OS ARAUTOS DO APOCALIPSE: A QUEM REFERE O GENERAL?

OS ARAUTOS DO APOCALIPSE: A QUEM REFERE O GENERAL?

Na coletiva de imprensa realizada ontem, convocada pela presidente do TSE, a ministra Rosa Weber, o ministro do Gabinete da Segurança Institucional (responsável pelos assuntos de “inteligência” no país), o Gen. Sérgio Etchgoyen, lembrou que durante a vida viveu muitos momentos em que “arautos do apocalipse” previam coisas medonhas para o país…

Esta remessa ao apóstolo São João foi para fazer recordar: há poucos anos menos de dois mil séculos, o eremita de Patmos teve suas visões do fim do mundo, com todos os seus horrores. E o fim do mundo não veio, como não chegaram os “maus tempos” para o Brasil como previram e continuam prevendo estes “arautos do apocalipse”.

Obviamente, a ninguém compete julgar as crenças do General. E certamente dentre os livros das Sagradas Escrituras, o Apocalipse é o mais metafórico de todos eles. A se crer nas revelações e na descrição dos males nele contidas, certamente já tivemos muitos apocalipses na história destes quase dois milênios: a queda do Império Romano e a balbúrdia social que se seguiu; a nada Santa Inquisição, um tribunal usado para perseguir quem pensava diferente do definido que pensar se deveria [incluindo nas fogueiras aqueles que pesquisavam as possibilidades de uso de remédios naturais e também mulheres denunciadas como “bruxas” por homens que perderam a potência quando tentaram estuprá-las]; a Primeira Grande Guerra; o nazismo na Alemanha e seus campos de concentração; a Segunda Grande Guerra. Isto para ficarmos em exemplos conhecidos por todos. Metáfora por metáfora, todos podem ser considerados tempos apocalípticos.

Neste quadro, cabe a pergunta: quem seriam os atuais “arautos do apocalipse” neste processo eleitoral brasileiro? A quem ele estaria se referindo em sua fala? Como todo o contexto da longa coletiva foi para tranquilizar a população de que o TSE fez tudo, que há correção absoluta no sistema eletrônico e votação, que vivemos a mais perfeita lisura no processo eleitoral que estamos vivendo, então os arautos do General devem ser aqueles que dizem o contrário.

Teremos que buscar estes discursos dos arautos para encontrar a referência concreta do General. Que campanha prevê um amanhã apocalíptico? Bastaria, para tanto, ficar atento a manchetes da imprensa tradicional e alternativa para descobrir com rigor quais discursos preveem um amanhã equivalente às revelações recebidas por João em sua ermida em Patmos. Vejamos apenas manchetes de hoje:

  1. Filho de Bolsonaro ameaça fechar STF caso julguem e cassem o pai por seus crimes. Romper-se-ia um dos sete selos? Nem ao STF cabe julgar crimes denunciados e comprovados como o financiamento empresarial à campanha do candidato de extrema direita?
  2. Ameaça de estabelecer uma ditadura. E seus correligionários nazistas convocam ato “cívico” para gritarem por ditadura com o símbolo nazista.

  1. Em teleconferência para seus adeptos,conforme registra a Folha, Jair Bolsonaro anunciou a ditadura que será o seu governo:

Em fala de cerca de dez minutos, prometeu “uma limpeza nunca vista na história desse Brasil”, se eleito.
“Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil”, afirmou, sob gritos de “Fora PT”.
“Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou [então] vão para fora ou vão para a cadeia.”
“Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria”, acrescentou.
“Senhor Lula da Silva, se você estava esperando o Haddad ser presidente para assinar o decreto de indulto, vou te dizer uma coisa: você vai apodrecer na cadeia”, disse Bolsonaro, aos gritos de “mito”.
“Brevemente você terá (o senador petista) Lindbergh Farias para jogar dominó no xadrez. Aguarde, o Haddad vai chegar aí também, mas não será para visitá-lo não, será para ficar alguns anos ao seu lado.”

