Sobre loucura e salvamento

Sobre loucura e salvamento

Muitas histórias devem ser contadas, preferencialmente bem contadas na verdade, e precisam de leitores, talvez não precisem de leitores, mas de experimentadores. Algumas coisas nos fisgam para contar e ler. Temas vários, posições, ideologias, convencimentos, distração, atração…Entre uma infinidade de possibilidades.

A questão é que ao escrever nos comprometemos, bem como ao ler. Não tem volta, uma vez lida ou escrita à história materializa-se em nós, poucas pessoas gostam de escrever, especulo que seja porque escrever é, em essência, comprometer-se em maior ou menor grau, e em tempos fluídos talvez não seja interessante firmar razões e posições.

Tenho escrito pouco, talvez por falta de vontade de me comprometer com causas várias, prefiro muitas vezes assumir uma postura de pouca ou nenhuma razão, mesmo sabendo do efeito  que escrever oferece um tanto maior de melhoramentos, muitos não sabem, mas já estive bem perto da loucura.

É sobre isso que quero dizer.

Sim, escrever me organiza, pois dialogo comigo mesma, sou minha própria interlocutora… Então faço concessões e rupturas a partir de cada escolha e exigências do que irá ou não para o texto, e me atrevo com o que escrevo para ser lido por possíveis interlocutores, sempre acredito que eles existem, sei que o tempo de imagens e vídeos atende a necessidade de urgência e textos pré-digeridos de modo que quando alguns deles comenta, curte, ou visualiza, confirmo ou não minhas expectativas e possíveis respostas.

Lembro-me da pergunta do poeta Drummond:

Trouxeste a chave?

Percebam que dou voltas para não falar do que é preciso, pois sim a loucura me visitava sempre. Até que um dia um cavaleiro destes nem tão cavaleiro assim, e pouco afeito às donzelas indefesas bateu-me a porta, e eu que não gosto de cavalgar, ou de contos de fadas me agarrei ao salvamento.  Dito assim pelo final parece ainda pouco a visitação da insanidade, e não quero que imaginem os arredores de tristeza e solidão, digo apenas que em suas vindas sempre traziam a dor e a vergonha, em geral eu sabia que aproximava-se ainda mais da loucura, não aquela boa, que se esbalda em liberdade e arte. Não. A que trato aqui é da outra: loucura que aprisiona, entristece e cala.

Exatamente assim, a loucura silencia nossos desejos, nossas revoltas, nossas paixões, nossas histórias, fantasias e sonhos. Devora-nos lentamente. Uns entorpecem-se, sem caminhos e capacidade de identificar a raiz do mal, e assim tomados pelo emudecer e pela paralisia tornam-se cada vez mais afundados em um terreno solitário de areia movediça que cava sob nossos pés. Estaremos mortos afinal?

Não escrever é como não responder a quem te diz bom dia em meio à multidão, vários rostos e silêncios correm contra o tempo, e tantos não dizem nada, e para tantos não ofereceremos salvamento, mas se um ainda, e aquele qualquer te sorrir,  então um vez ainda valerá dizer:

-Vem comigo?

NOMEANDO, de Tária Vitória Ferraz

NOMEANDO, de Tária Vitória Ferraz

Ele chega destruindo tudo…

A alma, o sentimento, o desejo de viver e o coração.

A vida passa mas…

As mágoas de tudo aquilo ficam

Sonhar com um futuro melhor,

Nem sempre é uma boa escolha,

Se você for diferente, não mesmo.

Ele faz as pessoas sofrerem,

Na rua, na escola

Em qualquer lugar que seja

Mas, porém, te deixa dúvidas

No lugar mais seguro do mundo.

E ele tem um nome…

O famoso “Bullying”.

