“Os Fins não Justificam os Meios”. Mentira!

“Os Fins não Justificam os Meios”. Mentira!

As novas estratégias dos protagonistas, dos proprietários e donos do capital nacional e do capital estrangeiro, aliados sempre aos donos do poder político neoliberal, sempre assistidos e  iluminados pelos seus intelectuais orgânicos –  economistas, altos funcionários do direito e da justiça e tecnocratas das media e jornalistas do Top – é inventar e aplicar novas trapaças para alienar a opinião e a vontade das massas populares.

Na teoria, os trapaceiros continuam proclamando o dístico popular – histórico, ético e dogmático – “os  fins não justificam os meios”, para, na prática, fazer o contrário.  A lógica estratégica das trapaças é o seguinte: primeiro, é  tomada a decisão, o fim desejado, almejado; depois, são arquitetados os meios, os mecanismos  legais-constitucionais para justificar o fim.

Primeira ordem: “é preciso tirar a Dilma da presidência da República” – Como, se não tem provas de crimes? – “Não importa! Há dispositivo constitucional que precisa ser aplicado, segundo o qual a maioria dos deputados e dos senadores votando pelo impeachment, a Dilma está fora da presidência”, Eis aí o meio – a arma –  justificado pelo fim.

Segunda ordem: “- o Lula não pode voltar a ser presidente do Brasil! Portanto, não pode ser candidato, pois se for candidato, será eleito pelos petistas” – “Mas, e quem pode impedir o Lula ser candidato?” –  “A Lava Jato, o Sr. Moro” – “Mas se não houver provas dos crimes? – “Não importa, Lula deve ser condenado e preso antes das eleições! Está decidido” Os meios legais – os argumentos jurídicos – o Moro vai inventar”. E assim foi feito.

Terceira ordem: “ precisamos eleger Bolsonaro  para presidente do Brasil”. – “Mas como, se ele não entende nada de economia, nada de educação, de ciência, de cultura, de agricultura, de etc. etc…?” Aí, quando candidato, Bolsonaro discursava para os pobres, a favor deles, para ganhar os votos deles. – “O emprego voltará, a corrupção acabará, os criminosos e os bandidos eu acabo com eles”. Agora eleito, trapaceia e trama políticas para garantir os ricos continuarem mais ricos às custas dos pobres.

Para entender melhor o poder subjacente desta conjuntura de barbáries e trapaças políticas, vou  me valer de escrito de Eduardo Galeano – “O livro dos abraços” – A vida profissional. (L&PM Editores, 2018, p. 106-107).

Os banqueiros da grande bancaria do mundo, que praticam o terrorismo do dinheiro, podem mais do que os reis e os marechais e mais do que o próprio Papa de Roma. Eles jamais sujam as mãos. Não matam ninguém: se limitam a aplaudir o espetáculo.

Seus funcionários, os tecnocratas internacionais, mandam em nossos países: eles não são presidentes, nem ministros, nem foram eleitos em nenhuma eleição, mas decidem o nível dos salários e do gasto público, os investimentos e desinvestimentos, os preços, os impostos, os juros, os subsídios, a hora do nascer do sol e a frequência das chuvas.

Não cuidam, em troca, dos cárceres, nem das câmaras de tormento, nem dos campos de concentração, nem dos centros de extermínio, embora nesses lugares ocorram as inevitáveis consequências de seus atos.

Os tecnocratas reivindicam o privilégio da irresponsabilidade:

– Somos neutros – dizem.

 

Sobre a fração financeira-rentista do capitalismo neoliberal, Galeano é mais  exato:

O sistema: Com uma das mãos rouba o que com a outra empresta.

Suas vítimas:

Quanto mais pagam, mais devem.

Quanto mais recebem, menos têm.

Quanto mais vendem, menos compram.

 

É isso. Igual à democracia sem partido.

Três raciocínios bolsomínicos em 140 toques

Três raciocínios bolsomínicos em 140 toques

Estamos a menos de um mês da posso do presidente Bolsonaro. O governo de transição já tem dado suficientes reviravoltas. E os ministros já confirmados somente amedrontam. Mas meu assunto não é esse. Como tudo atualmente deve caber em 140 toques de um twítter, a forma oficial de comunicação da República (além da continência para qualquer sub-sub-sub-autoridade norte-americana), precisaremos treinar para racionar em 140 toques, não mais do que isso, porque acima disso se torna incompreensível para o futuro presidente, para a corte familiar e para os seguidores. Como estou preocupado com o futuro, e com a necessária aprendizagem, treino aqui recuperando raciocínios que levaram ao voto em Bolsonaro dos bolsomínios…

Raciocínio 1: Renda e emprego

Não tenho renda suficiente porque os petistas são corruptos Bolsonaro acabará com a corrupção e minha renda e meu emprego voltarão, tá OK?

Raciocínio 2: Teremos segurança

Tem muita violência e ele liberará armas para todos nós e ficaremos seguros e a polícia pode matar sem essa de direitos de bandidos tá OK?

Raciocínio 3: Este mundo tá uma vergonha

Pecam na rua se mostrando. Isso tem que mudar, tá OK? Temos que curar essa gente aí… tá OK? Defendemos a família, tá OK?

Os bolsomínios são inconstantes. Se logo, muito logo, o que os levou a Bolsonaro não tiver resposta, poderão cair fora do barco e buscar o João Dória… Então vamos ver que respostas encontrarão no futuro próximo para garantir seu comportamento de “ovelha vai com as outras” (não vou usar a lídima expressão em português “maria-vai-com-as-outras” porque poderia estar dando a opção de gênero de muitos deles que a guardam a sete chaves no armário…):

Renda e emprego: o governo começará vendendo tudo o que pode e o que não pode. Terá uma folga financeira imediata com as vendas – como aconteceu com o governo neoliberal de FHC. Acontece que esta folga apenas cobrirá, de imediato, o déficit fiscal. O que sobrar disso, irá para os bancos, ou na forma de renda ou na forma de não emissão de novos títulos para pagar títulos vencidos, com isso reduzindo a dívida pública, mas nada sobrará para investimento (e, portanto, para a geração de emprego e renda). A imprensa vai badalar a “recuperação financeira” que para o raciocínio neoliberal significa zerar déficit, isto é, fazer empatar débito e crédito, bem ao estilo dos governos tucanos: não deixam obra alguma, mas o orçamento fica equilibrado. O resto que se dane! E danar-se-ão as expectativas de renda e emprego para os bolsonímios. Que lhes dar em troca?

Bolsomínios querem sangue, muito sangue. E a resposta virá, portanto, embebedando-os com sangue e este virá da perseguição a adversários que serão acusados de corrupção! Ou seja, combate à corrupção mas sem gerar emprego e renda. E aí os bolsonímios compreenderão que seu emprego e sua renda somente se recuperarão com programa de investimento, o que significaria outra proposta de política econômica que não a do Posto Ipiranga…  e que a corrupção que há e houve não foi a causa da degringolada geral da economia…

Segurança: Ah! Então sobrará outro sangue, limpinho: matar traficante pequeno, aqueles que fazem a entrega, porque se mexer na estrutura mesma do tráfico, aí a coisa vai para o beleléu… então será dando sangue de meninos de entrega, de gente com o dedo no gatilho na defesa dos bunkers dos morros. E o bolsonímios achará que estará em segurança, mas por via das dúvidas não sairá à noite para não ser assaltado, porque o desemprego aumentou e portanto todo mundo está tendo que se virar, de uma forma ou outra…

O que vai sobrar afinal? Claro, o combate aos “maus costumes”. E então aparecerá efetivamente a cara do deste governo: o fanatismo religioso, os comitês de moral e bons costumes que serão instalados em todas as escolas, com denúncias constantes, prisões espetaculares comandadas diretamente do gabinete de Sérgio Moro, o ministro da polícia civil, política e ideológica. Afinal, o presidente já falou: o que importa é a ideologia, não a corrupção!

