Escrever sem amarras

Escrever sem amarras

Não perdi a vontade de escrever.

Quero, e preciso dizer, enquanto posso que tenho em mim todas as cores do mundo, e por minhas palavras falam pessoas várias. Umas precisam mais do que outras das minhas escrituras, embora nenhuma delas me leia ou sequer saibam da minha existência, e não é por isso que escrevo.

Escrever para registrar que teremos muito para ser desconstruído e construído, porque o caos já está entre nós, e Lula não. Esse texto é sobre o momento que a gente vive.  Poderia ser sobre qualquer assunto, afinal, dada à conjuntura, todos os assuntos convergem para o mesmo.

O assunto não é o medo, poderia, porque vivemos acompanhados deste sentimento que há anos tem sido alimentado: – é preciso ter medo – sussura o fascismo.  O medo geralmente nos imobiliza, eu que lido com crianças já vi muito isso, um grito, um soco na mesa, violência então aterroriza. Quando percebemos já estamos andando cabisbaixos, buscando andar sempre com roupas neutras, com aparência limpinha, “esbranquiçada” até.

Existem homens que não.  Lula é um desses homens.

Não bastou prendê-lo, é preciso calá-lo.   Sem imagens que alimentem nossa esperança.  Apenas a nossa saudade, de ouvi-lo dizendo que venceremos no final porque o amor é maior, porque ele confia no nosso povo. Quero dizer que tenho saudades do Lula. Não do que construíram na mídia, mas do que passeia em meio ao seu povo, que emerge do seio de sua gente, que abraça mulheres e homens demoradamente, do que acolhe crianças, do que sonha um país melhor sem falar de morte, sem pregar o ódio, do que sabe a ordem das coisas pela sua experiência de vida.

Aconteça o que acontecer: tenho saudade do Lula.

Alguém que ousou sonhar jovens negros na universidade, destemidos, empoderados. Afastando o pesadelo de meninas do nordeste, de trajetória certa que seria servidão, como empregadas ou semi-escravas destinadas a servir de todas as formas aos patrões e patrõezinhos.

É sobre saudade, mas é sobre tristeza também, antes digo que só reconhecemos  que ela chegou porque em algum outro momento a gente foi diferente,  talvez feliz seja um adjetivo muito forte, mas quero usá-lo antes que seja tarde demais.  Lembrar que a gente, nossa gente, era um povo diferente que se orgulhava de comemorar, de ser muitos, de rir de si, de ter respeito e tolerância, ser amigo, comer uma carninha com o vizinho que nem torce pro mesmo time que o seu.  E estava tudo certo.

Algumas coisas aconteceram e a gente deixou de ser aquele povo

E esse novo é que me assusta, mas não me calará.  Um novo tão velho que a gente até se esquece de quão triste é esse período que pretendem retomar.  Alguns  esquecem,  outros desconhecem sem empatia pelas dores alheias,  mas eles existiram e eles não deixarão de existir se a gente fingir que não vê.

A tristeza revela-se em lágrimas e choros, muitos amigos começam a se preocupar com o futuro,  não de um jeito que sempre fez: organizar reservinhas de dinheiro, comprar passagens, esperar a restituição do imposto, torcer para entrar uma graninha extra que possibilite uma agradinho para si no final do mês. As preocupações agora são outras, miram na intolerância, no racismo, assassinatos, espancamentos, vandalismos,  atos de violência.

A violência se espalha rapidamente e ganha espaços em ambientes antes hostis a essas práticas, universidades recebem pichações, pessoas sofrem agressões como se dissessem:

– É preciso dar um basta, é hora voltar a ter exclusividade e acessos restritos.

Lembro-me de um filme chamado A Outra História Americana. No filme tem uma passagem em que o protagonista se revela fascista aos olhos do irmão mais novo, ele explica que estava defendendo as condições empregatícias e salariais dos seus iguais (homens brancos). Dada à juventude de seu irmão ele entende aquilo como possível, e faz todo sentido a sua compreensão limitada afinal a crise estava instalada e era preciso assegurar o bem-estar primeiro aos seus, como fazê-lo? Matando ou enviando para seus países ticanos, latinos e negros. Esses grupos extremistas vão avançando e dando um sentimento de grupo, e pertencimento de algo maior oque para quem não tem nada é fascinante. Imaginem: participar de algo grande. Até que o protagonista mata um homem negro, por espancamento.  Um filme que vale a pena ser assistido e recomendado para as pessoas que quer apenas se proteger.

