronto, acabado de que poderíamos nos apropriar. No ato de falarmos, estamos participando do processo de constituição da língua.

Entendamos o sentido que estamos dando à expressão palavra. Por certo, trata-se de cada item lexical, mas trata-se de muito mais: das formas internas de cada palavra (os morfemas) cujo conhecimento revelamos na construção de novos itens lexicais (todos nós já convivemos com crianças que combinam diferentes morfemas e constroem novas palavras, como, por exemplo, infantilice, com base em meninice); das formas de combinar itens lexicais para construir frases (combinações diferentes na oralidade e na escrita); das formas de construir textos cada vez mais complexos (muito antes da escola, aprendemos a narrar, a descrever objetos, a defender pontos de vista).

 

E eu fiquei muito feliz com esse texto, vou deixar o link aqui para a leitura de todos vocês: (http://blogdogeraldi.com.br/construcao-de-um-novo-modo-de-ensinar-e-aprender-a-lingua-portuguesa/ )  porque é um texto que muito mais do que a seleção para a qual fui aprovada, fala sobre a que outra, na qual fui reprovada. Em outro momento, escrevi um projeto bakhtiniano em essência, sobre a importância de trazer para sala de aula e para as aulas de língua portuguesa textos que se aproximassem do universo dos alunos, entendendo que a língua é constitutiva dos sujeitos, era preciso repensar a minha prática pedagógica, de modo que as produções escolares dentro da disciplina de língua portuguesa alcançassem uma maior e melhor eficiência e qualidade.

Isso porque na minha prática em sala observava que os textos normalmente utilizados, escolhidos pelo professor ou mesmo pelo material didático adotado apresentam a apenas uma variedade linguística e cultural como regular, convencional, e de prestígio e não uma escolha dentro de uma diversidade, e que escolha é fruto de uma estrutura social desigual que tem como pano de fundo o silenciamento de uma classe social.

No processo de constituição de identidade, da teoria bakthiniana, assume-se que a linguagem é dialógica, isto é, é a própria linguagem que carregada de seus sentidos encontra sentido no discurso do outro, que por sua vez também é reflexo de vários discursos que são adaptados, incorporados/atravessados aos seus, assim sendo o uso do texto que tenha identidade com os alunos, ao se materializar nas trajetórias presentes em sala, e apresentar a variante da linguagem, própria de hábitos e comportamentos sociais de um grupo, permitiriam ao aluno partir da sua experiência e ideologia para a reflexão sobre a própria língua e sobre aquisição de outras variantes e o empoderamento disto.

Em resumo, uma máscara bonitinha para trazer para sala de aula músicas dos Racionais entre outros grupos de rap e hip hop e outras manifestações culturais dos segmentos populares.  Paixão é paixão, e “um lance é um lance” como diz a música sertaneja, fato é que ciência, para mim, deveria ser feita com paixão.  Não deu certo. E lendo o texto do professor Geraldi, parece que de novo daria certo, eu não estaria assim tão errada.

Como aprendemos a língua no convívio com os outros, a variedade linguística que assimilamos é aquela falada em nosso grupo social. Como a repartição dos homens numa sociedade não é absolutamente sem consequências, o acesso aos bens da herança cultural do passado se dá de forma diferenciada. Entre esses bens é preciso incluir os diferentes modos de conceber a vida. Aprender uma variedade linguística é também aprender um sistema de referências.

Acredito que outros textos e outras literaturas, em especial as chamadas literaturas marginais, (em outro momento podemos discutir sobre a identificação semântica do termo marginal) são capazes disso.  Mas o que eu percebo é que muitos jovens se sentem tolhidos e excluídos de um processo de produção escrita uma vez que as produções trazidas para o ambiente de letramento e estudo como referenciais, para que eles conheçam e identifiquem como de qualidade, se opõem as suas produções e porque não dizer constituições.