(Mais amor, menos dor: Não ao Bullying. Livro produzido pelos alunos da Escola Estadual José Gonçalves de Mendonça. São Carlos : Pedro & João Editores, 2013)

Heróis demais, de Laura Restrepo

Heróis demais, de Laura Restrepo

Certamente entre Lorenza, a heroína deste romance, e a vida de Laura Restrepo há coincidências. A escritora colombiana foi militante política na clandestinidade (M-19), foi jornalista e exilou-se em Madri. Hoje é professora da Universidade Cornell, nos Estados Unidos. Numa passagem do romance, quase no final, quando Lorenza está no apartamento de Gabriela, sua amiga e antiga companheira de militância, há uma passagem que denuncia esta relação entre o romance e a biografia:

Entre nuvens de vapor e de felpas, ao compasso do barulho da prensa e da máquina, ia e vinha essa conversa carregada de confidências que antes não teriam feito, que certamente não fariam de novo. Os lençóis já bordados e passados iam se amontoando, mas era preciso juntar cada jogo – lençol de baixo, lenções de virar e um par de fronhas – para envolve-lo em papel de seda e guarda-lo cuidadosamente e sua caixa. E foi ali, no apartamento de Gabriela, que Lorenza acreditou ter encontrado o tom que ira permitir que ela escrevesse, agora sim, esse capítulo de sua história. Precisava pôr em palavras essa história até agora marcada pelo silêncio. Sempre soubera que cedo ou tarde teria que encarar a tarefa, não havia mais remédio, porque passado que não foi amansado com palavras não é memória, é espreita. O problema tinha sido como conta-lo, e agora pensava tê-lo descoberto: íntimo e simples, como uma conversa a portas fechadas entre duas mulheres que recordam.

A história: a colombiana Lorenza está em Madri na frente internacional de apoio à resistência à ditadura argentina. É membro do partido trotskista e depois da morte do pai, como se fora uma expiação pelo inalterável, propõe ao partido o trabalho direto em Buenos Aires. Vem como Aurélia, passaporte falso, trazendo dólares e microfilmes a serem entregues a Forcás. É recebida por Sandrita, outra militante, com quem passa a dividir apartamento. Em seu primeiro encontro com Forcás – Ramón Iribarren – para a entrega do material trazido de Madri ficam ambos interessados um pelo outro: química? Amor à primeira vista? Enfim, marcam novos encontros até decidirem viver juntos num pequeno quarto-apartamento num bairro de Buenos Aires. Têm um filho: Mateo. Quando este completa dois anos, ambos decidem que é hora de abandonar a luta contra a ditadura em função da segurança do filho: vão embora para Bogotá, a cidade de Lorenza. Lá o casamento começa a desandar. Separam-se e então acontece o “lance absurdo”: Ramón sequestra o próprio filho e volta com ele para a Argentina.

Este na verdade é o ponto de partida do romance: a mãe em busca do filho sequestrado pelo pai. Neste sentido, o romance adquire ares de romance policial. Mateo já é um adolescente e quer se encontrar com o pai. Mãe e filho viajam para Buenos Aires para procurar o pai. Toda a narrativa está estruturada em três diferentes cronotopos: o presente, que é a busca pelo pai; o passado de militância dos pais e o tempo da ditadura militar argentina que vai sendo contado pela mãe ao filho que quer conhecer o pai e do qual guarda lembrança muito esmaecida de seus dois anos e pouco; e o tempo terceiro do desespero da mãe com o filho sequestrado, em que se podem distinguir: a) o período de desorientação absoluta face ao sequestro, b) o período da espera do contato do sequestrador, c) o resgate do filho.

Estes três tempos e espaços se intercalam ao longo do romance, de modo que o leitor está acompanhando o fio de um enredo, suspende a sequência temporal para entrar noutro tempo e espaço sabendo que retornará àquele recém deixado. Esta técnica de recortes dá uma ligeireza incrível à narrativa e cria um suspense que leva ao leitor a querer saber afinal o que aconteceu no outro cronotopos enquanto está lendo recordações de outros tempos.