A tristeza é pela cegueira, e pela saudade. Em breve resolveremos as duas coisas, diria uma das minhas vozes que esta presa.

-Pelo povo, por nossa alegria, por nosso jeito, pela vida. Venceremos todos!

UMA HISTÓRIA DE MUITAS: A verdadeira face do desprezo

UMA HISTÓRIA DE MUITAS: A verdadeira face do desprezo

Na semana passada, em meu último texto, toquei em um assunto bastante inquietante: a prisão da advogada Valéria Lúcia dos Santos no exercício de suas atividades profissionais. Retorno ao caso apenas de passagem para ativar os conhecimentos adquiridos previamente, ele será meu álibi contra vocês que me leem. É assim que quero elucidar minhas impressões.

Antes falarei sobre desprezo.

A maioria de nós conhece o desprezo, o que não significa que por conhecer, tendo sido em experiências como autor, vítima ou os dois, que sejamos empáticos aos desprezados, ou mesmo humanamente solidários aos que são assim tratados. Exemplos vários permeiam a nossa literatura, medicina, história, artes, e enfim todos campos de existência, conhecimento e manifestações das pessoas.

Todas as pessoas que leram o texto a qual me refiro, e segundo as estatísticas do site foram muitas, nenhuma se mostrou em choque com o ocorrido. Percebem? Engana-se quem pensa que o choro é livre, nem o Lula é. Esse não é ainda o ponto que falo sobre desprezo, e tampouco hoje será necessário falar sobre a etimologia da palavra em questão.

Nessa semana duas falas de extremado desprezo pela sociedade brasileira circularam os noticiários, e, o pior, oriundas de uma boca que postula ocupar o cargo de líder, ou vice, que em tempos de golpe e autogolpe significam a mesma coisa para a nação. Vamos a elas: Não é preciso de povo, ou de representantes do povo para fazer uma Constituinte – aqui já estaria de bom tamanho, mas acrescentou-se ao despropósito (com propósito) a assertiva de que mulheres pobres, mães e avós, são fornecedoras de mão de obra – ainda infantil, para o tráfico.

Teminaria o texto aqui.

Para frente seriam muitas exclamações, registrando o tamanho do estupefamento. Não é possível. Eis que me rebelo e escreverei ainda, pois nem só de memes o homem, e no meu caso a mulher, viverá.

Verdade que as expressões de desprezo soam até pequenas se pensarmos que a sociedade tem aceitado coisas muito piores: tatuar na testa de uma pessoa que é ladrão e vacilão, que um torturador que se ocupava da cadeira do dragão(https://super.abril.com.br/mundo-estranho/como-era-uma-sessao-de-tortura-na-cadeira-de-dragao/) seja homenageado, que mulheres morram todos os dias vítimas de violência domestica e sexual, que pessoas que fogem à heteronormatividade sejam tomadas por doentes e que devam ser espancadas até a morte, que a juventude negra seja vítima de extermínio em massa, que uma vereadora do Rio de Janeiro seja assassinada e que nada seja investigado de verdade, que um rapaz negro seja preso por portar um detergente, que um menino, Marcos Vinicius, seja morto trajando uniforme enquanto volta da escola, que 10 crianças infratoras morram em poder do estado,  e poderia elencar vários outros fatos aqui.

Tem um caso especifico que desejo destacar: um jovem negro amarrado ao poste. Barbárie. Linchamento. Imperdoável desumanização.  Ouço ainda a voz de uma porta-voz da mídia: – Tá com pena? Leva para casa.

Chego ao ponto que quero da questão.

Muitos serão os responsáveis pela barbárie que se aproxima: Prisões injustas, condenações sem provas, fissuras e rasgos nas Carta Magna, ou Constituição Cidadã. Todos os feitores dessa nova ordem: o caos. Terão seu lugar ao Sol, e podem bater no peito e rufar os tambores e trombetas anunciando o novo tempo. Ainda é cedo para pularem de galho, os mais afoitos temem por suas próprias feridas: PSDB, Sherazade, FHC após inflarem as pessoas menos afeitas as reflexões, invocando a moral e os bons costumes contra o petismo, o socialismo e a ameaça venezuelana, mesclando questões de ordem individuais e liberdade com opiniões e  fanatismos religiosos, e vendendo demônios vermelhos ao prazer dos mercados internacionais do petróleo.

