As miudezas de nossas trocas

As miudezas de nossas trocas

Talvez um dia as pessoas não saibam mais o que quer dizer a expressão cobrador de ônibus. É verdade, juro!
Talvez já agora, os mais novos por certo não reconheçam que antes, coisa de 20 anos ou mais, existia uma pessoa encarregada por receber o dinheiro e liberar a catraca, depois trocar por bilhetes, e logo fiscalizar os cartões dos usuários até que ficaram apenas as catracas e os usuários vigiados por um sistema desumanizado.
Sem o seu Zé, seu Joaquim, a dona Helena, a dona Rosa, umas figuras que cumpriam suas funções entre risos e caras bravas, e que contavam suas histórias, e misturavam-se com seus passageiros, e muitas vezes ajudavam buscando para os motoristas, impossibilitados de deixar a direção e o posto, um cafezinho no bar em frente ao ponto. São memórias afetivas que a gana capitalista, ou ganância, arrancou das próximas gerações. Para tal feito, antes potencializou os perigos e os desgastes emocionais dessas profissões, não acredito em fábricas de monstros(será???), divulgou-se como nunca que existia o perigo dos assaltos aos cobradores, e que era um caminho sem volta a tecnologia, a necessidade de modernização e maior segurança para todos, e a promessa de que todos os cobradores teriam a oportunidade para ser readaptados para outras funções, e o bônus é que diminuiria os custos para os usuários. Pronto calou-se uma massa de iguais que vivem com tão pouco, ninguém falou dos lucros das empresas, tampouco da ausência humana.
Humano é outro termo em desuso por outros motivos. Cobradores de ônibus era humanos. Muitas pessoas sem instrução sobre as rotas, alinhavavam seus roteiros com os cobradores, em geral eles eram sabidos e bons de ouvido. Outras tantas pessoas melhoravam o dia com uma brincadeira ou outra do cobrador, outros ainda eram cupidos de histórias de amor de encontros fortuitos. Certo dia esqueci o dinheiro e o cobrador postergou para o outro dia o pagamento. Confiança nas pessoas não é uma moeda de troca, mas trocamos isso. Escolhemos as verdades que cabem nos nossos gostos, e confortos.
E como se fôssemos gado rodamos a catraca, em um transporte público (privado) que leva às pessoas em péssimas condições para o abatedouro diário, no giro mecânico morre a dignidade, morre a pontualidade, morre a energia. Quem acompanha meus textos nesse ponto deve estar me achando repetitiva, falando de saudade de novo, uns devem atribuir a culpa, apressadamente, sobre os meus fios brancos salteados entre os cabelos já há muito tempo pintados.
– A pressa amigos é inimiga da perfeição!
Não é saudosismo o que tenho no texto de hoje, não se apressem porque, a pressa, essa jovem nos envereda por caminhos tortuosos. O tema hoje é outro. Abandonamos os cobradores de ônibus, e agora vejo com muita velocidade e até urgência, abandonarmos os porteiros.
É a nova CLT, a crise, uma economiazinha aqui, um confortozinho ali e voilá! Arremessados no processo de desumanização das relações. Os porteiros foram engabinetados, depois precarizados, e aí viraram os reclamões, faltosos, oneradores que são das folhas de pagamentos dos serviços condominiais, e sedentos pelos cartões de entrada e saída ou mesmo acesso biométricos que vemos nas novelas, olhamos de lado e franzimos as testas para cada cochilo inoportuno depois do almoço, cada radinho de futebol ligado no jogo do time que não é o nosso e ainda que fosse: – Oras, veja!
O texto é sobre como somos permissivos com os desmontes de profissões. Como não podemos ver que famílias precisam desses empregos? e muitas vezes é subemprego mesmo. Mesmo assim, eu prefiro eles lá, até com seus olhares indiscretos pra saia curta da mocinha, para o menino que é afeminado, ou para a tia riponga que aos 40 ainda fuma seu baseado de maconha gerando reclamações dos vizinhos. Tem ainda olhar assustado sobre aquele vizinho que insiste em fazer a mulher cair todo dia e rouxear os olhos e ter olhos deprimidos. Ele conhece bem, são sabidos também. Seu condomínio não vai ficar mais chique, só vai ficar desumanizado, não há economia… alguém ou algum setor lucra com isso.
E não vou mais ter que dizer bom dia, não vou mais ter confiança em deixar a chave pra um amigo que chegaria quando eu não estou. Eu fiz a troca. A gente sempre tem escolha, poderia ser desligar o elevador em alguns horários, quem sabe instalar aquecimento solar… enfim preocupações com o futuro dos humanos.
Eu sei que muita gente esperava um texto sobre copa, sobre quem sabe outro tema mais importante, mas resolvi falar do nosso silêncio que abandona pessoas e todo um futuro.
O texto é curto, porque a paciência também é.
E a pressa é mesmo inimiga da perfeição, e estou apressada para a vida.