Os bolsomínios embebedados com muito sangue e circo, terão pão para comer? Se sim, entrarão em estado de êxtase celestial; se não, bom, aí estarão anímicos, sem forças para irem além dos 140 toques do twítter.

A LEGIÃO DOS PROFETAS, de Elias José

A LEGIÃO DOS PROFETAS, de Elias José

Os profetas em bando

tomaram a praça.

Com seus olhos de pânico,

Buscavam pontos de luz…

Com falas de loucos,

soltavam estranhos diálogos.

Com gestos insistentes,

reforçavam promessas,

transmitiam mistérios.

Com todos os farrapos,

prometiam o mundo.

 

Os trabalhadores

deixaram lojas e fábricas.

Os lavradores

desceram do caminhão e se ajoelharam.

Os vendedores

entregavam-lhes suas mercadorias.

Os pescadores

traziam-lhes cestos de peixes.

Os políticos

apertavam-lhes as mãos e sorriam.

Os músicos

enchiam de hinos a praça.

As beatas

tentavam tocar-lhes as vestes.

As moças

expunham-lhes seios e sexos.

 

As crianças

nem notaram que os profetas estavam ali.  

(Elias José. A dança das descobertas)

Os dedos e os dados, de Caio Porfírio Carneiro

Os dedos e os dados, de Caio Porfírio Carneiro

Esta coletânea de contos lê-se de um fôlego. As imagens, as paisagens, as personagens parecem se concretizar diante do leitor. E passam na velocidade estonteante do acontecimento narrado com maestria. Ler cada conto é como ver um filme de curta metragem, dado o realismo com que o narrador vai mostrando o que vê, faz e vive cada personagem.

Os dedos: narrativa curta como a experiência sexual de uma transa de mulher casada que pela primeira vez trai. Gestos nervosos que se vão acalmando: pronto. Agora tomar o táxi, voltar para casa, em “dignidade de estátua”:

– Se me encontrar, nunca me viu.

– Tique tranquila.

A ceia: um retorno à casa de um marido ausente por muito tempo. Um pouco surreal. O reencontro com a casa, que é a mesma: “Tudo o mesmo. E aqui estou.” Ela sorriu. O mesmo sorriso. O mesmo vestido, um pouco desbotado. Na cena seguinte, sem passagem de explicação, a casa está com tijolos soltos, ruínas, monte de escombros. Apenas lembrança do que foi. Entendo como uma alegoria à vida: as rotinas, os momentos que se vão, a vida que se esvai.

A promessa: este é um conto com diálogos curtos, entre um namorado e sua namorada, que lhe promete por duas vezes praticarem o ato sexual, mas que chegado o momento, ela se desvia, não aceita, recusa. Embora tenha prometido. E ele apressado, querendo, sedento. E ela: “Eu não queria assim.” Ela senta-se na relva; ele já desistido, aproxima-se. Ficam juntinhos. Brincam com uma formiga que foge. Olham-se. Sorriem.

A missão: os momentos cruciais de quem busca o martírio, a crucificação. Sai de casa, deixa-a deserta e de porta fechada. Caminha com martelo e pregos na sacola. Uma caminhada fisicamente difícil, metaforicamente a caminhada psicológica difícil para uma decisão radical. Chega ao ponto, abraça-se à madeira roliça. “Quase no topo a haste transversal, como braços aberto. Muito alto para alcancá-la. Altura nunca esperada. Abriu a sacola, tirou dela os grandes pregos, o martelo e o cipó fino, enrolado e espinhento. […] Ali ficou à disposição: sua cabeça, suas mãos, seus pés. Nada mais poderia fazer. Cumprira sua parte. Esperaria para sempre. A outro qualquer caberia termina a tarefa.

A sombra: esta a história de dois jogadores de futebol, um do ataque, outro um guarda-roupa de dois metros, na defesa. Neste futebol nenhum, apenas força; naquele todo o futebol e a certeza de todos de que iria para a seleção. O grandão lhe faz sombra, comete num jogo uma falta, mas quem recebe cartão amarelo é o atacante, pois uma das táticas do mau jogador é fingir dor e rolar no chão até a maca chegar. Era preciso vingar-se. E é esta expectativa do próximo jogo contra o mesmo time que preenche parte do campeonato até o novo jogo. O atacante entra arredio, com medo, sem correr. Parado. Lá estava a Parede e a sombra! Não tem coragem, mas acontece um burbúrio no jogo, o campo é invadido, o juiz vocifera. Ele chega de mansinho e dá um chute no tornozelo. O grandão cai, verdadeiramente sofrendo. Quem foi? Quem não foi? O jogo recomeça e então ele começa efetivamente a jogar. Um conto excelente!

O sorriso: casal recente, mas o marido já rotineiro na relação sexual. A mulher pergunta: “Acabou?” e ele responde “Claro”. Ela não mais suporta. Quer mais que não vem. Passa o dia andando de carro pela cidade. E começa a olhar o frentista, macacão, musculoso, negro, sorriso aberto. Sonha com ele. E então é descrita uma transa em que ela estando com o marido imagina o tempo todo estar com o frentista: Desci ao fundo do poço e dele voltei muitas vezes para respirar, sufocada, sem ar, até me sentir vencida pelo cansaço. E ele vai saindo de mim lentamente, fugindo em espiral, diluindo o riso encantador. Sinto-me exausta, pálpebras pesadas. O marido: – “Nunca você foi tão ótima, querida. Puxa.”

A ciranda: mais uma traição, agora numa fazenda. A mulher do fazendeiro e o capataz. Ela promete, mas a cada vez quer que seja “Em pé.” Ele não aceita. E nada acontece… a cena se repete, e nada. Até que o fazendeiro indo viajar, ela lhe abre a janela do quarto. E lá, ela quis: “– Quero em pé. É como uma ciranda.” As palavras cirandaram em voo rápido e ele nunca soube se o que girava eram as copas das árvores do capão de mato, o quarto estreito dentro da escuridão ou o fuso veloz que o jogava para dentro de si mesmo.     

A confissão: este é um diálogo de frases curtas, entrecortadas entre um marido traído e seu amigo. O marido acabara de descobrir que sua mulher era amante do Bispo! Vira-os aos beijos no Palácio Episcopal. Não sabe o que fazer… a forma sucinta dos diálogos desvela este estado de angústia da personagem, sem que dela se ocupe no que se fala.

O vendedor de bilhetes: este é um conto em dois planos. Um homem de negócios bem sucedido com casa e boa vida que retorna à infância, à casa no morro de que fora saíra fugido de um pai bêbado e violento que era vendedor de bilhetes do jogo do bicho. O filho que vencerá cá embaixo, veste a mesma roupa do pai, dorme na casa, relembra a infância infeliz e irrecuperável.