Assim, os três fios do enredo se encerrarão mais ou menos juntos: depois da queda da ditadura militar, o retorno a Buenos Aires, a indecisão do filho adolescente em ligar para o telefone do pai, por fim sua ida para Bariloche sem a mãe e de lá seu telefonema para o pai, que vai a seu encontro… a mãe saberá que o pai e filho estão juntos em Bariloche (precisamente onde ela recuperara o filho quando com pouco mais de dois anos) e saberá disso por um telefonema do filho. O casal não se reencontra, mas o filho encontra o pai e com ele fica, dizendo à mãe que seria até o fim das férias… Lorenza volta para a Colômbia mais uma vez sozinha! Mas com a certeza de que não perderá o filho uma segunda vez.

O leitor não só acompanhará a história de uma mãe e seu filho em busca do pai, mas ficará sabendo, através das remessas às atividades clandestinas da resistência, do clima de medo e sobrevivência numa ditadura militar.

Ao compor esta história, a narrativa dá aos militantes da resistência carne e osso, dá-lhes vida cotidiana. São heróis da resistência. São heróis demais: porque deslocados na resistência e para a resistência, quando o inimigo comum cai, novamente se tornam deslocados na vida comum. O sequestro do filho parece ser a única saída que restou a quem perdeu a luta ao perder os inimigos, perdendo também tudo o que sabia fazer: viver na clandestinidade.

Trata-se de um romance de linguagem simples e direta. De uma leitura fácil. Um destes romances que você começa a ler e quer ir até o final de um só fôlego, mas sabe que não conseguirá fazer isso sem paradas para pensar sobre as condições sociais de suas personagens, de seu tempo e de suas lutas.

Referência. Laura Restrepo. Heróis demais. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

Monstros à solta

Monstros à solta

Antigamente, bem antigamente, era comum assustar meninos ameaçando com monstros! Quando era criança, nosso ‘monstro’ era a Velha Cancorosa. Na verdade se tratava de uma senhora, bastante alta, descendente de escravos, que conhecia os segredos das plantas. Andava pelos bairros da cidade vendendo chás: folhas, raízes, flores secas. Cada coisa servia para algo.

Carregava tudo dentro de um saco branco! Alta, preta, com um saco: nada melhor para assustar menino. Sempre que me ameaçavam, corria a me esconder. Mas um dos meus irmãos, de quem lembro sempre sentado naquelas cadeiras altas de comer, sempre choramingando sem dor ou fome, quando o ameaçavam com “Olha! A Velha Cancorosa vem aí te pegar!”, ele aumentava o tom do choro manhoso gritando: “Eu quero a Velha Cancorosa… Eu quero a Velha Cancorosa…” E aí não tinha jeito mesmo, era deixar chorar!

Pois não é que os monstros voltaram! E andam à solta por toda parte, dando declarações. Um destes monstros, a que podemos chamar de “Imbecilidade Encarnada”, anda assustando ingênuos. Ataca sempre. Não se sabe bem o que vai atacar naquele momento, mas já se sabe que é monstro de ataque, monstro de rinha.

A Imbecilidade Encarnada tem horror ao pensamento, à crítica, à filosofia, à sociologia, ao jornalismo sério. Quem anda por estas áreas são focos ‘preciosos’ para o monstro. E ela, a Imbecilidade permite ir colecionando suas rinhas e ranços. Por ora, ainda ataque palavroso. Mas um dia a Imbecilidade conjugada a sua familícia, atacará de forma mais firme, assim que o monstrinho de Curitiba conseguir aprovar a autorização de matar, porque a Imbecilidade gosta mesmo é de sangue. Então fiquemos que com nos oferece hoje, prevenidos para com o amanhã:

