Moro: dever cumprido não mais comprido

As ratazanas menores e as recém nascidas abandonam o governo, agora chegou a vez do partido usurpador de sigla, o PTB, e o recém nascido PSD e logo chegará a vez dos outros, não se preocupem. As conciliações valem enquanto os interesses mesquinhos se tornam saciados, quando correm riscos, então a conciliação se vai. E a romaria ao Palácio Jaburu começou forte, em busca da mesma saciedade. Que Lula aprenda a lição. Ou ainda teremos que amargar a direção do seu partido querer embarcar na “conciliação nacional e no diálogo” assumindo algum cargo para manter umas poucas sinecuras do poder?

No entanto, a principal notícia de ontem e de hoje é o desejo expresso pelo juiz Sérgio Moro, aquele que não persegue nem acoberta: a operação Lava Jato deve se encerrar até dezembro. Isto que é juiz que sabe não encompridar as coisas, depois do dever cumprido. Quando circulou uma lista de ações futuras, pós-impeachment, incluindo entre elas o fim da Lava Jato, os ingênuos apoiadores internéticos do golpe e do fascismo gritaram injúrias a todos que replicaram a tal lista.

E eis que Moro antes mesmo do prazo – ele sempre quer holofotes rápidos, antes dos outros – vem confessar seu desejo imposto: o fim da Lava Jato até dezembro (demorará tanto? ou simplesmente vai ir esfriando até dezembro?). E o mais surpreendente no raciocínio de um juiz é que ele apresenta como argumento para encerrar a operação o “desgaste na opinião pública”. Um juiz que confessa seguir seus procedimentos segundo a “opinião pública” e não segundo a lei, já não é mais juiz, mas político. Embora ele reconheça que sempre pode haver desdobramentos, qualquer imbecil sabe que os desdobramentos podem ficar dobrados, arquivados (como se arquiva qualquer denúncia contra políticos de certo partido). As dobras não precisam ser desdobradas, podem ficar no seu escuro, depois de cumprida a missão. Moro realmente é um juiz obediente à lei.

No mundo real, os agentes de qualquer natureza desdobram o que desdobrável segundo seus interesses imediatos, redobram o já dobrado para manter no escuro outros enlaces. Moro sabe a lição de cor e salteado: está preparado para se tornar o presidente de todos nós, para garantir os desdobramentos desejáveis e redobrar os indesejáveis.

Poderia o país ter mais vergonha na cara? Afinal, todos queremos investigações havendo indícios de desvios. Por que surge agora a pressa em encerrar a operação, face a um possível desgaste na “opinião pública”? Ora, senhor juiz, o senhor tem todo nosso apoio. Continue desdobrando, continue investigando, continue obtendo delações pós prisões preventivas demoradas, continue nosso líder! O senhor tem todo o apoio da opinião pública, somente a opinião publicada, com os novos patrões, poderá mudar seu rumo, mas não a opinião pública que o senhor levantou, que levou para as ruas sua indignação, continua com o senhor. Não permita que essa indignação arrefeça! Seja juiz e justo, investiggue a fundo, mas só políticos bruxos, vermelhos e seus associados, embora estes já tenham deixado o governo, farão parte do novo governo, o da Norma Constitucional e por isso deverão merecer de sua meretíssima um tratamento mais condigno a partir de agora. Vá em frente, juiz Moro. A massa cheirosa inteira o apoia e quer ver o país higienizado, lavado, limpo, com barba bem escanhoada, usando todos o azul e amarelo de nossa bandeira. Todos seguros, já que o leme estará seguro nas mãos próprias do poder do Brasil fixo, da estirpe do bem posto. E então a senzala recrudescerá, reconhecerá seu lugar e viveremos felizes para sempre, nos próximos 500 anos.     

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.