O andarilho: este é um conto de realismo mágico. A personagem aparece numa estrada pedindo carona, não consegue. Um ônibus para, ele entra. O ônibus anda em velocidade alucinante, em meio ao pó da estrada. O passageiro descobre que é o único dentro do ônibus. Vai até o motorista e não há motorista. Resolve saltar fora. Caminha. Chega à casa, o cão o reconhece, a mulher o recebe e pergunta: Por onde andou?

A árvore caída também é um retorno, para as festas de fim de ano. Para a casa da infância, numa cidade já agora desconhecida. Caminha por ela, pela praça, só a Igreja lá está, a mesma. Chega em frente a casa, e fica encostado ao poste a olhar o tempo nela marcado.

A bolsa: trata-se de uma ladra que tendo roubado as joias de uma casa, num furto planejado por longo tempo, sai para a rua em tempo chuvoso. Um bêbado dela se aproxima, quer “carona” no guarda-chuva e algo mais. Ela segura a bolsa com medo de ser roubada. O bêbado se aproxima cada vez mais. Ela vai para junto de uma árvore, fecha o guarda-chuva. O bêbado se aproxima: será no tronco da árvore? Ela uso a ponta do guarda-chuva como arma e o mata. Deixa-o ali, segue pela rua deserta, chega à avenida de pouco movimento. Demora, mas consegue um táxi.

Um segundo: trata-se aqui de um suposto vendedor que viaja por inúmeras pequenas cidades do interior, e nelas realiza furtos os mais variados. Segue para a estação, toma ônibus ou trem e segue adiante, para qualquer outra cidade pequena, onde realiza novo furto. Até que consegue uma boa bolada. Retorna de ônibus para a cidade grande (São Paulo?), hospeda-se num hotel, toma banho, faz a barba, come bem, dá gorjetas gordas. Volta para casa, para o reencontro com os filhos e a mulher grávida. Reclama dos negócios, da crise, mas teve sorte e conseguiu bons pedidos e uma comissão graúda…

 

Referência: Cario Porfírio Carneiro. Os dedos e os dados. Campinas : Pontes Editora, 1989.

 

 

 

Culturas orais e língua escrita – Três retratos três por quatro

Culturas orais e língua escrita – Três retratos três por quatro

Resumo: Em sociedades de escolarização ainda insuficiente, quer em sua amplitude, quer em sua história de cultura escrita, circulam e interpenetram-se manifestações culturais variadas. O objetivo deste trabalho é explorar três estudos realizados por diferentes pesquisadores sob o ângulo da relação entre culturas orais e cultura escrita escolarizada: narrativas orais do mito amazônico “Cobra Norato” (Miotello, 1996); uma forma específica de apropriação do alfabeto pelo povo indígena Jarawara (Vêncio, 1996) e vozes e silêncios de meninos de rua (Machado, 2000).

 1. Como se sabe, somente nos fins do Século XV e na primeira metade do século XVI as variedades linguísticas, já escritas e associadas ao poder central dos estados ocidentais constituído ao longo da história pós-esfacelamento do Império Romano, passam a ter suas gramáticas escritas, num estudo que toma as línguas vernaculares – os vulgares – como objeto de descrição, obviamente sob os moldes das gramáticas das línguas clássicas, o grego e o latim.

Paradoxalmente, é no contexto da revitalização das culturas clássicas, incluídas aí a línguas grega e latina, que a valorização das línguas vernaculares inicia. É acompanhando a construção dos estados nacionais que elas vão adquirindo importância e foro de cidadania. Associam-se, pois, a importantes feitos de definição de limites e de sua expansão pelos descobrimentos os esforços de descrição de línguas longamente amadurecidas na história oral e também escrita. Não é por acaso: a corrida para as conquistas colônias e a concorrência entre Espanha e Portugal justifica o investimento. Já na Gramática de Antonio de Nebrija (1492) encontrava-se como justificativa de existência da primeira gramática da língua espanhola – e a primeira de uma língua que não fosse o latim ou o grego – a utilidade da sistematização gramatical para na difusão da língua entre os povos “bárbaros”:

A língua sempre acompanhou a dominação e a seguiu, de tal modo que juntas começaram, juntas crescera, juntas floresceram e, afinal, sua queda foi comum (Nebrija, apud. Gnerre, 1985:13)

Também Fernão de Oliveira menciona na introdução de sua Gramática de 1536 a expansão colonial portuguesa como justificativa de existência. E João de Barros, cuja gramática é de 1539, toma posição semelhante em seu Diálogo em Louvor de nossa Linguagem já que para ele

A língua é[…] um instrumento para a difusão da “doutrina” e dos “costumes”, mas não é somente instrumento de difusão, pois “as armas e padrões portugueses […] materiais são e pode-os o tempo gastar, pero não gastará a doutrina, costumes e a linguagem que os Portugueses nestas terras deixaram”. Quer dizer, a língua será o instrumento para perpetuar a presença portuguesa, também quando a dominação acabe. (Gnerre, op. cit.: 16)

Embora os primeiros gramáticos, tanto espanhóis quanto portugueses, tivessem consciência do significado da aquisição da língua da metrópole pelos novos povos das novas terras, o que de fato aconteceu, especificamente em “terras portuguesas”, não correspondeu à implantação da língua portuguesa entre os nativos. As necessidades de contato e mesmo de exploração, porque sem que haja comunicação é impossível a dominação – e as variadas línguas aqui faladas, muitas delas do mesmo tronco Tupi possibilitaram o surgimento de uma língua de contato, sistematizada especialmente pelos jesuítas, particularmente José de Anchieta em sua Arte da Gramática da língua mais falada na costa do Brasil. Trata-se da língua geral, que prevaleceria entre os moradores da terra – os nativos, os provenientes do continente europeu (colonizadores) ou os escravos provenientes da África.

O predomínio da língua geral pode ser comprovado em inúmeras passagens, entre outras aquela relativamente a sua proibição em instrução emanada do gabinete do Marquês de Pombal, em que se diz que os primeiros conquistadores só cuidaram de aqui estabelecer o que chamamos língua geral, invenção verdadeiramente abominável e diabólica. Citando Daphne C. Carvalho, escreve Magda Soares:

Em meados do século XVII, o padre Antônio Vieira […] afirmava, com relação à população de São Paulo: “as famílias dos portugueses e índios de São Paulo estão tão ligadas hoje humas às outras que as mulheres e os filhos se criam mystica e domesticamente, e a língua que nas ditas famílias se fala he a dos índios, e a portuguesa a vão os meninos aprender à escola. (1996, p. 11)

A expulsão dos jesuítas e as reformas pombalinas no ensino da metrópole e das colônias constituem-se em passos essenciais para o “apagamento” da experiência primeira de constituição de uma língua – ainda que esta língua viesse marcada pelo processo de exclusão daquelas línguas indígenas que não eram “boa língua” – NHEENGATU – disciplinadas pelos jesuítas. Certamente com um olhar contemporâneo, considerando a importância da linguagem na constituição das subjetividades, pode-se aquilatar a importância tanto do empreendimento de construção da língua geral, quanto da magnitude da empresa portuguesa de bani-la da vida cotidiana da colônia. Na segunda metade do Século XVIII, com a proibição do uso da língua geral, com a obrigatoriedade do uso da língua portuguesa no ensino das demais disciplinas e com a expansão do domínio português aparelhando-se paulatinamente o sistema estatal, o português vai-se tornando a língua predominante na Colônia, de modo que a vinda da Família Real nos início do século seguinte vai consolidar a reafirmação da língua portuguesa e a implantação da cultura europeia entre nós.