– Feminazis, abortistas, desgraçadas, putas. Ninguém fez nada. Subiram o tom: – Gayzistas, pornográficos, destruidores da família e do casamento, surra e homofobia. Tom ainda mais alto: – terrorista, comunista, vagabunda, estupro nas bombas de gasolina, só não te estupro, porque você não merece. E absurdamente desumano: vagabundos, sem terras, quilombolas preguiçosos, índios não têm que ter terra, chacinas nas tribos e periferias, esses negros tão de mimimi, cotas não! Meritocracia! E não tem limite.

Até que falam de mim, mas esse mim é diferente. Esse mim é bem-nascido, pensava-se. Um mim que vociferava nas câmeras:

– Tá com dozinha? Leva para casa! Direitos humanos é para humanos direitos!

Bastou! A ela garantimos sororidade. Daremos audiência porque a sua dor, e só a sua, importa. Seu constrangimento é significativo, simbólico. E todos nós embarcamos na indignação da mulher branca que se vê criando seu filho e tendo sido criada sozinha pela mãe, sendo chamada de desajustada. O problema não é de interpretação de texto, certamente. Não me pareceu real, afinal, o destino da ofensa tem endereço certo: pobres que moram em lugares carentes. Pobres, como aquele jovem que fora amarrado ao poste. Não você! Não uma pessoa que sequer já foi barrada na porta giratória do banco. Não! Essa fagulha de bom-senso diante da barbárie.

A questão é que os direitos não são para todos. Em breve serão para poucos. Em meio a um ambiente de carência e abandono, em que sequer mães e avós são respeitadas no exercício de suas atividades e na luta cotidiana de constituir e cuidar de uma família monoparental, desamparadas por leis e justiça alicerçadas em regras e condutas patriarcais, realmente as coisas tendem a barbárie.

Cheguei ao ponto, mas não está posto ainda o que quero dizer. É como a lembrança do sangue da carne do churrasco de outrora, cada tempo um ponto e cada corte um sabor novo. Até que não tem mais sangue e o que resta é sabor amargo.

Basta pensar que vivemos o impensável: um mundo de absurdos em que propostas de assassinatos e extermínios se tornam justificáveis pela simplória manutenção dos bens materiais, e votos.

Ao ouvir a barbaridade saída da boca do político que nega a política, militar – que nega a soberania do país, – ficamos perplexos pela falta de sensibilidade. Uns ficarão estarrecidos apenas aparentemente.

A questão não é o anuncio da tragédia, mas o desprezo pela humanidade. Entendem? Sabedores que são da realidade de meninos e meninas moradoras de periferia, sem a presença paterna, criados por mãe e avó trabalhadoras, quantas mães, quantas tias, quantas avós, quantas amigas, quantas jovens e outras tantas poderiam apresentam esse histórico, e de resultado diverso ao esperado, mas é claro que existem vários casos de tragédias recortadas pelas drogas, muitas vezes pela falta de segurança, oportunidade, profissionalização, identidade, investimento em educação integral, saúde, moradia, dignidade e afeto.  Faltas que um político deve conhecer para intervir. É preciso mesmo sensibilidade.

Quando, seu moço

Nasceu meu rebento

Não era o momento

Dele rebentar

Já foi nascendo

Com cara de fome

E eu não tinha nem nome

Prá lhe dar

Como fui levando

Não sei lhe explicar

Fui assim levando

Ele a me levar

E na sua meninice

Ele um dia me disse

Que chegava lá

Olha aí! Olha aí!

Vou invocar na voz de Elza Soares, a canção de Chico Buarque, Meu Guri para falar do desprezo da fala que é dada por incapacidade das pessoas em enxergar aqueles que pouco ou nada tem(ver nesse link https://www.youtube.com/watch?v=K-sepKbQv_k) Aos desavisados podem achar que a letra cantada aborda a marginalização da favela, e suas crianças, majoritariamente pretas e pobres, na mesma perspectiva: pobreza e meio somados são um gatilho para a criminalidade, acrescenta-se a isso uma ausência paterna e pronto: temos os meninos do tráfico! Acalmem-se e não me deixem a sós, tampouco deite fora o texto ainda, o fundo do poço se aproxima.