 

Entre a esperança e a saudade.

Entre a esperança e a saudade.

Escrevo agora sobre saudade.

Desde que mudei de cidade esse sentimento me visita sempre: amigos, imagens, sons, silêncios, cansaços, caminhos, descaminhos, afetos, desafetos, gostos e principalmente conversas.

Aqui tenho estado muito sozinha. Não é que isso seja de todo ruim. Com a saudade aprendo todos os dias o que deve ter mais valor, e o que não. Inclusive isso de aprender se ressignificou, antes aprendia e pronto, agora cada dia construo novo olhar, novas formas de conseguir lidar com o que a vida oferece e tira.

E a vida não tira nada: é presente todo dia.

Sorriso de filhos, voz de mãe, olhar de amor, cabeça doendo, glicose alta, perda de peso, raiva, texto e depois ao final do dia um travesseiro que guarde todos os sonhos e pesadelos.  E no outro dia lá estamos nós de novo, mais velhos. Mesmo tendo ganhado tanto, nos habituamos à ingratidão de não reconhecer.

É verdade que isso eu já sabia, aprendi com meu pai ainda no modelo antigo de aprendizagem: ele me contou assim. Ensinava com as histórias mais divertidas, e com exemplos. Mas foi depois quando ele me trouxe a saudade, ai foi que aprendi que é construção diária. Têm dias que ouço sua voz cantando uma música ou outra do Roberto Carlos que passa no rádio. Tem dias que comemoro ou me entristeço com os resultados dos jogos do seu time de coração: ai, dragão! Tem dias que vejo seus pés nos pés e no sorriso maroto do meu filho quando diz: isso não é verdade! Lembro as pequenas e as grandes coisas, dos nossos embates duros e políticos na maioria das vezes, mas em como ele acreditava em mim, e isso me fortalecia. Ficava feliz com minhas ousadias: – você parece doida! E como injustiças, sobretudo com crianças, cortavam seu coração mole. Era um cara solidário, me fez assim socialista. E assim, todos os dias, tenho um pouco dele comigo: a presença física nas memórias afetivas.

Quando comecei a escrever esse texto, ia escrever sobre a saudade que o vídeo do depoimento do Lula me trouxe: tempo de altivez, de esperança, de pessoas mais felizes mesmo, por pouca coisa até: emprego, churrasquinho no fim de semana, uma cervejinha, um passeio, uma compra mais farta no final do mês, um puxadinho na casa, um carrinho melhor na garagem mesmo que parcelado em 50 meses, viajar nas férias, comemorar um aniversário com mais pessoas, fazer uma pós, quem sabe um mestrado ou doutorado, ver o filho na faculdade. E sonhar, como era bom sonhar. Poderíamos tudo.

Um governo solidário, um país solidário. Não socialista.

Essa saudade do que se foi é muito dolorosa, e pior quando até as lembranças vão sendo destruídas. Por isso pensei que gosto de sentir saudades do meu pai, e de tudo que está na minha antiga cidade. E pensando não entendi como posso então não gostar de sentir saudades do Lula?