O projeto é tão bem sucedido que, apenas cem anos depois (em meados do Século XIX) a questão da “língua brasileira” – note-se que a língua geral não é tratada como “língua brasileira” – surge como polêmica, mas o que predominou durante o período foi muito mais um purismo linguístico, com polêmicas constantes sobre como deveria ser a língua. As questões de correção gramatical dominaram mesmo quando os intelectuais debatiam a existência ou não de uma língua brasileira. Ensinava-se gramática e foram numerosas as gramáticas brasileiras que sempre tiveram – e continuam tendo – como objetivo corrigir o português que se fala para aproximá-lo do que supostamente se deveria falar. Citando Houaiss, escreve Magda Soares:

Um traço equívoco da política linguística adotada no Brasil e em Portugal durante um grande lapso de tempo (de 1820 [digamos] a 1920 [digamos] foi um ensino da língua que postulava uma modalidade única do português – com uma gramática única e uma ‘luta’ acirrada contra as variações até de pronúncia. (op. cit. p. 15)

É traço cultural, português e brasileiro, a importância dada aos estudos gramaticais. Note-se, por exemplo, a notícia que nos dá, não sem uma ponta de ‘orgulho’, Jeronymo Soares Barbosa, na Introdução de 1803 a sua Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza (1801):

Portugal conheceu grammaticas portuguezas ainda antes que outras nações civilisadas tivessem uma na sua língua. Quando Ramos em 1572 publicou a primeira grammatica da língua franceza, já Portugal tinha a de Fernão d’Oliveira dada á luz em 1536, e a de João de Barros em 1539. Estas foram seguidas do Methodo Grammatical de Amaro de Roboredo, impresso em Lisboa em 1619, da Grammatica do P. Bento Pereira, em Lyão, no de 1672, da de D. Jeronymo Contador d”Argote, em Lisboa 1721, e finalmente da de Antonio José dos Reis Lobato, em 1771 (Jeronymo Soares Barbosa. Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza, 5ª. ed., 1876, p. XII)

Acompanhemos com alguns poucos exemplos, o quanto é persistente esta nossa preocupação com a correção de linguagem, confirmando no Século XIX o traço apontado por Houaiss de unicidade gramatical e de “luta” contra desvios como uma política do ensino de linguagem.

Nos primeiros anos do Século XX, o jornalista e escritor Paulino de Brito sustentou polêmica com o gramático português Cândido de Figueiredo. O primeiro escreveu crônicas no Jornal da Província do Pará criticando regras de colocação de pronomes expressas nas Lições Práticas (1901) do segundo. As respostas de Cândido de Figueiredo, publicadas no Jornal do Comércio do Rio de Janeiro, foram organizadas na obra O problema da colocação de pronomes (suplemento às Gramáticas Portuguesas), cuja 5ª. edição é de 1928., sob o selo da Livraria Clássica Editora, de A. M. Teixeira & Ca. Filho, Praça dos Restauradores, 17 – Lisboa, com uma introdução de Gonçalves Viana, “Juízo Crítico”, extraído do Diário de Notícias de Lisboa, de 11 de abril de 1909.

Defendia o português a próclise do pronome; Brito defendia a ênclise. O enunciado estopim foi

“Um soneto pediste-me, criança.”

que segundo o português, somente poderia ser, em bom português,

“Um soneto me pediste” ou “Pediste-me um soneto, criança.

Em uma das crônicas, reproduzidas na obra acompanhando-se a discussão com vasto material comprobatório da prática de bons escritores portugueses e brasileiros, poetas e prosadores, escreve

Assegura o Sr. Paulino de Brito que as regras por mim preconizadas “perturbaram profundamente a posse mansa, pacífica e imemorial de colocar os pronomes…” na sua nação; e que pus em debandada os que usavam dos pronomes à maneira dos bons escritores brasileiros, como Gonçalves Dias, etc. Sucede, porém, o contrário, exatamente. […]

Na demonstração desta segunda parte da minha tese, poderia eu recorrer aos primeiros escritores brasileiros do século findo, e citar, por exemplo, Tomás Antônio Gonzaga, que, na sua Marília, usa destas maneiras:

– De que te queixas?

E não: de que queixas-te?

– Mal se move e mal se arrasta.

E não: mal move-se…

– Enceu-se de gosto o peito.

E não: se encheu de gosto o peito.

[…]

Deste primeiro exemplo, escolhido dentre outros possíveis, uma lição a extrair quase cem anos depois: o uso – e neste uso incluam-se escritores de diferentes matizes – consagrou a próclise, cada vez mais comum inclusive no início de enunciados, donde se pode concluir que apesar dos esforços normativos, em matéria de linguagem o que vem a acontecer independe da vontade legisferante de gramáticos e professores.

 

Embora não possamos nos desvestir da história, e portanto de um de nossos traços culturais que dá à “correção linguística” valor elevado, e tampouco possamos retornar a uma oralidade primeira, para sempre perdida (Zumthor, 1987), foi olhar para o uso da língua, especialmente em sua modalidade oral, que nos estudos linguísticos introduziram entre nós, a parti dos dos anos 60 do Século XX. É verdade que, enquanto sujeitos históricos, herdeiros de e pertencentes a uma cultura letrada, não deixamos nunca de reconhecer a existência de uma cultura oral, popular, transmitida de geração a geração. Nem deixamos de reconhecer que, no cotidiano distante dos bancos escolares, gestam-se outros modos de conceber o mundo, outras linguagem e mil formas outras de sobrevier na “cidade das letras” (Rama, 1984).

Mas continua raro olharmos efetivamente para este lugar outro, do mundo da oralidade, para tentarmos extrair dele elementos para a compreensão do mundo letrado. No contexto de uma discussão que toma as línguas como “pontes culturais para o futuro”, num contexto em que nos tornamos cidadãos do mundo e neste somente temos identidade à medida que nos diferenciamos – e a língua é um lugar de inscrição esta diferença – talvez valha a pena olharmos para a dicotomia oralidade e escrita no interior de nossas próprias culturas para apreendermos, com as diferenças locais, estratégias de sobrevivência linguística na avalanche de um mundo que se pretende não só economicamente globalizado, mas também culturalmente uniformizado. Em outras palavras, se as forças econômicas contemporâneas parecem apontar para o mercado único e a cultura se deixa embalar pelo universal em detrimento do local, é a defesa do local, do diferente, que é preciso exaltar. Isto porque as línguas somente serão pontes culturais do futuro se o futuro preservar as diferenças. E as diferenças linguísticas parecem ser essenciais para compreendermos que “não existe certeza além dos grupos” (Glaserfeld, 1996:76).

Neste sentido, vivemos um momento diametralmente oposto àquele dos primórdios da modernidade: enquanto naquela época emergiam as inspirações culturais com diferentes leituras das mesmas fontes clássicas, floresciam os estados nacionais num movimento de aglutinação regional das dispersões iniciadas com a queda do Império Romano e com eles a valorização das línguas vernaculares – cuja existência se deve também às variedades linguísticas de que o latim vulgar é apenas um exemplo; hoje vivemos um movimento de uniformização sob um pensamento suposto único, economicamente mais do que imperial e politicamente exigindo alinhamento a suas convicções e idiossincrasias. Talvez o que de melhor temos a aprende com o passado – mais especificamente com a empreitada de implantação da língua dos descobridores, de que recordamos alguns elementos – é que a perda da língua é também a perda da identidade. Por isso, a importância a ser dada no momento presente ao que é diverso, ao que é diferente, ao que discursivamente circula nos meandros da cultura letrada.

