Ponte de Zila Mamede

Ponte de Zila Mamede

PONTE

Salto esculpido

sobre o vão

do espaço

em chão

de pedra e de aço

onde não

permaneço

                        – passo.

 ——————————- & ——————————–

 MÃE

A mulher fia o filho

No silêncio do corpo

Inaugura-se: mãe.

O ventre: curvatura de sol

levantando-se

em mansidão de horizonte.

De si própria se esquece:

tecelã da rosa que já aflora

em crescimento lento

no seu sangue.

(Navegos, Belo Horizonte : Editora Veja, 1978)

Le temps et l’autre, de Emmanuel Levinas

Le temps et l’autre, de Emmanuel Levinas

O que me levou a estudar este livro foi o “l’autre’ do título: sempre tenho interesse em saber algo sobre o conceito de alteridade, já que ele é muito importante para os estudos bakhtiniano. Portanto, foi Bakhtin que me levou a Levinas. O texto é difícil. E há muito já não lia em francês… duas dificuldades ao mesmo tempo: da língua e da filosofia de Levinas.

Acrescentemos o que diz o próprio autor como uma terceira dificuldade: o texto é uma transcrição de três conferências proferidas no Collège Philosophique fundado por Jean Wahl. Os tempos eram aqueles do pós-guerra (no caso, 1948) e no Collège se exploravam aberturas, possibilidades, normalmente aprofundadas em obras posteriores. O autor, ao decidir uma publicação independente destas três conferências, não fez alterações. No prefácio remete a outras obras em que aprofundou alguns dos conceitos aqui trabalhados em situação de fala, com seus torneios e sintaxes próprios.

Da minha leitura – insisto aqui que não é a leitura de um filósofo – retiro três questões que me parecem fundamentais, uma relativa ao ‘ser’, outra relativa ao ‘tempo’:

  1. A ‘hypostase’ é o acontecimento pelo qual o existente contrata seu existir. Para defender este ponto de vista, o autor toma como ponto de partida um “il y a”, um existir anônimo em que o ser concreto, o sujeito, se faz existente.
  2. O tempo é uma relação do ‘si inassimilável’ com o que (ce qui) é absolutamente outro, que não se deixa assimilar pela experiência ou o que (ce qui) em sua infinitude não se deixa com-preender.
  3. Ao ter o domínio do existir, o existente inevitavelmente se liga a si mesmo, não pode abandonar a si mesmo. Assim, sua liberdade no existir é de imediato limitada pela responsabilidade por si mesmo: “este o grande paradoxo do ser livre: um ser livre já não é mais livre porque é responsável por si mesmo”.   

Se compreendi razoavelmente o texto, a admissão deste ‘ce qui’, este existir dentro do qual penetramos e passamos a ter um domínio, isto é, nos fazemos sujeitos, não remete a um “espírito de época’, a um ‘modo de viver’, mas a uma relação da solidão e unicidade do sujeito com a própria existência, que implicará um contínuo retorno a si mesmo. E nesta relação sempre num tempo presente (o passado é um presente como lembrança) se constitui a identidade do sujeito consigo mesmo. O futuro será sempre algo projetado (e por isso mesmo, um presente) de que efetivamente o existente não tem domínio: o futuro é o outro! Ele não se deixa dominar, ele não se deixa pegar: ele nos sobrevêm, e nossas projeções são apenas projeções e não garantias de domínio.

Para demonstrar esta tese, na segunda conferência Levinas tomará a morte como este outro inassimilável, como Mistério. O outro que a morte representa e com o qual estamos sempre em contato não é dominada por nós, nela somos passivos. Ela nos acontece. Por isso representa uma alteridade que não deixa prender, tomar, dominar.

O segundo grande campo em que se demorará para sustentar suas principais teses será o amor: o amor é gratuito, ele nos acontece. Novamente aqui somos passivos, sem domínio. E a alteridade a que apontará o autor será “o feminino” não como uma mulher concreta, mas no mistério do feminino que como tal atrai e trai nosso domínio: o feminino não deixa pegar, é uma alteridade radical que também reside em nós próprios.

Neste sentido, a diferença de sexo não será tomada simplesmente como se ela fosse o mesmo que o eu, mas como perpassada pela feminilidade misteriosa que nos toma quando o amor acontece. Na solidão do ser cada um é, e nenhum se deixa pegar.