  1. Equipe do Ibama atacada em Rondônia: esse é o Brasil de Bolsonaro

Há algo que irrita muito o candidato da extrema direita: falar em ambiente. Sempre que pode, não só não cumpre as leis de proteção ao ambiente, como grita contra todo e qualquer limite que se queira impor à exploração em nome de um futuro para o país e para o planeta. A foto é da FSP: um carro de equipe do IBAMA incendiado por fanáticos bolsonaristas, garantidos pela certeza da impunidade no governo que se aproxima. Existiria imagem menos apocalíptica do esta?

Diante destes fatos, minha conclusão é que o General Etchgoyen quando falava dos “arautos do apocalipse” estava se referindo ao que vem propondo como futuro, amanhã, a campanha de Jair Bolsonaro e de todos os seus filhos e seus adeptos.

Será que é isso? Seria isso mesmo? Estaria certo pensar esta referência para o discurso do General? Estaria o sempre bem informado serviço de inteligência nos dizendo que não se pode apostar neste futuro apocalíptico?

Democrata como é, o General Sérgio Etchgoyen acrescentou algo em seu discurso: na segunda-feira, dia 29 de outubro, festejaremos os resultados e o eleito será o presidente de todos os brasileiros. Garantida a posse do eleito, então se eleito for o homem da mais extrema direita brasileira, o apocalipse se concretizará como anunciado na campanha. Mas se não for eleito, e Haddad ganhar as eleições, garante o General sua posse… contradizendo, pois, declarações antigas do Gen. Villas Boas que somente aceita um resultado ou então haverá intervenção militar. E todos sabem qual resultado quer o Gen. Villas Boas.

Existiria imagem menos apocalíptica do que esta?

TSE: coletiva responde a críticas

TSE: coletiva responde a críticas

A coletiva de imprensa, com a exposição das grandes autoridades brasileiras na área de segurança, que garantem a lisura das eleições, todos sob o comando da Ministra Rosa Weber, veio defender a segurança das urnas eletrônicas, a segurança do nosso sistema de coleta e apuração de votos, que somente uma candidatura pôs em dúvida.

Como os discursos proferidos respondem a outros discursos, será preciso recuperar que discurso foi proferido que mereceu tamanho aparato de resposta! Parece, porque hoje nada pode ser declarado, sob as penas das leis, e então devemos ficar no que parece ser, que alguma candidatura à presidência teria feito críticas ao sistema eletrônico de votação. E deve ter sido uma candidatura com muita força para mobilizar tantas autoridades para oferecerem a resposta.

Também ficamos sabendo, ouvindo os pronunciamentos, que somente existiu um tipo relevante de boato neste processo eleitoral: aquele que falou mal do sistema eletrônico. Neste caso, como se trata de liberdade de expressão, também não é necessário pensar em punição. Apenas as autoridades vieram a público para tranquilizar os cidadãos: não há desvios no sistema, o sistema é seguro.

Outras mentiras que circulam neste processo eleitoral são produtos do acirramento de ânimos, normal numa disputa, como apontou a Ministra Rosa Weber. De modo que mentiras deslavadas são nada mais nada menos do que arroubos oratórios. E quando se coloca no ar algum programa que inclui declarações gravadas de defesa da tortura por um candidato, isto é proibido. Não porque não seja verdade – no caso seria absurdo dizer que é mentira, porque a gravação está disponível. A proibição de circulação do programa é porque … por que, mesmo?

Há uma máxima conversacional elaborada pelo filósofo H. Paul Grice: a máxima da relevância. O país está atônito ante a revelação feita por um jornal que não tem qualquer simpatia pela candidatura de Haddad à presidência de que um grande esquema de financiamento foi montado para disparar, ao custo de milhões, milhões de mensagens falsas pelo WhatsApp para grupos constituídos, muitos deles sem qualquer autorização do participante: dados foram comprados para incluir as pessoas nos grupos.  A população ficou estarrecida com a revelação do jornal Folha de S. Paulo.

