Sexta-feira ou A vida selvagem, de Michel Tournier

Mais uma vez Michel Tournier retorna ao clássico Robinson Crusoé de Daniel Dufoe (primeira publicação em 1719). No alentado Sexta-feira ou os limbos do Pacífico (Difel, 1985), Tournier refaz a história do náufrago e de sua relação com o índio Sexta-feira, praticamente analisando as formas como Robinson manteve sua “civilização” mesmo estando solitário da Ilha Speranza e nela assume diferentes papeis, de general, de governador, de chefe de tudo. A esta vida “civilizada”, Sexta-feira, chegado depois, teve que se submeter.

O que caracteriza o romance é a reflexão que vai fazendo Robinson sobre a necessidade do Outro para se manter civilizado. Por isso escreve leis, por isso escreve sempre em seu Log-book. Ler esta primeira visita de Tournier a Defoe é fazer, ao mesmo tempo, um estudo sobre o homem e sua relação com o Outro. Não por acaso, a edição (brasileira) vem acompanhada de um posfácio assinado por Gilles Deleuze, com o título Michel Tournier e o Mundo sem Outrem.

Em seus dois livros, Tournier não dá o mesmo final que Defoe deu a Robinson. Neste, ele retorna a sua Inglaterra depois de quase trinta anos vivendo no meio do Pacífico. Ao contrário, a Tournier encanta a vida selvagem, este eterno retorno ao “bom selvagem”, ao “paraíso perdido”, a que inicialmente Robinson se opõe:

A vida seguia o seu curso, mas Robinson sentia cada vez mais a necessidade de organizar melhor seu tempo. Ele continuava sentido medo de ser atraído novamente pelo chiqueiro e de se tornar um animal. É muito difícil continuar sendo um homem quando não há ninguém por perto para ajudar! Contra essa má tendência ele não conhecia outro remédio além do trabalho, da disciplina e da exploração de todos os recursos da ilha. 

Estão aí as três palavras mágicas da civilização: trabalho, disciplina e exploração da natureza. Neste “Sexta-feira ou a vida selvagem”, há um jogo entre o mundo civilizado conhecido por Robinson e o mundo selvagem de seu companheiro na ilha. Frequentemente há disjunções, mas na primeira parte do romance, quem impõe o seu mundo ao outro é Robinson. Praticamente um trabalho que poderia ser de um servo pago pelo “amo”:

… ele estava contente por ter encontrado enfim alguém que pudesse por a trabalhar e a quem podia ensinar tudo da civilização. Sexta-feira sabia agora que tudo que seu senhor ordenava era bom e que tudo que proibia era ruim. Era ruim comer mais do que a porção prevista por Robinson. Era ruim fumar o cachimbo, passear nu e esconder-se para dormir quando há trabalho a ser feito. Sexta-feira aprendera a ser soldado quando seu senhor era general, coroinha quando ele fazia suas preces, pedreiro quando ele construía, carregador quando ele viajava, batedor quando ele estava caçando, e também sabia agitar o espanta-mosquito acima de sua cabeça quando ele dormia.

Robinson tinha outra razão para estar contente. Agora ele sabia o que fazer com o ouro e as moedas que tinha salvo do naufrágio do Virgínia. Ele pagava Sexta-feira. Meia libra esterlina de outro por mês. Com esse dinheiro, Sexta-feira comprava comida a mais, pequenos objetos de uso corrente provenientes também do Virgínia ou, simplesmente, meio dia de repouso – era proibido comprar um dia inteiro. Ele tinha preparado para si mesmo uma rede entre duas árvores, onde passava todo o seu tempo livre.