  1. O presidente da República, Jair Bolsonaro, chamou de “energúmeno”o educador Paulo Freire nesta 2ª feira (16.dez.2019). A frase foi dita em frente ao Palácio da Alvorada, durante a manhã, a apoiadores. O presidente defendia o fim do contrato do Ministério da Educação com a Associação Roquette Pinto, gestora da TV Escola, anunciado na última 6ª feira (13.dez). “Era uma programação totalmente de esquerda, ideologia de gênero”, disse Bolsonaro a respeito da TV Escola. “Tem 1 monte de formado aqui em cima dessa filosofia aí, de 1 Paulo Freire da vida aí. Esse energúmeno aí. Ídolo da esquerda.” https://www.poder360.com.br/governo/bolsonaro-chama-paulo-freire-de-energumeno/
  2. Esta é de 03.01.2020. (A gente nem tinha acordado das festas, desprevenidos recebemos o choque da Imbecilidade Encarnada):

“Devemos buscar cada vez mais facilitar a vida de quem produz, fazer com que essa garotada aqui tenha um ensino que vá ser útil lá na frente. Não ficar nessa historinha de ideologia. Esse moleque é macho, pô. Estou vendo aqui, o moleque é macho, pô. E os idiotas achando que ele vai defender o sexo aos 12 anos de idade. Sai para lá”, afirmou o presidente.

“Tem muita coisa, até a questão de livros, botei uma matéria ontem, já começa a mudar alguma coisa. Mas tem livros que eu vou ser obrigado a distribuir esse ano ainda levando-se em conta sua feitura em anos anteriores. Tem que seguir a lei. A partir de 2021, todos os livros serão nossos, feitos por nós. Os pais vão vibrar. Vai estar lá a bandeira do Brasil na capa. […] Vai ter lá o hino nacional. Os livros hoje em dia, como regra, são um montão de amontoado de muita coisa escrita. Tem que suavizar aquilo. Em falar em suavizar, estudei na cartilha ‘Caminho Suave’, você nunca esquece. Não esse lixo que, como regra, está aí. Essa ideologia de Paulo Freire”, acrescentou.

https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/01/03/livros-didaticos-atuais-sao-lixo-e-governo-vai-suavizar-linguagem-a-partir-de-2021-diz-bolsonaro.ghtml

  1. E o recente ataque deste 06.01.2020:

“Quem não lê jornal não está informado. E quem lê está desinformado. Tem de mudar isso. Vocês são uma espécie em extinção. Eu acho que vou botar os jornalistas do Brasil vinculados ao Ibama [Instituto Brasileiro do Meio Ambiente]. Vocês são uma raça em extinção”.

Mas ninguém leva muito a sério a Imbecilidade Encarnada, porque sabe que são imbecilidades… acontece que enquanto este monstro vai largando seus petardos verbais, o clima e o tempo ficam livres para os monstros auxiliares irem jogando o jogo sério: o fim de qualquer risco de democracia nas universidades; o fim dos direitos sociais, o sucateamento de todas as instituições de serviço público e a doação, por preço módico e bom colheita noutros setores mais recônditos, de todo o patrimônio nacional, tudo patrocinado pelo monstro sagrado, o Sr. Paulo Guedes, enquanto se movimenta o monstrinho desmoralizado tentando conseguir autorização para sua polícia matar à vontade (como ainda não conseguiu, para manter a fidelidade dos cães, o monstrinho desmoralizado conseguiu um aumento de salário para a cúpula de sua polícia, um modo de manter a boca cheia enquanto não vem a autorização desejada).

Estas imbecilidades todas me lembrou fatos passados, não só de ‘monstros de susto’ mas também de posições bem comportadas: quando houve a mudança de governo, saindo do neoliberalismo de FHC para o primeiro governo Lula, havia o Programa Nacional do Livro Didático. Imediatamente os acadêmicos que davam pareceres sobre os livros didáticos, faziam as listas dos adotáveis, saíram a campo defendendo que o PNLD era uma política de estado e não uma política de governo!!! Com medo de perder “os contratos e convênios”… defendeu-se uma política governamental como política de estado. E saíram ganhando, não só nenhuma mudança no PNLD, mas também ganharam a continuidade das assessorias no novo ministério, agora petista! Não sei como andam os mesmos acadêmicos acostumados aos corredores dos palácios… certamente ficaram com Dilma (e Fernando Haddad), continuaram com Michel Temer e devem andar às voltas para conseguir argumentos do tipo “política de estado” para estarem lado a lado da Ignorância Bípede, conhecido por Abraham Weintraub.

