Colheu o que semeou

Estou com um nó no estômago. Amargo, borbulhando no peito, na garganta, até no cérebro. Sem cansar e sem parar. E não adianta recorrer aos princípios da racionalidade humana mais elevada já inventada, já ensinada e aprendida no decorrer da história.

Olhei e vi na televisão, dezenas de vezes, a imagem da facada na barriga do Bolsonaro. A cena foi real no palco material da história, sem ensaio e sem encenação teatral. O Bolsonaro vivo, montado a cavalo nas costas de um homem vivo e real, rindo, gritando, acenando para a multidão, ele e a multidão alegres e entusiasmados. Um cenário real de ato político em campanha eleitoral na rua central da cidade de Juiz de Fora/MG. No caso, um político de fora.  De repente, um braço se levanta em meio ao entusiasmo, e com mão firme e precisa crava a faca na barriga do homem nas costas do carregador e entre dezenas de braços e mãos aplaudindo até o presente momento. Num instante, o rosto alegre e ridente vira tragédia: a boca se contrai de dor, os olhos se fecham drasticamente e a vítima grita em desespero. Geme de dor. Fico imaginando a dor do Bolsonaro. E o nojo que os carregadores sentiam com o fedor que exalava do baixo material que vertia das tripas grossas e das tripas finas de Bolsonaro. Este ato não aconteceu num vaso sanitário ou atrás de uma macega. Aconteceu no centro de uma multidão de seres humanos. O gladiador se dizia um escolhido por Deus e que aplicou o golpe a pedido de Deus.

Na arena política, é prática histórica antiga os gladiadores se valerem de armas e estratégias que ferem os princípios éticos e morais. Valem-se de uma linguagem fantasmagorizada, fetichizada para liquidar os seus adversários e cativar os eleitores, principalmente na arena da televisão e nos palanques em cenários de campanhas eleitorais. E aqui está a razão e o sentido do título desta crônica – Colheu o que semeou.

O candidato Bolsonaro, por diversas vezes, declarou, proclamou e ameaçou com entusiasmo e convicção os adversários políticos. Disse que é preciso “metralhar todos bandidos”; prometeu “fuzilar a petralhada”; falou que tem mulher que não merece ser estuprada; manifestou preconceitos raciais e homofóbicos. Mesmo em fotografia na UTI, o Bolsonaro todo enfaixado e com aparelhos ligados no nariz, nas orelhas e na barriga, aparece com os dedos das duas mãos em posição de segurar um fuzil-metralhadora, apontando para frente. Pode?

 

Ou tudo isso – o que Bolsonaro falou e gesticulou – não é crime? Ah! É apenas a liberdade de expressão! É isso, meritíssimo juiz? Tempo todo fui e continuo sendo tentado a pensar que foi mais um golpe, uma estratégia, uma armação. A facada não penetrou na barriga e não furou os intestinos – ninguém viu, e se viu não mostrou, sangue e nem cocô vertendo das tripas de Bolsonaro. Assim, Bolsonaro virou mártir, debitando a culpa às esquerdas, ao PT acima de tudo, já que o agressor foi filiado ao PSOL até 3 anos atrás.

Se fosse usada a arma de fogo – fuzil, metralhadora, bomba… – que Bolsonaro prometeu usar contra a “petralhada”, em vez de faca, ele estaria morto, porque um tiro à queima-roupa teria estraçalhado seu crânio aloprado.

Desse jeito, eu continuo com o nó no estômago e no cérebro. Convencido até a morte de que o crime não compensa. E tudo o que não se faz com amor, se faz na dor.  Disso eu tenho certeza. Aliás, que Bolsonaro não é um mártir, mas um fascista à moda brasileira, eu também tenho certeza.

Por fim, um alerta: na conjuntura política das eleições de 2018, precisamos ficar muito atentos ao espetáculo que está se armando nos bastidores, muito bem lembrado por Eduardo Galeano o humor negro de Buenos Aires, o dístico popular: “o poder é como o violino: pega-se com a esquerda e toca-se com a direita”.  Podemos acrescentar: em benefício da direita.

José Kuiava Contributor
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