Faço uma busca dentro de mim, me custa caro demais essa procura porque reativa tantos sentimentos. Escrevo como terapia, e ao final sei que não quero aprender a viver com saudades dele, porque essa opção é violência e destruição. Sei que ele está preso para não alimentar a esperança, as lembranças de outro tempo tornam-lhe maior a condenação e a pena.

Como podem ainda alguns querer provas? As pesquisas trazem convicções e provas suficientes. Não tem materialidade nas acusações? -A saudade não é material. Ou é? Como querer impedir que o pão não alimente quem tem fome?

Saudades a gente tem do que foi bom, porque alimenta nosso caminhar, mas também do que é impossível. 

Essa saudade que alimenta é amor, por isso embora quisesse meu pai vivo, diante da impossibilidade aprendo todos os dias a mantê-lo vivo em minhas memórias, de uma forma que o amor assuma uma nova roupagem.

Assim, vejo as pessoas, e também sou uma delas, que mantém Lula vivo não como saudade, mas como esperança, mas Lula não é saudade, porque é possível.

Lula livre! Lula presidente!

Um pônei chamado representatividade

Um pônei chamado representatividade

Representatividade importa, mais do que isso, ela incomoda quando representa um grupo que não tem ou não está no poder, e ela pode ser sim um atalho para se chegar mais rápido a um determinado lugar. O detalhe é que a pessoa não conseguiria chegar sem o atalho, e não é por competência (antes fosse), mas porque a barreira dos preconceitos em uma sociedade majoritariamente machista, racista e heteronormativa e, principalmente, hipócrita, não é transponível.

Outro dia, (essa coisa de não lembrar datas é muito ruim) escrevia um texto e lembrei que as crianças sofrem muito na fase escolar por vários motivos, hoje vou falar de um deles: a insegurança.

Não escolhi esse tema aleatoriamente, como vocês poderão perceber, é que a insegurança deixa marcas profundas nas crianças: medo, incertezas, timidez, baixa autoestima, depressão, ansiedade, transtornos alimentares, e, a cereja do bolo, problemas de aprendizagem.

E é por essas e outras que a luta por representatividade é tão fundamental, mais do que isso é urgente e terapêutica. Dois livros que sempre gostei muito de usar na escola e em que sempre embasei meus projetos na questão da diversidade foram Menina Bonita do Laço de Fita, de Ana Maria Machado, e o Gato Xadrez, de Bia Vilela. Dois livrinhos, maravilhosos e acessíveis, que encantam as crianças e oferecem com suas estruturas e linguagens lúdicas o prazer da leitura.

A menina bonita é uma personagem negra, uma menina linda, sua descrição é maravilhosa, que encanta um coelhinho branco e por meio de peraltices desfaz vários preconceitos revelando ao final ancestralidade e hereditariedade. Quando conto essa historinha vejo os olhinhos de jabuticaba de meninas e meninos brilhar como nunca, é o poder redentor da literatura. A partir daí, ganham força e fôlego pra enfrentar a chuva de comentários, entreolhares, e incômodos de origem racista que vão persegui-los por toda a vida.

Acho que até devo um enorme agradecimento à autora: Muito obrigada, Ana Maria Machado. Já Bia Vilela, do outro livro mencionado, por meio de um gatinho, apresenta ao universo dos pequeninos as possibilidades de cores e rimas, talvez a autora fosse vidente e se antecipou a imposições e definições de cores por gêneros, fato é que as crianças se permitem usar todas as cores para pintar seus mundos e universos com os tons e poesias que assim desejarem.

Agora quero dizer da minha alegria em ver que o mercado editoral e as escolas estão sensíveis a essa necessidade de representação, embora eu saiba que ainda falte muito para se alcançar o desejável: superar as datas comemorativas. Uma destas surpresas se deu com o livro literário Um pônei chamado cavalo, do Alexandre Costa.