Essa música é uma obra-prima, apresenta uma realidade chocante de falta de oportunidades, de igualdade, de identidade, tudo isso escorado num muro alto de invisibilidade por parte da sociedade. O artista tem essa capacidade de denunciar em sua arte, questões que são invisíveis são descortinadas, sensível às dores das mães, negras e pobres, invariavelmente: Eu consolo ele, ele me consola, boto ele no colo pra ele me ninar. É tudo que a mãe trabalhadora tem para oferecer, seu colo, seu consolo. As mães, as vós, e os filhos que me circundam vivem o cotidiano de invisibilidade. Ainda assim escolhemos ouvir a dor falsa de uma mãe branca que sequer foi atingida pela fala muito clara, como a sua pele. As outras continuam silenciadas por trajetórias desumanizadas, suas jornadas esticadas, penduradas em ajudas e jeitinhos, em bicos para complementar a renda, toda a luta para alcançar o melhor. Luta que não precisava ser tão solitária, e chega pelas mãos do desprezo da sociedade que vibra com a barbárie anunciada.

Todos vemos. Uns mais que os outros. Nem sempre é desprezo, mas só sabe medir quem sente.

Obscenidades

Obscenidades

-Broxa!

Começo o texto usando a palavra que não se quer ouvir: broxante.

Devo desculpas pelos modos, maus modos, aos leitores que sempre carinhosamente (ou não) recebem meus textos nesse blog. Explico-me, porque pedir desculpas sem explicar é pouco. E ainda, antes afianço ao termo o significado de impotência, escreverei sobre a ABL, e sobre alguns sentimentos de impotência que permeiam nossas vidas, aos que chegarem ao fim do texto podem esperar um episódio quente, não necessariamente, sobre o termo.

Conceição Evaristo levou apenas um voto dos imortais, muito menos que as previsões ruins apontavam, mas diriam alguns que suas desfeitas em não participar das solenidades que eram precursoras da votação, e que indicariam a disposição da autora em participar dos chás da tarde com os pares, teriam sido determinantes: Afinal, ela não teria os modos necessários. E a cor, a cor não! A cor daria até uma robustez e alegria ao ambiente.

Pena a votação ser secreta, não fosse teríamos discursos impolutos e incompreensíveis, aos modos de outra casa, habitada por seres acovardados, diriam uns. Ou poderíamos ter discursos pela família, pela moral, os bons costumes, os sólidos valores que precisam ser preservados. – Não acreditam? Eu sim.

A verdade é que se não fosse assim, teriam pipocado rechaçamentos e desabono a referida votação da Academia Brasileira de Letras. Não houve.  Apenas alguns gatos pingados falaram em seus guetos e terreiros, e passivamente aceitamos que Conceição é maior, é literatura viva que os imortais não merecem conviver.

Permitam-me uma digressão, rapidinha? Pois bem, dizem que a principal arma fascista era a esterilização de um povo, evitando assim que sequer nascessem pessoas que eles odiavam: eugenia ariana. Esse episódio triste da nossa história, digo da humanidade, aponta práticas que não podem ser esquecidas, para que não se cometam esses horrores novamente. E em tempos de parcos e poucos investimentos em museus, que ocasionam em incêndio e perdas irreparáveis (check, Crivella?), penso que o apagamento cultural é uma força das maiores que as ideologias podem lançar mão.

Perdemos muito no incêndio do Museu Nacional. Assim como temos perdido a democracia. E eu preciso dizer, para nós – descendentes do povo africano, a perda é irreparável, tão irreparável quanto ouvir pessoas que, pelo apagamento de nossas culturas, condenam à marginalidade, senão à morte, as formas de profissão de fé, a literatura, a vida, os sentimentos, a dança, a música, as características físicas, e qualquer que seja a produção oriunda de nossas histórias e mãos. Substituem tudo: cultura, história, reparação, representação por uma explicação como a do chá da tarde: ela não queria de verdade. Ainda ouço pessoas falando que era preciso fazer o expurgo do mal, afinal esse povo amaldiçoado, precisava passar por um processo de imolação.

– Não é nossa culpa!

É estranho como meu cérebro estabelece relações entre broxante e a esterilização das pessoas. Seria a idiotização da política a causadora desse mal? Possivelmente. Sei que as duas coisas tem muito pouco em comum. E sobre esse pouco que quero falar.