2. Se pouco mais de 100 anos foram suficientes para esquecer uma língua de livre curso e implantar a língua portuguesa como a nossa língua – as mais de 130 línguas indígenas ainda faladas e as línguas das minorias imigrantes, ainda que reconhecidas, não encontram guarida nos processos escolares nem nos procedimentos da administração pública – bem mais tempo do que isso está sendo necessário para elevar o nível de escolaridade do brasileiro, e através dele incluir a escrita como modalidade de circulação de discursos entre nós.

Nos mapas da exclusão social, podemos verificar o lento avanço da melhoria das condições de vida (2). O jornal Folha de S. Paulo elaborou, com o índice de condições de vida (ICV) elaborado com base em dados estatísticos e dados do Programa de Desenvolvimento Humano da ONU (índice de Desenvolvimento Humano), mapas históricos comparativos para três décadas, tomando os municípios brasileiros como referência. Considerando o índice de condições de vida uma medida de 0 a 1, e dividindo os municípios brasileiros nas faixas:

Alto: 0,80 a 1,00

Médio: 0,50 a 0,80

Baixo: 0,30 a o,50

+ Baixo: 0,00 a 0,30

E teremos os seguintes dados em três décadas consecutivas:

 

Número de municípios por faixa

                            ALTO       MÉDIO     BAIXO     + BAIXO

1970                        0            1.336       2.142       473

1980                        5            2.392       1.571         23

1990                     217           3.127       1.147          0

Fonte: Folha de s. Pualo, 26/09/1998

 

No entanto, a visão otimista que estes dados poderiam produzir dilui-se quando tomamos outros elementos, que não consideram como unidades os municípios brasileiros. Na mesma época, considerando os mesmos itens, os miseráveis chegavam em números absolutos à cifra de 25 milhões!

Dados disponíveis de 1996 sobre a escolaridade mostram que 44% dos chefes de família do país têm menos de quatro anos de estudo, e mais de metade desses não tem nenhuma instrução. Outros dados referentes à avaliação da rede escolar mostravam, em 1995, que apenas 1% dos alunos do último ano de estudos pré-universitários, residentes na região Sudeste, a mais rica do país, conseguia ler textos reconhecendo o sentido figura e dominando vocabulário e conceitos complexos. Este índice reduz-se à metade nas regiões Norte e Nordeste.

Ainda que estes dados estatísticos estejam desatualizados, em termos percentuais a mudança dos últimos anos não alterou significativamente a realidade, já que a obtenção de novos escores nestas áreas resulta de um trabalho de longo prazo.  Eles são, no entanto, suficientes para o que se quer defender aqui: a baixa escolaridade do brasileiro faz supor que a cultura letrada tenha baixa circulação entre nós. Isto não quer dizer que a escrita não circule, não só no sentido de que sendo esta uma sociedade letrada, todos os sujeitos têm um certo grau de convívio com a escrita, mas no sentido da circulação de textos de leitura, manuseados especialmente pelas camadas sociais de mais baixa escolaridade(3). Infelizmente, estes textos propõem muito mais uma leitura de reconhecimento de sentidos conhecidos e compartilhados do que uma leitura polissêmica capaz de gerar nos sujeitos leitores outros modos de conceber a vida.

 

  1. Como critica Fernandes (2000 : 10)

Não enxergar as bases sobre as quais os excluídos produzem os seus sentidos, considerados menores, é a maneira mais eficiente de tornar ineficiente toda e qualquer ação de conclamá-los à ascensão a outros patamares de sentido, a outros objetos recobertos de valor socialmente reconhecido. O insucesso do ensino da literatura na escola, bem como de todas as iniciativas de levar a cultura “onde o povo está”, talvez não passe de mimese do dever cumprido, por causa dessa cegueira, pois, no mais das vezes, ignora-se esse lugar, os sujeitos e os sentidos que os constituem.

Para redirecionar minha câmara, buscando focar as falas de outros sujeitos que de diferentes formas constroem astuciosamente suas mil formas de caça (Certeau, 1994), mesmo dentro de uma sociedade que se construiu beneficiando uma minoria e que tem como um de seus traços culturais considerar “erro” toda e qualquer forma de falar ou escrever que não corresponda a suas próprias práticas, retomo três estudos com sujeitos pertencentes a grupos sociais em que predomina a oralidade, cada qual com uma relação muito específica e diferente com a cultura escrita.

3.1. Instigado pelo poema épico de Raul Bopp baseado no mito “Cobra Nonato” (4), documentado por Martius em 1819 e registrado por Câmara Cascudo (1954) em seu Dicionário do Folclore Brasileiro, Miotello (1996) estuda este mito que “não há ribeirinho que não o conte ou não o tenha ouvido de seus pais ou companheiros”.

Confrontando com as aparentemente diferentes versões do mesmo mito, o pesquisador analisa as narrativas do diferentes sujeitos com base em duas perspectivas. De um lado, seguindo Lord (1960), reencontra em cada narrativa os elementos comuns extraídos do “baú de tradições” e destaca nas composições, únicas e irrepetíveis, os investimentos da performance do narrador. De outro lado, tendo presente estas distinções, utilizando-se do conceito de “projeto de dizer” de Bakhtin (1952/53), reencontra em cada narrativa uma diferente orientação discursiva resultante da situação social mais imediata da interlocução e de sua inserção no horizonte social mais amplo tal como o concebe o seu narrador.

Assim, no ribeirinho residente a 190 quilômetros de Porto Velho (Rondônia, estado da Amazônia brasileira), rio Madeira abaixo, margem esquerda, na foz do Jamari, os elementos composicionais remetem à necessária ordem das coisas segundo a natureza, concebida imóvel e disposta a castigar quem a desorganiza; no pescador reencontra o trabalho no rio, tarrafas presas desenganchadas com a ajuda de Cobra Norato, a solidão do meio do rio rodeada por seres encantados; no narrador do mercado, ex-seringueiro urbanizado e evangélico, a composição que orienta a recolha no baú das tradições vem marcada pela ética familiar, religiosa e rígida, que impõe a Cobra Norato os deveres de filho que “permanece com a mãe até a morte”.

3.2.  Vencio (1996), em seu estudo sobre a apropriação da escrita pelos Jarawara, aponta:

Quando pela primeira vez chegamos em Água Branca (1986), vimos uma placa pendurada em uma vara erguida no centro da aldeia com várias letras escritas. Eram letras maiúsculas, algumas de cabeça para baixo, outras ao contrário e aiunda alguns riscos imitando letras. A placa tinha sido feita por um dos rapazes e estava representando o nome do lugar, Fasawa (Água Branca). (Vencio, 1996:35)

Sociedade de tradição oral, certamente a necessidade de identificar por escrito o lugar deriva do convívio inicial com a escrita consequência do contato com a sociedade branca, acentuado pelo “relacionamento comercial” com patrões, os seringalistas e os comerciantes da região que anotam as operações comerciais, registrando principalmente as dívidas da população local (ribeirinhos e povos indígenas).

