O ontem e o amanhã.

Ontem. Esse texto fala sobre ontem, mas na verdade fala sobre o amanhã.

Em vários momentos durante a nossa vida, nos perguntamos tal qual a música O que será do amanhã, esse nome desse nosso sentimento de infinitude somos ansiosos, e sem resposta certa vamos construindo com nossas ações, com nossas orações, com nossas dores, lutas, amores, quedas, prisões e, enfim, novas manhãs.

Meu filho quando fala de todo passado se refere ao ontem, não anteontem, mês passado, ano passado, sempre: ontem! E isso me deu um novo horizonte, essa perspectiva infantil me orientou que se todo o passado cabe no ontem, todo o futuro também se refere ao amanhã.

E realmente tudo cabe nessa loucura do ontem: erros e acertos. Não cabe a esperança, porque é dela presente e o futuro, não cabe no passado, só como lembrança.  Esperança é uma coisa muito maravilhosa.

E como num passe de mágica, levei meus filhos para um ato de cidadania. Era preciso nos vestir de metáfora, ou quem sabe nos despir, e fazer o amanhã para de novo ter esperança.

Um exército vermelho escorrendo lentamente, em marcha de pulso, pelas vias sendo o sangue de todo um povo: quilombolas, indígenas, negros, brancos, pardos, ruivos, MST, MTST, trabalhadores, organizados ou não, excluídos ou não, violentados, oprimidos, mortos, doentes, famintos, adultos, velhos, jovens e crianças. Percebam que mesmo dizendo todo um povo, acrescentei um, para oferecer sempre espaço para o contraditório. Tem muita gente que não é esse povo. Tem ainda quem é sem saber. Não importa.

O que quero dizer é do encontro da esperança com o ontem.

Não do registro, ou do papel, esses pertencem à esfera da legalidade, podem ser contestados, anulados, ou mesmo validados. Não é sobre isso.

Quero dizer das alegrias nos rostos, das palavras e gestos de carinho que acolhiam todos que chegavam, da partilha de água e comida, do zelo e carinho com as crianças, das emoções em que pessoas se abraçavam ao concretizar o registro da candidatura de Lula.

Estava lá, não para registrar no amanhã o feito, e nem sabia ao certo o porquê, mas sentia que era preciso ir, estar lá, entoar aqueles cantigos preces, ver mulheres e homens caminhando lado a lado, como deve ser para fazer o amanhã.  É tarefa urgente.

Engraçado isso de como a poesia faz morada em nós: era minha prece particular, em transe já sentia a manhã tão forte nascendo no ontem, lembrava da poesia do João Cabral de Melo Neto, verdade que lembro sempre dessa poesia dele:

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo
para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão. 

Amanhã, era uma construção coletiva para viver de novo a esperança. E ela se entregou ali, na multidão, em que coisas pequenas se faziam infinitamente menores, em que sonhos se faziam enormes.

Não era registro, era metamorfose, feito a poesia, feito colcha de retalhos, feito sonho de criança:

Esperança! Lula livre!

Professora, militante, escritora
Mara Emília Gomes Gonçalves é formada em Letras pela Universidade Federal de Goiás. Gestora escolar, professora, militante, feminista, negra. Excelente leitora, escritora irregular. Acompanhe-a também em seu blog: LEITURAS POSSÍVEIS.
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