Alexandre é um amigo que se viu pai de um menino negro, e aflito com a escassez do mercado literário (e tantos outros) descobriu-se escritor, não escreveu uma ou duas histórias, escreveu um bocado delas. E a história da almofada, digo pônei, digo cavalo… Enfim essa história de uma realidade atual e não contada antes saiu impressa num jornal de domingo, e logo ganhou reconhecimento, transformando-se em livro bacana com ilustração e tudo.

A história tem uma linguagem que ludicamente trata de questões bem pesadas, e discute inclusive o fazer linguístico, a semântica, as escolhas, o sincretismo religioso e, fundamentalmente, é um livro que fala de uma relação de pai e filho, sem incensar o pai que cuida do filho, mas trazendo à tona momentos de troca de saber, intimidade e confiança necessários para a vida dos dois.

Talvez a ilustração dos personagens negros e a abordagem da religião de matriz africana entrem em uma seara difícil, mas a literatura tem que dar conta de coisas tais, e dá.

A prova disso é que a voz da negritude está alçando voos cada vez mais altos, já falei sobre Racionais ocupando a academia essa semana. Além do que os pretos e as pretas estão consumindo, e para tal querem comprar produtos que os enxergue e os representem:

“O Fulano Pai cantava essa canção para o Fulano Filho porque achava que era bom, era como cuidar do seu pequeno. Na verdade, essa canção era uma oração, para um santo chamado São Jorge, mas que também era chamado de Ogum.”

O texto não apresenta juízo de valor, ou impõe algo para o filho ou para os leitores, mas registra como se dão as trocas culturais entre pai e filho, e a importância desses momentos que precisam mesmo ser representados nas artes, e na vida.

 A obra apresenta ainda uma família dessas muito comuns nos nossos dias, os pais não moram na mesma casa e a criança mora com a mãe, sendo assim visita o pai. Só isso já valeria a adoção do livro em todas as escolas públicas ou privadas, representar esse novo modelo de família, mas que por motivos estranhos e inomináveis (política diminuta) são transformadas em não-família ou meia-família – como se isso fosse possível, ao invés de explicar que as famílias atuais,  assim como o gato xadrez, podem assumir uma nova roupagem e ter outras características o que não as fará menores, ou maiores, ou certas e erradas, apenas diversas.

Representatividade nos dias atuais exige mais de nós. Os meninos e meninas que vivem em situação semelhante precisam sentir que não vivem nessa condição por culpa de alguém, algo, ou de si, e que isso não os impedirá de serem felizes e terem carinho. O que é impeditivo é a cultura excludente de que só existe um jeito e um modelo, casos de alienação parental e principalmente o abandono paterno. Livros como este servem justamente para mostrar que adultos devem ser adultos, e que pais precisam assumir não apenas responsabilidades financeiras, mas principalmente laços de afeto e cuidados cotidianos.

E o livro é todinho recheado de aspectos que precisam mesmo ser ressignificados: a brincadeira entre pai e filho, o espaço para a imaginação, os gostos, o respeito, a escuta atenta, o tempo, e a presença de um na vida do outro.

 

Ps.: Este texto não é, nem pretende ser uma resenha porque outros muito maiores já o fizeram (como este sujeito que nomeia o blog, de quem sou invariavelmente fã). Mas parece-me necessário que, neste momento de enfrentamento, tenhamos mais esse cuidado com nossas crianças negras, com essa volta temática. Veja a resenha de Geraldi em: <http://blogdogeraldi.com.br/textos-sobre-textos-um-ponei-chamado-cavalo> (Ela também foi publicada pelo autor em Textos sobre textos: registros de leitura, da Pedro & João Editores)

 

 

As grades nunca vão prender nosso pensamento, mano: A Unicamp é só o começo.

As grades nunca vão prender nosso pensamento, mano: A Unicamp é só o começo.

Ontem anunciaram, para minha surpresa e alegria, que o álbum Sobrevivendo no Inferno dos Racionais Mc’s será exigido no exame de seleção da Unicamp. Unicamp, mano! Pá, pá, pá! Clap, clap, clap! É tiro e palma!