A sequência de fatos que tem nos acometido: condução coercitiva de um ex-presidente sem nenhuma necessidade, impeachment de uma presidente eleita, vazamentos de áudio anunciando acordo entre os setores que constituem o poder nacional, aprovação de reforma trabalhista que flerta com nova escravidão, entrega de soberania nacional, venda do pré-sal e das petroleiras, assassinato da Marielle Franco, prisão sem provas de um ex-presidente que conta com o apoio popular para ser reconduzido ao posto de presidente, negação de habeas corpus, decisão liminar da ONU garantindo o direito de Lula disputar as eleições e a negativa do STF, e várias outras arbitrariedades.

Relembrar esses fatos, e ver que vários outros que são consequência direta ou indireta destes, como o caso do museu ou da não eleição de Conceição Evaristo, dizem muito sobre uma prática de puxar a corda, até ver quando ela arrebenta, e se arrebenta. Na verdade, a passividade das pessoas, em especial dos mais pobres e lesados por essas práticas, não estão organizadas, não é natural olhar e dizer: – as pessoas vão continuar aceitando, podemos ir mais fundo – e aumenta-se a gradação das maldades e dos infortúnios.

O amor é mesmo um ato revolucionário, aí é que entra a coisa do Lula.

Não é preciso esterilizar as pessoas, para que elas não procriem, e assim sejam extintas, ofertar-lhe uma vida miserável até que elas não queiram mais viver, apenas sobrevivam é possível, mas não se tem o controle preciso do que ocorrerá.

O amor é um ato revolucionário de verdade. Sempre que as pessoas querem justificar barbáries apelam para motivações que nos tiram da razão, exemplo?  – Se seu filho ou filha fosse violentado você mataria fulano? Enfim, produziu em você uma resposta imediata proporcional à pressuposição da violência: – Eu mataria! Por esse motivo, quando as violências vão acontecendo moderadamente vamos sentindo a sensação de impotência, que nos imobiliza até que o limite seja atingido.

Cumprindo as promessas, vou falar de um episódio quente e revelador da nossa história, ele cabe todo em uma frase que poderia ter saído da boca de todo um staff elitista, rico, heteronormativo, pseudo-intelectual e falso moralista, conservador:

– Você provoca em mim os sentimentos mais primitivos

E os limites? Eu não sei. Mas sinto que os ânimos estão aquecendo, e não é bom que se interrompam preliminares, se é que vocês entendem: o limite é o amor, e a resposta é o contrário do medo, da apatia, da tristeza. O Brasil espera ser feliz de novo.

Um atrevimento para Dário.

Um atrevimento para Dário.

Hoje, vamos fingir que estou em uma sala de aula, e todos os meus leitores agora serão alunos, então vamos fazer uma leitura, meus amados: Uma vela para Dário de Dalton Trevisan.

É um conto muito bom para pensar as relações sociais, é claro que podemos fazer várias observações sobre tipologia, foco, clímax, personagens, e assim vamos…Claro, que alguns de vocês sabem, ou até já presenciaram, que realmente acontece essa coisa de roubo de pessoas que morrem em acidentes, ou mesmo assim como Dário: De repente. Mas o que nos incomoda nesse conto, curtinho, não é isso, são como diria minha ídola da música sertaneja, Roberta Miranda: são tantas coisas, só nós sabemos o que envolve o sentimento.

Tudo bem, amigos, voltarei ao que importa, essa obra prima da literatura brasileira que poderia ser apenas lida e trabalhada sem se importar com o que ela movimenta em nós leitores, em nossa humanidade.

Dário, é gordo, tem um infarto, morre, pessoas vão roubando seus pertences um a um, e ao final Dário está só a espera do rabecão. Entre o infarto e a espera solitária se revela a mágica deste texto: a observação dos observadores da saga de morte de Dário. O roubo, o descaso, a incapacidade de se comover, de estender a mão, de buscar em seus documentos socorro ou providências, de pagar-lhe o táxi, de arrastar-lhe até um lugar adequado, de abanar as moscas que tomam a face do homem, de deixar a aliança em sua mão, manter minimamente sob sua cabeça o terno. Ainda assim é preciso registrar que um menino, um menino negro, faz um gesto.

Esse gesto é capaz atravessar nossa descrença, a sensação de que a humanidade e o que importa, ou deveria, que é a vida deve ser preservada, cuidada, enfim. E como gesto é um símbolo: a vela – a luz, o calor, a vigília, a proteção, a mística – é uma fagulha, mas que com os pingos da chuva se apaga, poderia incendiar, mas apaga.

Então temos só a violência, que não é singular, mas plural. Assim, as violências passeiam invisíveis na anuência da sociedade. É claro que nem todos ali roubaram, nem todos pararam para ver Dário, ou mesmo conseguiriam dar socorro. Será?

