POBRES UNIVERSIDADES, POBRES

A primeira ordem: “é proibido falar de partidos políticos e ensinar política em escolas públicas”. Formação de consciência política nas escolas e universidades, jamais! Nem pensar na formação crítica de jovens em classes escolares e universitárias.

A segunda ordem: “caça aos reitores das universidades federais”. Estas duas ordens geniais são as grandes metas do governo puro, inocente e anticorrupto do Brasil de hoje para garantir a educação pura, inocente e de qualidade para os pobres. O presidente golpista Temer esnoba um excedente de orgulho jamais visto nas telas de televisão.

Pessoalmente, jamais imaginei que um dia eu teria o desprazer, a dor, a amargura de me defrontar com medidas e determinações políticas de sentido ideológico pré-mediavalesco como as medidas impostas à nação brasileira no momento atual. Sou professor de escolas públicas e  universidade estadual desde o ano de 1970. Nos tempos da ditadura civil-militar – era rigorosamente proibido falar mal do golpe e combater o regime – havia as disciplinas de “Educação Moral e Cívica” (no Ensino de 1º e 2º graus) e OSPB – Organização Social e Política do Brasil ou Estudos de Problemas Brasileiros (no ensino universitário). Nestas disciplinas ensinava-se a moral, a ética e a organização e formação política dos adolescentes e dos jovens nas escolas públicas. Formação orientada pela perspectiva da ditadura, mas como sempre tendo contrapontos de professores nas quatro paredes da sala de aula. Hoje, 40 anos depois e superado o regime ditatorial pelo regime democrático – embora uma democracia precária, corrupta e corrompida – são proibidas a educação e formação política nas escolas públicas. Pasmem! É inacreditável.

Para entender estas medidas hediondas é preciso examinar a questão na raiz da história – a sociedade de classes sociais – para entender os benefícios invertidos na educação brasileira. As crianças, os adolescentes e os jovens das famílias mais ricas estudam, desde as creches, jardins de infância, ensino fundamental, ensino médio e pré-vestibular, em escolas e colégios particulares, com mensalidades elevadíssimas, mas com ensino de boa qualidade, via de regra. Já as crianças das classes pobres, da periferia, das favelas, da zona rural estudam em escolas públicas – sem mensalidades – em condições precárias, insuficientes, com educação e ensino de baixa e má qualidade. Aí acontece a inversão no ensino superior. Os jovens ricos passam nos vestibulares das universidades públicas de boa qualidade – nos cursos “nobres” –  e não pagam mensalidades. Enquanto os jovens pobres ingressam no mercado de trabalho de dia e de noite estudam nas universidades e faculdades particulares, pagando mensalidades elevadíssimas. Alguns passam nas universidades públicas no período noturno nos cursos considerados “não nobres”.

Porém, tivemos políticas, no Brasil mais recente, que alteraram esse processo para melhor. Os governos Lula e Dilma criaram e instalaram dezenas de universidades federais, com campus e cursos pelo Brasil inteiro e criaram e implantaram as políticas de “cotas” – vagas garantidas para indígenas e afrodescendentes – e as vagas do ENEM. Assim, milhões de jovens pobres estão estudando nas Universidades Federais. Este fato vem assustando as elites brasileiras. A caça aos reitores é uma estratégia ideológica, um truque, uma trapaça junto à opinião pública que o governo usa e abusa para sucatear as universidades federais e estaduais, reduzindo em muito os seus orçamentos. Assim, policiais agem de maneira truculenta a mando de ordens judiciais e prendem reitores sem provas e sequer indícios de corrupção. Este é o argumento e a justificativa para privatizar as universidades federais e estaduais.

Agora, o que me incomoda, e muito, é a quietude, o silêncio das universidades. Onde estão os dirigentes, os professores, os estudantes e os servidores das universidades? O silêncio e a passividade são atitudes, atos de concordância. Ou melhor, atos irresponsivos.

                                                                         Cascavel, 12 de dezembro de 2017.

José Kuiava Contributor
Professor, pesquisador, escritor
José Kuiava é Doutor em Educação pela Faculdade de Educação da Unicamp (2012). Atualmente é professor efetivo- professor sênior da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Planejamento e Avaliação Educacional, atuando principalmente nos seguintes temas: autobiografias.inventário da produção acadêmica., corporeidade. ética e estética, seriedade, linguagem, literatura e ciências e riso.