O assunto do texto de hoje era outro, já tinha até iniciado, três ou quatro parágrafos, que forçando um pouco poderia até chegar à escrita de Carolina de Jesus, outra obra que denuncia a realidade excludente e que também esta na lista para o vestibular de 2020 da instituição, mas não dá para desconsiderar esse acontecimento. Caetaneando: alguma coisa tá fora da ordem, fora da nova ordem nacional… Fã é fã, e o texto vai falar de rap sim. E isso tem muito a ver com a política de cotas e uma maior democratização/justiça no acesso à universidade, sobretudo às públicas.

Boa parte da galera que caiu nesse texto de paraquedas já vazou, então vamos trocar uma ideia mais suave na nave. Imaginar os vestibulando ouvindo que o neguinho que engatilha a pistola na boca dos playboys é um “efeito colateral que o seu sistema fez, Racionais capítulo 4 versículo 3”, é muito foda. E quem vai se preparar para a seleção já sabe que não basta ouvir as músicas, uma duas ou três vezes sem reflexão, tem que entender: “não adianta querer ser, tem que ter para trocar, o mundo é diferente da ponte pra cá” (Da ponte para cá), sejam muito benvindos a todo universo dos Racionais, que baita imersão!

Acerta a Unicamp ao se posicionar contra o fascismo, porque é isso que significa pessoas entendendo a realidade do outro, não é tudo que precisamos, mas é um grande passo, mais do que solicitar um texto bem escrito por parte dos candidatos a calouros, ao exigir essas leituras revela-se uma postura de compreensão acadêmica da  profunda da diversidade cultural e social brasileira.

Se você está lendo e sentindo-se confuso, achando até… si pá: injusto? Que pena! Tem coisas que não dá para entender, né não?  Linguagem suja, cheia de gírias… Gíria não, irmão! Dialeto. Aproveita e pensa aí nas questões que se colocam diariamente para os negros, desde a bonequinha branca de olhos claros com a qual se presenteia meninas negras, pense aí também na inferiorização que se impõe sobre as religiões de matriz africana quando brincando você diz que as coisas estão dando errado porque fizeram macumba para você, pense aí sobre os personagens negros e suas representações ou mesmo inexistência em novelas, cinema e música. Pense em quantos autores negros você já leu ou ao menos ouviu falar, não vale dizer que é porque os negros são importantes no esporte. Quer saber o que mais? Sobrevivendo no Inferno tem 21 anos.

É assim nas quebradas, nas favelas, nos guetos, nos beco, você que não quis ver, o menino de farol que faz você subir o vidro do carro, como se fosse apenas pra não sair o ar (e preconceito) condicionado. Sabe a turminha da escola pública que tira zero na redação, então, veja bem, veja bem… Ela não leu Dom Casmurro, não leu também Carolina de Jesus, não encontrou personagens negros durante toda uma trajetória escolar, e quando ousou trazer para a sala de aula o seu Negro Drama tomou um cale-se, muito parecido com Cálice de Chico, será?

– Não é isso, é que Negro Drama tem muito ódio, e todo mundo sabe que vivemos numa democracia racial, aqui todo mundo se respeita, temos até lei contra o racismo. – Tem que saber curtir, tem que saber lidar, em qual mentira vou acreditar?(Em qual mentira vou acreditar?)

A galera negra, ops, gangue! Não leu Kant, com sua citação sobre o homem ser aquilo que a educação faz dele, mas ele sabe que a sua cultura não está no plano de aula, a literatura que lhe apetece é chamada de marginal, a exclusão usa conteúdos selecionados a dedos brancos, ou mesmo alvejados, que falam sobre escravidão num espaço /tempo pretérito, como se e navio negreiro de Castro Alves não falasse de sua história, seus antepassados e seu presente, mas sim de outro mundo, e o camburão é oque? Porque ninguém transversaliza as senzalas nas atuais favelas: Uma bala vale por uma vida do meu povo, quantos manos iguais a mim se foram? Preto, preto, pobre, cuidado, socorro!(Rapaz comum)