Leiam o conto, leiam e de novo se emocionem. Confesso a vocês que estou emocionada porque minha intenção é das piores.

Não vamos mais fingir nada.

Prendemos um homem em uma cela porque seria reeleito. Roubamos cotidianamente esse homem, tiramos a companheira, matando-a inclusive, adoecemos esse homem, é preciso dizer: velho.  Todos nós assistimos a saga de morte, violentamente assistimos de nossas janelas/internet  ou TV, somos como os passantes que atropelam Dário, e rapidamente já buscamos Haddad para seu lugar. Não queremos saber de família, de afeto, da vida, de nada. Em momento algum alguém checou se Dário ainda respirava. Não interessava. Era importante que ele não pudesse reagir.

E num gesto como o do menino negro que trás a vela, sete meninos, não meninos, trazem em sua humanidade agigantada uma greve de fome. É um gesto.  Comove-me profundamente porque a literatura me permite saber que apagarão esse gesto. Fome por justiça, 24 dias, parecem anos, logo parecerão uma eternidade.

Em súplica, eu peço: Não vamos deixar que a chuva dos deuses do supremo, com tudo, apaguem as velas.

Amém.

Aflições: educar para a mudança

Aflições: educar para a mudança

Todos os dias eu me descubro mais apaixonada pela educação, e imediatamente penso que a raiz etimológica da palavra paixão é pathos, o que remete a algo patológico, doente, excessivo. Então não. Engraçado que em uma campanha do passado recente, penso que não inadvertidamente um candidato usou o slogan: paixão pela educação. Medo desses meus maus pensamentos.

Certo é que não tenho amor, afinal é um esse sentimento sublime, que não vê defeitos, não escolhe mediante análises, tempo ou conhecimento, ao contrário é voluntário, tudo perdoa. Enfim, vou dizer que gosto, porque me parece mais honesto. Gosto da educação, de ser professora.

Professores me encantam, sempre é um tempo mentiroso, pois muitas vezes ao ler ou presenciar práticas equivocadas tenho impulsos de ódio mesmo, depois passa, rápido até. Não me tornei professora aleatoriamente, escolhi várias vezes trilhar esse caminho de mudança. Já a mudança, e as ideias que advém dessa prática me causam maior alegria.

A capacidade de mudar realidades é algo fascinante: não ler para torna-se leitor, não ser social para convivência coletiva, ceder, organizar, desorganizar, e tantas outras coisas, e não estou falando só de educação escolar, mas dela também. O conhecimento, a o trânsito continuo deste, é algo muito admirável: de repente a gente aprende e aprendendo a gente ensina, e ensinando a gente muda o mundo. – acho que é Paulo Freire isso, mas já introjetei e acredito que é meu, então fica mesmo sendo assim sem dono ou dona que não permita a livre circulação.

Muitos professores gostariam de ser valorizados, engana-se quem pensa que é de salário que parte essa premissa, ou o uso do jaleco tapa giz, ou mesmo respeito por parte dos alunos que entendem que escola é lugar de aprender(com quem muito sabe, risos), quem sabe um presente no aniversário profissional, um lanche bacana na sala de professores e outras perfumarias. Essas coisas são bacanas, mas não atingem o cerne da questão da desvalorização do professor, aliás não deviam atingir, mas tão massacrados que estamos algumas vezes ganham uma dimensão de maiores do que realmente são.

Sempre que converso com professores, e me permito ouvir mais do que falar (casos raros) percebo neles uma vontade de produzir reflexão, ter tempo para descansar e pensar sobre a sua prática, e melhorá-la também, mas como fazer isso diante de tripla ou quadrupla jornada? E mais do que isso, como combater o distanciamento entre prática e teoria? Talvez a desvalorização interesse a alguém, ou a um poder e ordem estabelecidos.

Ninguém vai acreditar mais ouço nesse exato momento em que escrevo uma música de Belchior que diz: “Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria,/ Em nenhuma fantasia, nem no algo mais/ Longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia/ Amar e mudar as coisas me interessa mais/ Amar e mudar as coisas, amar e mudar as coisas me interessa mais”. (Alucinações – Belchior)

É interessante como gosto de ouvir as composições de Belchior, seu sotaque nordestino carregado de sentimento latino-americano sem dinheiro no banco, mas confesso nunca tinha prestado a devida e merecida atenção nesta música que destaquei acima. É claro que digo isso porque sou miseravelmente incapaz de entender tudo o que a genialidade constrói na mesma, mas sinto tanto todas as construções.