Ora, no sexo e no amor há a fecundidade, o que leva a um terceiro componente: a paternidade (ou maternidade) de que resulta um Outro que não me é assimilável, no qual permaneço, no qual estou, mas que não é um ‘eu’, e sim um radical outro. E eis aí um fundamento da alteridade concreta: enquanto existentes passamos a dominar o existir, mas no existir a alteridade se impõe e não temos qualquer domínio sobre ela. Nos pontos de reflexão do autor, as alteridades radicais serão a morte (o mistério de um devir que nos acontecerá e em que somos passivos), o feminino (com a radicalidade que representa o que é desejado como posse e que sempre escapa) e a fecundidade que leva a outro existente que sendo nossa permanência é radicalmente outro.

Isto não é um resumo da argumentação do autor, o que seria impossível. Esta é uma leitura de um texto difícil, mas que leva a pensar sobre a radicalidade da alteridade, não simplesmente pensada como outro idêntico a si próprio, mas como aquele que jamais se deixará pegar como objeto do eu. Um ‘tu’ radicalmente outro.

Para fazermos uma analogia – uma analogia de linguista – a linguagem (e a língua em seu sentido sociológico) é um existir, um ‘ce qui’ anônimo, eterno (enquanto dura), dentro da qual nos constituímos existentes, sujeitos: dominamo-la no presente das enunciações, tomamo-la como nossa (o existir) mas não temos álibi para nos escusarmos da responsabilidade pelo dizer. E esta responsabilidade é para com o outro, não apenas como parceiro de um processo de comunicação, mas como um devir sobre o qual não temos domínio, temos no máximo uma projeção. E neste devir estará nosso dizer. Daí deriva a responsabilidade que em Levinas aparece como responsabilidade sobre si próprio, um limite à liberdade, mas que não pode ser compreendida como uma indiferença: porque aos ‘filhos’ (a paternidade/maternidade também do dizer) não de pode ser indiferente: “Não-indiferença pela qual um Eu é possível para além do possível”. Um Eu que encontra a alteridade radical do mistério da morte e que no entanto permanece no “existir” anônimo e eterno, em que se fez existente num tempo limitado mas que permanece como algo que não se deixa com-preender.

Infelizmente, ao menos nestas conferências, para além de remessas esporádicas à comunicação, mas não exploradas filosoficamente, Levinas não trata da linguagem, uma necessidade também para sua filosofia porque o retorno sobre si mesmo, a relação entre o Moi e o Soi demanda a existência de uma linguagem.

Referência. Emmanuel Levinas. Le temps et l’autre. Paris : Presses Universitaires de France, 1983.

OS MISTÉRIOS E OS SEGREDOS DA NATUREZA

OS MISTÉRIOS E OS SEGREDOS DA NATUREZA

Os encantos dos recantos

As belezas da natureza

Fascinam o sentimento

Os mistérios e os segredos

Do vasto mundo do além firmamento

Purificam os meus segredos

Alegram a vida e o pensamento.

Já disse que passávamos horas e horas em cima das árvores, e não por motivos utilitários como fazem tantos meninos que sobem nas árvores apenas para apanhar frutas ou ninhos de pássaros, mas pelo prazer de superar difíceis saliências do  tronco e forquilhas, e chegar o mais alto possível, e encontrar bons lugares para ficar olhando o mundo lá embaixo e brincando com quem passasse por ali (CALVINO, Ítalo, Os nossos antepassados. Cia. das Letras, p. 125, 2001 ).

Toda vez que vou e fico no sítio é sempre como se fosse a primeira vez. Fico encantado. A natureza me fascina, me seduz, me emociona.

Ainda no caminho, me deparo em diversos pontos, à beira da estrada com quero-queros. Sempre juntos em casais feitos namoradinhos. Às vezes, em bandos, turmas de dezenas, como se estivessem em festas de casamento, assembleias para discutir as invasões destruidoras dos seres humanos. Passo por corujas sentadas em pontas de palanques de cercas, de olhos bem abertos como se fossem vigias. É claro, em baixo na terra há uma cova, onde constroem seus ninhos e criam os filhotes.

Ao chegar no sítio, preciso ter muito cuidado para não atropelar e passar por cima de lagartos comendo pitangas, guavirovas, acerolas, cerejas, jabuticabas, que cobrem o chão debaixo dos pés de árvores, muito cheirosas e gostosas. Os lagartos, de rabos bem compridos, ficam andando, rebolando, calmos, lentamente, sem medo aparente. Ao chegar na sede do sítio, me sinto como se estivesse no paraíso. Nunca estive no paraíso místico, mas me sinto como se estivesse lá.

