TEXTOS SOBRE TEXTOS: PORRA

João Ximenes Braga, jornalista carioca nascido em 1970, não é somente autor de novelas (Lado a Lado; Babilônia). Escreveu três romances (Porra, 2005; Juízo, 2005; A mulher que transou com o cavalo e outras histórias, 2009).

Porra foi seu primeiro romance. O cenário é a zona sul do Rio de Janeiro. E o deslocamento das personagens, noturnos, são os espaços de danceterias eletrônicas e festas rave, anos 1990.

A estrutura do romance chama atenção. Três personagens são apresentados nos três primeiros capítulos: Caco, um arquiteto que saiu do armário acorda numa quinta-feira à trade sem saber o que tinha feito durante a noite; André, um pitboy de corpo malhado aparece fazendo exercícios na academia e a cada set de uma série de exercícios dia zua palavra-chave para tudo: porra!; Felix aparece na quinta à noite, em seu trabalho de venda de drogas numa danceteria.

Já nestes três capítulos o leitor começa a entender quem são os que descontentes consigo mesmo será os atores do drama que João Ximenes vai tramando. Um gay, um pitboy e um traficante, cada qual com seus “problemas de consciência”, cada qual querendo outra vida, mas vivendo a vida como quem não quer outra coisa, apesar das crises de consciência.

Caco se descobre um gay violento que na noite anterior a seu aparecimento havia batido pesado no parceiro circunstancial; André sempre às voltas para conseguir o respeito dos demais membros da gangue, invejando Marcão que tinha mais músculos e mais beleza; Felix era o típico pequeno entregador a serviço do tráfico. Conhecia as pessoas, vivia no mesmo meio e vendia, querendo sempre arrumar um dinheiro para “abandonar ewsta vida”.

Cada capítulo vai acrescentando para o leitor um aspecto particular da vida de cada personagem. E a trama que os reúne tem a ver com suas desajeitadas e desajustadas atividades, numa coincidência temporal bem manobrada pelo narrador, que deixa em cada capítulo falarem suas personagens sem praticamente interferir enquanto narrador onisciente.

Felix recebe de sue fornecedor uma “carga” de Special K para revender. Pensa ter encontrado aí sua “salvação”. Tudo corre bem, vende por preço superior ao combinado, está juntando dinheiro quando um dos usuários começa a ter um K hole, isto é, um estado a que chega o consumidor com a sensação de estar fora do próprio corpo. Felix se apavora e foge do lugar para não cair nas mãos dos “meganhas”, pois acha que Leco, a vítima, tinha morrido.

Enquanto isso, André também querendo um extra, combinara com Marcão e outro membro do grupo pitboy um assalto em garagem de um prédio, roubando CD players. Foram flagrados por uma moradora que chegava tarde. Marcão ataca a mulher, estupra-a e passa a vez para André que não consegue ter ereção para transar, mas faz que transa para não parecer inferior ao amigo. Depois Marcão mata a mulher e ambos fogem, recuperados pelo terceiro assaltante que os esperava no carro.

Nestas situações de desespero e precisando dinheiro para “desaparecerem por um tempo”, ambos – Felix e André – recorrem a Caco! André porque era seu sobrinho; Felix porque lembrou que tinha vendido uma boa quantidade de ecstasy ao arquiteto – com o qual trocara alguns beijos – e, portanto, o imaginava capaz de lhe dar algum dinheiro.

É no espaço temporal que vai da emergência do problema de cada um dos dois até o desfecho do texto que a trama atinge maior densidade. Felix teme a prisão; André teme ser brocha porque não conseguiu participar do estupro; Caco se percebe absolutamente incapaz de sentimentos e encara a fuga e o tempo na casa da amiga como uma aventura.

André não quer ser incluído na classe de bandidos, até porque “não hesitaria em roubar CD players de carros para levantar algum dinheiro extra. Mas bandido ele não era, ainda que acreditasse nisso por ter uma definição muito particular par aa palavra: bandido, para André, era preto e favelado. O tipo de gente para quem ele defenderia a pena de morte ou umas boas porradas”.

Felix não quer ser preso como traficante, porque quer abandonar esta vida embora cada vez mais nela vá se afundando.

Caco bola o plano de fuga para Mauá, para a casa de uma amiga! É por lá que se chega ao ápice da trama que envolve as três personagens.

O livro é cinematográfico; rápido; de leitura direta. O leitor é enredado por esta rapidez narrativa, pela linguagem de cada uma das personagens e pelas reflexões que vão produzindo ao mesmo tempo em que agem. Uma leitura interessante sobre um mundo que não nos pertence, mas que está aí, existente e não oculto. A gente sabe dele por ouvir dizer; Mas há os que o constroem cotidianamente, à noite!

Como este mundo e sua linguagem não é o mundo pelo qual circulam os leitores de João Ximenes, ele traz um glossário para se compreender o que dizem seus personagens. A presença do glossário mostra a imagem de leitor que o autor pretende: aquele que não conhece o mundo das noites de gays e de drogas que não frequenta. Se conhece, o glossário ainda assim seria dispensável? Penso que não.             

João Wanderley Geraldi é reconhecido pesquisador da linguística brasileira e formou gerações de professores em nosso país. Há já alguns anos iniciou esta carreira de cronista-blogueiro e foi juntando mais leitores e colaboradores. O nome de seu blog vem de sua obra mais importante, Portos de Passagem, um verdadeiro marco em nossa Educação, ao lado de O texto na sala de aula, A aula como acontecimento, entre outros. Como pesquisador, é um dos mais reconhecidos intérpretes e divulgadores da Obra de Mikhail Bakhtin no Brasil, tendo publicado inúmeros livros e artigos sobre a teoria do autor russo.