Depois da reportagem publicada, começaram a aparecer vídeos extremamente comprometedores para uma candidatura, com o candidato presente, e com empresário defendendo o emprego do meio ilícito e outro até pedindo que colaborassem de imediato, para não gastar mais dinheiro no segundo turno… Isto aumentou o espanto do povo.

Então foi marcada esta coletiva de hoje. Segundo a máxima conversacional de Grice, todos esperariam que a coletiva tratasse da questão candente neste momento: isto é legal? Isto é condenável? Isto pode? Vai ficar por isso mesmo?

No entanto, para a coletiva parece que somente importa uma ofensa à lei: aquela que põe em dúvida o funcionamento das urnas eletrônicas. O resto é uma questão a investigar, com a rapidez própria do devido processo, ou seja, daqui a uns anos ficaremos sabendo o que aconteceu, mas que diante do “fato consumado” – um princípio jurídico introduzido em nosso direito pela República de Curitiba – resta arquivar o resultado da investigação.

Quem não fala sobre o que é relevante, e fala sobre o irrelevante para seus interlocutores no momento, está querendo dizer outra coisa, produz nos termos do filósofo Grice, uma implicatura. Qual implicatura: ela depende o raciocínio do ouvinte e jamais este poderá dizer que o locutor – no caso os locutores – disseram o que ele compreendeu.

E ficamos, assim, naquela situação, esta apontada pelo linguista Ducrot, do subentendido: “Não me pergunte minha opinião, se não eu a dou”.

E como não trataram do que deveriam tratar, os ouvintes próximos – no caso, os jornalistas – obrigaram-nos a falar sobre o relevante: o emprego de mensagens em massa disparadas pelo WhatsApp aos milhões… embora sequer o representante da Folha de S. Paulo tenha assumido o que diz a reportagem de seu jornal: que há financiamento empresarial nesta história…

Não sei se conseguiremos ganhar, mas precisamos resistir (de Inês Barbosa)

Não sei se conseguiremos ganhar, mas precisamos resistir (de Inês Barbosa)

Hoje acordei querendo chorar, e chorei. Chorei de tristeza pela necessária ruptura com um grupo familiar, pela angústia diante do não entendimento do que está em jogo no Brasil hoje.

Chorei e me arrumei, quase por obrigação. Não tive coragem de me reportar a ninguém. Não posso ser portadora de desânimo, não poderia levar desânimo a ninguém. Calei.

Um telefonema inquieto de Bruno, meu filho mais velho, me permitiu compartilhar minha angústia. Ele tem maturidade e sabedoria para ouvir e ponderar, e não se abateria.

Mas saí com dificuldade, me arrastei no engarrafamento sem nem mesmo buscar escapar dele. Cheguei a uma seção eleitoral cheia e confusa, não sem antes receber uma bela injeção de ânimo no encontro com o querido André Lázaro, que me lembrou com veemência que somos de luta, que não caberia esmorecer hoje. Que a luta precisa de todxs nós. Sorri, ouvi, mas não assumi.

A pesquisa de boca de urna me fez ter a convicção de que tínhamos perdido. Felizmente errei. Como aprendi com meu disquinho da Chapeuzinho Vermelho que ouvia na infância: “não chore, porém, criança, pois nem tudo está perdido”! E uma nova energia, estranhamente, me chegou.

Ver o quanto o fascismo avançou me acordou para a luta. Ver a necessidade de investir em direitistas históricos contra os quais sempre me insurgi, como Eduardo Paes, ver a quase vitória do fascismo no cenário presidencial, ver senadores, deputados em profusão e outras barbáries ganhando mais e mais espaço me convenceu de que só há uma saída, e ela está na ação.