Os sabiás cantando em melodias, um pouco tristes; os bem-te-vis voando sobre as pontas das árvores algazarram gritando: bem-te-vi, bem-te-vi; os tucanos (pássaros!) muito coloridos e de bicos enormes, gorjeiam ruidosamente; as gralhas azuis, os rabos-de-palha, os pica-paus comendo pitangas, guavirovas, todos muito felizes, sentados nos galhos repletos de frutas. Logo vem dois beija-flores voando de maneira incrível, sem que a gente perceba o vibrar das azinhas, sugando o mel das flores no jardim. As pombinhas ficam chocando os ovinhos no ninho que construíram na aba do alto do telhado da casa. Quando o vento é forte derruba os ninhos e os ovinhos se espatifam na calçada. Coitadinhas das pombas. Os joão-de-barros construíram duas casinhas de barro em dois galhos dos pinheiros – araucárias pertinho de casa. Certa vez, os joão-de-barros construíram a casa com a porta para o lado norte. Veio o vento forte e derrubou. Aí eles construíram a próxima casa com a porta para o lado leste. O vento nunca é forte. Assim, já criaram diversos filhotes. Os quero-queros passam o dia e noite na grama escondendo e vigiando os ninhos e os filhotinhos. Ai dos cachorros, dos gatinhos, dos gaviões que se atreverem chegar perto. Cada vôo rasante assusta até a gente.

Tem uma história dos bem-te-vis muito engraçada. Mas verdadeira. Certo dia, o meu neto de 8 anos estava lá no sítio correndo, subindo e descendo barranco, rolando na grama, trepando num pé de canela bem frondoso e lá pelas tantas gritou:

– Vô quero fazer pipi!

– Sem problemas, vai aí naquele barranco e mija lá de cima. Você vai ver o mijo cair lá em baixo. Não teve dúvida. O neto correu, tirou o pinto e deu aquela mijada ao ar livre. Quando foi guardar o pinto na bermudinha, lá na ponta do pinheiro mais alto  alguém cantou:

– Bem-te-vi, bem-te-vi!

– Viu coisa nenhuma, seu mentiroso! Respondeu o neto.

Teve outras histórias muito interessantes dos bichinhos selvagens da natureza, que servem de lições para nós, seres humanos inteligentes.

Certo dia, já no entardecer, uma turma de macacos-prego veio aí no pomar para pegar laranjas. Eram mais de 30 macaquinhos. Vieram em silêncio pulando das árvores da floresta e trepavam nos pés de laranja. Cada um colhia duas laranjas, uma na boca e outra em uma das mãozinhas, pois a outra precisava estar livre para trepar nas árvores de volta na floresta. Mas aí, um amigo, meu vizinho, viu um macaco bem alto na árvore mais alta, pé de louro, olhando lá de cima para detectar algum perigo. Era o vigia, o macho mais forte e valente, escolhido pelo bando. Ele não ia buscar as laranjas. Lá na floresta, depois da colheita, ele ganhava dos demais companheiros e companheiras pela tarefa de vigiar na colheita.

Acontece que esse meu amigo, maldosamente, se escondeu por detrás de um pé de laranja e se aproximou da turma de macacos. Deu um pulo e gritou bem alto para dar um susto na macacada. Aí foi um desespero. Num instante todos os macacos estavam no alto das árvores no mato gritando de medo. Alguns correram atrás do vigia e começaram a bater nas costas e morder nas pernas dele. Foi o castigo por ele não ter dado o grito de alerta do perigo.

Assim, foi mais uma lição que aprendi da vida da natureza. Esta, a vida da natureza não possui limites.

O convívio dos seres animais com os seres vegetais – flora e fauna – é de vivência e sobrevivência recíproca. Uns não vivem e sobrevivem sem os outros. Os macacos, os lagartos, os tucanos e todos os pássaros – menos os corvos, os gaviões – comem frutas, flores, folhas e ao cagarem as sementes, estas no solo acabam germinando e nascendo, garantindo a perpetuação da floresta. Há um dístico popular muito verdadeiro: “o melhor e maior reflorestador da natureza é o bum-bum de passarinho”.

Ao contemplar as árvores, os pássaros, os macacos, os lagartos, os lambaris, fico embugalhado de dúvidas e inquietudes diante das harmonias e desarmonias da natureza e do mundo. Fico pasmo diante de tantos seres humanos destruindo, devastando, queimando, envenenando as condições de vida do planeta terra.

Até quando?