Robinson havia salvo do Virgínia toneladas de pólvora que guardava na grande gruta. Sexta-feira, que às escondidas fumava seu cachimbo, certa vez, com medo de ser surpreendido, joga longe o cachimbo, e provoca uma grande explosão na ilha. Com ela, foi-se tudo o que de “civilizado” havia sido construído. A partir de então, inverte-se a relação: “… toda a obra que ele realizara na ilha, as plantações, os animais de criação, as construções, todas as provisões que ele acumulara na gruta, tudo aquilo tinha se perdido por culpa de Sexta-feira. Entretanto ele não estava com raiva. A verdade é que, há muito tempo, ele estava cheio de toda aquela organização entediante e maçante, embora não tivesse coragem de destruí-la. Agora eles estavam livres. Robinson se perguntava com curiosidade o que ia acontecer e compreendia que, de agora em diante, Sexta-feira é que daria as cartas do jogo”.

E então começa realmente a “vida selvagem”, livre da vontade de acumulação e exploração (da natureza e do parceiro). E Robinson, observando Sexta-feira, começa a aprender a viver o cotidiano, em jogos, brincadeiras, caça e pesca, sem preocupações com acumulação e o dia seguinte.

O episódio dos papagaios é muito interessante. Cada palavra que diziam os agora companheiros, os papagaios repetiram, de modo que a vida se tornou uma balbúrdia por excesso de fala. “Nós falamos demais. Nem sempre é bom falar. Nós, araucanos, em nossa tribo, achamos que, quanto mais se é sábio, menos se fala.” Sexta-feira engenha então um sistema de sinais, de modo a não falarem mais e não ecoarem suas palavras nas vozes dos papagaios.

Quando no horizonte aparece o Whitebird e, portanto, a possibilidade de resgate, a ilha é invadida pelos marinheiros em busca de água e víveres. Um deles encontra uma das moedas de ouro trazidas do Virgínia e começa então a civilizada caça ao tesouro. E à custa da natureza, porque eles põem fogo na campina de modo a não deixar escapar nenhuma moeda que disputam a socos.

Robinson e Sexta-feira são convidados ao barco, para um jantar com o comandante. Já de entrada se deparam com uma cena típica do mundo “civilizado”: “Ele tinha dado alguns passos na ponte do navio, quando distinguiu uma pequena forma humana seminua, amarrado ao pé do mastro do traquete. Era um menino que devia ter uns doze anos. Ele era magro como um passarinho despenado, e suas costas estavam listradas de marcas que sangravam.” Era Jean Neljapaev, o grumete que foi solto para servir o jantar…

Enquanto isso, Sexta-feira estava encantado com a embarcação: nunca vira algo tão bonito. Divertia-se. Quando Robinson comunica ao capitão que não iria com eles, Sexta-feira toma um barco, à noite, e volta para o navio feliz com a nova vida de civilizado, sem saber que, na verdade, havendo o tráfico negreiro e a escravatura, seu destino era o trabalho árduo em qualquer fazenda do sul dos Estados Unidos…

Quando Robinson não encontra seu parceiro e verifica que as duas canoas (uma lhes fora dada pelo Whitebird) estão na praia, fica imaginando que Sexta-feira tenha fugido para o navio a nado. Engano seu: encontra Jean, que fugira do navio no barco com que Sexta-feira havia feito o trajeto para a “civilização”. Agora, na “vida selvagem”, estariam lado a lado, o adulto Robinson e o menino livre.

Este jogo com o enredo de Defoe, explorado por Tournier, recoloca o sonho de retorno ao paraíso perdido… e ao mesmo tempo a sedução enganosa das coisas da civilização que encantam e levam Sexta-feira à incivilidade da estrutura social dos começos do capitalismo, em que duas escravidões orientam a vida de todos: aquela dos explorados no trabalho e que constituem “os escravos”, pessoas-objeto da sanha da segunda escravidão, aquela dos homens que se pensam livres, mas que vivem com um único objetivo: a acumulação.

Este retorno de Tournier a Defoe, tanto aqui em Sexta-feira ou a vida selvagem quanto em Sexta-feira e os limbos do Pacífico, não é sem propósito: a paráfrase que modifica o enredo é também uma crítica social profunda ao sistema capitalista de acumulação.

 

Referência: Tournier, Michel. Sexta-feira ou a vida selvagem. Rio de Janeiro : Bertrand Brasil. 2001.

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