Esse texto hoje está muito ruim, eu sei, e talvez a metade tenha parado no segundo parágrafo, quando eu disse que fã é fã.  Felizmente chegou o dia para mim, e para os meus “eu tenho uma missão e não vou parar, meu estilo é pesado e faz tremer o chão, minha palavra vale um tiro e eu tenho muita munição, na queda ou na ascensão, minha atitude vai além, e tenho disposição pro mal e pro bem” não dá para não comemorar imaginando a cara de surpresa e medo, um branco pálido, até consigo visualizar é o mesmo ar de aflição de quem esconde a bolsa discretamente quando cruza na rua com os pretinhos famintos, né não?  Acontece que essa discrição não é discreta, sabe o filho da empregada que não conviveu muito com a mãe e teve que crescer na marra, aquele que o patrão não chama para o aniversário do seu filho, mas depois manda um bolinho para ele se alegrar… Veja bem… Aquela blitz que só averigua os pretos, o baculejo que joga todo mundo de mão na cabeça no muro ou no chão, na escola aquela merenda ruim que não ajuda ninguém a desenvolver, a ausência fenotípica nas escolas de elite ou nos cursinhos de inglês, ou a intervenção militar que tem toque de recolher e examinam a lancheira das crianças. Veja bem, veja bem…

Todas essas coisas que aparecem normalmente nos noticiários tipo proibição de rolezinho de juventude negra e periférica, as minas que não são para casar, os corpos expostos no carnaval, os cabelos para alisar, o justiçamento com direito a amarrar no poste e espancamento, uma tatuagem na testa de jovem que rouba, a gente sente: “Minha vida não tem tanto valor, quanto seu celular, seu computador, hoje, tá difícil, não saiu o sol, hoje não tem visita, não tem futebol. (Diário de um detento). A gente preta sente: “Preciso ir até o fim, será que Deus ainda olha pra mim?… No mundão você vale o que tem, eu não podia contar com ninguém” (Estou ouvindo alguém me chamar).

A Unicamp entra numa seara perigosa, assume um novo front no enfrentamento do fascismo que ganha cada dia mais terreno, e se o odor de enxofre já ocupa parlamento, noticiários e começa a sair dos armários na academia, nada melhor do lançar mão de sobreviventes do inferno: Brown, KL Jay, Ice Rock e Blue são veteranos neste enfrentamento, e se renovam com Criolo, Emicida, Sapiência, Liniker, Iza, Ferrez, Mv Bill, Afro –X e vários outros.

O estranhamento da ocupação do hip hop nestes espaços dedicados a alta literatura é natural, porque o rap tem sido executado com muita riqueza: arranjos, letras, ritmos, rimas, conhecimento e verdade, mas até então eram mero objeto de investigação exótica do (sub)mundo negro, e parecia tudo certo que fosse assim: – até aí, mas só até aí! E agora o som dos racionais transforma-se me uma espécie de catraca invertida, será ela capaz de inverter a lógica, será? Muitas pessoas nunca foram barradas em uma porta giratória, os neguinhos já! ”A minha liberdade foi roubada, minha dignidade violentada, que nada dos manos se ligar, parar de se matar.“ (Mágico de Oz)

E em respeito aos muitos sobreviventes do inferno é preciso que eu finalize esse texto com um Salve, e palavras em tiro, apropriado ou não, ouso inverter a ordem de Brown: “Eu vou mandar um salve pra comunidade do outro lado do muro, as grades nunca vão prender nosso pensamento mano…”(Salve) e meu salve vai para o presidente Lula, ele que hoje tá aprisionado, sempre foi um sobrevivente, e essas grades nunca vão prender nosso pensamento, mano: A Unicamp é só o começo.

Salve! Lula livre!

Boa esperança de Emicida à Gambino.

Boa esperança de Emicida à Gambino.