Atenção, senhores. O “Aliança da Bala” coleta assinaturas

Atenção, senhores. O “Aliança da Bala” coleta assinaturas

Prezados senhores bolsonaristas,

A partir de hoje o partido do seu presidente começa a coletar assinaturas para garantir o registro do partido dele e de vocês e conseguir em 2021 concorrer para eleger os prefeitos. Vocês sabem: só com presidente não dá. É preciso eleger prefeitos e vereadores. E vestir, obviamente, camisa amarela.

Corram, senhores… aponham sua assinatura no Aliança. Sejam coerentes com a falta de inteligência que os fez teclar 17 em 28 de outubro de 2018. Assinem, por favor, a gente precisa saber quantos vocês são… para saber qual é o fundo do poço!

E não esqueçam, ao aporem suas assinaturas, também reverenciem Malafaia: acreditem piamente que ele faz milagres. Também não esqueçam que Jesus apareceu na goiabeira da sua ministra Damares.

Também já podem, no mesmo ato, comprar os bilhetes de passagem para uma excursão ao fim da terra plana. O Ministério das Relações exteriores está promovendo o passeio e é preciso colaborar… corram, inscrevam-se, pode ser que o número de inscrito seja limitado (como serão limitados os eleitos das Testemunhas de Jeová).

Mas há que ter algum cuidado. Afinal, pode ser que a excursão ao fim do mundo tenha que passar pela Amazônia. Assim, levem equipamento antifogo. Se tiverem que andar pelo mar, preparem-se contra o óleo que atinge as praias do Nordeste, região que vocês desconhecem por completo e consideram que seus habitantes são uns burros.

Só não é burro quem acredita e compra na Havan!!! Mas não esqueçam, tem que ir para a loja vestidos de verde e amarelo: ganharam largo desconto. Quem sabe, até nem precisam pagar… e como o tempo é de tempestade de desemprego e aperto, ganhar um presentinho de Havan é “tudi di bom!”.

Vejam como há razões para correrem, escafederem-se, para assinar a ficha no partido do esfaqueado, do chefe que hospitaliza seu Queiroz no mesmo hospital em que é hospitalizado, numa demonstração de que não há diferenças sociais neste país.

Aliás, por que os negros estão reclamando de serem carne para as balas da Aliança? Afinal, como a carne está cara, há que matar gente… gente é barato segundo Bolsonaro, Guedes e Witzel.

Chega! Já dei motivos suficientes para vocês, inteligentes que são, assinarem a ficha no partido do Mito… Acho que o Doria vai assinar, porque é tão igual a Bolsonaro que não poderia e não deveria ficar de fora!!! Mas minha alegria será definitiva quando Fernando Henrique Cardoso começar a pedir votos para o Alexandre Frota!!! Então sim, a porca comerá seu próprio rabo, não só morderá…

Ponte de Zila Mamede

ARADO, de Zila Mamede

 Arado cultivadeira
 rompe veios, morde chão
 Ai uns olhos afiados
 rasgando meu coração.
  
 Arado dentes enxadas
 lavancando capoeiras
 Mil prometimentos, juras
 faladas, reverdadeiras?
  
 Arado ara picoteia
 sega relha amanhamento,
 me desata desse amor
 ternura torturamento.
  
 (Navegos, Belo Horizonte : Editora Veja, 1978) 
O velho que lia romances de amor, de Luis Sepúlveda

O velho que lia romances de amor, de Luis Sepúlveda

Eis uma história espantosa. Não sem razão um romance muitas vezes premiado: O France-Culture para o melhor romance estrangeiro; o Relais-H para o melhor romance de evasão; o Littérature de la Jeunesse para o melhor livro para jovens.

Luis Sepúlveda é chileno. Conheceu os cárceres da ditadura de Pinochet, e depois andou pelo mundo, vivendo em várias cidades de passagem, fixando-se por algum tempo em Hamburgo e em Paris. Atualmente vive na Espanha.

O espaço de O velho que lia romances de amor é a Amazônia, na porção do Equador, na província de Zamora Chinchipe, o povoado El Edilio, às margens do rio Nangaritza. A floresta e as águas ditam a vida dos poucos habitantes: a primeira porque lhes garante a sobrevivência, as segundas porque são o modo de locomoção humana (e a possibilidade de ir até a cidade de Zamora, a capital da província) e do transporte do que a floresta não dá: sal, cachaça Frontera, óleo para os candeeiros que parcamente iluminam as choças à noite.