Não sei se conseguiremos ganhar, mas precisamos resistir.

Mostrar que existimos e que dizemos não ao fascismo, mostrar que somos muitos, que temos princípios, ideias e projetos e nada disso se apaga com uma eleição. Podem vencer essa batalha, mas não roubarão nossos sonhos, nossas vidas, nossa capacidade de optar pelo amor, pela solidariedade, pela democracia, pela justiça!!!

Permaneceremos intransigentes na defesa desses valores, agora e sempre!!

Partiu 2º turno, Haddad e Manu contra o fascismo, “pela democracia, pela soberania nacional e popular, indissociáveis!” Pelo ativismo como direito, como prática e como meta de participação ampliada!!!

Partiu me juntar aos eleitores de Eduardo Paes para evitar o fascismo no Rio, mesmo sabendo que a ele me oporei desde o dia 2 de janeiro, caso ele tome posse no dia 1º.

Partiu pra luta, porque como aprendemos com Marighella: a única luta que se perde é a que se abandona.

Não vou desistir. Não vamos desistir. Nossa força está no que compartilhamos e vivenciamos juntos. Vamos fazê-la crescer estando sempre e cada vez mais juntos. Somos multidão, pluralidade ativa e complementar. Tamojunto!!!

“Nossa arma é o argumento”. Usemos e abusemos dele.

 

Inês Barbosa de Oliveira

Rio de Janeiro, 7/10/2018

CORTEJO, de Jacques Prévert (Tradução de Silviano Santiago)

CORTEJO, de Jacques Prévert (Tradução de Silviano Santiago)

Um velho de outro com um relógio de luto

Uma rainha de recados com um rapaz da Inglaterra

E trabalhadores da paz com guardas do mar

Um hussardo da corte com um bobo da morte

Uma cobra de café com um moinho venenoso

Um caçador da corda bamba com um dançarino de cabeças

Um marechal de espuma com um cachimbo na reserva

Um menino chato vestido de negro com um cavalheiro de maiô

Um compositor marcado para morrer com um malandro de música

Um apanhador espiritual com um orientador de guimbas

Um afiador da guerra do Paraguai com um almirante de tesouras

Uma freira de Bengala com um tigre de São Vicente de Paulo

Um professor de porcelana com um reparador de filosofia

Um fiscal da Távola Redonda com cavaleiros da Companhia de Gás

Um pato de Santa helena com um Napoleão com laranja

Um coveiro de Samotrácia com uma Vitória de cemitério

Um rebocador de família numerosa com um pai de alto-mar

Um membro da próstata com uma hipertrofia da Academia de Letras

Um garanhão honorífico com um grande bispo de circo

Um fiscal de Petrópolis com um Canarinho de ônibus

Um cirurgião endiabrado com um menino dentista

E o geral das ostras com um abridor de Jesuítas.

(Jacques Prévert. Poemas. Seleção e tradução de Silviano Santiago. RJ : Nova Fronteira)

Filho de mil homens, de Walter Hugo Mãe

Filho de mil homens, de Walter Hugo Mãe

Tem razão Silviano Santiago ao usar, na orelha do livro, a imagem das ondas do mar para descrever os capítulos que vão compondo este livro e sua história: ao chegar o fim de um capítulo, seria como se uma onda se desfizesse na areia para que o seguinte recomeçasse onde a onda se forma, se avoluma e volta a acalmar-se em espumas minuciosamente examinadas por um narrador onisciente, que nos vai apresentando as personagens desta aldeia à beira mar, onde as diferenças e as imposições do meio ambiente assemelham e diferenciam cada um.