Foi o contato com o outro, letrado, que levou o povo Jarawara a querer aprender a escrever, a ter escrita. Feita a descrição fonológica da língua e elaborado um material didático inicial em Jarawara, instaurou-se um processo de ensino em que “cada um ensina um”. Presumivelmente, a alfabetização destinava-se a resolver os problemas trazidos pelo contato, mas ao processo de apropriação da técnica da escrita aliou-se também um processo de construção de uma prática social jarawara: o uso da escrita para a produção de cartas, com características muito particulares:

A característica mais marcante da carta Jarawara é o seu caráter público. Em outras palavras, a carta, embora dirigida a uma pessoa em particular, é livremente lida e compartilhada por todos. É fato que existem cartas que circulam secretamente. Porém, a natureza coletiva impressa na circulação de cartas faz com que essas “cartas secretas” sejam cobiçadas por todos e cercadas de cuidados muito particulares dos correspondentes: portadores especiais, pseudônimos. Escrita por indivíduos e lida por todos, a carta Jarawara ao circular no espaço social da comunidade articula desejos pessoais e o do conjunto do povo. (op. cit.: 82)

Conforme a pesquisadora, a rapidez com que o povo assumiu o controle do novo conhecimento transformou o sistema “cada um ensina um” em “muitos ensinam a um”, de modo que “alguns que ainda não sabem pedem a outros para escrever suas cartas mas ninguém se acomoda nesta posição. Cada um , por si mesmo, quer escrever cartas. Por isso continuam estudando até conseguir aprender.”

3.3. Nos cruzamentos das grandes cidades brasileiras, em esquinas de maior movimento de carros, o passante encontra meninos e meninas que oferecem o serviço de “limpar o para-brisa de um carro”, ou vendem qualquer guloseima (balas de goma, ou outro tipo qualquer de doce), ou simplesmente mendigam. Quando a coragem permite e o tempo de passagem do sinal fechado ao sinal verdade ajudam, é possível ouvir mais do que o mero pedido: estes meninos e meninas tentam persuadir os passantes para conseguirem obter o que desejam: algum trocado. Eles têm histórias para contar, têm opiniões a propósito da vida, mas silenciam ou porque não há escuta ou porque a escuta é temida.

Procurando detectar as representações destes meninos e meninas a propósito da família, da polícia, da desigualdade social e da escola, Machado (2000) entrevistou quinze deles, em momentos em que se encontravam em instituições sociais para pernoite ou para atividades dirunas (5). O objetivo do entrevistador era obter falas em que eles discorressem sobre os temas que lhes eram propostos, para nestas falas detectar as representações sociais construídas e compartilhadas por estes sujeitos. O equívoco da pesquisa – que só se tornou óbvio depois do início das entrevistas – era que estes sujeitos tomariam posição e argumentariam a favos de seus pontos de vista a propósito dos assuntos a eles submetidos pela pesquisadora.

No diálogo, forçado, o que se tornou evidente é que os entrevistados podem até contar algumas passagens, responder a algumas perguntas, mas o tempo maior da entrevista acabou sendo a fala da própria pesquisadora que tentava, de todos os modos, obter opiniões e defesa de opiniões dos meninos e meninas de rua. Não é que eles não as tenham, mas o silêncio a que sempre se acostumaram e a desconfiança nas instituições sociais de que ao mesmo tempo foram expulsos e para as quais pretendem as organizações devolvê-los que, nesta pesquisa, não conseguiram ser ultrapassados.

Duas passagens destas entrevistas são significativas:

(1)

– Tá cansada né, tia? Não vamos demorar muito não (pausa). Tem gente rica e gente pobre, não tem?

– Não, a gente toda são po… somo tica, mas só que a gente não tem dinheiro. Não tem dinheiro. E o rico é pobre. Somo tudo… os pobre somo tudo rico.

– Os pobres são todos ricos e os ricos também são pobres?

– É. Mas só que eles têm dinheiro e a gente não tem. (c)

(2)

– Claro, você é um menino, tem opinião, não tem?

– Tenho.

– Isso.

– Mas essa opinião não tá circulando. (A.S.S.)

 

O primeiro exemplo, um indício entre outros, mostra que a informante, pelo replanejamento da fala, oscila entre dois discursos: aquele que lhe ensina o cotidiano, onde “a gente toda é pobre” e aquele de que querem convencê-la as instituições sociais: todos somos “ricos”. No sentido de que todos temos potencialidades, temos valores, temos em nós próprios algo em que vale a pena investir. Trata-se aí de “duas noções” de riqueza. Uma material, outra espiritual. A primeira fica para alguns, a segunda é distribuída equitativamente. São dois discursos (entre)cruzados: aquele da igualdade nas qualidades e potencialidades do ser humano e aquele proveniente da experiência vivida, em que as desigualdades se expõem. Para poder conciliar a ambos, a informante introduz um outro critério de distinção: ter dinheiro/não ter dinheiro. Em consequência, há ricos que têm dinheiro; há ricos que não têm dinheiro.

Por que teria a informante se desviado de seu primeiro caminho, replanejado e introduzido uma noção de igualdade? Porque sendo entrevistada no interior de uma instituição, por um sujeito que não pertencendo ao mesmo grupo social e estado dentro da Casa, vestida como os agentes educativos, com linguagem semelhante, cor igual, etc. somente poderia ser uma das pessoas autorizadas e para elas é preciso dizer o que a instituição ensina. A informante devolve à entrevistadora o discurso de sua classe social.

No segundo exemplo, é o silencia que se impõe a sujeitos sempre silenciados. O informante resume muito bem esta relação social, que dele é constituía “essa opinião não tá circulando”. O que pensam os excluídos não é entregue tão facilmente àqueles que vêm buscar informações.

Desconfiança e silêncio são estratégias de sobrevivência no meio da rua. E para estes sujeitos sociais, se integrados à “sociedade organizada”, no lugar subalterno a eles destinado, o silêncio mais uma vez será a estratégia de sobrevivência. Como afirma a pesquisadora:

Falando de lugares distintos daqueles definidos pelos mecanismos controladores da sociedade para serem ocupados por crianças e adolescentes, os meninos de rua também apontam para significações que não são aquelas desejadas. É por isso mesmo que eles são tidos como sujeitos que nada têm a dizer, especialmente sobre os temas dessa pesquisa. Seguramente, o recorrente silêncio dos entrevistados é consequência deste lugar à margem que lhes destina a sociedade, e paradoxalmente este silêncio indicia o lugar social que estes sujeitos assumiriam se reintegrados à sociedade: aprender a nela viver adaptado é aprender a silenciar. (Machado, 2000 : 24)

  1. Estes três estudos, trazidos para o contexto de nossa história linguística, estão mostrando diferentes características entre as culturas orais e as culturas escritas. Foi longo o processo de constituição de nossa cultura oficial, escrita, letrada e ela se construiu alicerçada no abafamento de uma língua franca e geral. Ao mesmo tempo ela se fixou na modalidade escrita, de modo que apenas cem anos depois, quando escritores discutem “a língua brasileira” discutem, na verdade com certo nacionalismo, diferenças próprias no interior de uma mesma língua. Certamente, hoje, as variedades do português brasileiro e do português europeu estão se distanciando, mas não tenho certeza se podemos reconhecer duas línguas distintas, já que em matéria de língua está afastado o mito da unicidade linguística.

Mais longo ainda foi e está sendo o processo de integração de diferentes grupos sociais à cultura oficial, escrita e letrada. O distanciamento entre oralidade e escrita resulta de diferentes trabalhos discursivos, como tais marcados pelos processos sociais de apropriação das diferentes modalidades da linguagem. A escrita, exigindo aprendizagem formal e transmissão social marcada, sofre um processo de apropriação social por certas camadas da população que nele foram imprimindo seus modos de apreciação do mundo, seus modos de fala, suas palavras – no sentido de logos – de modo que qualquer outra escrita que não se conforme ao discurso proferido pelas camadas que se apropriaram de um artefato coletivamente construído é considerada não escrita, quando na verdade o que se está excluindo são os discursos proferidos e seus sujeitos sociais.