Mas a surpresa maior me veio de uma entrevista com Luiz Fernando Veríssimo, publicada por Roberto Dias, na Folha de S. Paulo (06.01.2020) em que se faz um jogo: o entrevistador expõe situações atuais para o entrevistado responder como agiriam O Analista de Bagé e sua secretária Lindaura. A surpresa fica por conta da aproximação, feita pelo jornalista, entre “fake News”, este nome pomposo para “mentiras” e a ficção literária. Anotem as perguntas e respostas do escritor:

  1. Quando as fake news ganharam a visibilidade atual, imagino que o sr. tenha pensado algo como “bem-vindos ao meu mundo”. As fake news chegaram a ser engraçadas para o sr.? Se sim, deixaram de sê-lo? Quando? Na medida em que são formas de ficção, as fake news requerem alta dose de criatividade para competir com as news de verdade, estas sim, frequentemente incríveis.
    O Bolsonaro e alguns dos seus ministros são claramente figuras do realismo mágico, mas reais.

Voltando às fake news: elas são literatura? O que as aproxima ou as distancia disso? As fake news que funcionam como fatos falsos e mentiras convincentes obviamente fracassam como literatura.

A simples aproximação entre as mentiras e a literatura, aproximação esta baseada na questão da ficção, assusta! Certamente a literatura não trata do real, não é um reflexo do real, mas sim um real deste reflexo, como disse um dia Badiou. Como as fake News são mentiras, muitas delas mentiras deslavadas, como pode um sujeito que exerce função intelectual, que é um jornalista, aproximá-las como se fossem do “mesmo mundo”?

Estes dois tipos de monstruosidades (fake News postas no campo da literatura, e programas de governo se tornarem política de estado por interesse ‘acadêmicos’) são menos visíveis, mas muito mais assustadoras do que os monstros e monstrinhos que nos governam e nos assustam diariamente.

UM ANO SE FOI – FALTAM AINDA TRÊS

UM ANO SE FOI – FALTAM AINDA TRÊS

Agora, levantem a mão os que sentirão saudades de 2019!

Não ouviram? Ou não entenderam? Vou repetir: levantem a mão todas as brasileiras e todos os brasileiros que irão sentir saudades do ano de 2019! Só vocês? Mais ninguém? Ninguém mais?

E agora levantem a mão aqueles que guardarão boas lembranças de 2019!Só aqueles lá do fundo? Somente os do alto do Planalto? Aí do meio, só alguns? E aqui de baixo, quase ninguém?

Bem, e agora, levantem a mão aquelas e aqueles que irão sentir desalento, náuseas, dores de barriga, causadas pelos produtos políticos – agrotóxicos sociais – aplicados sem piedade e sem limites pelos autocratas durante os 12 meses do ano de 2019! Podem levantar a mão sem medo! Com calma!!

Por fim, levantem e fiquem em pé, firmes e fortes, todas e todos que queiram falar do que aconteceu aqui e no mundo durante o ano de 2019. A fala precisa acontecer rigorosamente em respeito aos princípios éticos do diálogo, do respeito à alteridade e da tolerância mútua. Porque estes são os princípios que regem e sustentam o processo de democratização da sociedade.

Enquanto o público vai pensando, vamos às perguntas para o início da conversa dilógica.

O que vamos comemorar ao terminar o ano de 2019? O que vamos festejar na chegada do ano de 2020? Vamos formular uma pergunta mais clara e direta ao assunto.

O que e como festejar dos 12 meses do governo Jair Messias Bolsonaro?