Há uma personagem, o pescador Crisóstomo, o primeiro a ser apresentado ao leitor, que condensa o inverso do que se poderia chamar da ideologia do cotidiano compartilhada na aldeia, batendo-se contra a hipocrisia com que esconde, no entorno do que é o núcleo deste romance, a família e todas as limitações ao amor. Crisóstomo defenderá e ensinará a seu filho uma participação honesta, ainda que ínfima para o tempo de cada um, na honestidade na natureza do mundo em sua variedade e constância. Há no modo de ser, de agir e de se relacionar, e nos conselhos do pescador a seu filho, um mundo por viver diferente daquele definido como a estabilidade e fixidez deste núcleo familiar em que, por relações sanguíneas (e patriarcais), se reúnem sob o mesmo teto tão distintas pessoas.

Para alinhavar a história de um enredo complexo, tomemos o ponto de partida que nos dá o narrador: “Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo.” Desde então, abrem-se as possibilidades de um roteiro que poderia ser simples, repetindo o caminho já mil vezes trilhado: Crisóstomo tomar para si uma mulher e com ela fabricar um filho… mas aí se confirmaria a família tradicional, com as pessoas que se suportam em função do laço da consanguinidade. Camilo, o filho, será já um adolescente que ele encontra à beira mar e que o procurara em busca de trabalho. Repetidas vezes, ao longo do romance, repetirá “Amo-te, meu filho”.

O segundo capítulo nos apresenta uma anã, tratada por todas as mulheres de sua aldeia, em outra aldeia, como se fora alguém que por não ter crescido em tamanho, continuava sempre uma criança a brincar de viver. Todas lhe traziam presentes, o sustento diário além das preocupações e cuidados com sua saúde. Sua eterna infância era atribuída ao fato de que não poderia receber homem que a penetrasse porque lhe rebentaria internamente. Sempre amáveis e recebidas com amabilidades, as mulheres, no entanto, sempre viram o quarto da anã fechado. Em uma oportunidade em que esta buscou fora de casa algo para as visitas, a indiscrição levou a abrir a porta e descobrem uma grande cama de casal! Esta aberta a porta para o que virá: a anã aparece grávida e, por falsamente não quererem atribuir vida sexual à anã, as mulheres inventam histórias de possíveis paternidades. Ela, no entanto, dirige-se à polícia e apresenta uma lista de quinze nomes: um destes homens seria o pai de seu filho e deveria assumir a paternidade e a consequente responsabilidade. O delegado a convence: impossível saber quem o pai de sua gravidez. E a balbúrdia da desconfiança da traição torna as mulheres silenciosas e os homens cabisbaixos. A gravidez progride e muito antes de chegar a termo, sentido dores, a anã procura o médico da aldeia e este a acolhe:

Guardava-se no quarto dos doentes, metida numa cama lavada a descansar de ter engravidado. Não era que estivesse cansada ainda do ato, que esse teria sido já há um tempo e ninguém se lembrava de ela se ter queixado de nada. Estava cansada, subitamente, como se a ideia só por si já lhe pesasse e lhe começasse a mexer nos ossos. O seu corpo dilatava todo. As mulheres perguntavam isso ao doutor: foi violadinha, está com os ossinhos todos a abrir. O doutor ria-se e dizia que ela estava bem. As mulheres perguntavam: foi algum cão, algum bezerro já grandito, um bicho desconhecido. O doutor ria-se e dizia que ela estava bem. As mulheres perguntavam: podemos ver. O doutor respondia: hoje não, hoje não. As mulheres saíam, o doutor era malcriado e a anã uma ordinária. Rezavam depois o terço para pedirem que deus explicasse a situação e condenasse os pecadores. Rezavam preocupadamente pedindo uma justiça impiedosa contra os pecadores. Diziam: aquela sonsa há-de arder no inferno, e ave Maria cheia de graça, o Senhor é convosco. Depois, já dormiam melhor, embora sempre na expectativa das notícias do dia seguinte. 