Assim como eu me senti quando recebi uma avaliação de que minha escrita estava muito longe do aceitável penso que os alunos quando recebem retornos negativos de suas produções, avaliações que colocam seus textos à margem, cobertos pelo manto do erro, ou, quando há alguma complacência, sob o olhar dos desvios sofrem e têm como resultado o apagamento de suas identidades dos ambientes escolares, e de prestígio social da sua variedade linguística, de forma que sua compreensão sobre o aprendizado da língua portuguesa torna-se algo muito distante e mesmo inatingível sobre o ponto de vista da apropriação de um sistema de referência que não é o seu, mas que poderia.

O estranhamento da uma criança de grupos sociais desprivilegiados, ao entrar pra a escola para aprender a ler e a escrever, resulta também do fato de que os modos de compreender o mundo e falar são diferentes dos modos a que se habituara. Não se pense, no entanto, que a diferença bloqueie as possibilidades de aprender. Numa sociedade, até para que o poder se exerça, há vasos comunicantes entre uma e outra variedade. O mesmo aluno que fala diferente é capaz de compreender textos expressos na variedade considerada certa.

Essas são as perspectivas que devem iluminar as práticas de leitura, de produção de texto e de análise linguística no ensino da língua portuguesa, desde que se queira efetivamente ampliar o número de pessoas que leem e escrevem em nossa sociedade. E ampliar esse número significa ampliar o exercício da cidadania, com o mais adequado preparo para o trabalho: aquele em que cada um aprende a aprender.

Uma vez morto, a resistência precisa ser ainda reconstituída, e não é isso mesmo de reexistência? Enquanto a morte for certa, mas simbólica cabe sempre às reinvenções, à luta, e de novo se colocar de pé.

Durante todo o texto pensei umbilicalmente em mim, juro! Mas devo confessar que muitas vezes minto. Então agora, ponho os meus olhos em Curitiba, e vejo uma vigília resistente, leio ainda sobre o show do Gog e do Rincón Sapiência, que poderiam ter músicas trabalhadas em sala de aula, quanta riqueza e vejo que eles se desfazem das vaidades e de ser quem são para se posicionar junto à resistência do seu povo, dos pobres e trabalhadores, trazem para os seus palco a resistência do momento, a maior delas: Lula livre.

Permito-me pensar ainda uma vez em Lula. E em como seu ato me educa enquanto professora a ajudar que meus alunos sejam resistentes.

E sim, Lula se entrega a prisão em um ato de resistir, e de constituir pela linguagem em milhões de Lula, que se recriam cotidianamente, em frente às mortes, a despejos, a samba-canções, a fome, traições, amores, assassinatos, Marielle, Marcos Vinicius, ao preconceito, silêncios e silenciamentos. Ninguém pensa que preso Lula se faz denúncia de suas milhares de existências pelo país a fora: de como alguns querem calar sempre os que podem menos e são pobres. E de uma cela, ele organiza os significados de lutar e resistir.

Ainda uma vez, obrigada Wanderley Geraldi.

