E se Dilma não quer voltar à presidência?

A imprensa comprometida com o golpe tem feito circular, a conta-gotas, pequenas insinuações de que a Presidente Dilma não pretende voltar à presidência e que o PT já jogou a toalha, particularmente seus deputados federais que procuram caminhos de aproximação com o governo Michel Temer ao votarem em Rodrigo Maia para a presidência da Câmara. 

Os noticiários também estão carregados de denúncias de toda ordem sobre corrupção. E sempre que se refere ao PT, aparecem nomes de suas lideranças, particularmente do tesoureiro João Vaccari Neto. Quando se refere a outros partidos, raramente aparecem nomes. Hoje apareceu o nome de ACM Neto; Aécio desapareceu das páginas dos jornais. Tudo bem. Penso que o PT e os políticos do PT que se envolveram em maus feitos devem pagar o preço, e pagar um preço alto, afinal eles não só desviaram dinheiro (seja ou não para seus bolsos), eles destruiram o sonho de um Brasil diferente e possível. Este foi seu crime maior, vilipendiar a esperança e destruir em seu nascimento a possibilidade de um país outro. Merecem a execração pública.

Mas do combate à corupção à destituição de uma presidente da República vai uma distância quilométrica. O afastamento de um presidente eleito por maioria de sua população deve ser baseado não em “lastros mínimos” mas em crime de responsabilidade claramente e explicitamente estabelecido. Defender o rigor da lei em ambos os casos é uma questão de coerência! Há aqueles que querem o rigor no combate à corrupção, mas não querem o rigor da lei quando se trata de afastar uma presidente legitimamente eleita.

Se Dilma não quer mais voltar ao Palácio da Alvorada; se não quer mais permanecer na presidência, isto é uma questão de foro íntimo dela. Não quer negociar e cabalar votos no Senado, para não comprometer sua biografia, já não é mais uma questão de foro íntimo, mas um elemento claro de que não quer cometer ilícitos de beneficiamento de alguns numa forma “legal mas ilegítima” de conquistar votos a seu fabvor. Aliás, isso mesmo que os jornalões dizem de que ela não quer macular sua biografia é um argumento forte para mostrar que não houve crime de responsabilidade (como se sabe, crime cometido inclui intenção de realizar o ato criminoso ou no mínimo culpa se não há dolo). 

Mesmo que ela não queira retornar à presidência, merece um julgamento justo. Inocentada, pode e talvez até deva renunciar ao cargo. Isto porque é muito difícil fazer um governo assassinado e enterrado ressuscitar e comandar o país. Mesmo que venha a renunciar logo após o julgamento favorável a si no Senado, é preciso defender o mandato popular, até para garantir aos futuros presidentes – que serão obviamente muito mais comprometidos com o retorno do país ao seu status quo ante, isto é, ao aprofundamento das barreiras sociais e ao aumento do fosso que separa ricos e pobres – tranquilidade na condução de suas políticas ainda que anti-populares.

É por eles que as pessoas foram às ruas neste domingo passado! E a imprensa é tão golpista que não consegue entender que defender Dilma neste processo é defender o futuro da direita no país!!! Tão golpista que escondeu de todos os modos que as manifestações pró impeachment foram um fiasco de público: mostrou os bonecos, mas não mostrou o público presente porque era tão pouco que envergonharia. Ao mesmo tempo sonegou fotos das manifestações contra o impeachment e as tornou simplesmente manifestações contra Temer e não a favor da democracia, que neste momento se chama julgamento jurídico justo de Dilma. Mesmo que ela não queira!!! 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.