Festejar os incêndios destruidores e devastadores das florestas da Amazônia? A destruição da educação pública, da saúde pública dos pobres – SUS –; vamos festejar a guerra às universidades públicas, à ciência, à pesquisa, à arte, à cultura, ao conhecimento crítico que as universidades produzem?

Passamos o ano de 2019 em estado contraditório, divididos em dois: uma metade, o estado de indignação e desalento, a outra metade, o estado de omissão e quietude coletiva diante das falas grotescos e chulas, dos gestos obscenos de agressão e bélicos, e frente às tragédias bioecológicas e sociais causadas pelos programas do governo autocrático, sob o mando e o império do neoliberalismo populista conservador. Já é do conhecimento público – de quem gosta e de quem não gosta – o fato de que temos um governo ignóbil do presidente mais ridículo da nossa história.

A pesquisa mais recente junto à opinião pública – Instituto Vox Populi – revela que a maioria dos brasileiros pensa e considera que o Presidente é: “sem noção”, “fala demais”, “grosseiro”, “bruto”, “estúpido”, “arrogante”, “prepotente”, “racista”, “preconceituoso” e “descontrolado” (Carta Capital, 25 de dezembro de 2019, Marcos Coimbra, p.13). O que gera inquietação é o fato segundo o qual estas manifestações foram ditas quase em estado de sigilo, não assumidas e abertas ao público.

Comemorar e celebrar o que sob o jugo de um presidente assim? Diante deste descalabro da nossa história de hoje, fica mais uma pergunta inquietante: quem colocou e empoderou este cidadão autoritário e antidemocrático na presidência do Brasil? E quem ainda o protege e mantém no poder, sendo ele um destrambelhado a serviço de poucos privilegiados, destruindo todos os benefícios sociais dos brasileiros que mais trabalham e produzem para o bem de todos? É possível festejar a vida no Brasil campeão mundial em matéria de perversidade da distribuição da renda?

A quietude e o silêncio de quase todas e todos é um estado social assustador. E para atormentar ainda mais o nosso estado emocional, vem à lembrança um dístico popular muito feroz: “quem cala, consente”. Será verdadeiro?

O alento: um ano de quatro já se foi. O desalento e o temor é que temos ainda três anos para enfrentar.

Porém, acima de tudo, “seguiremos em frente, mais unidos, mais fortes, mais inspirados e confiantes [não no Bolsonaro e seus acólitos] que o país sobreviverá a essa tormenta de ódio e o amor prevalecerá junto com a liberdade de expressão” (Grupo Porta dos Fundos. Folha de São Paulo, Ilustrada, 26.12.2019).

Assim, vamos juntos, unidos, firmes e fortes.

Corra – Conversas e reflexões entre mundos possíveis

Corra – Conversas e reflexões entre mundos possíveis

Escrevo sempre, e me alimento de outros textos: cinema, poesia, música, romances, pinturas, teatro, danças e por aí vai… O que entendo que além de me enriquecer como ser humano, me permite acessar várias culturas e realidades. Essa é a fortuna da arte, nunca saímos os mesmos.

Da poltrona do cinema, olho para a tela esperando todos os caracteres subirem. Vejo todos os nomes. Mas vejo sem ver. Meu olhar está no infinito do mundo, existem mais dúvidas sobre o ser humano, sobre mim, sobre a vida… Do que respostas. Ainda sem entender o que desde sempre acredito já entender, pois existem coisas que talvez compreendamos sentindo, vou para meu quarto, pego meu celular e envio uma mensagem: “Você assistiu ‘Corra’?”

Em poucos minutos, vem à resposta, em áudio do aplicativo: “Como você sabe que eu assisti ‘Corra’? Que porra é essa?” Escrevi: “não sabia. É que terminei agora de assistir”. No minuto seguinte, outro áudio: “Cara, eu acabei de assistir este filme, velho… Você está doido… Não, Tayrone! Explique-me como você ficou sabendo? Nossa, Meu Deus do Céu”, conclui com espanto e risos a negramara (Negra, Amar, Mar, Mara).