Nascido o filho com a morte da mãe, o leitor esperaria, na continuidade, que a história de Camilo, nome que lhe foi dado, aparecesse. Mas novamente a onda morre na praia, retornamos à aldeia de Crisóstomo e somos apresentados à família de Isaura, a mulher enjeitada. A jovem fora preparada para o filho do vizinho. Sabia dos “segredos todos”. Feliz, ela pensava que o rapaz poderia amá-la, mas depois reconsiderava: “a eternidade da vida era demasiado para qualquer fantasia, pensava nos pais e sonhava que o rapaz a amaria ao menos mais tempo do que os seus pais se haviam amado”.

Namoro vai, namoro vem, Isaura, depois de muita resistência, acabou deitando com o rapaz. E descobre: “afinal, o amor era ensanguentado e difícil. Focara no chão, suja pelas porcarias que as rodas das carroças traziam, e doíam-lhe as constas e mais os arranhões nas coxas. […] O rapaz tinha desaparecido, rapidamente do barracão. Ia feliz de alguma coisa que não acudia à rapariga.”

A mãe, a mal humorada Maria, descobre o acontecido, conta ao pai e este vai ao vizinho pedindo reparação: que casassem logo. Evidentemente nem os pais nem o rapaz não aceitaram. Diziam ao desconsolado pai que hoje em dia isso de virgindade não tem mais sentido. Isaura se torna a “mulher enjeitada” ainda que, tentando sempre salvar algo, deitava-se com o rapaz nas vezes em este desejasse.

Para a solidão de Isaura, aparece rondando sua casa um homem maricas: Antonino, filho de Matilde. É com ele que Isaura se casa… e na noite de núpcias, acorda percebendo que o marido lá não estava: “O silêncio não continha marido algum.” Isaura volta à solidão e começa a frequentar a praia, não como banhista, mas para olhar o mar e pensar.

Amanhecera vazia, sem ninguém dentro de si mesma, e foi como se encheu com a ideia de afinal ser impossível esquecer o amor. Porque o amor era espera e ela, sem mais nada, apenas esperava. A Isaura sabia que amava alguém por vir, amava uma abstração de alguém no futuro. Ela esperava o futuro, e esperar era já um modo de amar. Esperar é amar.

Nesta tarde de vazios preenchidos pela espera, Crisóstomo a vê e outra relação começa agora com mais amor e possibilidades. Mas o marido maricas reaparece. Embora o casamento tenha sido anulado pelo padre, Antonino era ainda vivo e seu marido. Então se inicia uma relação triádica, em que a Antonino caberá tornar Isaura bonita, penteada, maquiada para Crisóstomo, mas isso será depois. Por enquanto, mais um corte, e avoluma-se outra onda: Camilo.

Mal fechara os olhos a anã, e o filho tendo chorado – iria viver ainda que um ser diminuto, mas como “crianças são para depois, nunca apenas para agora” – havia que pensar quem o tomaria. Então aparece o velho Alfredo, viúvo e solitário que se candidata:

Hei-de fazer dele um homem antes que o tempo me venha morrer. Não importaria que tivesse um passado triste. O passado não corre. O doutor pensava o contrário. Pensava que o passado tinha pernas longas e corria, sim, e muito, como um obstinado a marcar a sua presença, a sua herança. O passado é uma herança de que não se pode abdicar, disse o doutor. O velho Alfredo encolhia os ombros. Não podia desfazer a história do menino, não podia suprimir a desgraça da anã ou a sua atabalhoada forma de se compensar do amor. Ninguém poderia biografar o Camilo novamente. Novo era só o presente e o que se pensasse do futuro. […] Fizeram-se os papeis. Engaram-se os papeis. Os adultos sorriram. O menino, quando amadurecido pela incubadora lenta, como um iogurte caseiro que fermentava, seria entregue. Haveria de ser colocado entre o amor de dois velhos, ela já morta e ele ainda vivo, apressado.