O enredo começa com a visita semestral do doutor Rubicundo Loachamín, o dentista que perambulava pelos povoados extraindo dentes podres ou sãos, carregando dentaduras prontas que os pacientes experimentavam até acharem uma que lhes servisse. A dentadura será um bem muito cuidado, e a personagem principal, Antonio José Bolívar Proaño somente a usará quando estiver conversando com alguém, guardando-a cuidadosamente limpa enrolada num lenço.

O tempo começa com Antonio José Bolívar já velho. Mas sua história passada será contada ao longo do enredo: era habitante de um povoado serrano (nos Andes do Equador), casara-se com Dolores Encarnación del Santíssimo Sacramento Estupinán Otavalo. Nos primeiros tempos de casados, viveram com os pais de Dolores mas sua pouca terra não alimentaria duas famílias. Numa campanha de ‘colonização’ da região amazônica, partem para se estabelecerem em El Edílio como colonos, longe do povoado e de todos. A terra trabalhada para nela semear, durante a noite era retomada pela floresta. De febres morrerá Dolores. Dois anos perdidos tentando ser colono, mulher perdida, que poderia fazer? Voltar para o povoado serrano não podia, afinal “os pobres perdoam tudo, menos o fracasso”.

E Antonio José Bolívar abandona suas veleidades de colono católico e decide que dominará este ambiente. Viverá por um tempo só, mal vestido, comendo o que a floresta dá. Mas será picado por cobra e mais morto que vivo é encontrado por um grupo de índios xuar, que o leva para sua aldeia. Lá é tratado, curado e com os índios viverá por longo tempo. Com eles aprende a conhecer a floresta, seus ruídos, seus bichos, seus movimentos, suas águas. Está entre eles, mas não é um deles. Participa das cerimônias. Entre elas é descrita a festa de despedida de idosos que resolvem ser a hora de partir. Na grande festa, embebedam-se. Os xuar os cobrem com uma pasta doce, feita com mel e os levam para perto de formigueiros. Em pouco tempo as formigas farão seu trabalho e restarão somente ossos limpos! Estes ossos dos ancestrais os xuar carregam consigo quando mudam de lugar a cada três anos, tempo necessário para a florestas e seus bichos se recuperarem.

Como Antonio José Bolívar não é um deles, não pode ter mulher:

Não era um deles e, portanto, não podia ter esposas. Mas era como um deles, de tal maneira que o xuar anfitrião, durante a estação das chuvas, lhe rogava que aceitasse uma das suas mulheres para maior orgulho da sua casta e da sua casa.

A mulher ofertada levava-o até as margens do rio. Aí, entoando anents, lavava-o, enfeitava-o e perfumava-o, para depois regressar à choça e retouçar em cima de uma esteira, de pés para cima, suavemente amornados por uma fogueira, sem deixar em momento algum de entoar anents, poemas nasais que descreviam a beleza de seus corpos e a alegria do prazer aumentado infinitamente pela magia da descrição.

Era o amor puro sem outro fim que o próprio amor. Sem posse e sem ciúme.

– Ninguém consegue atar um trovão e ninguém consegue apropriar-se dos céus do outro no momento do abandono.

Quando um grupo de gringos aparece pela região e mata alguns índios, Antonio José Bolívar sentirá que era o momento de retribuir os cuidados que com ele tiveram os xuar. Sai à caça de um destes gringos que se perdera pela floresta. Mata-o e fica com sua espingarda. Como tirara a vida de alguém, já não podia mais permanecer entre os índios que jamais matam por matar, mesmo em vingança. É hora, então, de voltar. Tomará uma canoa dada pelos índios e se estabelecerá em El Idílio agora como conhecedor da mata e dela sobrevivendo, não como colono, mas como um homem da floresta.

El Idílio tem um administrador, um representante do governo. E em carta altura chegam estranhos ao lugar, instalam-se na administração e chamam o povo para votar. Ninguém sabia muito bem o que isso poderia ser. Quando chega a vez de Antonio José Bolívar se identificar, pedem-lhe que leia uma frase, e ele redescobre então que sabe ler, mesmo não sabendo escrever.  Teve direito de votar. Mas votar em quem? Em Sua Excelência, o candidato… como lhe instruíram os coletores do votos.