Sim, Mara, você foi a primeira pessoa que me veio à mente após o filme. Não que seja a pessoa negra mais próxima de mim. Aliás, quiçá seja uma das mais distantes na atualidade, pelo menos geograficamente. Mas, além de mulher negra, e pobre, como você mesma diz, é uma das pessoas com quem mais me identifico na luta diária contra as injustiças e preconceitos.

Será que realmente assistimos ‘Corra’, mesmo sem combinar, no mesmo tempo? No mesmo minuto? No mesmo segundo? Talvez sim, se realmente tivéssemos assistido um filme de terror, de nível sobrenatural. Mas ‘Corra’ não é terror? Claro que é! No entanto, mais real do que o próprio filme sugere ser, e por isso precisava saber de sua opinião.

Duas cenas continuam a martelar minha cabeça:

Cena A

O carro da polícia se aproxima nos momentos finais com sirene ligada, o negro mocinho, será?, interpretado por Daniel Kaluuya, levanta as mãos para se render à polícia, quando, ao mesmo tempo, a personagem branquinha não tão mocinha, será?, interpretada por Allison Williams, expõe um leve sorriso nos lábios.

Essa é a cena mais impactante para mim. A certeza por parte dos personagens de como seriam pré-julgados. Isso é cinema ou é realidade? Na verdade, não restam dúvidas de que, infelizmente, o mundo, ao logo de sua história, escolheu seu lado e construiu seu muro invisível e, por isso, é tão difícil transpô-lo.

Cena B

No outro espaço da película da minha mente, ainda vejo o leilão.

Quantos leilões o povo negro já sofreu ao longo do tempo? Quantos sofrem e quantos sofrerão? É… Este terror não é sobrenatural. Por isso, querida Mara, me recorri a você. Não tenho pele preta. Mas me orgulho do sangue preto que corre em mim. Por isso, sem hipnose, quero entrar na sua mente e entender, de quem sente na pele, as angústias que o filme de Jordan Peele provocam em mim. Corra, venha me ajudar.

Tayrone Di Martino – É jornalista e advogado

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Tayrone,

Passado o susto da coincidência, penso que ajudar não é a questão, mas me proponho a ler junto o que pensei sobre o filme Corra. Antes de tudo penso que, por mais assustador que o roteiro possa parecer, é preciso tentar elucidar os caminhos que o filme utiliza para tratar o real.

Filmes de terror/suspense não são meus preferidos, talvez por isso mesmo eu tenha demorado tanto a assistir Corra (Get Out) de Jordan Peele, mesmo sabendo da temática racial, resisti, até que vencida e confiante, entreguei-me, e qual não é a minha sorte recebo sua mensagem nos minutos que seguiram.

No inicio do filme a cena de sequestro de um rapaz negro totalmente fora de contexto constituiu uma ponta que precisaria de amarração ao longo da obra, o que por si já garante a expectadores mais efêmeros – como eu prosseguir até o fim. Sim, muitas vezes abandono filmes que não me prendem, tampouco ganham instantaneamente meu apreço. Confesso que para “militantes” é difícil ver as cenas iniciais sem um embrulhinho no estômago: a namorada branca de olhos azuis e rica com o discurso bem raso de que  racismo não existe: – meu pai votaria no Obama!(WTF?) e vamos lá conhecer minha família.

E o tempo todo eu pensando, porque diabos sequestraram o rapaz?

Depois tem uma cena quase fofa da blitz em que a mocinha não permite que o policial seja preconceituoso com o seu namorado, e é ela quem vai dizer do alto da sua branquitude (e por isso razão): eu conheço as leis! Então é isso, é claro! Negros sofrem racismo por não conhecer a leis, e eu que imaginasse que a gente não tivesse sequer acesso a elas pelo simples fato de sermos negros, ou que a gente nem pudesse responder um policial ou outros do gênero.