Camilo cresce entre livros e ensinamentos extremamente conservadores do velho Alfredo, que veio a falecer. O menino já adolescente fica dez dias em casa, comendo restos e sem saber o que fazer. Uma vizinha se apieda, vai à casa, arruma tudo, traz o garoto para dentro de sua própria casa e lhe diz que é hora de ele buscar meios de sobrevivência. Sai em busca de emprego, e encontra Crisóstomo. Torna-se não empregado, mas filho.

E eis que o homem que chegara aos quarenta anos e assumira sua tristeza de não ter um filho, agora constituía uma família: ele, o filho Camilo, sua namorada Isaura e o ex-marido maricas, Antonino.

Eis aí um jogo de destruição da hipocrisia que fazia da aldeia uma aldeia: a falta de amor (todas as mulheres personagens são tristes, viúvas e solitárias ou prestes a se tornarem viúvas, como era o caso da mal humorada Maria, mãe de Isaura. As outras, são figurantes que supostamente viviam junto a seus maridos, mas desaparecidos, apenas sugeridos que, afinal, uma aldeia não se povoa sem homens e mulheres).

Crisóstomo formara a nova família, tolerante, que aceita todo o tipo de amor e que areja com seu presente um futuro distinto. E este futuro será Camilo, que percorrerá seu tempo de formação com duplo trabalho: esquecer os ensinamentos do velho Alfredo (o da repetição do mesmo) e aprender a viver dentro dos novos ensinamentos do homem agora seu pai (as novas estruturas familiares). Este futuro de um amor ilimitado aparece no conselho do pai: o filho Camilo surpreendera o casal Crisóstomo e Isaura na cama.

O Crisóstomo então levantou-se, atravessou o quarto, saiu, foi ver o Camilo deitado e beijá-lo para dormir e disse-lhe: nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor. O miúdo perguntou: porque dizes isso, pai. O pescador respondeu: porque é o único modo de também tu, um dia, te sentires o dobro do que és. (grifos meus)

Para ensinamentos tais, a personagem central deste romance não poderia ser outra coisa que não pescador. Pescador que prega o amor. Pescador que não quer limites ao amor, ao amor entre os homens e entre as mulheres, apontado por outro pescador como caminho.  Não como salvação em outro lugar, mas como possibilidade de salvação aqui e agora num futuro que mais de dois mil anos não conseguiu construir. Conseguirá?

 

Referência. Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. São Paulo : Cosac Naify, 2012.

O jogo de cena do TSE, a denúncia da FSP e os militares

O jogo de cena do TSE, a denúncia da FSP e os militares

Recebo, não sei bem a razão, comunicados de O Globo, dizendo “O Essencial da…”. Pois o de hoje pela manhã nada diz sobre a reportagem da FSP sobre o financiamento empresarial à campanha de Bolsonaro, com pagamento de milhões para disparar milhões de whatssapp. Ontem à noite, por curiosidade, ligamos a TV no pior jornal televisivo do país, o JN: apenas uma nota falando de “um suposto esquema de financiamento”… nada mais.

Para a FSP, que não gosta nada de Haddad, e muito menos ainda das forças que o PT aglutina,  publicar a reportagem da jornalista Patrícia Campos Mello (e dando manchete de primeira página) deve estar muito segura das fontes e dispor de documentos, porque a empresa dos Frias sabe como age o fascismo, com o qual colaborou durante a ditadura militar. Ora, um dos segmentos que de imediato serão atingidos por um governo de cunho fascista será precisamente a imprensa.

Mas é óbvio que as Organizações Globo não estão nem aí para isso: sabem participar dos golpes e se adaptar imediatamente seus passos de dança à música que será tocada. 50 anos depois, talvez, faça um editorial dizendo que foi um erro ter apoiado e ter dançado segundo o ritmo que ajuda a tocar diariamente.