Descobrindo que sabia ler, ele quererá ler… mas não tinha o que ler. Era, pois, um saber inútil. Como não tinha qualquer dinheiro, resolve sair pela mata para caçar vivos alguns dos bichos que sabia que os brancos gostavam de ter: micos, papagaios, tucanos e outras aves. Com isso em mãos, pede carona no Sucre, o barco que trazia o dentista ao povoado e vai para Zamora. O dentista consegue que uma professora da cidade o hospede e ele conhece a biblioteca da professora: uns cinquenta livros que o maravilham. Lê-os até encontrar o gênero de que realmente gostou: os romances de amor, gosto que a professora reprovou. Mas ele não abriu mão e retorna para com alguns romances. Torna-se então o leitor de romances… e a cada seis meses, o dentista o abastece com novos romances.

O acontecimento fundamental da história será a chegada de uma canoa em que índios xuar traziam um corpo de um gringo morto. Um caçador que vinha ainda com pequenos couros de filhotes de onça. Se fosse qualquer outro, o corpo seria jogado no rio. Mas um gringo sempre traz complicações: o administrador é chamado e imediatamente culpa os próprios índios pelo assassinato.

É então que Antonio José Bolívar mostrará seus conhecimentos. Examina o cadáver, sente-lhe o cheiro de mijo de gato e sentencia: ele foi morto por uma onça. Por uma fêmea desesperada porque o gringo lhe matara os filhotes, e provavelmente o macho. E uma fêmea desesperada se tornaria um perigo para todos: ela se vingaria em qualquer humana que encontrasse. Foi o que aconteceu: matou o caçador e ficou à procura de outros para matar. Fica-se sabendo de segunda vítima quando aparece no povoada uma mula assustada e ainda com arreios. Demoram a fazê-la parar, descobrem os ferimentos de unhas de onça e também seu dono: o Alkaseltzer Miranda, que vivia na floresta com uma venda onde garimpeiros podiam encontrar a cachaça Frontera, alguns utensílios, sal e alkaseltzer, daí o apelido.

Organiza então o administrador um grupo de homens para irem até a venda, e para caçarem a onça. A descrição da caminhada é antológica! Somente o contato direto com o texto para usufruir tanto dos conhecimentos de um homem da floresta, quanto o ridículo de um administrador que nada sabe: um contraponto entre dois homens que vivem num mesmo povoado, um com o poder outorgado, outro com o poder do saber.

Depois de muitas peripécias, chegam ao território do Miranda e descobrem dois cadáveres: de um garimpeiro que pouco aparecia e do próprio Miranda. O grupo aloja-se na casa que fora do vendedor. À noite ouvem os ruídos da onça que os cerca, que os vinha vigiando há muito tempo. Ela se aproxima, mas volta para a floresta. Astuta e inteligente, estuda os movimentos dos homens.

Há medo. E o administrador faz a Antonio José Bolívar uma proposta: o grupo voltaria para El Idílio, e ele ficaria sozinho com o compromisso de matar a onça. Em troca receberia a autorização para continuar a viver em sua choça, construída em terras do Estado.

Seguem-se, então, uma luta de caça em que se enfrentam o homem e a onça. São passagens brilhantes, a mostrar um conhecimento profundo da floresta e dos hábitos do bicho. Eles se encaram. O caçador percebe que a onça quer que ele penetre floresta adentro, onde se tornaria presa fácil. Mas ele consegue fugir para perto do rio, uma garantia de sobrevivência e fuga. A onça o segue, mas não o ataca. Fica no alto de uma ribanceira, agitada e triste. Depois sai, esconde-se na floresta. O caçador entendeu: o macho estaria por ali, ferido e em agonia. Sobe até onde há pouco estivera a fêmea desesperada, vê o macho e lhe dá o tiro de misericórdia.

A partir daí retorna a luta. Antonio José Bolívar, com sono, descobre uma canoa na praia. Dorme sob ela e acorda percebendo o cheiro do animal, que mija nele para dele tomar posse. A onça não consegue desvirar a canoa, então começa a cavar e quando uma de suas patas chega perto, Antonio José Bolívar dá um tiro na pata. Calcula mal o tiro, e restos de chumbo atingem também seu pé: estão ambos feridos. A onça se afasta. E ele sai de seu esconderijo entendendo que chegou a hora da decisão. Carrega a espingarda e sabe que somente terá uma chance. Quando a onça salta para atacá-lo, dispara. A onça cai de seu voo. Está morta e ele carregará seu corpo para rio: que suas águas a levem para o meio da floresta, para os espaços a que homem algum se atreveu a chegar.

Antonio José Bolívar Proaño retorna para casa e para seus romances de amor.

Referência. Luis Sepúlveda. O velho que lia romances de amor. Lisboa : Edições Asa, 25ª. edição, 2007. (Há edição brasileira, com muitos exemplares disponíveis na Estante Virtual.)