As miudezas de nossas trocas

As miudezas de nossas trocas

Talvez um dia as pessoas não saibam mais o que quer dizer a expressão cobrador de ônibus. É verdade, juro!
Talvez já agora, os mais novos por certo não reconheçam que antes, coisa de 20 anos ou mais, existia uma pessoa encarregada por receber o dinheiro e liberar a catraca, depois trocar por bilhetes, e logo fiscalizar os cartões dos usuários até que ficaram apenas as catracas e os usuários vigiados por um sistema desumanizado.
Sem o seu Zé, seu Joaquim, a dona Helena, a dona Rosa, umas figuras que cumpriam suas funções entre risos e caras bravas, e que contavam suas histórias, e misturavam-se com seus passageiros, e muitas vezes ajudavam buscando para os motoristas, impossibilitados de deixar a direção e o posto, um cafezinho no bar em frente ao ponto. São memórias afetivas que a gana capitalista, ou ganância, arrancou das próximas gerações. Para tal feito, antes potencializou os perigos e os desgastes emocionais dessas profissões, não acredito em fábricas de monstros(será???), divulgou-se como nunca que existia o perigo dos assaltos aos cobradores, e que era um caminho sem volta a tecnologia, a necessidade de modernização e maior segurança para todos, e a promessa de que todos os cobradores teriam a oportunidade para ser readaptados para outras funções, e o bônus é que diminuiria os custos para os usuários. Pronto calou-se uma massa de iguais que vivem com tão pouco, ninguém falou dos lucros das empresas, tampouco da ausência humana.
Humano é outro termo em desuso por outros motivos. Cobradores de ônibus era humanos. Muitas pessoas sem instrução sobre as rotas, alinhavavam seus roteiros com os cobradores, em geral eles eram sabidos e bons de ouvido. Outras tantas pessoas melhoravam o dia com uma brincadeira ou outra do cobrador, outros ainda eram cupidos de histórias de amor de encontros fortuitos. Certo dia esqueci o dinheiro e o cobrador postergou para o outro dia o pagamento. Confiança nas pessoas não é uma moeda de troca, mas trocamos isso. Escolhemos as verdades que cabem nos nossos gostos, e confortos.
E como se fôssemos gado rodamos a catraca, em um transporte público (privado) que leva às pessoas em péssimas condições para o abatedouro diário, no giro mecânico morre a dignidade, morre a pontualidade, morre a energia. Quem acompanha meus textos nesse ponto deve estar me achando repetitiva, falando de saudade de novo, uns devem atribuir a culpa, apressadamente, sobre os meus fios brancos salteados entre os cabelos já há muito tempo pintados.
– A pressa amigos é inimiga da perfeição!
Não é saudosismo o que tenho no texto de hoje, não se apressem porque, a pressa, essa jovem nos envereda por caminhos tortuosos. O tema hoje é outro. Abandonamos os cobradores de ônibus, e agora vejo com muita velocidade e até urgência, abandonarmos os porteiros.
É a nova CLT, a crise, uma economiazinha aqui, um confortozinho ali e voilá! Arremessados no processo de desumanização das relações. Os porteiros foram engabinetados, depois precarizados, e aí viraram os reclamões, faltosos, oneradores que são das folhas de pagamentos dos serviços condominiais, e sedentos pelos cartões de entrada e saída ou mesmo acesso biométricos que vemos nas novelas, olhamos de lado e franzimos as testas para cada cochilo inoportuno depois do almoço, cada radinho de futebol ligado no jogo do time que não é o nosso e ainda que fosse: – Oras, veja!
O texto é sobre como somos permissivos com os desmontes de profissões. Como não podemos ver que famílias precisam desses empregos? e muitas vezes é subemprego mesmo. Mesmo assim, eu prefiro eles lá, até com seus olhares indiscretos pra saia curta da mocinha, para o menino que é afeminado, ou para a tia riponga que aos 40 ainda fuma seu baseado de maconha gerando reclamações dos vizinhos. Tem ainda olhar assustado sobre aquele vizinho que insiste em fazer a mulher cair todo dia e rouxear os olhos e ter olhos deprimidos. Ele conhece bem, são sabidos também. Seu condomínio não vai ficar mais chique, só vai ficar desumanizado, não há economia… alguém ou algum setor lucra com isso.
E não vou mais ter que dizer bom dia, não vou mais ter confiança em deixar a chave pra um amigo que chegaria quando eu não estou. Eu fiz a troca. A gente sempre tem escolha, poderia ser desligar o elevador em alguns horários, quem sabe instalar aquecimento solar… enfim preocupações com o futuro dos humanos.
Eu sei que muita gente esperava um texto sobre copa, sobre quem sabe outro tema mais importante, mas resolvi falar do nosso silêncio que abandona pessoas e todo um futuro.
O texto é curto, porque a paciência também é.
E a pressa é mesmo inimiga da perfeição, e estou apressada para a vida.