Os três retratos três por quatro aqui apresentados nos revelam diferentes relação entre as culturas de que são amostras. O que os ribeirinhos e seus mitos, o povo Jarawara e suas cartas e os meninos e meninas de rua e seus silêncios têm a ensinar a uma cultura letrada?

Afastemos de imediato que os dados nos ensinem a tolerância: a luta contra o preconceito linguístico, um dos mais arraigados entre nó sporque esquecemos origens e porque nos construímos querendo “dizer certo” (o que é diferente de dizer o certo), é apenas uma faceta de uma luta mais ampla e pesquisas sociolinguísticas já nos mostraram de sobejo que a “correção linguística” deriva de relações de poder e não de condições estritamente gramaticais e linguísticas.

O que de comum gostaria de ressaltar são os aspectos discursivos presentes nas falas dos três grupos: à nossa costumeira rigidez em separar oralidade e escrita, os dados respondem que as culturas veiculados por estas diferentes modalidades se deixam interpenetrar. Assim, o mito Cobra Norato é contado a partir das posições sociais ocupadas por seus “contadores”, deixando-se influenciar ora pelo ambiente natural onde vive isolado o narrador, ora pelo ambiente de trabalho (a pesca), ora é atravessado pelo discurso religioso dos deveres dos filhos para com os pais; os Jarawara ao se apropriarem de um sistema de escrita fizeram deste sistema um uso social muito particular: as cartas endereçadas a indivíduos são compartilhadas pela comunidade; nas entrevistas com os meninos e meninas de rua foi possível detectar, por entre os seus silêncios, o (des)encontro entre dois discursos, aqueles que a vida da rua ensina e aquele proferido pelos agentes sociais que têm tentado trazer para o meio social “organizado” os sujeitos sociais que esta mesma organização marginalizou.

Certamente a convicção hoje generalizada de que a linguagem é uma atividade constitutiva das consciências humanas e a certeza de que os sistemas linguísticos nunca estão prontos e acabados, mas se vão construindo na história, levam a retornarmos à história, mesmo à história da transplantação de uma língua europeia para o novo continente, com um olhar muito mais instruído pela política e pela “seta do tempo” (tal como reintroduzida nos novos paradigmas das ciências da natureza). É conscientes da irreversibilidade da história, nela reconhecermos que bem serviram a seus reis e a seus tempos mais os gramáticos do que os marqueses.

E para não repetirmos o mesmo serviço nos tempos que correm, talvez tenhamos que abandonar um dos traços de nossa cultura letrada – o da escuta preconceituosa das falas de culturas não letradas – para nos reencontrarmos nos discursos proferidos pelas culturas orais, ouvindo as vozes que modificam nossas vozes. Talvez neste intervalo das diferenças, algumas resultantes dos processos cotidianos de exclusões sociais que incluem as exclusões linguística, encontremos os motivos para o reencantamento do mundo, construindo utopias com que nos definir hoje perante o que amanhã será história.

 

Notas

  1. Este texto foi escrito para a minha participação no Congresso Internacional Línguas – Pontes para o futuro, realizado na Universidade do Porto, de 15 a 16 de outubro de 2001, como parte dos eventos do “Ano das Línguas” da União Europeia. O leitor notará que quase todo o item 1, que aqui serve de introdução, é retirado do texto Notas sobre a exclusão da língua geral e a introdução da língua portuguesa, já publicado aqui. Para facilitar e dispensar releituras, todas a parte que é repetição está marcada graficamente. A repetição se justifica em função do público a que o texto se destinava, mas digitalizando o texto agora, percebo que toda a primeira parte é dispensável porque a análise dos “retratos” apresentados não está articulada em profundidade com a história apresentada na primeira parte. O texto foi publicado em Portugal em duas revistas: Palavras 21, Lisboa, Associação de Professores de Português, 2002:49-60. Republicado em Educação, Sociedade & Culturas 18, Porto, Universidade do Porto, 2002:105-121. Com modificações, inclusive do título, inclui-o na coletânea “A aula como acontecimento”.
  2. “O IVC é composto por 22 indicadores básicos que são convertidos em cinco indicadores sintéticos: renda, educação, infância, habitação e longevidade. […] abrange medidas como a renda familiar per capita, percentagem de pessoas com renda insuficiente, concentração de renda, analfabetismo, média de anos de estudos da população, percentagem de crianças que não frequentam a escola e que trabalham, defasagem escolar, percentagem da população vivendo em habitações feitas com materiais duráveis, acesso à água e esgoto, esperança de vida ao nascer e mortalidade infantil, entre outros” (Folha de S. Paulo, Cadernos Especial, “Mapa da Exclusão”, 26 de setembro de 1998).
  3. É necessário estabelecer aqui uma diferença entre a cultura letrada, universitária e a circulação de textos escritos, em produções populares de almanaques, cordel, livros de autoajuda, livros sentimentais. Só o Almanaque Iza, do Laboratório Kraemer, teve uma tiragem de 2.500.000 exemplares em 1999 (Park, 1999 : 18). Em 1983, a Editora Abril vendeu mais de 1.000.000 de exemplares da série Sabrina, uma das séries de romances sentimentais que edita (Fernandes, 2000 : 16).
  4. Uma das práticas culturais de apropriação da cultura oral pela escrita é a transformação de contos, lendas e repentes ou trovas em textos escritos, trabalhados literariamente e, por isso mesmo, transformados em “outra coisa” que não mais a narrativa que se ouve do contador de histórias, o canto que se escuta do cantador ou trovador.
  5. As entrevistas com meninos foram na Casa Dom Timóteo, instituição do Programa Cidade-Mãe que acolhe meninos para pernoite; as entrevistas com as meninas foram realizadas na Casa de Oxum, que acolhe meninas para pernoite mas também para atividades diurnas (oficinas, cursos de artesanato, penteados, leituras, jogos, etc.)

 

Referências bibliográficas

Bakhtin, Mikhail M. (1922). “Gêneros discursivos” in. Estética da criação verbal. São Paulo : Martins fontes (original de arquivo 1952/53).

Certeau, Michel (1994). A invenção do cotidiano – Artes de fazer. Petrópolis : Vozes.

Fernandes, José Genésio (2000) Leitoras de Sabrina: usuárias ou consumidoras? (Um estudo da prática leitora dos romances sentimentais de massa) Tese de doutoramento em Semiótica e Linguística, USP.

Figueiredo, Cândido. Problema da colocação de pronomes (suplemento às gramáticas portuguesas). 5ª, ed, Lisboa : Livraria Clássica Editora, de A. M. Teixeira & Cia. Filho, 1928.

Folha de s. Paulo (1998). “Mapa das exclusões”. Cadernos Especial, 26 de setembro de 1998.

Glaserfeld, Ernst von (1996). “A construção do conhecimento”, in. Dora Fried Schinitman. Novos paradigmas, cultura e subjetividade. Porto Alegre : Artes Médicas.

Gnerre, Maurizzio (1985). Linguagem, escrita, poder. São Paulo : Martins Fontes.