Acho mesmo que esse texto é sobre sentir e entender, mas sem tempo que estou não consigo determinar.

Voltada que estou para o fazer docente, me atrevo entre palpites e reflexões a sonhar com um novo modo, muito pouco apaixonado e muito mais militante, cheio de obrigações e provocações que surgem frutos de uma história colonial e de exclusões, que matou, mutilou, calou, torturou e principalmente silenciou. Uma vez ainda ousei dizer de mim. Escolho textos, e reflexões para junto com os alunos aprender sobre a vida, ops! sobre a língua portuguesa. Em sala digo sempre, das minhas dores, da minha ancestralidade não remetendo apenas a questões de ordem religiosa, mas de vida, exemplos, conformações e alegrias. Permito que me toquem com suas perguntas, inquietações, sonhos e coragem, e então me acendo novamente. Faço isso sim, extraio dos meus alunos um pouco de suas energias transformadoras, e eu uma vez incendiada, ensino-lhes a resistir. Paulo Freire nos fala sobre isso de resistência, outros também, Bell Hooks lendo-o, acrescenta que é preciso transgredir para a liberdade.

Comecei o texto falando de como educação é importante para mim, quando na verdade gostaria mesmo de dizer que gosto de mudar as coisas. Uma das coisas que pela tradição dos meus antepassados eu gostaria de mudar é o peso da tradição escrita, em relação à tradição oral, e como discordo disso. Penso que escrever e registrar implica em manter a ordem das coisas: Ensino os alunos a escrever, (olha só a prepotência) e assim eles são inseridos na cultura letrada, o que significa que vão conhecer por meio dos registros escritos, que foram escolhidos para serem transmitidos dentro de uma ordem econômica e social, as regras e a cultura que devem ser mantidas.

É claro que temos registros de textos, literaturas e afins que são contra hegemônicos, que situam-se nas margens, e que trazem um pouco da dimensão da pluralidade social e intelectual, mas dentro das escolas, nas academias, nas mídias e na sociedade de modo geral esse segmento é resistência, exigindo um esforço de subordinação para a insubordinação. Imagino daqui, sem suporte de nenhuma teoria, que todos nós sabemos dizer do que sentimos, e na medida em que praticamos, tornamo-nos melhores nisso.

Já escrever, exige uma série de contratos, códigos e conhecimentos que vão muito além do sentir. Para dizer tudo o que se pensa é preciso adquirir plenamente o conhecimento sobre a língua, e mais do que isso para quem e o que se pensa, e quem pensa a partir de onde se pensa. Horrível isso, não?

Uma das coisas que aprendi é ter pudor.

Uma das coisas que a idade me deu foi pudor, uma outra foi:  fios de cabelo brancos. Prefiro a segunda a primeira, embora ainda não minta que os acho um charme, mas a ideia de que refletem sabedoria me anima sobremaneira. Não confundam, ainda estou falando sobre os cabelos brancos.

Alguns incautos poderiam dizer apressadamente que o pudor também é fruto de sabedoria, nada sabem, tolos. Pudor é aceitação de que a sociedade, e suas regras, pesam em suas ações, e por isso mesmo são mais importantes do que suas vontades, ou qualquer coisa que pudesse te fazer feliz.

Me sinto feliz quando assisto vídeos de declamações de cordéis, batalhas de rap, apresentações de slam de resistência, palestras do TEDx e vejo como ensino meus alunos para a fragilidade, é quando sou mais triste. Toda a tecnologia dotando de muito poder o falar.  Quanta força carrega a oralidade.

A escola não fez de mim uma conservadora, mas ainda assim sei que sou. Lembro episódios da minha vida: certa feita, sentada estava de pernas abertas e saia, foi me avisado que era preciso ter bons modos, pudor. Noutro momento os cabelos alvoraçados precisavam ser domados para a entrevista de emprego: pudor. Um batom vermelho nos grossos lábios seria muito estranho para cantar no coral da igreja, quem sabe um pouco de pudor, hein? Falar alto enquanto muitas mulheres apenas acenam com as cabeças em acordo ou desacordo pode parecer um pouco inadequado. O pudor em si não é uma violência, é uma recomendação para que você seja aceito com bons olhos, o que prefiro ler como submissão, então algumas vezes me submeto, mas muito mais para esticar a corda e ver onde arrebenta.

