INDEPENDÊNCIA OU MORTE

Todo jovem que pretende sua independência real percebe que só a conquistará quando se libertar da tutela financeira de seus pais. Mesmo que um deles seja mais benevolente e generoso e, por baixo dos panos, for passando um dinheirinho aqui, outro acolá, e mesmo que o apartamento de solteiro que ocupa seja da família, ele sabe que mais cedo ou mais tarde precisará ter ares de dono de casa e de dono do seu nariz, sem depender da generosidade paterna ou materna ou da avó ou avô.

Então o jovem sai em busca de renda, venha de onde vier. Poderá arrumar um emprego, trabalhar e receber seu salário. Poderá também fazer “biscates” ganhando um pouco aqui, outro acolá, descolando alguma grana. Sendo empreendedor e encontrando financiador, poderá montar seu próprio trabalho. Mas até aqui estamos falando de trabalho. Ele poderá optar por caminhos menos árduos e entrar para o mundo onde circulam recursos e onde se pode descolar uma grana razoável, ainda que isso signifique ficar de “rabo preso” com os sistemas ilegais de produção, circulação e consumo.

Solução legal ou ilegal, sempre terá que procurar uma fórmula de sobrevivência. Isso tudo quando falamos de quem não nasceu em “berço esplêndido” que pode dispensar-lhe qualquer preocupação. Uma pequena herança de uns 3 milhões rende-lhe-á um jurinho de uns 30 mil reais. Se não comer o capital e se voltar a investir um pouco do que recebe, terá uma vida tranquila até o final. Não precisará aposentadoria: já estará aposentado de saída, livre do trabalho e livre no tempo e espaço.

Em todas estas situações – do trabalho, do empreendedorismo, das atividades ilegais e da herança, trata-se da independência. E nenhum jovem escolhe a morte da submissão à autoridade do passado – pais, avós – tios etc. E tem razão: a submissão é a morte em vida e quem nunca experimentou a independência não sabe que vive morto.

Também os países vivem este dilema entre a independência e a morte, esta na forma da submissão. Mas aquela, a independência não se realiza em abstrato pelo simples fato de suas leis dizerem que é soberano e independente. A independência, como no jovem, precisa de um lastro material: o trabalho de seu povo e sua produção e ainda melhor se há riquezas naturais disponíveis em seu território. Estas riquezas são a garantia do trabalho e produção. E a fórmula de todas as nações desenvolvidas de se manterem independentes.

Note-se, por exemplo, que somente o trabalho e sua produção não tornaram todos os países da Europa “independentes”. Por falta de um lastro de riquezas próprias. Eles dependem do petróleo e do gás que lhes vem de outros países (e pouquíssimos países do continente europeu possui reservas de petróleo: Noruega, Rússia, Ucrânia…). Para sanar esta falta de riquezas próprios em seu solo, os países encontraram outras fórmulas para construir este lastro. No passado, a Inglaterra, por exemplo, foi pirata! Roubo descaradamente. Fez um lastro, e o roubo todo foi parar nos seus bancos (atual pirataria global). A Alemanha fez seu lastro no Deutsche Bank… Explora a Europa toda “concedendo” empréstimos a juros que fazem as “dívidas soberanas” dos países membros da União Europeia se ajoelharem diante do poder financeiro inglês e  alemão. Aliás, falar em “dívida soberana” é de uma ironia atroz!!! Que o digam os gregos, os portugueses, os espanhóis e os franceses!

Escolher a submissão, esta espécie de morte, nenhum jovem faria. E nenhuma nação que se preze percorreria o caminho de seu próprio desastre.

Mas não é assim que pensam o atual governo brasileiro, o Senado e a Câmara Federal. Vergonhosamente os deputados, seguindo os senadores, entregaram nossas riquezas à exploração de grandes petrolíferas, diante das quais nos ajoelharemos no futuro como se ajoelham hoje vários países árabes.

Obviamente, na concessão de campos do pré-sal não passará pela cabeça brilhante de nossos gestores cobrar o custo da pesquisa para encontrar as reservas. Isso foi feito pela Petrobrás e o que se quer, de fato, é quebrar a Petrobrás que, afinal, é uma das maiores exploradoras de petróleo do mundo e dispõe de tecnologia e pessoal para explorar o pré-sal. Em lugar de capitalizar a Petrobrás com o Fundo Soberano cuja manutenção nos custa milhões ao ano pelas diferenças entre juros pagos e juros recebidos, e com isso elevar os lucros do país para enfrentar seus problemas, nossos ilegítimos “líderes” preferem o tráfico simples, o ganha logo e fique de rabo preso! Assuma a morte da submissão e tire do grito do Ipiranga esta parte ignominiosa  “independência”.

Claro que tais concessões ou vendas produzirão, para uns mais decrépitos do que jovens, uma herança razoável que lhes permitirá viver com alegria, porque sua alegria é a tristeza e a miséria do povo de que têm vergonha de pertencerem. Esses de olhos espantados e bicos pequenos que só sorriem quando estão passeando às margens do Sena.

Enfim, com a decisão da Câmara cumprir-se-á o prometido por FHC numa palestra para empresários nacionais e internacionais em Foz do Iguaçu, na época do período eleitoral em que tinham certeza que o olhudo, careca e decrépito José Serra ganharia as eleições contra Dilma Rousseff em sua primeira eleição para a Presidência. Serra perdeu, mas depois articulou o golpe quando Aécio perdeu e hoje sua tese de submissão e morte do lastro que garantiria a independência está aprovada e ele estará com sorrisos largos a negociar vendas e não só vendas, também as devidas e necessárias concessões. 

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.