A questão da invisibilidade dada a um povo requer incontáveis reflexões minhas, é preciso combater e, para tal, entender. Tenho insistido nisso: a invisibilidade programada, nesse caso, ao povo preto, tem ponto de contato americano, como bem mostrou o clipe, com a postura da sociedade brasileira, e pasmem aqui ainda é pior. É tão verdade que existe uma vasta produção artística que apresenta as diversas e perversas nuances do racismo, preconceito, eugenia, marginalização ou, como querem alguns, da democracia racial brasileira. O que não impede que tenhamos variados e reconhecidos artistas negros e negras – outro ponto de contato com o clipe de Gambino.

Poderia ficar aqui citando referências musicais com suas leituras e representações do mundo negro: Elza Soares, Gilberto Gil, Cartola,Tim Maia, Jorge Bem Jor, Martinho da Vila, Seu Jorge, Luiz Melodia, Paulinho da Viola, Jair Rodrigues, Sandra de Sá, Alcione, Péricles, Thiaguinho, Falcão, Ilê, Cidade Negra, Negra Lee, Djavan, Lecy, Ivone Lara, Tereza Cristina, Criolo, Iza, e os não queridos Racionais, Afro-X, Mv Bill, Facção Central, Rappin Hood, Sabotage,  Emicida, Rael da Rima, Carol Conka, Liniker  e segue o baile.   Essa pequena lista é injusta, antes de terminar o texto devo me lembrar de muitos outros nomes, com certeza ainda faltarão vozes, e a questão é que mesmo com tamanha lista ainda faltam narrativas negras, dores e vidas sem registros.

This is America é sobre apagamento cultural, e mais do que isso é sobre extermínio, afinal a mão preta que aperta o gatilho, muitas vezes tem a arma engatilhada sobre sua cabeça, e ainda é a mesma mão que precisa arrastar pelo chão seus próprios corpos caído nas ruas, enquanto as armas são cuidadosamente guardadas e tratadas como objetos de devoção. Não tem engano, é uma política planejada, executam a limpeza do ambiente, clareiam as ideias, iluminam a escuridão da ignorância. Preciso tomar cuidado com minhas palavras. Porque tanto ódio, não é mesmo? Posso denegrir a imagem de alguém, fazendo parecer que as armas compradas nos mercado negro matam como as demais – imagine!

A cena mais impactante do vídeo em questão talvez seja a que remete a chacina de Charleston em uma igreja da comunidade negra, na Carolina do Sul, nos Estados Unidos, nesse episódio trágico em que um homem branco extremista resolveu matar 9 pessoas durante o culto, temos crimes de ódio como os que vemos todos os dias vamos imaginar um clipe igualmente impactante produzido no Brasil: Candelária ou Carandiru, mas tem os casos diários de extermínio de um povo que aqui é o culpado desde seu embarque nas navegações escravagistas da África até o momento presente.

Vou concordar aqui com o que disse o geógrafo Aiala Colares sobre a realidade local e atual, ele faz um apontamento fundamental para nossa compreensão da dimensão social das ações de eugenia vigentes “Existe toda uma relação preconceituosa, de estigmatizar o morador da periferia, o preto, pobre que no final são o principal alvo dos grupos de extermínio. É uma higienização social e isso é terrível. A característica deles enquanto moradores da periferia faz com que se tornem culpados por um crime que não cometeram. A morte nesse caso passa a ter um fator político de poder. Quanto mais você mata, mais poder você demonstra ter”, explica se referindo as cerca de 80 mortes em Belém desde que um policial militar fora morto.  (disponível em https://brasil.elpais.com/brasil/2018/05/15/politica/1526337257_927035.html?id_externo_promo=ep-ob&prm=ep-ob&ncid=ep-ob)

Outro destaque precisa ainda ser dado à obra de Childish Gambino em questão, que é o fato de colocar no centro do galpão/discussão a indiferença e banalização frente às mortes e a exposição às violências do povo negro, algo naturalizado desde a infância. A morte de jovens negros é uma realidade devassadora que acontece aqui e lá, e por isso mesmo é sabido que um movimento vem ganhando força: Vidas negras importam (Black Lives Matter), e se alguém tinha dúvida do porquê deste clamor seletivo, volte duas casas no jogo da vida. Para tal basta ver que mesmo diante de toda a repercussão que o assassinato da vereadora Marielle Franco causou, pouco se avançou na resolução do caso, e isso fica muito pior, podem acreditar, e nem sempre ganham os noticiários, muitas vezes apenas matam a gente por dentro, olhar por olhar, inquisição por inquisição, até secar tudo.

