A mudança de Zila Mamede

A mudança de Zila Mamede

A meu pai

O caminhão: na boleia

a mulher e o cão

 A vitrola

O vaso de gerâneos

O par de botas

Sobre a capota

A mó a concertina

Os matoloes os faróis

(a querosene) juntos na mesma vida

Num berço de vime

O terço (que redime)

A espingarda (que mata)

Refletidos no armário de espelho

A chibata

 O pássaro de gaiola

O relho

Tange a mudança o homem com seu rosto:

Engenho que o desgosto

Desgasta de uma rua a outra

O atraso

O atraso

Existem assuntos que são desconfortáveis, uma ferida, e nestes casos o melhor e cuidar antes de estourar.

Na semana anterior não foi possível escrever, mas outros veículos produziram textos, palestras, audiências, matérias jornalísticas sobre a o dia da consciência negra e, por conseguinte, trataram do racismo nosso de cada dia.

“- Pai, afasta de mim esse cálice.”

Na maioria dos casos, a voz que ecoava o discurso de luta antirracista produz, consolida e reproduz ao longo dos outros dias do ano práticas que consolidam preconceitos contra a população negra, tudo feito com discrição e muito conhecimento.

De tal forma que confesso a minha pouca ou nenhuma vontade de escrever naqueles dias mais próximos, porque não queria minha voz sobrevivente e minúscula perto da Casa Grande.

“- Afasta de mim esse cálice”

Escrever sobre racismo é um texto que se inicia, e não se conclui, que escrevemos três linhas, e apagamos trezentas, porque na ânsia de denunciar tais atos queremos encontrar uma fórmula de destruir tais memórias, e seguir.

Cada ato que trouxesse para o texto ocultaria pelo menos outros cem, diários, que é como se comporta o racismo, vai ampliando em efeito onda, e cada explicação e contorno do sofrimento causado que ganhe divulgação ao tempo em que denunciam escondem tantos outros, e o pior é a naturalização de tais atos.

Poderia falar de interseccionalidade, de racismo estrutural, de opressão, de genocídio, de silenciamento, de solidão, ainda assim faltariam muitos outros termos para explicar a dor. A dor de ser marginalizado, a dor de ser preterido, a dor de ser invisível na dor.

Até que um dia essa dor que você consegue nominar em um destes termos, ou mesmo em outros de uma lista que não acaba, e parece ser renovada a cada escala, alcança seu coração… É então que pensamos nem ser capazes de suportar tanta dor.

” – De vinho tinto e de sangue”… negro

Resilientemente suporta-se, sabendo que no outro dia tudo será como antes. Até aqui falei sobre o nó, mas os tempos pedem que eu fale de desejos tal qual filme de Tarantino ou de Spike Lee.

Sim, eu imagino, e tenho tanto ódio dentro de mim, engana-se quem acredita que a paz é amor, a paz é escolha dos medíocres, assim como eu, que fingem que tudo está posto no devido lugar: Um vídeo bonitinho sobre o criado-mudo, ora veja só.

Como se Machado de Assis não tivesse sido embranquecido, e ensurdecido na negritude. Entendem? Outros tempos!

O negro é mudo, surdo e cego, antes de tudo é criado para entender seu lugar sem reclamar, sem chorar, sem adoecer, sem esmorecer, sem rebelar, sem matar…  Embora a qualquer momento se possa morrer.

E então ouço desde sempre que ódio não leva ninguém a nada. Errado! Leva-nos para o desemprego, para a reprovação, para o trabalho infantil, para a prostituição, para subempregos, para as famílias desestruturadas, para a pobreza, para as cenas de crime, para a cadeia, para a bala perdida, para os assassinatos sem solução, para as chacinas…

Existem os outros casos, mas esses hoje devem ficar calados, e entender que são exceções construídas para justificar a regra que permite o racismo. O ódio nos leva todos os dias até a morte, e quando estivermos exaustos de visitá-la e enganá-la, ela se aproximará,… e enfim alguém vai nos tirar para dançar.

Amargos como os frutos de Ana Paula Tavares

Amargos como os frutos de Ana Paula Tavares

                                                     “Dizes-me coisas tão amargas / como os frutos…” – Kwanyama



“Amado, por que voltas

com a morte nos olhos

e sem sandálias

como se um outro te habitasse

num tempo

para além

do tempo todo


Amado, onde perdeste tua língua de metal

a dos sinais e do provérbio

com o meu nome inscrito


Onde deixaste a tua voz

macia de capim e veludo

semeada de estradas



Amado, meu amado,

o que regressou de ti

é a tua sombra

dividida ao meio

é um antes de ti

as falas amargas

como os frutos”

Gritaram-me negra de Victoria Santa Cruz

Gritaram-me negra de Victoria Santa Cruz

Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Que sete anos!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
me gritaram Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
“Por acaso sou negra?” – me disse
SIM!
“Que coisa é ser negra?”
Negra!
E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus lábios grossos
e mirei apenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi . . .
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava levando nas minhas costas
minha pesada carga
E como pesava!…
Alisei o cabelo,
Passei pó na cara,
e entre minhas entranhas sempre ressoava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Até que um dia que retrocedia , retrocedia e que ia cair
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí?
E daí?
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles,
que por evitar – segundo eles –
que por evitar-nos algum disabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro
Afinal
Afinal compreendi
AFINAL
Já não retrocedo
AFINAL
E avanço segura
AFINAL
Avanço e espero
AFINAL
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
AFINAL
Já tenho a chave!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Negra sou!

Em 21 de março de 1960, em Joanesburgo, na África do Sul, 20.000 pessoas faziam um protesto contra a Lei do Passe, que obrigava a população negra a portar um cartão que continha os locais onde era permitida sua circulação. Porém, mesmo tratando-se de uma manifestação pacífica, a polícia do regime de apartheid abriu fogo sobre a multidão desarmada resultando em 69 mortos e 186 feridos. A data é uma das escolhidas para as mobilizações preparatórias da Marcha das Mulheres Negras de 2015.

Aos que virão depois de nós, de Bertold Brecht

Aos que virão depois de nós, de Bertold Brecht

 

Realmente, vivemos tempos muito sombrios!
A inocência é loucura.

Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade.

Aquele que ri ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: “Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!”

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores, deixar correr o breve tempo.

Mas evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo.

Realmente, vivemos tempos sombrios.

Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia.

Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas.

E a meta achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz.

Ah, os que quisemos preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

Bertolt Brecht (1898-1956)