Já na casa dos pais da mocinha, Chris, nosso protagonista observa e entende outros negros subalternizados trabalhando “como se fossem da família” essa é a máxima mais utilizada por aqui, é que o quase é um advérbio de modo que serve para mudar a condição de ser da família, não tem essa de quase, ou é da família e tem direito a tudo, incluindo sentar e colocar o pé no sofá – se for da sua vontade, ou não é, e aí tem que limpar a sujeira dos pés no sofá dos outros, com uniforme ou sem, sempre ao gosto dos patrões.

Aí vemos uma situação bem interessante, em geral, negros quando ascendem (???) socialmente perdem um pouco da percepção sobre outros negros, muitas vezes eles até deixam de ser negros, como se fosse possível a partir de sua vontade e conquistas voltar algumas escalas na paleta de cores, e a sociedade também aceitasse com naturalidade esse branqueamento.

A festa na casa acontece e aí começa o show de horrores, mas sem terror ou suspense algum, a não ser o inconveniente das várias exposições de situações racistas a que o jovem é submetido, mas para mim que sou negra posso dizer que é algo bem comum. Eu fiquei imaginando quantas pessoas já falaram para mim: acho linda sua cor! (Oint que fofo!) Dá vontade de perguntar: você fala isso para todo mundo ou só quando quer disfarçar o racismo internalizado? Afinal, vocês já viram alguém dizer pra uma pessoa branca que acha linda a cor branca dela? Sabe o que é, é que na verdade, as pessoas não acham, mas como em meio a tantos brancos somos exóticos (adoro esse termo também) as pessoas querem nos acolher com sua apreciação momentânea aí tem que ser efusivos.

Tem de tudo: genética, estética, objetificação dos corpos, e tudo mais que o racismo comporta. Poupem-me! Onde raios está o moço sequestrado? Cadê a amarra dessa história, poxa? Enfim, lá está ele: diferente, vestido de outra forma. Tinha algo estranho, perdido o viço, a identidade. Ao cumprimentar Chris ele marca com um aperto de mão quando o natural seria um punho com punho. Coisa de manos. É interessante isso, essa metáfora das pessoas serem hipnotizadas, lobotomizadas para então adentrarem o universo dos brancos. Segue o baile.

Então, a gente descobre que o nosso protagonista é uma revelação da fotografia, é sensível e maravilhoso, mas não captou a mensagem de socorro do ser irmão negro quando desperto do transe pelo flash da fotografia, toda a sua sensibilidade não percebeu o quão a situação estava errada, e, imerso no pertencimento do mundo branco, afundou-se ainda mais no lugar profundo.

Reveladas as intenções do filme, a pergunta posta é: porque escolhem negros? Essa pergunta sai da boca do nosso jovem fotógrafo, mas a resposta é um arremedo, contem verdade, mas não é toda ela. Em geral não somos notados, ou porque estamos hipnotizados por pertencer ao grupo dos nossos algozes, e nos tornando parecidos com eles, escondendo bem no fundo nossas raízes, cultura e dores. E tem ainda outras possibilidades.

Poucas pessoas sequer ficam escandalizadas com o sequestro do jovem negro, é a naturalização da barbárie com os jovens negros: vide Marielle Franco.

Nossos corpos e existência não merecem atenção: violentam-nos, estupram, encarceram, culpam, excluem, oprimem, escravizam, ocultam, silenciam, marginalizam, caluniam, discriminam, criminalizam, sequestram, enlouquecem, adoecem, nos matam todos os dias e ninguém faz nada. O absurdo e o terror parecem naturais quando aplicados a nós: vejamos os índices de mortalidade da nossa juventude, o número de filhos sem pais, a expectativa de vida, os salários, a falta de oportunidades e vagas, a violência, a cor da pobreza e da miséria. Somos invisíveis.

*Agradecimento especial ao amigo Tayrone Di Martino, que contribuiu com esse texto, dando o pontapé inicial e fazendo a provocação para construção do mesmo.