Lula livre e a minha felicidade clandestina

Sempre gostei muito do que escreve Clarice Lispector. Até aí nada de mais, afinal é uma grande escritora que trata das profundezas humanas de forma elegante e tão simples que muitos desavisados podem até pensar se tratar de autoajuda.  Eu leitora advogo que ajuda, embora antes pertube, provoque e destrua um monte de certezas que existiam.

Um dos meus contos preferidos da escritora chama-se Felicidade Clandestina, que até deu nome a uma coletânea de contos da autora. O texto em questão trata de forma muito perspicaz da maldade humana, isso porque apresenta as lembranças da infância/adolescência da narradora, dotada de reflexões bem maduras e conscientes atribuídas ao tempo presente que é distinto do período narrado.

Bem, a maldade não é algo fascinante, mas perceber como se manifesta e as razões, são aprendizagens mais do que necessárias para a vida. E nesse sentido que retomo o conto de Clarice, para dizer do episódio jurídico envolvendo o descumprimento de uma determinação de um desembargador no último domingo. Para tal quero dizer do poder da literatura, muito mais do que jurídico.

A literatura permite apreciação artística, contudo mais do que a apreciação é importante o reconhecimento dos sentimentos, tipos e comportamentos humanos, talvez por isso mesmo enquanto professora sempre me recusei a usar textos como meros ilustrativos de gêneros, ou pior, recurso didático para aulas de gramática, e aqui não tenho competência para julgar quem assim faça, digo apenas que a literatura para mim, que bebi na fonte do professor Antônio Cândido, tem maior relevância.

Uma das coisas mais determinantes, mas do campo da linguagem é ter o controle da narrativa. Depois voltamos a isso.

Por agora, olhemos as situações que fogem das narrativas próprias do campo jurídico e percebemos que a regulação está na literatura, isso porque entre as funções da literatura está constituir fantasias, observar e formar aspectos culturais, e sociais. E é aí que reside a questão principal do imbróglio da soltura ou não do presidente Lula. Lendo:

“O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.” (Lispector,Clarice. Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro: Rocco, 1998)

 

Embora as personagens sejam mocinhas, adolescendo por assim dizer, vamos observar no texto que ao tempo em que uma dotada de inocência crédula no sentimento de justiça ou de relativa bondade, do outro lado tem uma jovem que crescendo em meio a livros, mimos, e privilégios escolhe exercer toda sua maldade, sua estupidez, e perversidade sobre o outro.

Até ler esse conto eu não conhecia a expressão tortura chinesa, até porque as torturas brasileiras que eu conhecia eram fruto de um regime ditatorial que não primava por requinte ou inteligência. A literatura tem essas maravilhas, porque sem ela poderíamos pensar que a violência é própria de pessoas com baixa instrução, ou mesmo pouca inteligência, o que não é verdade, e lendo esse conto para jovens, aliás, indicado para leitores em formação pela maioria dos livros didáticos, encontramos uma caracterização muito comum aos personagens deste tipo: quando se sente inalcançáveis pelos olhos dos outros, ou mesmo do poder elas se tornam menos cuidadosas e, porque não dizer: afoitas! Quando isso ocorre, elas se dão a conhecer no seu mais íntimo e secreto perfil.

No conto de Clarice ao final descobre-se que o exercício da tortura cotidiana não teria outra razão do que alimentar a sanha diabólica e obsessiva do opressor sobre o oprimido, e quando a mãe descobre o caráter doentio da filha, essa a reprime e encerra a tortura.

No caso em questão, já foram feitas muitas reprimendas: falta de provas, descoberta de que não existiram reformas, notas fiscais falsas e a incapacidade da operação em julgar ou condenar envolvidos em atos de corrupção de outros partidos, mesmo quando sobram provas. Parece que tudo isso ganha força de uma mãe complacente. Os efeitos colaterais disso é que embora não tenha força para soltar Lula, deu-lhe novo fôlego, e permitiu-lhe ver o pulsar da esperança popular, ademais mostra para as pessoas quão doentes é o lado de quem o quer preso.

E assim mesmo preso, a verdade aparece e Lula assume o controle da narrativa: Agora é impossível não ver que não há imparcialidade. A liberdade é um desejo ainda não alcançado, mas parafraseando a menina do conto:

“Meu peito estava quente, meu coração pensativo.”

Professora, militante, escritora
Mara Emília Gomes Gonçalves é formada em Letras pela Universidade Federal de Goiás. Gestora escolar, professora, militante, feminista, negra. Excelente leitora, escritora irregular. Acompanhe-a também em seu blog: LEITURAS POSSÍVEIS.
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