Lula livre e a minha felicidade clandestina

Lula livre e a minha felicidade clandestina

Sempre gostei muito do que escreve Clarice Lispector. Até aí nada de mais, afinal é uma grande escritora que trata das profundezas humanas de forma elegante e tão simples que muitos desavisados podem até pensar se tratar de autoajuda.  Eu leitora advogo que ajuda, embora antes pertube, provoque e destrua um monte de certezas que existiam.

Um dos meus contos preferidos da escritora chama-se Felicidade Clandestina, que até deu nome a uma coletânea de contos da autora. O texto em questão trata de forma muito perspicaz da maldade humana, isso porque apresenta as lembranças da infância/adolescência da narradora, dotada de reflexões bem maduras e conscientes atribuídas ao tempo presente que é distinto do período narrado.

Bem, a maldade não é algo fascinante, mas perceber como se manifesta e as razões, são aprendizagens mais do que necessárias para a vida. E nesse sentido que retomo o conto de Clarice, para dizer do episódio jurídico envolvendo o descumprimento de uma determinação de um desembargador no último domingo. Para tal quero dizer do poder da literatura, muito mais do que jurídico.

A literatura permite apreciação artística, contudo mais do que a apreciação é importante o reconhecimento dos sentimentos, tipos e comportamentos humanos, talvez por isso mesmo enquanto professora sempre me recusei a usar textos como meros ilustrativos de gêneros, ou pior, recurso didático para aulas de gramática, e aqui não tenho competência para julgar quem assim faça, digo apenas que a literatura para mim, que bebi na fonte do professor Antônio Cândido, tem maior relevância.

Uma das coisas mais determinantes, mas do campo da linguagem é ter o controle da narrativa. Depois voltamos a isso.

Por agora, olhemos as situações que fogem das narrativas próprias do campo jurídico e percebemos que a regulação está na literatura, isso porque entre as funções da literatura está constituir fantasias, observar e formar aspectos culturais, e sociais. E é aí que reside a questão principal do imbróglio da soltura ou não do presidente Lula. Lendo:

“O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.” (Lispector,Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998)

 

Embora as personagens sejam mocinhas, adolescendo por assim dizer, vamos observar no texto que ao tempo em que uma dotada de inocência crédula no sentimento de justiça ou de relativa bondade, do outro lado tem uma jovem que crescendo em meio a livros, mimos, e privilégios escolhe exercer toda sua maldade, sua estupidez, e perversidade sobre o outro.

Até ler esse conto eu não conhecia a expressão tortura chinesa, até porque as torturas brasileiras que eu conhecia eram fruto de um regime ditatorial que não primava por requinte ou inteligência. A literatura tem essas maravilhas, porque sem ela poderíamos pensar que a violência é própria de pessoas com baixa instrução, ou mesmo pouca inteligência, o que não é verdade, e lendo esse conto para jovens, aliás, indicado para leitores em formação pela maioria dos livros didáticos, encontramos uma caracterização muito comum aos personagens deste tipo: quando se sente inalcançáveis pelos olhos dos outros, ou mesmo do poder elas se tornam menos cuidadosas e, porque não dizer: afoitas! Quando isso ocorre, elas se dão a conhecer no seu mais íntimo e secreto perfil.

No conto de Clarice ao final descobre-se que o exercício da tortura cotidiana não teria outra razão do que alimentar a sanha diabólica e obsessiva do opressor sobre o oprimido, e quando a mãe descobre o caráter doentio da filha, essa a reprime e encerra a tortura.

No caso em questão, já foram feitas muitas reprimendas: falta de provas, descoberta de que não existiram reformas, notas fiscais falsas e a incapacidade da operação em julgar ou condenar envolvidos em atos de corrupção de outros partidos, mesmo quando sobram provas. Parece que tudo isso ganha força de uma mãe complacente. Os efeitos colaterais disso é que embora não tenha força para soltar Lula, deu-lhe novo fôlego, e permitiu-lhe ver o pulsar da esperança popular, ademais mostra para as pessoas quão doentes é o lado de quem o quer preso.

E assim mesmo preso, a verdade aparece e Lula assume o controle da narrativa: Agora é impossível não ver que não há imparcialidade. A liberdade é um desejo ainda não alcançado, mas parafraseando a menina do conto:

“Meu peito estava quente, meu coração pensativo.”