Jovem negro é assaltado, confundido com ladrão e espancado em SP

Família diz que guarda foi morto por ser negro

Caso de mulher negra presa por “engano” evidencia o racismo no Brasil

A sensação ao terminar de ver o vídeo de Gambino é que se precisará ver ainda outras vezes para entender tudo e todos os símbolos e informações constituintes dele, mas uma coisa fica muito evidente: existe uma realidade negra cruel e universal. Vi ainda algumas leituras das referências utilizadas que me impressionaram bastante: calça dos confederados, dança do Michael Jackson, balé inspirado nas danças da África, reprodução de expressões faciais que denunciam o racismo de personagens clássicas, um trabalho de denúncia, plástica e arte, tudo muito bem realizado.

Ainda assim a gente fica pensando: – e daí? Está falando de outra realidade, de outro povo e de outras construções sociohistóricas.

-Eparrêi, meu santo! Vamos repensando, vamos somando, porque com tantos pontos de contatos é preciso colocar nas nossas discussões o caráter global do tratamento que o mundo destina aos povos de descendência africana. Não é coincidência!

Nessa semana que se iniciou com o 130º aniversário da abolição da escravatura qualquer pessoa afrodescendente gostaria de falar sobre as nossas vitórias, a famigerada democracia (se bem que nem democracia está tendo, não é?) racial brasileira, ou sobre os avanços das políticas de reparação social, sobre ações afirmativas, sobre promoção da igualdade racial, sobre descolonização e sobre valorização das nossas tradições e resgates culturais. Não sendo possível, ainda é preciso falar que mesmo depois de todo esse tempo estamos no intervalo de pós-escravidão, com todas as suas práticas nocivas, discriminatórias e gerativas de uma estratificação social bastante radicalizada, na qual o objeto de consumo (é horrível pensar em seres humanos como objetos, mas enfim foi o que aconteceu) passou a partir do dia 14 de maio de 1888 ao status de consumidor, embora sem acesso a consumo:

– Não consome porque não quer trabalhar, é vagabundo!

– Este é o Brasil! Racismo à brasileira.

Um clipe que não “causou”, mas deveria, é Boa Esperança (2015), de Emicida, música e clipe irretocáveis, tom de denúncia mesclado com desejo, sonho e uma pitada amarga de muito ódio contido: imagens, símbolos, uma das referências é  dos atores que protagonizam o clipe serem filhos do Brown (Maldito, vagabundo, mente criminal, o quê toma uma taça de champagne  e também curte desbaratinar no tubaína tutti-frutti, fanático, melodramático, bon-vivant, depósito de mágoa, quem tá certo é Saddam), e as mensagens não param por aí, o próprio Leandro, Emicida, surge na telinha como porteiro vigilante e observa satisfeito o contra-ataque a uma parte da verdadeira democracia racial brasileira: servidão e humilhação.

Yes! Por aqui temos genialidade, e o texto é maravilhoso, poesia dos guetos que ecoam como um canto ancestral e evoluem para o funk inteligente, voltado para a cultura e integralidade do hip hop que usa a dor e a resistência como inspiração, tá lá nas gírias… (gíria não! Dialeto!…). Todo o sentimento guardado e curtido em vinagre e sal, desde o navio negreiro. Em tempos atuais, de retrocessos e aprisionamento de sonhos e ideias, é preciso sempre assumir uma postura propositiva:enfrentar e deixar que não durmam em paz os que roubam nossos sonhos.

De Emicida à Gambino, voltados para a África, chega uma mensagem de esperança e que ela seja boa.

Parece que sim.