TEXTOS SOBRE TEXTOS. MANHÃ SUMERSA

Virgílio Ferreira (191-1996), autor português muito premiado (Prêmio Camões em 1992 pelo conjunto da obra), em Manhã Submersa (Lisboa : Quetzal, 2008 – 27ª. edição da obra) coloca em cena um narrador, António dos Santos Lopes – António Borralho -, que em primeira pessoa relatara sua experiência de estudos num seminário, a partir dos 12 anos.

Filho de família pobre, órfão de pai, António terá como benfeitora a carola Dona Estefânia, ex-patroa de sua mãe, que o destina ao sacerdócio independentemente da sua vontade ou de uma suposta vocação para tal.

A narrativa inicia já da primeira partida para o seminário, vestido em fato preto, o que lhe granjeia imediatamente o pejorativo “padreca” dentro do trem! Sua salvação vai acontecendo à medida que o trem avança e que outros seminaristas entram para o mesmo vagão e se reúnem como grupo. O grande número de “padrecas” silencia os “leigos” passageiros, que passam a rir dos candidatos a padre, mas não mais os debocham em voz alta.

A descrição desta primeira viagem (e as que lhe sucederão ao longo dos três anos em que permanece seminarista) é extraordinariamente cinematográfica. Aliás, o livro foi transposto a filme por Lauro António (1980). Aliam-se ao longo do trajeto as reflexões de António Borralho e as conversas com um seminarista já experiente, Gama, que se tornará seu grande amigo nos tempos de formação.

Sem vocação, António Borralho vai-se fazendo postulante ao sacerdócio à medida que a pedagogia seminarística vai inculcando em sua alma duas grandes perspectivas – o chamado de Deus para representá-lo na terra, o que é ao mesmo tempo um privilégio e uma ameaça porque constantemente se afirma que “muitos são os chamados e poucos são os escolhidos” e concomitantemente uma distinção entre o mundo fechado do seminário (e dos eleitos) e o mundo externo, o mundo do pecado e dos perigos para a salvação eterna.

De um seminarista que pretendia voltar para casa imediatamente para o seminarista exemplar, com excelentes notas acadêmicas e também de conduta, foi um passo que se construiu por interferência dos muito vigilantes padres formadores, do padre espiritual, dos confessores e de todo o sistema pedagógico que circunda os pobres infelizes que caem em sua rede.

Estes são recrutados principalmente entre crianças e adolescentes filhos de trabalhadores rurais sem eira nem beira. Neste ambiente, ser padre é uma ascensão social com que sonha toda a mãe fervorosa e católica. Quer ver seu filho livre das agruras a que toda sua família, por gerações e gerações, vem sendo submetida.

A ida para o seminário é um escape em duplo sentido: do destino de trabalhador braçal sem futuro e do mundo do pecado em que circulam os vícios e as tentações, particularmente aquelas representadas pela mulher, já que a formação seminarística é misógina ao extremo.

Acompanhar os dramas do seminarista António Borralho, seu convívio com os colegas amigos, perceber as absurdas divisões que estabelece o internato, em que estando um numa divisão e outro em outra divisão, não se podem falar (mesmo que sejam irmãos). Neste mundinho de estudos clássicos e de vigilância eterna, nosso narrador entra na puberdade e suas exigências. Todas consagradas como tentações, e não como necessidades. São risíveis os conselhos: dormir sem colocar a mão sob os lençóis e cobertores; não olhar para o próprio corpo, imaginar toda mulher como víbora.

Se no interior da clausura, a vigilância dos padres consegue protelar necessidades, há os períodos de férias que poderiam funcionar como válvulas para todo seminarista. No entanto, as férias sempre esperadas da primeira vez tornam-se um martírio: retirado de seu convívio próprio, o seminarista em férias é visto como alguém estranho, distante, “estudado”. É ao mesmo tempo motivo de piada e achincalhes e de uma admiração mais ou menos invejosa, não por sua vocação da viver sem mulher, mas pela “boa vida” que leva em relação àquela daqueles que permaneceram no borralho.

As peripécias no interior do seminário vão sendo narradas. As revoltas dos seminaristas, tornados “vocacionados à força” pelas circunstâncias de vida e pela pedagogia interna, com seus muitos momentos de meditação, sermões, discursos, não deixaram de aparecer. O episódio mais radical desta revolta é do seminarista que tenta pôr fogo no próprio seminário para assim dele se ver livre, e com ele se verem livres seus amigos que tanto querem abandonar o seminário mas não encontram quer apoio familiar quer forças para um retorno a seu destino de homens do mundo.

Balançando entre uma vocação que lhe foi impingida e o desejo de sair do seminário, António Borralho vive seus três anos de seminário. Foi uma epidemia que atacou inúmeros estudantes, levando à morte seu melhor amigo (Gaudêncio) o deflagrador final para a saída do seminário.

Este é o enredo resumido da história. Mas o que vale a pena na leitura são as reflexões do jovem seminarista, a existência posta a exame. Os dramas internos próprios destas situações fazem do leitor um companheiro da alma do narrador. É por este aspecto que o romance merece a leitura.

Certamente este romance de Virgílio Ferreira contou com a experiência de vida do próprio autor que viveu dentro de um seminário por seis anos! Dentre os muitos chamados, não foi escolhido para o “privilégio” de viver um sacerdócio supostamente de abnegações. 

Ler esta obra de Virgílio Ferreira me recordou outro romance, este de Carlos Heitor Cony, Informação ao Crucificado, em que a personagem é também um seminarista que abandona o seminário, e que ao mesmo tempo em que se vê livre das inúmeras injunções da pedagogia seminarística, também se descobre ateu e a informação ao crucificado é de que Deus não existe! A dúvida desta existência aparece em Virgílio Ferreira apenas como relâmpago num diálogo entre o narrador e um de seus amigos. Mas é esta dúvida, no fundo, que persiste e insiste quando a “lavagem cerebral” é realizada por uma pedagogia de fala sem escuta.

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.