Ou seja, não esperemos muita coisa da denúncia feita pela FSP, mesmo tendo sido o assunto principal das redes sociais no mundo inteiro. O #caixa2Bolsonaro continuará a disparar, do exterior, milhões de mensagens. E os bolsomínios, que consideram a FSP de esquerda – aliás, um prócer do MBL considera a Ku-Klux-Klan socialista, continuarão na sua imbecilidade cega e continuarão a praticar atos de violência durante a semana próxima: estão autorizados pelo judiciário.

Neste clima todo, de ebulição, a colegiada Rosa Weber convoca as duas campanhas para fazer um apelo para evitarem notícias falsas durante este processo eleitoral. Ao fazer isso, colocou as duas campanhas no mesmo nível como se ambas estivessem fazendo a mesma coisa! Ao mundo etéreo onde vivem os togados, os fatos desta campanha não chegam ou chegam com atraso: o mesmo TSE que determinou que a campanha de Bolsonaro pare de falar no inexistente kit-gay, foi capaz de “puxar a orelha” das duas campanhas, mas foi incapaz de chamar às falas a campanha que ele próprio considerou como veiculadora de mentiras!!!

O PDT pediu a anulação das eleições; o PT pediu investigação do financiamento irregular por empresas, citando inclusive algumas delas que estão desembolsando seus R$ 12 milhões para dispararem mensagens falsas. Alguém imagina que algum ministro do TSE tomará alguma medida preliminar, considerando a urgência das datas e da votação no dia 28 de outubro? Se alguém imagina isso, é inocente. Ora, seguindo os trâmites demoradíssimos com que caminham os processos, somente depois dos resultados das eleições e talvez até depois que o TSE proclame estes resultados e diplome o eleito, algum destes togados encaminhará o assunto para o arquivo, com base no mesmo argumento usado para salvar Dallagnoll e seu cargo de procurador: “é fato consumado”.

E por que interessa o fato consumado ao judiciário? Aí é que está no nó da questão que poderá abreviar decisões judiciais, que poderá cassar a chapa de Bolsonaro, que poderá fazer os togados agirem com presteza: os militares.

Os militares engoliram Bolsonaro, depois que o Mourão virou seu vice (não se sabe se imposto a Bolsonaro ou não). A imagem pública da instituição “Forças Armadas”, construída ao longo dos últimos 30 anos, é de uma instituição séria, atenta e honesta. Jogarão os militares este prestígio na cesta do lixo sendo conivente com a falcatrua eleitoral da chapa Bolsonaro/Mourão?

A denúncia da FSP deixou uma batata quente nas mãos das lideranças militares: fazer vistas grossas e manter a fraude destas eleições, para chegar pelo voto ao poder em que já estão; ou exigir pressa dos togados para que julguem imediatamente o assunto. Na primeira opção, sabem que estão fazendo vistas grossas e invocarão que não lhes cabe qualquer papel no assunto (ainda que todos saibamos que o Gen. Fernando Azevedo e Silva está no comando do STF); se tomarem a segunda decisão, novamente se abrem duas possibilidades – os togados deverão perguntar o que deve dizer o juiz-relator: considerar improcedente a denúncia e mandar arquivar os pedidos do PDT e do PT ou considerar procedente a denúncia e julgarem com base na lei o que se requer nas petições. Se a ordem for pelo julgamento da improcedência, por exemplo, por falta de provas, os militares poderão falar grosso: decisão dos tribunais superiores devem ser respeitadas e as Forças Armadas, responsáveis pela ordem, estarão de prontidão para garantir os resultados espúrios das eleições deste ano.

Infelizmente, pessimista como sou, penso que este será o caminho: a garantia da eleição da chapa Bolsonaro/Mourão para que o Gen. Mourão governe o país com o apoio irrestrito das Forças Armadas e dos seus subordinados de ocasião: o STF, o TSE, o STJ, os TRFs, etc. etc. tudo dentro da legalidade, sem qualquer ‘golpe de estado’, porque este não houve nem em 2016, como se recusa a admitir certa imprensa e certo boneco que ocupa o Planalto no momento.