Lord, Abert B. (1978) The singer of tales. New York : Atheneum (original de 1960)

Machado, Rosa Helena B. (2000) Instituições caras nas vozes e silêncios de meninos e  meninas de rua.  Tese de  doutoramento em Linguística, UFAL,

Miotello, Valdemir (1996). Um mito amazônico em narrativas de roda – Repetição e mudança nos processos enunciativos. Dissertação de mestrado em Linguística, Unicamp.

Park, Margareth Brandini (1999). Histórias e leituras de almanaques no Brasil. Campinas : Mercado de Letras : Associação de Leitura do Brasil.

Rama, Angel (1984). A cidade das letras. São Paulo : Brasiliense.

Soares Barbosa (1875) Jenonymo. Grammatica Philosophica da Língua Portuguesa ou Princípios da Gammatica Geral aplicados á nossa linguagem. 5ª. ed, 1876 (primeira edição em 1801 ou 1803)

Soares, Magda (1996) Português: história de uma disciplina curricular. Revista de Educação AEC, vol. 101, out/dez 1996, p. 9-26

Vencio, Elisabeth. (1996) Cartas entre Jarawara: um estudo da apropriação da escrita. Dissertação de mestrado em Linguística, Unicamp.

Zunthor, Paul (1993) A letra e a voz. A literatura medieval. São Paulo : Cia. das Letras (original de 1987).

Escalando o Time – Quer Dizer, As Forças Armadas

Escalando o Time – Quer Dizer, As Forças Armadas

Uma imagem. Vivemos uma civilização da imagem. Do jeito que o mundo TeVe. Mundo refratado na infinitude de imagens. Fragmentos de imagens da política em frangalhos.

Enquanto o presidente eleito, logo após os resultados de segundo turno, muito soberbo e orgulhoso, ia escolhendo, convidando e definindo os seus primeiros e mais poderosos e autoritários aliados no poder – composição e constituição do comitê executivo, rigorosamente e autenticamente de acordo com os interesses dos blocos dominantes do capital nacional e do capital estrangeiro, com ordens e rezas de pastores do bloco evangélico – nas horas vagas de folga, o eleito ia até o alfaiate para tirar medida do terno (fatiota, no linguajar do gaúcho) para a sessão solene de posse de presidente do Brasil. Ia, também, ao cabeleireiro para cortar e ajeitar o topete de fios esticadinhos, retinhos, alisados da frente para trás e para os lados, bem à moda e estilo de militar superior reformado. Andava indisciplinadamente orgulhoso à vontade, sem pudor, vestido de militar em dias de folga: camiseta amarela popular sem grife por fora da bermuda branca e de chinelos nos pés. Numa postura muito perseverante aos seus rebaixados  propósitos, queria impressionar e conquistar a adesão dos aliados (e das multidões de alienados) pela simplicidade no  pentear, no vestir e no andar. Se a simplicidade é autêntica ou não, isso não vem ao caso. O presidente eleito, fiel à disciplina hierárquica quartelesca, permanece sempre serio de rosto sisudo em posição de ataque e defesa. O presidente eleito não é ridente. Continua fiel à disciplina da ordem e obediência. E não faz rir. Aliás, um momento: só ri – sorri – para as câmeras e faz rir só pelos enunciados disparatados e ridículos de assuntos que não conhece e não entende minimamente. Primeiro fala e diz. Depois desdiz. Sem passar vergonha.

Dias depois, o presidente eleito aparecia diante das câmeras de camisa social creme e manga comprida. Um pouco mais jovem, de aparência.

Já nos últimos dias, o presidente eleito aparece em postura mais elegante  e formal, vestido de terno e gravata, anunciando nomes de seus ministros, autenticamente aliados e fiéis às propostas de programa de governo de um autêntico desentendido. Fala de economia sem bases conceituais, estruturais, sociais, científicas…; fala de educação sem educação. Convida um professor de sangue não brasileiro, um encefaloide para ocupar o ministério da educação. Este cidadão geneticamente não brasileiro vai instituir e implantar uma educação alienada ao capital e alienante das brasileiras e dos brasileiros pobres; uma educação fetichizada e fantasmagorizada de neutralidade ideológica pura e imaculada; acima de tudo e acima de todos, vai implantar “a escola sem partidos”, por ordem do quartel e de bispos e pastores evangélicos. Estes, os pastores, entendem tudo tim-tim por tim-tim de arrecadação de dinheiro dos seus fiéis. Sempre em nome do Senhor. E agora, os pastores impõe o ministro da educação.

Ora, senhor presidente eleito e senhor ministro da educação, quem proclama, prega e impõe a neutralidade ideológica confirma o seu lugar na escala da direita mais alta escrotal e conservadora da sociedade de classes sociais. Isso é perversamente ideológico. Os senhores, presidente eleito e ministros, precisam saber  com urgência que ainda não existiu ao longo da história dos homens – e continua não existindo e não irá existir – uma sociedade democrática sem partidos políticos. Os partidos políticos são o cérebro e o sangue da sociedade democrática. E quando contaminados, infestados por germes, corrompidos por células cancerígenas, precisam ser higienizados e medicados com procedimentos científicos precisos e eficazes. E acima de tudo, com uma educação de formação humana.

Lembrem-se, numa sociedade democrática contemporânea, desde uma democracia do seu nível mais baixo e elementar até o seu nível mais elevado e substantivo, os partidos políticos são o elemento vital imprescindível, sem os quais não há e não haverá uma sociedade democrática. Quer dizer, não haverá uma sociedade democrática sem um governo democrático. Na ciência política, nada mais verdadeiro e ético do que o dito e escrito de Antônio Gramsci sobre o partido político: o “Príncipe Moderno”.

Assim, senhor presidente eleito e seus preclaros ministros, a escola é o espaço social pedagógico mais importante e rico para as vidas e as existências dos alunos, desde quando criancinhas, adolescentes, jovens e adultos. A escola é o espaço, o lugar, o tempo mais apropriados e preparados cientificamente para formação dos sujeitos, das pessoas, dos cidadãos na infinitude de suas relações, na alteridade, na amorosidade, no diálogo, na liberdade, com seus sentimentos e inteligências irrigados pela imaginação.

E por fim, senhores, um pedido sincero e autêntico: por gentileza e pela energia dos mais elevados princípios da ética, da liberdade, da justiça, da solidariedade, não queiram implantar e impor  o velho e desastroso princípio pedagógico do “vigiar e punir”. Está mais que provado e comprovado que quanto mais mecanismos – forças armadas, armas, instrumentos materiais e eletrônicos da mais elevada tecnologia, policiais, guardas, vigias, fóruns da justiça superequipados, câmeras nas escolas, nas ruas, nos bancos, etc. etc. – mais criminosos e crimes horríveis acontecem e irão acontecer.

No lugar do princípio pedagógico do “vigiar e punir” precisamos fundar, instituir e vivenciar o princípio pedagógico da “autoresponsabilidade”, a formação da “autoconsciência” desde o berço das crianças até o último instante de vida dos idosos. O cérebro de cada uma e de cada um, de todas e de todos, é a câmera, a luz, a consciência, a inteligência na formação da autoconsciência individual e coletiva.

Ah! por gentileza, não digam que isso não é possível.

Sim, senhor presidente eleito, ministro da justiça, ministro da educação, ministro astronauta da ciência e tecnologia, por gentileza, por autêntica gentileza, não queiram impedir uma educação livre, multíplice, visível, consistente e consciente, uma educação critica de elevada qualidade para todas as crianças, todos os adolescentes e jovens do nosso – de todos –  querido e amado Brasil.